Mentira
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Corri mais rápido do que minhas pernas podiam correr, porém não era hora para se deixar parar pelas limitações físicas, eu precisava achar aquele homem. Do lado de fora olhava para todos os lados na esperança de encontrá-lo, mas nem sinal dele.
Ele não podia ter ido para muito longe dali, não tinha dado tempo, ele só podia ter virado a esquina, então foi isso que eu fiz, forcei a corrida, sentindo a falta de ar aperta devido a todo meu sedentarismo, até que o vi, ele andava tranquilo próximo a loja do pai de Pedro e devido a seu ritmo calmo não foi difícil alcançá-lo.
— Espere! – gritei ofegante.
Cheguei perto dele que virou ao ouvir meu chamado.
— Quem é você? E por que conseguiu deixar minha avó tão nervosa daquele jeito? – meu tom era agressivo, mas não tanto quanto eu gostaria, devido a minha respiração craquelada.
— Você é tão curiosa! Mas se eu te falasse quem eu sou, você não acreditaria em mim. – ele não parecia debochado como no restaurante, ele parecia querer dar credibilidade às suas palavras e despertar ainda mais minha curiosidade.
— Você pode tentar. – despertar minha curiosidade não era tarefa difícil.
— Bem, meu nome é Roberto e sou um velho amigo íntimo da sua mãe. – ele usou um tom muito sugestivo ao falar a palavra "íntimo".
— Quanto íntimo? – ele sorriu de lado aparentado estar satisfeito com minha pergunta.
— Íntimo o suficiente para acreditar que sou seu pai, pra falar a verdade, íntimo o suficiente para ter a certeza absoluta de que eu sou seu pai.
Eu congelei na hora com sua fala, eu não conseguia raciocinar direito, aquilo não podia ser verdade. Não fazia sentido, não tem sentido, ou tem? Que tipo de pessoal jogaria uma bomba dessa assim do nada?
— Co... Como? – questionei com dificuldade.
— Eu sei que isso é muito estranho, inacreditável e que você está me achando um maluco. Mas mesmo sendo o mais chocante que seja, é verdade. – ele me olhou fundo nos olhos tentando transmitir verdade e confiança, porém a única coisa que ele conseguiu me transmitir era uma angústia que crescia a cada segundo.
— Não pode ser. – eu balançava a cabeça negativamente de forma compulsiva.
— Eu sei que é difícil de acreditar, Sofia. Mas é verdade. E eu até entendo porque sua mãe escondeu isso por tanto tempo.
— E por que ela esconderia que você é meu pai? Diz o porquê dela me esconder isso! – eu já estava gritando, como se esse fosse o único jeito das palavras passarem pelo nó que havia se formado em minha garganta.
— Sofia, é uma história longa e muito complicada.
— Eu tenho tempo e tenho certeza que sou inteligente o suficiente para entender.
— A história envolve outros personagens que você nunca deve ter ouvido falar e que você nunca vai conhecer, meu pai é um deles. Ele não era um cara muito legal, nos dois sentidos da palavra, ele tinha problemas criminais e comportamentais, mas era um bom pai pelo menos dentro dos padrões dele.
Ele queria que eu seguisse seus caminhos e assumisse os negócios da família, por esses motivos começou a me preparar para substituí-lo. Nesse meio tempo conheci sua mãe e me apaixonei. Sua avó desde o começo foi contra nosso relacionamento. Contudo, sua avó tinha que lidar com as despesas da casa e tudo mais sozinha, por causa da morte do seu avô. E sua mãe sempre muito rápida e teimosa dava um jeito para que pudéssemos nos encontrar mesmo sem a autorização da sua avó, porém sua mãe ficou grávida e eu entrei em pânico.
Eu queria ser pai, mas em contrapartida, meu pai não queria que eu fosse, porém com muito esforço eu convenci ao meu pai de que eu poderia constituir uma família assim como ele fizera, mas havia outro problema, Marina nunca iria concorda com as coisas que meu pai fazia, ela era totalmente contra suas práticas e não queria que você fosse criada perto dele, assim ela ainda grávida de você fugiu com sua avó para esse lugar que aqui estamos.
Eu e meu pai fizemos um acordo, de que deixaríamos vocês em paz em troca da minha dedicação exclusiva ao trabalho e ao compromisso de assumir seu lugar. E eu o fiz, dediquei todo meu tempo ao seu lado, aprendendo seu trabalho e estando as suas ordens até ele morrer. E agora, após sua morte, posso finalmente largar tudo isso e consertar meus erros.
