Mentira
6 6
Empurrei a porta com cautela e sem a menor vontade de fazê-lo, logo vi Vovó em um canto da sala com o telefone junto ao ouvido, ela estava de costas para porta e parecia muito concentrada em sua tarefa, mas não demorou nem dois segundo para notar que eu estava em casa.
— Ela chegou! Vou desligar agora, amanhã todas nós conversamos pessoalmente. Fique bem! Tchau, minha flor. – pelo tom de voz e o aparente assunto, era evidente que Vovó estava a falar com Marina sobre mim.
O vazio que ainda tomava meu ser começou a ser levemente preenchido por irritação e medo.
— Estava conversando com Alana na praça, meu amor? – Vovó me questionou em seu tom caracteristicamente carinhoso, só que dessa vez sua voz tinha bem mais que carinho e afeto, tinha nervosismo, cautela e medo. Medo, o mesmo que crescia em mim a cada segundo.
— Sim. – respondi tentando soar fria, porém minha voz já começava a adquirir as sinuosas tremulações do medo.
— Sua mãe já deverá estar aqui em casa quando você voltar da escola amanhã. – a nova informação que me passou, normalmente seria dita com naturalidade, mas agora ela havia sido dita com uma rapidez suspeita.
O medo era visível e palpável, era óbvio o motivo da informação de que Marina voltava amanhã tinha sido dita rápido como um tiro. Porque realmente esse era o tiro de misericórdia, essa era a prova de que Roberto não havia mentido, ele já tinha falado que Marina voltaria mais cedo por causa de sua aparição, essa era a prova que faltava para eu acreditar que eu realmente tinha encontrado meu pai, ou melhor, ele tinha me encontrado.
Marina nunca largaria seu precioso trabalho e seus tão importantes afazeres se o motivo não fosse realmente importante. E o que podia ser mais importante do que ela ter suas mentiras e segredos ameaçados? Eu conseguia imaginar a irritação e o desgosto de Marina em ver que ela havia falhado em esconder de mim a verdade sobre minha vida, minha história. E ao contrário de outros momentos em que a imagem de Marina irada por ter falhado em esconder as coisas de mim, me traria satisfação e alegria, agora eu só conseguia sentir raiva, confusão, tristeza e medo.
Finalmente eu estava realmente próxima de saber minha história, finalmente eu havia conhecido meu pai, eu podia agora saber sobre meu avós paternos e até mesmo sobre o materno que sempre falavam tão pouco como se fosse mais um segredo, eu podia saber quem eu era, mas eu não estava feliz como eu muitas vezes me imaginava estar ao descobrir essas coisas.
Eu estava com medo, principalmente, acima de todas as outras emoções, eu estava com medo, algo me dizia que tudo aquilo não era bom, algo me dizia que tinha algo de muito errado, que tudo aquilo não ia acabar bem. Respirei fundo tentando controlar minhas emoções.
— Então é verdade! O Roberto é meu pai? – Vovó empalideceu na mesma hora com minha pergunta, como se todo seu sangue houvesse sido drenado do seu corpo naquele mesmo instante.
— Co...como? – ela tremia e parecia assustada.
— Eu fui atrás dele depois que você foi embora do restaurante. – respondi fria, ainda com muito medo, mas minha voz não tremia, e o meu tom áspero assustou Vovó ainda mais.
— Você não deveria ter feito isso, Sofia! – ela tentou transparecer uma postura de repreensão que falhou miseravelmente devido o seu excesso de nervosismo.
— Mas eu fiz! – falei com orgulho. – Porque talvez só dessa maneira eu saberia a verdade. Mas eu quero ouvir de você. – eu nunca havia falado com ela dessa forma, mas eu não conseguia evitar, eu estava com raiva, muita raiva e medo, como um bicho acuado que ataca para se defender.
— Por favor, hoje não! Amanhã quando sua mãe chegar nós conversaremos e responderemos todas as suas perguntas. – seus olhos me fitavam receosos, esperando que eu concordasse.
— Claro! – sorri sarcástica. – Como sempre vocês decidem como vão ser as coisas, como serão dadas as respostas e se elas serão dadas. – subi as escadas sem conseguir mais olhar para minha avó e me tranquei no quarto ignorando seu chamado fraco.
