Notas iniciais
Heu folks, aqui estou novamente. Poxa, essa fic é quase indie de tão escondida que deve estar nas categorias, mas tudo bem, estou até surpreso com o número de visualizações que ela atingiu. Bem, eu só queria avisar que terminei de escrever a história (

Trace não se sentia confortável naquele vestido, ele era minúsculo, com a barra terminando acima do joelho e com uma abertura de renda nas costas. Sua magreza exagerada ficava evidente demais nele. Mas era a única peça preta do seu guarda-roupa que era adequada para enterros. Trazia um guarda-chuva debaixo do braço, porque sempre chovia em funerais.

Ela não conhecera a menina que seria velada naquela tarde, mal sabia o nome dela na verdade, só estava ali pelo Artie. A garota era a melhor amiga dele. Não falara com ele desde que Kate ligara para ela contando o que acontecera, todas as vezes que telefonava para a casa dele ele estava dormindo, provavelmente graças ao aumento das doses dos remédios. Aquilo era tão triste e tão injusto, logo quando ele estava melhorando a ponto de em breve poder interromper o uso da medicação e aquilo acontecia.

As lembranças de ela e Artie na clínica lhe confortavam enquanto caminhava sob o céu cinza. Como quando sentados na sala onde os funcionários da limpeza guardavam os seus instrumentos de trabalho, no qual os dois ficavam brincando sobre quem tinha a vida pior, ela contava de como sempre inventava mil doenças para justificar para a família sua "rotina" de vomitar depois de todas as refeições e Artie contava sobre como era ter que viver trancado no quarto o dia todo para evitar encontrar o pai pela casa. Era aqueles momentos que lhe mostravam o quanto Artie era incrível e o quanto ele a tinha ajudado, e que era vez de ela ajudá-lo. Trace não havia melhorado no mesmo nível que o dele, ainda tinha uma recusa em se alimentar devidamente, mas pelo menos não provocava vômitos mais. E isso ela devia a ele, no modo como todas as manhãs ele a mandava calar a boca quando Trace começava a reclamar que estava parecendo uma baleia e depois dizia o quanto ela estava linda.

Quando chegou no cemitério encontrou um número grande de pessoas ao redor do caixão, havia mais jovens do que velhos, provavelmente colegas de escola, aquela devia ter sido popular. Ao contrário de Trace, se ela morresse, um único carro seria o bastante para levar as pessoas ao seu funeral.

O grande número das pessoas era bom, pois assim ela poderia ficar invisível no meio delas. Procurou Artie no meio da multidão, mas não o encontrou. Continuou andando até se deparar com um garoto em uma cadeira de rodas se escondendo atrás de uma árvore, suas duas pernas e o braço esquerdo estavam engessados e seu rosto tinham hematomas roxos, mesmo assim ele continuava bonito. Trace de repente se lembrou de Kate contando que um garoto havia sobrevivido ao acidente. Ele parecia meio perdido, com uma tristeza manchando os belos traços do rosto dele. Sem saber exatamente o porquê, trace viu-se indo na direção dele.

— Ei, você por acaso viu Artie por aí?

Ele levantou o pescoço e franziu a testa, como se estivesse surpreso por alguém estar falando com ele.

— Hum, não, eu não vi — a voz dele saiu tão baixa que Trace quase não entendeu.

— Ah, que pena. Eu vim aqui só para ver ele.

Ela deu a volta e parou ao lado da cadeira dele e se escorou na árvore.

— O que? Mas... não teria sido mais prático visitá-lo em casa.

— Não, você não me entendeu. Vim para dar um apoio a ele, aquela garota era amiga dele. E eu...

— O nome dela é Lynn — interrompeu ele, com a voz mais fria que a brisa.

— Desculpa. Sou péssima para lembrar o nome das pessoas.

— Você não conhecia ela?

— Não pessoalmente, mas Artie vivia falando sobre ela quando estava na clínica.

— Clínica?

Ah, que droga.

— E eu sei que ele deve estar um caco, por isso eu vim, para confortá-lo — falou ela, fingindo não ter ouvido a pergunta dele.

Trace compreendia o motivo de Artie não ter contato aos amigos que ficara internado durante meses em uma clínica psiquiátrica. Ela mesma não contava para ninguém, sua família e seus velhos amigos achavam que ela estava na França estudando em um colégio interno. O motivo não era a vergonha, era a vontade de não ser tratada diferente, não queria se tornar uma coitadinha.