O seu discurso causara um turbilhão de emoções em mim, ao mesmo tempo que eu queria acreditar em seu discurso emocionado, tudo parecia mentira. Seus olhos estavam fixos em mim, cheios de expectativa por minha reação.
— Isso é demais pra minha cabeça, eu... eu não consigo assimilar. – eu estava completamente tonta.
— Eu entendo sua reação. Eu realmente entendo o porquê de você não está acreditando em mim, mas eu posso provar que é verdade. Você vai ver, quando sua mãe voltar amanhã, ela vai te contar toda história e ela mesma vai te mostrar que tudo o que eu falei era verdade.
— Marina não volta amanhã. – eu estava tonta, mas ainda não tinha perdido a noção de tempo.
— Com sua avó sabendo que estou aqui, tenho certeza de que ela volta amanhã. – ele estava convicto disso.
— Isso é tão...
Eu não conseguia mais verbalizar o que se passava, encostei na vitrine da History & Design, loja do pai de Pedro, totalmente atordoada. Eu nem estava me reconhecendo, sempre arrumava um jeito de me manter consciente e camuflar minhas emoções, e agora eu estou aqui completamente perdida e desorientada, sem saber no que acreditar e aonde firma meus pés.
— Eu vou te dar um tempo para se recuperar e pensar bem sobre tudo isso. Você está muito atordoada agora. Eu vou continuar aqui em Santa Ágata até seu último dia de aula antes das férias, eu vou te procurar novamente, se você acreditar em mim e quiser me conhecer, eu continuo aqui, senão, eu vou embora e não volto para perturbar, eu prometo. – ele sorriu de uma forma amigável tentando transmitir carinho e me entregou um cartão que eu peguei com dificuldade e guardei no bolso da calça.
— Tudo bem. – respondi fraca tentando ficar em pé sem me encostar na vitrine.
— Vem cá, deixa eu te ajudar. – ele colocou meu braço sobre seus ombros e me guiou até o interior da loja.
— O que aconteceu? – escutei a voz preocupada do senhor Tomás preencher o silêncio do local.
— Ela não está se sentindo bem, estava quase caindo desmaiada ali na rua. Ela pode ficar aqui até se sentir melhor, não é? – Roberto explicou enquanto me ajudava a sentar em uma cadeira extremamente confortável, de um encosto ostensivamente acolchoado que estava em mostruário.
— Claro que pode! E muito obrigado por ajudá-la. – respondeu grato e gentil como sempre.
— Obrigado o senhor. Melhoras, mocinha. – Roberto piscou para mim e foi embora me deixando com as suas palavras.
— Pedro, traz um copo de água aqui! O que houve, menina? – Tomás se agachou de frente para a cadeira em que eu estava sentada me dando total atenção.
— Acho que minha pressão baixou de repente. – falei tentando parecer melhor para não preocupá-lo.
— Quer que eu chame sua avó? – ele questionou prestativo como era do seu feitio.
— Não, obrigada. Ela também não estava se sentindo muito bem e deve estar descansando agora. Não quero incomodá-la, só preciso ficar um pouco sentada e beber um copo de água que eu vou ficar melhor. – sorri agradecida.
— Tudo bem então, pode ficar aí o tempo que quiser, eu estarei aqui do lado na oficina trabalhando, qualquer coisa é só me chamar. – ele sorriu gentil antes de se levantar e voltar para seu trabalho na oficina.
Eu fechei os olhos lentamente tentando regular minha respiração com o objetivo de me acalmar, mas aquilo era muita informação, informação demais para mim, eu não conseguia processar todas as palavras de Roberto e respirar regularmente ao mesmo tempo, parecia uma tarefa impossível.
Eu precisava conversar com Vovó e Marina com urgência, eu precisava entender minha história, minha origem, o que era mentira e o que era verdade.
— Aqui está a água.
Escutei a voz de Pedro perto de mim e instantaneamente abri os olhos em busca de sua imagem, meus olhos passaram rapidamente por seu corpo e em poucos segundos eu já havia memorizado sua figura e como a camisa branca contrastava com sua pele escura e suas calças jeans surradas pareciam tão elegantes em seu corpo.
— Obrigada! – peguei o copo de sua mão fazendo nossos dedos roçarem, acrescentando algumas emoções ao caldeirão que borbulhava em meu peito.
— De nada. Você está bem? – ele pegou um banco e sentou ao meu lado em uma postura preocupado, muito diferente de hoje de manhã, que ele parecia nem querer saber da minha existência.