Tudo parecia girar depressa a minha volta, como naqueles brinquedos de parques de diversão que fazem as pessoas vomitarem, porém em vez de correr a paisagem escura e fria do meu quarto diante dos meus olhos, corria as lembranças e emoções, um turbilhão delas, que pareciam me sufocar, como se o ar fosse substituído por elas.
Senti minhas bochechas queimarem de forma febril, e o calor se espalhar por todo meu corpo. Corri para o banheiro e me despi de depressa indo para do chuveiro.
A água gelada batendo com força contra minha pele suavizava as ondas de calor que fluíam por todo meu corpo. Toda vez que me encontrava em uma crise emocional eu começava a esquentar principalmente quando as emoções eram timidez e raiva, mas hoje estava muito pior do que todas as outras vezes, como se eu realmente pudesse derrete, era assim que eu me sentia, derretendo por dentro.
Minha confiança em Vovó havia derretido completamente, minha crença de que um dia Marina iria me contar toda a verdade sobre minha história já havia sido evaporada. E minha tola e ingênua esperança de que um dia eu encontraria um pai divertido, carinhoso e verdadeiro acabara de ser totalmente aniquilada sem dó nem piedade, sem nenhuma centelha de esperança.
O discurso de Roberto ao me contar que era meu pai, o desespero de Vovó e todo o esforço de Marina para me ocultar a verdade, não me permitiam acreditar nem por um segundo que Roberto era o pai dos meus sonhos e toda a reação da Vovó também não me deixava duvidar que Roberto era meu pai. Desliguei o chuveiro botei um conjunto de moletom velho que achei primeiro e me joguei na cama.
xxx
A lua ainda brilhava com força no céu escuro da madrugada e eu estava na praça, que se encontrava completamente deserta por causa do horário. Eu não fazia a mínima ideia de como havia chegado ali, andei em direção às árvores e vi um vulto preto passar por elas, dei um pulo para trás assustada e vi o vulto passar novamente só que mais próximo dessa vez. Quando iria me virar para correr o mais longe possível dali, escutei uma voz rouca e taciturna chamar meu nome do meio da escuridão.
— Sofia! – estreitei meus olhos forçando minha visão no escuro a procura do dono da voz.
— Aqui! – escutei a voz novamente só que agora bem atrás de mim, me virei em sua direção com rapidez.
— O que você quer? – Roberto me encarava com olhos gélidos e um sorriso maldoso nos lábios que me fazia estremecer de pavor.
— Você! – ele falou como um rugido aterrorizante ao mesmo tempo em que se transformava em um bicho medonho, cheio de caninos, garras compridas e afiadas, veias saltadas e pelos.
O monstro me empurrou com força me pressionando contra o chão com suas mãos/patas. Seu hálito quente e repugnante batia contra meu rosto. Eu estava catatônica, tonta, desesperada. Eu ia morrer. É, eu ia morrer, e assim que percebi isso não pude conter o grito de pavor que se formou em minha garganta. Gritei, gritei com todas as minhas forças, gritei como se isso pudesse salvar minha vida e de fato salvou.
— Sofia! – Vovó gritou, batendo com força na porta trancada do meu quarto me fazendo acordar, daquele pesadelo.
— Já vou! – levantei rápido da cama em direção a porta e senti o suor escorre por minhas têmporas e costas, tudo havia sido muito realista.
Assim que destranquei a porta as mãos de Vovó agarram meus braços com força me olhando de cima abaixo como se procurasse um pedaço faltando.
— Você está bem? – ela segurou meu rosto entre suas mãos e me lançou um olhar cheio de ternura e preocupação.
— Só foi um pesadelo. Pode voltar para seu quarto eu vou deixar a porta destrancada. – falei tirando as mãos dela do meu rosto e voltando para a cama.
— Tudo bem. – ela arrastou seus olhos por cada canto do meu quarto, conferindo se estava tudo no seu devido lugar antes de sair e encostar a porta.