— Sinceramente eu acho que ele não vai aparecer, ele não foi a nenhum dos outros funerais.

— Eu achei que velariam todos juntos.

— A família deles nem se conheciam, acho que já deve ter sido uma luta para concordarem em fazer os funerais em dias diferentes para que todos os amigos deles conseguissem ir em todos.

Trace notou que ele olhou para baixo quando pronunciou a palavra "família”, e o motivo disso logo se implantou na mente dela. Não era difícil imaginar o porquê. Para a família daqueles adolescentes mortos, aquele garoto sentado na cadeira de rodas não era mais uma pessoa, ele era uma lembrança, a lembrança de que o filho deles estava morto e ele não. Todas as vezes que o vissem, pelo resto das suas vidas, sentiriam um ódio gratuito contra ele simplesmente por ele estar vivo.

— Eu não sei... nem imagino como deve ser difícil para você vir aqui e sentir nas costas o peso de ser o único que sobreviveu.

Ele deu uma risada seca.

— Peso? Você é a única pessoa que não virou para mim e disse: "Stanley, você deve ser sentir grato por ter ganhado uma segunda chance".

Stanley. Ela conhecia esse nome, era o garoto por quem Artie tivera uma queda tempos atrás. Olhando bem para ele Trace conseguiu entender porque o amigo tinha se sentido atraído.

Trace revirou os olhos para si mesma e se forçou a prestar atenção na conversa.

— Segunda chance? Não entendo o uso dessa palavra, chance para fazer o quê?

— É exatamente o que fico me perguntando.

Trace suspirou e voltou a olhar para onde o funeral acontecia. Seus olhos passeavam pelas figuras de preto até pousarem em alguém vestindo uma camiseta laranja. Artie. Ele estava apoiado em uma árvore, usando com grandes fones de ouvidos, ele também parecia estar se escondendo. O primeiro pensamento de Trace foi ir até ele e abraça-lo, mas suas pernas não saíram do lugar. Olhou para Stanley novamente e soube que o que ela realmente queria era ficar ali mais um pouco conversando com ele.

— Você realmente deve se sentir feliz por estar vivo, mas isso não quer dizer que não possa se sentir triste pelos seus amigos.

— Felicidade e tristeza são sentimentos são muito opostos, não acho que seja possível eu sentir os dois ao mesmo tempo.

— Você pode sim, acontece o tempo todo tempo comigo.

Quando o Artie recebeu alta da clínica Trace ficou feliz por ele estar bem a ponto de poder voltar para casa, mas ao mesmo tempo sentiu tristeza ao saber que voltaria a ficar sozinha naquele lugar. Realmente eram emoções contratantes, mas não há nada tão complicado como o coração humano, tentar entendê-lo era perda de tempo.

— Eu não sei — disse Stanley. — É o tipo de coisa que parece fácil falar, mas fazer é difícil.

— Mais difícil ainda é afirmar suas incertezas e dores para si mesmo, você está vivenciado o agora com uma venda nos olhos, só depois vai tirá-la e enxergar o que aconteceu. Talvez a gente encontra e você diga como está.

Stanley riu.

— Ah, eu estava achando que você era só uma ilusão causada pelos efeitos dos remédios, estou tomando tanto deles que nem preciso mais me chapar para afogar as mágoas.

— Mesmo? Eu estou me sentindo bem real agora.

— E para falar a verdade não sei se minha mente seria capaz de criar uma ilusão tão bonita.

Trace riu e desviou o rosto para esconder o rubor, bem a tempo de ver Artie caminhar em sua direção com um sorriso forçado no rosto. Ela abriu os braços e esperou até ele se aninhar entre eles. Ficaram naquela posição por um tempo, até que Artie se afastou e limpo uma lágrima que caía de seu rosto.

— Eu não sabia que você viria — disse ele.

— Sua mãe me ligou para me contar e eu achei que seria legal aparecer por aqui... você está bem?

Artie negou com a cabeça e seu rosto se fechou quando seus olhos caíram sobre Stanley.

— Stanley?

— Oi Artie — respondeu Stanley, com um sorrisinho meio sem graça.

— Ah, eu também não esperava encontrar você aqui.

— Ninguém esperava, por isso estou me escondendo. Não vim por essas pessoas, vim pela Lynn, então aonde seja que ela estiver, ela vai me ver independente se eu estar perto do caixão ou não.