— Estou melhorando. – me esforcei para soar indiferente.
— Que bom. – ele sorriu tímido como se não soubesse o que falar. – Quem era aquele cara? – ele perguntou como se não pudesse segurar aquela questão só pra ele.
— Eu não sei. – e aquilo era a mais pura verdade, eu não fazia ideia de quem era Roberto, nem ao menos se ele realmente se chamava Roberto.
— Ele foi muito legal te ajudando. É bom saber que ainda existem pessoas boas no mundo, apesar dele me parecer um pouco estranho. – eu tinha que concordar com a última parte, Roberto era algo muito estranho para mim.
— É verdade. – comecei a beber a água instaurando o silêncio no ambiente, Pedro ficou olhando para mim como se quisesse falar alguma coisa, mas não conseguiu escolher as palavras.
— Algum problema? – resolvi questioná-lo assim que terminei de beber.
— Eu queria te pedir desculpas por hoje, eu acredito que fui um pouco mal educado com você na sala dos professores, nem te dei bom dia.
— Por que você fez isso comigo? – minha pergunta saiu com mais emoções do que eu gostaria, mas eu precisava saber.
— Porque às vezes eu sou um idiota. – ele sorriu tímido derrubando qualquer barreira que pudesse me impedir de perdoá-lo.
— Você foi mesmo. – retribui seu sorriso.
— Posso te pedir um favor? – agora ele parecia ainda mais envergonhado.
— Claro! – falei prestativa demais para o meu habitual, mas a ideia dele querer algo de mim me fazia bem.
— Eu sei que você odeia biologia como você mesma falou.
Ele realmente havia prestado atenção em mim, ele lembrava do meu comentário na aula de biologia. Isso me fazia acreditar que nosso tempo na aula não era só coisa da minha cabeça e esse simples fato me fazia querer pular de alegria, mesmo achando patético.
— Mas eu consegui entender a matéria com você explicando. Eu não posso repetir de novo e para conseguir boa nota no próximo bimestre, eu preciso provar a escola que estou tendo aulas de reforço e que estou me esforçando ao máximo. E com você, biologia não pareceu uma tortura. – ele estava muito tímido, de um jeito que eu nunca tinha visto antes, até parecia que era uma tortura pedir aquilo.
— Você realmente quer minha ajuda? – ele me encarou por um tempo tentando formular uma resposta.
— Não é só em biologia em que eu precisaria da sua ajuda. Eu conversei com o professor de geografia e ele me falou que você era uma ótima opção para me ajudar, só que eu me sinto um tanto quanto envergonhado com isso.
As coisas começavam a fazer sentido na minha cabeça, ele havia me ignorado por vergonha, ele não queria parecer inferior, isso me fez sentir uma mistura de raiva e decepção instantânea.
— Você tem vergonha de me pedir ajuda. – ele parecia notar meus sentimentos presentes.
— Convenhamos, você é a inteligente da sala, a melhor aluna da turma. Por que você ligaria para o garoto problemático? – seu discurso inseguro misturado ao seu tom convicto, era o que faltava para liberar minha raiva, soquei seu braço com toda minha força.
— Ai! Por que você fez isso? – ele havia ficado surpreso com minha ação.
— Você acha que eu sou uma nerdzinha arrogante que zombaria das dificuldades dos outros. – ele ficou mais surpreso ainda com minha fala.
— Não! Não é nada disso, eu só pensei o óbvio, Sofia. O que uma garota como você iria querer com um cara como eu? – eu queria responder que tudo, que eu queria tudo com ele, porém sua pergunta era muito ambígua e eu não tinha coragem de assumir.
— Eu só não acredito que você sem nem ao menos me conhecer direito, acha que sou tão superficial assim. – eu já não estava mais com raiva, eu estava triste, triste e com uma multidão de assuntos da minha vida para esclarecer.
— É, eu acho que realmente estava errado, você não é tão inteligente como eu pensava, você está entendendo tudo errado. – agora era ele quem estava irritado. – Eu só pensei que você não deveria perder seu tempo comigo, que você podia fazer coisas mais úteis. – ele estava sendo sincero os seus olhos mostravam isso.
— Te ajudar é muito útil para mim. – toquei sua mão sorrindo tentando lhe transmitir confiança. – Eu vou te perguntar de novo. Você quer mesmo minha ajuda? – sorri mais abertamente.
— Sim, eu adoraria. – ele retribuiu meu sorriso.