Não consegui mais voltar a dormir, não por medo de ter um novo pesadelo, mas sim por não conseguir parar de pensar nos motivos de meus pesadelos durante o sono e durante a vigília. Eu não conseguia me desligar de tudo o que estava acontecendo e de tudo o que ainda poderia vir a acontecer.
Levantei-me completamente exausta e me arrastei até o banheiro, olhei meu rosto pálido no espelho, marcado por olheiras escuras. Tomei um banho frio e me arrumei para ir a escola. Eu precisava dormir, mas eu também queria adiar meu encontro com Marina e o único jeito de adiar essa conversa era indo para escola, já que ela deveria estar bem próxima de chegar.
Eu estava morta de curiosidade e ansiedade para saber tudo sobre minha história, porém eu não tinha condições físicas e emocionais para passar por uma longa conversa onde ela tentaria me convencer de que tudo foi pensando no meu bem, que ela só queria me proteger.
E para fortalecer seus argumentos ela usaria mentiras e mais mentiras, eu não cederia e enfim ela encerraria o assunto como se meus direitos e minhas vontades não existissem e a suas vontades e opiniões fossem lei.
Esse era o único jeito de conversa que Marina conhecia e eu estava farta desse jeito. Mas durante minha noite em claro supus que talvez, só dessa vez fosse diferente. A situação era totalmente diferente, dessa vez não estávamos falando de um provável pai que podia estar morto, em coma ou refém em uma tribo aborígene. Estávamos falando de um provável pai que está praticamente ao nosso lado.
Depois da aparição de Roberto e a reação de Vovó, minha mãe não teria como fugir completamente do assunto, afinal, ela estava vindo de encontro a ele.
Toda a confusão que estava minha vida rodava por minha mente com tanta rapidez e intensidade, que nem notei que já havia chegado a escola e entrava pelos portões de forma automática.
— Que milagre! Você não chegou atrasada. – a inspetora brincou me fazendo voltar ao presente.
— Você ficaria pasma ao saber que não foi a primeira vez esse ano que isso aconteceu. – ela fingiu uma cara de pura surpresa, ou talvez tivesse surpresa mesmo.
— Está doente ou algo assim. – neguei com a cabeça lhe lançando um sorriso fraco e indo em direção a sala.
Passei a primeira aula toda ainda envolta em minhas angústias, só me dei conta da ausência de Alana após o toque do sinal indicando a segunda aula. Peguei meu celular no bolso de trás da calça, para mandar uma mensagem a minha amiga, com o propósito de saber aonde ela estava, mas não precisei mandar a mensagem, pois ela entrou na sala antes da professora que daria aula no segundo tempo, ofegante e com os cabelos vermelhos um pouco bagunçados.
— Onde você estava? – ela estendeu a mão em um sinal me pedindo para aguardar e se sentou ao meu lado.
— Em casa, para ser mais específica, na minha cama dormindo. Acordei super atrasada e vim correndo para não perde a segunda aula também. – suas bochechas estavam incrivelmente rosadas devido ao esforço.
— Por que dormiu tanto assim? – ela passou a mão pelos cabelos ajeitando os fios no lugar.
— Dormi tarde, oras. – eu tinha certeza que ela estava me escondendo algo.
— Por quê? – suas bochechas foram perdendo o rubor e percebi que havia ficado nervosa com minha insistência.
— Por quê? – eu podia ver ela morde a parte interna da bochecha.
— Sim. Por quê? – persisti.
— Vamos começar a aula e quero a atenção de todos vocês. A matéria é complicada e temos pouco tempo. – a professora irrompeu pela porta de forma enérgica, chamando a atenção de todos e salvando Alana do meu singelo interrogatório, fazendo a mesma respirar aliviada por não precisar responder minha pergunta.
A aula acabou e Alana sumiu rapidamente ao toque do sinal para o intervalo. Ela estava claramente fugindo de mim e de minhas pergunta. Senti um arrepio passar por minha espinha ao ter a ideia um tanto absurda de que isso tinha algo haver com Roberto, talvez eu tivesse ficando paranoica, ou talvez não. De qualquer forma eu tinha avisado a Alana para ficar o mais distante possível dele, porém o que me fazia arrepiar de medo é que minha melhor amiga podia ser imprudentemente teimosa e escorregadia.
Fale com o autor