— Eu sei, e estou feliz por você ter vindo... eu quis ir te visitar no hospital, mas... só hoje eu consegui sair de casa.

Stanley seu um sorriso compreensivo.

— Eu entendo. Bem, acho que já vou indo, já está acabando e não quero que os pais da Lynn me vejam quando passarem por aqui.

Ele acenou com a cabeça e começou a manobrar a cadeira de rodas para a estradinha de pedras.

— Você precisa de ajuda? — perguntou Trace.

— Não, eu consigo sozinho. Tchau pessoal.

Trace e Artie acenaram com a mão e esperaram exatos cinco segundos até soltarem um suspiro triste sincronizado.

— Ele é uma graça, não é? — Perguntou Artie.

— Sim — concordou Trace. — E então, como você está?

Artie tirou seu sobretudo preto, atirou-o na grama e sentou-se em cima dele.

— Melhor, eu acho. Acho que aceitei tudo o que aconteceu, ainda estou triste, mas acho que ficar chorando no quarto para sempre não vai mudar nada.

— Ou você está mentindo, ou existe outro motivo que está te deixando com essa cara.

Artie revirou os olhos.

— Eu simplesmente odeio quando você vem com essa coisa sensitiva, lê minha mente e me desvenda.

— Responda.

— Andrew. Ele é o motivo. Eu não o vi desde que o expulsei de casa, e agora ele está ali, e nem veio falar comigo. Talvez ele tenha desistido de mim.

— Você o mandou ficar longe?

— Mandei.

— Então ele só está obedecendo, esperando você ir até lá. Aposto que se você for até lá falar com ele, vai encontrar alívio nos olhos dele.

— Será?

— Eu não posso ter certeza, mas é o meu melhor palpite.

— Não sei se isso é o certo. Não sei se ele é o caminho até a minha felicidade, ou se só estou saindo do chão e indo até outro lugar para cair novamente.

— Você só vai descobrir se levantar e ir até lá. Não há nada mais triste do que ir se deitar de noite e se encher de “ai, se eu tivesse feito isso”...

— Você tem razão, eu vou até lá. Cansei de fazer drama sobre isso. Você vai me esperar aqui?

— Ah, não. Eu tenho que voltar.

— Tudo bem então.

Artie levantou do chão e a abraçou. Foi um abraço diferente dessa vez, antes era a busca por uma ancora, e agora era um agradecimento. Trace sorriu para ele, e ficou parada ali observando ele se afastar. Pensamentos otimistas dançavam na mente dela, coisas sobre como mesmo que só encontrarmos outro lugar para ir, a mudança de lugar de vezes já é uma grande satisfação.

* * *

Um, dois, três, respira, um dois três, respira.

Artie contou seus passos até chegar no seu destino. Seu destino era uma pessoa alta de olhos claros que estava sentado no fundo das fileiras de cadeiras ao redor do caixão, seus ombros estavam curvados para baixo, como se ele quisesse ficar pequeno a ponto de desaparecer ali.

Artie finalmente chegou nele e colocou a mão em seu ombro esquerdo. Andrew levantou os olhos com o seu habitual desinteresse por tudo, mas eles se iluminaram como fogos de artifícios ao verem quem o estava tocando. Ele sorriu, depois se levantou para abraçar Artie, que definitivamente estava vendo fogos estourando acima deles. Havia ficando tanto tempo sem sentir aqueles braços a sua volta que foi como voltar a respirar na superfície depois de um longo mergulho no oceano.

— Andrew, nós... podemos conversar?

Andrew ficou com o corpo duro, se afastou do abraço. Sua expressão de repente seria não conseguiu disfarçar sua decepção.

— Claro.

— Mas acho que talvez esse não seja o melhor lugar, tem algum lugar para onde possamos ir?

Artie olhou ao redor e percebeu alguns olhares fixos da direção deles, mas o que o incomodava mais era a tristeza no olhar de Andrew, era como se ele só estivesse aguardando até o momento em que seu coração fosse quebrado. Artie quis dizer que estava tudo bem, que tudo ia ficar bem entre eles, mas as palavras lhe escapavam.

— Sim, vamos conversar na minha casa. Quer dizer, se você quiser, é claro.

Ai meu Deus. A ideia de ir até a casa de Andrew era ao mesmo tempo assustadora e existente. Sua primeira reação foi dizer não, mas depois se lembrou do que Trace havia dito: “você só vai descobrir se levantar e ir até lá”.

— Tudo bem, eu quero.