— Ok! Eu ajudo você. – me ajeitei na cadeira me sentido melhor, pelo menos minha relação com Pedro estava começando a ficar boa.
— Muito obrigado! – ele virou a mão que eu ainda tocava com a minha, apertando gentilmente contra sua palma.
— É só me dizer os dias e os horários.
— Eu costumo ajudar meu pai de tarde, mas acho melhor trabalhar aqui a noite e estudar com você depois do almoço todos os dias de aula, nas férias pode ser no mesmo horário nos dias em que você estiver disponível e disposta. Pode ser? – ele voltou a parecer envergonhado só que agora era visível que o motivo era que ele não queria parecer inconveniente.
— Tudo bem, mas esse tempo todo só para biologia e geografia? – eu não me incomodava nem um pouco em passar mais tempo com ele, muito pelo contrário, era o que eu mais queria.
— O fato é que eu não tenho problemas somente com biologia e geografia, eu também tenho problemas com português, literatura... – eu segurei seu braço com a mão livre o fazendo para.
— Eu já entendi. E não tem problema nenhum, eu vou te ajudar, principalmente em literatura. Mas posso te pedir algo em troca? – ele arqueou as sobrancelhas de forma questionadora.
— Claro! Se estiver ao meu alcance te darei o que você me pedir. – ele não fazia ideia de como era perigoso falar algo daquele tipo para mim.
— Eu quero que você me ensine matemática, eu realmente preciso disso, tenho bastante dificuldade e só consigo passar raspando.
— Sem problema nenhum, vai ser um prazer te ajudar. Você vai ver que não é nada complicado, as pessoas que exageram. – ele parecia mais confortável e feliz por ter algo para me oferecer.
Apesar de Roberto a pouquíssimo tempo ter jogado uma bomba em minha vida, uma bomba que eu não tinha a mínima ideia de como desarmar, eu me sentia feliz. Eu finalmente tinha uma relação com Pedro, uma relação que se baseava em uma troca de favores e que ainda estava no começo, mas ainda sim, era uma relação, uma relação onde nos veríamos sempre e eu podia tocá-lo, como agora que ainda tínhamos nossas mãos unidas, mas tive que separá-las para buscar em meus bolsos o celular que começara a tocar quebrando o meu maior momento de intimidade com Pedro até então.
— Alô! – atendi sem muita vontade e sem nem ao menos verificar na tela do celular.
— Aonde você está? Eu já estava ficando preocupada. – a voz de Alana soou timorata do outro lado da linha.
— Fica calma! Eu já estou voltando para o restaurante, me espere ai que eu vou te explicar tudo o que aconteceu, ok?
— Tudo bem, mas vem logo. Tchau.
— Tchau. – desliguei o celular e o guardei no bolso sabendo que era hora de voltar a um mundo onde tudo parecia louco e confuso, e não havia a presença de Pedro para me confortar.
— Eu tenho que ir agora, mas amanhã a gente se vê na escola. – me levantei da cadeira sem muita vontade.
— Tudo bem.
Pedro também se levantou e me abraçou, me assustei ao sentir seus braços ao redor de mim, o calor do seu corpo envolvendo o meu em um momento mágico, o abracei de volta com o que sobrara da minha consciência no momento, sem acreditar no que estava acontecendo.
— Mais uma vez muito obrigado e até amanhã. – falou antes de me soltar.
— De nada. Eu que agradeço a você e ao seu pai por terem me ajudado. Até amanhã. – passei por ele indo em direção a saída, ainda com a sensação de seus braços envolta de mim, porém quanto mais eu me aproximava da saída, eu sentia falta do seu calor.
Quando cheguei ao Restaurante da Vovó, Alana me esperava do lado de fora encostada no vidro da janela próxima a porta, com os braços cruzados na altura do peito e suas feições eram uma mistura de curiosidade e preocupação.
— Eu fiquei muito preocupada com você, maluca. Você sabe que não pode sair por aí correndo feito uma louca? – ela me repreendeu em um tom sério que não combinava nem um pouco com sua personalidade, parecia até que ela começara a criar juízo e perceber que o mundo não era um lugar seguro.
— Estou surpresa com sua preocupação e até um pouco feliz, mas não precisava se preocupar. – respondi entrando no restaurante seguindo em direção a cozinha com ela logo atrás de mim.
— Vejo que vocês conseguiram resolver o acidente com a panela. – falei olhando para o chão da cozinha já limpo. – Desculpa, Piccolo, por não te ajudar, mas eu tive que resolver uma emergência de última hora.
