Mesmo Que Não Venha Mais Ninguém
16 Apenas o vazio
Notas iniciais
Ao contrário do que achou que aconteceria, Artie conseguiu dormir, e não teve nenhum pesadelo lhe causando aflição em seu sono. Achou que teria os sonhos invadidos pelo horror dos rostos sorridentes dos seus amigos sendo substituídos por rostos inexpressivos de um cadáver. Mas não houve nada, apenas o vazio. Um vazio que também se encontrava presente em seu peito, ocupando um buraco que crescia e crescia e ele não sabia o que fazer para parar aquilo.
Ele não havia chorado, nem gritado, nem quebrado coisas em seu quarto, nem nada. Só ficara sentado no sofá, vazio, como um paciente que acabara sofrer uma lobotomia — talvez fosse o que realmente tivesse acontecido, talvez ele estivesse tão quebrado que não era mais capaz de sentir ou pensar. Então alguém perguntou se ele estava bem — quem diabos fica "bem" depois de saber que seus amigos estão mortos? — E ele só respondeu que precisava de um tempo sozinho. Ignorou Andrew chamando seu nome e pediu para ele ir embora. Quando foi tomar banho percebeu que a água estava fria, sua mãe devia ter desligando o aquecedor para impedi-lo de se queimar na água quente, garota esperta. Porém, ela esqueceu da lâmina de barbear dele no armário do banheiro, então ele encontrou uma forma de se punir.
Após acordar do seu sono vazio, olhou para o relógio e viu que eram quatro da manhã. Tentou dormir de novo, mas seu pulso estava doendo e sua barriga reclamava de fome. Um velho poema de um livro antigo que tinha lido agora atacava seus pensamentos. “Quando a morte vem chegando, parece que as pessoas ficam em paz. Param de lutar contra ela e se entregam com uma docilidade quase incompreensível”. Será que isso era verdade? Será que Lynn havia estado em paz nos últimos momentos dela? Será que ela se entregou de grado? Ou será que chorou desesperadamente? De repente aquela frase “viva intensamente, morra jovem” lhe causava ânsia de vomito, e ele queria esmurrar todos os imbecis que diziam isso com um sorriso imbecil.
Decidiu descer para comer e tomar um analgésico. Usava apenas uma camiseta do Patolino bem grande e um short de pijama preto, o curativo mal feito em seu pulso deixava sua pele ainda mais pálida. Caminhou a passos lentos, para não acordar a mãe — as lembranças de quando ela acordava no meio da noite a qualquer barulho com medo de ele ter feito algo contra si mesmo ainda eram fortes. Fez um sanduíche de queijo e foi até a sala, ligou a tevê e quando se virou encontrou uma forma ocupando o sofá. O susto o fez derrubar o prato no chão. Era Andrew.
— O que você está fazendo aqui? Por que não foi embora?
— Eu não podia simplesmente ir e. Oh, meu Deus. Artie, o que você fez?
Andrew levantou em um pulo e começou a ir em sua direção. Artie percebeu que ele se referia ao esparadrapo em seu pulso e se esquivou dele. Não queria ver a piedade nos olhos dele, não conseguiria suportar.
— Por favor, vá embora — as lágrimas que ele havia poupado durante toda a noite escolheram justo aquele momento para caírem.
— Artie, o que você fez?
A tristeza misturada com desespero na voz dele foi como mastigar cacos de vidro, e foi difícil engolir o soluço que se formou na sua garganta.
— Por favor, apenas vá embora. Eu não quero que você me veja assim.
— Não! Eu não vou embora! Eu vou ajudar você, eu não sei como, mas eu vou.
Artie riu secamente.
— Estou muito além da ajuda agora.
— Não diga isso. Você não está.
— Você não tem sua própria dor para sentir? Sabe, seu melhor amigo provavelmente está deitado em uma mesa fria de metal tendo o peito aberto por um médico.
Andrew fez uma cara magoada. Bingo, conseguira atingir uma ferida. Não sentiu orgulho daquilo, mas afastá-lo era melhor.
— Acho que te ver assim dói muito mais.
— Então vá embora! — Gritou. — Assim não precisará me olhar.
— Não, eu preciso ajudar você. Por favor.
Artie balançou a cabeça e foi se sentar no sofá. Suas pernas e mãos tremiam e ele suava gelado. Olhou para Andrew pela primeira vez e tentou soar o mais calmo possível quando falou:
— Acredite em mim, eu tenho remédios que vão deixar minha mente tão confusa que mal me lembrarei do que aconteceu. Eu só preciso de um espaço agora, para sentir a minha dor. Só assim ela vai passar, e então depois eu procuro você.