— Não há problema. Conseguimos resolver tudo, Alana nos ajudou bastante. – voltei meu olhar para Alana que sorriu orgulhosa com as palavras de Piccolo.
— E o rapaz que se queimou está bem? – questionei percebendo sua ausência.
— Não se preocupe, ele foi para o pronto socorro para ter a garantia de que tudo está bem, mas aqui mesmo vimos que não tinha acontecido nada grave, para a sorte dele a panela de sopa ainda estava em uma temperatura relativamente baixa. – ele sorriu gentil me pondo a par dos acontecimentos.
— Sendo assim, estou ansiosa por sua lasanha, Piccolo. – me sentei a mesa e Alana me acompanhou.
— Pode deixar, vou arrumar o prato de vocês duas agora mesmo.
— Agora você já pode começar me dizer o que aconteceu, e nem me venha com essa historinha de que eu não deveria ficar preocupada, ok? Porque primeiro você briga comigo por achava que aquele cara é perigoso por ser um desconhecido, depois você sai correndo atrás dele feito uma louca, demora a voltar e diz que eu não precisava me preocupar. Você queria que eu ficasse como? – a irritação em sua voz era latente.
Entretanto, toda essa irritação me fazia duvidar se ela estava nervosa pelo fato de que algo de ruim podia ter acontecido comigo, ou se ela estava irritada por eu estar com seu mais novo amor platônico e podia ter tido a oportunidade de ter saído com ele.
— Pelo que exatamente você está tão irritada? Você estava nervosa por eu provavelmente estar em perigo ou por que eu poderia roubar sua mais nova paixão? – ela abriu a boca para me responder, mas fechou tão rápido quanto abriu, ela parecia envergonhada.
Claro, era óbvio que Alana não estava preocupada comigo ela não tinha malícia e bom senso o suficiente para isso.
— Você é totalmente inacreditável, Alana. – bufei irritada.
— Também não é assim, eu realmente fiquei preocupada com você, até mesmo cogitei a hipótese de você estar certa sobre suas desconfianças com o bonitão. Mas você me conhece, Sofia, eu não consigo acreditar que um cara tão bonito e charmoso como ele possa fazer mal a alguém.
— Inacreditável.
— Não fique chateada comigo. Agora você vai ou não vai me dizer o que aconteceu? – Alana parecia não se aguentar mais de curiosidade.
— Vou, eu vou te explicar tudo, mas não agora, primeiro eu vou comer. – ela não parecia nem um pouco satisfeita com minha resposta, mas não iria questioná-la.
— Aqui está, senhoritas, minha lasanha especial. – Piccolo serviu nossos pratos, que haviam acabado de ficar prontos, a fumaça subia levando consigo o calor e o aroma inigualável da Lasanha Especial do Piccolo.
— Você pode me dizer pelo menos aonde você estava? – a curiosidade de Alana era tanta que ela nem mesmo havia olhado para sua lasanha, revirei os olhos e comecei a comer sem respondê-la.
— Sofia! – as bochechas alvas de Alana estavam começando a ficar da mesma cor de seus cabelos de tanta irritação.
— O que? – questionei após engolir um belo pedaço da minha lasanha e repousar garfo no prato sabendo que ela não me deixaria comer em paz.
— Pelo amor de Deus! Responde minha pergunta. – ela parecia que ia explodir de inquietação e curiosidade.
— Esse é um assunto realmente delicado Alana, eu não quero e nem posso falar sobre o que aconteceu, aqui e agora. Por favor, me respeite, eu já disse que vou contar para você tudo o que aconteceu, com detalhes, eu prometo a você, mas agora me deixa comer em paz. Por tudo o que é mais sagrado. Eu prometo que te conto depois do almoço. – falei em um tom baixo para que nem uma outra pessoa da cozinha me ouvisse, em minha última tentativa de aplacar a curiosidade incansável de Alana.
— Eu te juro que te deixo comer em paz se você me responder agora, pelo menos aonde você estava. É só dessa informação que eu preciso para te deixar em paz por agora. – ela era incansável.
— Tudo bem. — respirei pausadamente para não me irritar mais do que eu já tinha me irritado. – Eu estava na History & Design. – respondi cedendo a sua incansável insistência.
— History & Design? A loja do pai do Pedro? – ela quase gritou de surpresa e seus olhos se abriram mais em expectativa por minha resposta.
— Sim. Eu gosto muito do nome dessa loja, eles conseguiram capturar bem a essência da loja, já que ele faz móveis baseados em vários períodos da história da humanidade e cada móvel personalizado feito por eles conta uma história sobre seu comprador. Você não acha isso fascinante? – tentei desviar o foco da conversa que eu sabia que ela iniciaria.
Eu amava Alana e sua incrível empolgação, mas ela podia ser extremamente inconveniente. Ela iria querer saber de cada detalhe da história e iria se divertir toda vez que eu parecesse uma garotinha apaixonada. Além de que, se eu contasse sobre Pedro, logo perguntaria como fui parar lá e absolutamente esse não era um assunto que eu queria tratar enquanto almoçava, só de pensar nisso novamente já sentia a fome escapar de mim aos poucos.
— Eu não estou nem aí se o nome da loja representa ou não o que ela é! E muito menos se os móveis deles contam histórias! O que eu quero e preciso, é saber o que você estava fazendo lá e, o mais importante, Pedro estava lá? – seu tom era enérgico e autoritário.
Era impressionante como Alana não tinha foco para quase nada na vida, mas fofocar sobre a vida dos outros e principalmente da minha, era a mestre da concentração e do foco.
— Como você é irritante! – resmunguei, mas ela não parecia se incomodar.
— Eu tive um mal-estar súbito e acabei tendo que ficar lá por um tempo para me recuperar. – ela não ia se satisfazer só com essa explicação, ela iria querer mais e nem que tivesse que me tortura ela conseguiria.
— Pedro estava lá? – insistiu.
— Sim.
— Isso me parece bom. Mas por que você passou mal? Tirando aquela agitação ao sair daqui, você parecia muito bem e também me parece bem agora.
Eu devia ter atirado flechas flamejantes na cruz para merecer isso! Será que Alana não ia me deixar comer em paz?
— Eu não disse a você que a gente vai conversar depois do almoço? – ela assentiu balançando a cabeça. – Então come! Pelo amor de Deus! E depois a gente conversa. – ela meneou a cabeça insatisfeita, mas começou a comer me dando alguns minutos de paz.
— Terminei! – Alana exclamou colocando o garfo sobre o prato vazio parecendo aliviada por se livrar dele.
Havia se passado não mais que 5 minutos desde que Alana começara a comer me deixando em paz, porém para Alana "me deixar em paz" não era um conceito que ela conhecia.
— Que bom pra você! Mas eu ainda vou comer a sobremesa. – ela bufou irritada batendo a mão cerrada na mesa como uma criança birrenta e mimada que acaba de ter um pedido recusado.
— Piccolo! Ainda tem bolo de chocolate? – questionei após afastar o prato vazio para dar lugar a sobremesa.
— Tem sim. – ele virou para a bancada pegando dois pratos com bolo. – Aqui está, bambinas. – ele pôs os pratos sobre a mesa a nossa frente e recolheu os pratos que mal pareciam ter sido usados devido meu empenho e de Alana em não deixar um pedaço sequer, porque mesmo com toda pressa de Alana era impossível rejeitar a Lasanha Especial de Piccolo.
— Tecnicamente já acabamos de almoçar, então você já pode começar a me contar tudo o que aconteceu. – respirei fundo para conter a vontade de agredi-la que começava a crescer velozmente dentro de mim.
— Eu já falei que não quero falar sobre isso aqui? – sussurrei
— Por que? – sussurrou de volta.
— Eu já te disse que é um assunto complicado, eu nem deveria falar com você sobre ele até saber o que é verdade e o que é mentira. – seus olhos se arregalaram em desespero com a ideia de eu não contar o que estava acontecendo. – Mas eu vou. – a tranquilizei.
— Ok! Assim que terminarmos vamos para sua casa conversar sobre o que está acontecendo. – ela parecia menos ansiosa agora, ou talvez, finalmente tivesse entendido que o assunto era delicado e deveria ser abordado com cuidado.
— Na minha casa não. Vamos até a praça e lá conversamos. – ela assentiu sem questionar mais.
Assim que terminamos de comer, nos despedimos de Piccolo e de todos da cozinha e fomos até a praça principal da cidade. Durante o caminho não falamos quase nada, apesar de Alana parecer mais ansiosa a cada passo que dávamos em direção a praça, mas ela respeitou meu desejo de falar só quando tivéssemos chegado sem reclamações, como uma menina paciente e respeitadora dos desejos alheios que ela não costumava ser.
Nos sentamos em um banco distante do centro da praça, meio que escondido entre duas árvores. A praça não estava cheia, havia somente poucas crianças correndo entre os balanços, escorregas e gangorras de madeira bruta, enquanto suas mães e babás as observam, uma vez ou outra pedindo-lhes que corressem menos para não se machucarem.