Andrew se ajoelhou na sua frente e pegou suas mãos.
— Mas... quanto tempo isso vai levar?
— Eu não sei. Eu sinceramente não sei. Você pode achar outra pessoa para passar o tempo até lá.
— O quê? Não! Eu não quero e nem vou achar outra pessoa. E eu não só passo meu tempo com você. Eu te... Artie, eu gosto muito de você Artie. E eu só queria que você acreditasse em mim.
E ele acreditava, sinceramente acreditava. Mas não podia se apegar naquele sentimento agora.
—Por favor, vá.
— Tudo bem, eu vou.
Andrew se aproximou e deu-lhe um beijo rápido, Artie sentiu o resquício de um sabor de uísque na boca dele. Depois ele se afastou e saiu lentamente. O barulho da porta da frente se fechando foi como uma garra arrancando suas costelas à força, uma de cada vez, e ele não sabia mais como respirar. Mas era melhor assim.
— Você foi injusto com ele.
Ai, não, agora não.
Artie ergueu a cabeça e encontrou sua mãe de camisola parada na entrada da sala.
— Você não sabe do que está falando.
— Por que não contou que estava namorando?
— Talvez por eu não estar namorando.
— Você tem andado muito distante ultimamente, não me conta nada, mal conversa comigo. Você sabe que só somos só nós dois agora.
Ela realmente achava que era uma boa hora para falar sobre aquilo?
— Só eu? Só eu tenho escondido coisas? E quem era aquele homem? E quem era aquela pessoa te ligando aquele dia? E por que se tornou um hábito eu chegar em casa e te achar desmaiada de bêbada no sofá?
Sua mãe suspirou e veio se sentar ao seu lado no sofá. Se ela viu o curativo em seu pulso não demonstrou.
— Aquele é o Robert. Eu e ele estamos namorando.
Artie já desconfiava que era alguma coisa assim. E sentia até um alívio que sua mãe achara outra pessoa para preencher a vida dela, ainda mais agora que a ideia de fuga lhe parecia ainda mais atraente. E a ideia de seu pai se revirando de raiva no túmulo por sua mãe estar transando com outro homem o fazia querer gargalhar. Mas então fez uma cara de nojo por ter conseguido colocar as palavras "mãe” e "transando” na mesma frase.
— E aquele telefonema — continuou ela — foi na época que eu parei de sair com ele depois que descobri que ele era casado. Mas ele já se divorciou! — Completou depois que Artie fez uma expressão de horror. — E está tudo bem com você? Sobre isso.
— Está, de verdade. Por que demorou para me contar?
— Ah, você sabe. Fiquei com medo da sua reação. E você, por que não me contou sobre Andrew?
— Bem, não havia muita coisa para contar mesmo, nós só estamos ficando a pouco tempo.
— E você gosta dele?
Artie suspirou e ficou surpreso com as sensações que aquela simples pergunta lhe causou. Talvez no fim das contas ele ainda fosse capaz de sentir alguma coisa. Talvez devesse se apegar àquele sentimento. Mas será justo com Andrew? Usá-lo como válvula de escape?
— Eu acho que o amo.
Sentiu sua mãe ficar mais ereta ao seu lado.
— Ama? Isso é uma coisa muito séria.
— Eu sei. E acredite, isso me assusta pra caramba.
— Mas se você o ama porque o mandou embora?
— Você ouviu a discussão, eu não quero que ele me veja assim.
Sua mãe o abraçou e, pela primeira vez em anos, ele não a afastou.
— Você não pode simplesmente afastá-lo por medo. E ele também deve estar sofrendo, tanto quanto você, e também não precisa de ajuda.
— Olha para mim, mãe. Realmente acha que estou em condições de ajudar alguém?
— Artie, quando você estava na clínica, eu também estava sofrendo pela morte do seu pai. E eu não tenho a esperança de que um dia você entenda, mas eu o amava e sofri com a morte dele. E eu precisei ser forte para ajudar você. Talvez ajudar Andrew o fortaleça também.
Artie voltou a chorar, e apoiou a cabeça no ombro da mãe. Chorou pelos amigos mortos. Chorou pelo amor que Lynn sentia por Nora e que tinha desaparecido. Chorou por ter sido injusto com a mãe por tantos anos. Chorou pelo amor que sentia por Andrew. Chorou por tudo o que a vida era, e por tudo o que ela jamais poderia ser.
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