As pessoas nem tinham notado nossa presença, tinham outras preocupações, mas mesmo assim, o banco escondido entre as árvores me parecia mais apropriado, ele me deixava mais confortável, com uma falsa sensação de segurança. Era um banco muito conhecido por mim e Alana, nós desde pequenas recorriamos a ele para revelar nossos segredos uma a outra, quando nossos quartos não pareciam suficientemente seguros.
— Agora fala! Antes que eu morra de ansiedade. – os olhos de Alana brilhavam de expectativa como os de uma criança que espera para abrir seus presentes de natal.
— Está bem! Como eu já havia prometido irei te contar tudo. Primeiramente o nome de sua paixão platônica é Roberto. – pausei minha fala ao lembrar integralmente da minha conversa com Roberto e pude sentir meu peito apertar de forma angustiante.
— Roberto é um nome bem comum, mas me parece legal. – Alana falou para si mesma de forma distraída antes de voltar sua atenção para mim, esperando que eu continuasse a contar a história.
— Continuando, minha conversa com ele não foi muito longa, eu o alcancei quando ele estava próximo a History & Design, foi até por isso que quando passei mal fui para lá. – eu tentava achar em minha mente um jeito de dizer a Alana que Roberto provavelmente era meu pai, mas eu não conseguia formular uma maneira de emitir essa informação, era algo muito surreal e inacreditável para ser dito.
— Afinal de contas por que você passou mal? – Alana parecia ainda mais impaciente, mas realmente preocupada com minha saúde.
— Minha conversa com o Roberto foi um pouco demais para mim, apesar de ter sido curta ela gerou uma longa e tortuosa história, o que me foi revelado nessa conversa é tão irreal e surpreendente, que até agora eu não posso acreditar.
— Para de enrolar é fala logo o que você descobriu! – Alana agarrava as bordas do assento do banco com tanta força na tentativa de se acalmar que suas juntas das mãos pareciam saltar.
— Roberto pode ser meu pai. – falei em um fôlego só, como alguém que arranca o curativo de uma vez só.
— Eu acho que eu entendi errado. – Alana não parecia surpresa, ela realmente achava que não havia entendido certo.
— Se você entendeu que Roberto pode ser meu pai, você entendeu perfeitamente bem. – ela soltou bruscamente as bordas do banco levando as mãos da boca incrédula.
— Isso não é sério! É? – ela quase gritou.
— Se controla! – falei severa, esticando minha cabeça entre as árvores para ter certeza de que ninguém nos ouvia, pois apesar de Santa Ágata ser uma cidade bem urbana e próxima a metrópole, era uma cidade pequena, com jeito de cidade pequena onde uma fofoca podia rodar a cidade inteira.
— Desculpa. – ela se recompôs do susto imediato voltando seu foco a nossa conversa.
— Roberto me contou que ele e Marina se conheceram em Mato Grosso do Sul quando ainda eram adolescentes, eles namoravam, mesmo com Vovó sendo contra, até que Marina engravidou. O pai dele não gostou nada disso, mas Roberto conseguiu convencê-lo a deixar assumir seu filho, mas Marina e Vovó não aceitavam as "práticas" do pai de Roberto, então elas fugiram do Mato Grosso do Sul para o Rio de Janeiro e vieram se instalar aqui em Santa Ágata. Enquanto Roberto ficou com o pai trabalhando com ele, o obedecendo cegamente para garantir que ele não interferiria na vida de Marina e Vovó. – sintetizei minha conversa com Roberto para que a Alana entende-se.
— E por que ele apareceu agora? Ele ainda trabalha com o pai? E que "práticas" seriam essas? – Alana atirou as perguntas contra mim em uma velocidade assustadora, fazendo com que eu mal conseguisse discerni-las.
— Calma! Uma pergunta por vez.
— Desculpa. Mas que "práticas" são essas?
— Eu não sei, ele não deixou claro. Mas pode ter certeza que coisa boa não deve ser.
— Ele ainda trabalha com o pai?
— Pelo que ele disse, não. O pai dele morreu e, devido a isso, ele largou o trabalho que tinham com o pai, e deixou sua vida antiga para trás. E por esse motivo ele veio atrás de mim. Mas não sei se posso acreditar nele, isso tudo me parece obscuro e estranho demais.
— Eu acredito nele. – Alana falou prontamente.
— Não deveria. Seu discernimento está muito corrompido devido ao seu evidente encantamento por ele. Você nem o conhece e eu não quero você perto dele! – falei com firmeza e autoridade, como uma mãe avisa ao seu filho para não pôr o dedo na tomada ou não brincar com produtos químicos que possam ser facilmente ingeridos.
— Eu não acho que ele seja perigoso, ou estranho e obscuro? – a personalidade teimosa de Alana era incrivelmente irritante.
— Alana! Eu não quero você perto dele, me escutou? – falei ainda mais firme reunindo toda severidade que poderia existir em mim.
— Ok! Eu fico longe dele. – as palavras dela não me convenceram nem um pouco, mas não adiantava eu discutir agora.
— E agora? O que você vai fazer com essa revelação? – essa era uma pergunta sem uma resposta.
— Não faço ideia. E nem quero pensar nisso agora. – Alana assentiu.
— Então vamos mudar de assunto. Conte-me como foi a sua estadia na History & Design devido ao seu mal-estar.
— Como eu já tinha dito eu passei mal, por isso Roberto me levou para dentro da loja para que eu pudesse me recuperar.
— Então o Roberto te ajudou... – eu não podia deixá-la concluir.
— Alana! Não! – ela engoliu o seu discurso de defesa a favor de Roberto sem relutância.
— Então você ficou na loja passando mal, mas quando você voltou ao restaurante parecia muito bem. – ela me lançou um olhar sugestivo.
— O Tomás me acolheu muito bem, me tratou com sua habitual gentileza, depois foi para oficina e me deixou ficar até que eu me recuperasse, assim eu melhorei.
— E você ficou se recuperando sozinha? – ela sabia que tinha mais coisa.
— Não, Pedro apareceu e me trouxe um copo de água e a gente ficou conversando. – Alana esticou sua postura ainda mais interessada em minhas palavras.
— E vocês conversaram sobre o que? Posso saber? – ela não me deixaria em paz até obter cada mínimo detalhe de minha conversa com Pedro.
— Ele me pediu desculpa por ter me ignorado.
— Isso é ótimo, muito bom mesmo. Mais o que?
— Falamos sobre a escola, as matérias e de que ele precisa de monitoria em algumas matérias para ser aprovado.
— Deixa eu adivinhar! Você será a monitora dele, estou certa? – ela parecia muito feliz por mim, afinal, pelo menos alguma coisa tinha que ser boa nesse dia.
— Sim, irei ajudá-lo com algumas matérias e em troca ele me ajudará com matemática e é provável que com física também. Nos encontraremos todos os dias depois do almoço para estudar.
— Agora eu entendo sua recuperação tão rápida e eficiente. O que uma injeção de Pedro não faz na sua vida, em Sofia? – ela falou sorrindo e não tive como não sorrir junto.
Continuamos a conversa sem lembrar da hora como costumávamos fazer e não tocamos mais no assunto Roberto. E por um momento tive a sensação de que nada mudaria, de que tudo estaria bem. Eu e Alana conversando em nosso banco como de costume e a única novidade era que agora eu falava com Pedro.
Por alguns minutos aquelas pareciam as únicas coisas que estavam acontecendo, porém a angústia em meu peito não me dava trégua e ao nos direcionamos as nossas casas, por causa do horário que já avançava, começava a sentir meu coração martela pesaroso a cada passo que eu dava e ao chegar na frente da minha casa senti todo peso desaparecer magicamente, mas infelizmente a sensação não era como deveria ser.
Eu não me sentia de repente aliviada, eu me sentia vazia, insuportavelmente vazia, sem chão como se a gravidade que mantinha meus pés fixos no chão havia sido distorcida e todos os meus alicerces haviam sido abalados. Agora era hora do assunto Roberto e pior era a hora em que eu saberia se o assunto realmente existia, eu podia estar finalmente próxima a descobrir a verdade sobre meu pai.
— Você está bem? – Alana ainda estava ao meu lado esperando que eu entrasse para seguir até sua casa.
— Sim. – tentei disfarçar o desolamento em minha voz, mas foi completamente inútil.
— Você está mais pálida do que o normal.
— Pode ir, Alana. Eu vou ficar bem. Amanhã a gente conversa. – ela apenas assentiu com a cabeça e se afastou.
Olhei fixo para porta respirando fundo. Nunca em toda minha vida pensei que um dia estaria na porta da casa onde nasci, tentando tomar coragem para entrar, como se estivesse indo para o abate, nem em minhas tantas brigas com Marina havia me sentido assim ao voltar para casa.
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