Mental Disorder
6 Capítulo 5
Notas iniciais
A frequência cardíaca aumentava a cada minuto que esperava Alice sair da consulta, as unhas da mão direita já estavam todas ruídas e até Bree olhou curiosamente para mim quando passou pelo corredor. O som da porta me tirou da neblina dos pensamentos e os passos ansiosos eram como marteladas para os meus ouvidos atentos. Assim que Alice apareceu na minha vista soltei a respiração que nem sabia que estava prendendo. Agarrei seu pulso e a puxei até meu quarto, logo que fechei a porta, Alice entregou-me uma folha com as mãos trêmulas.
— Eu sabia que você ia conseguir, Alice. – murmurei com um grande sorriso no rosto. Ela estendeu a mão e passei o chocolate, como prometido.
— Bella... – meu olhar saiu da folha e foi para ela, franzi o cenho para seu rosto apreensivo e a questionei. – E-eu acho que a Jane ficou desconfiada, ela ficou praticamente metade do tempo me encarando sem dizer uma única palavra.
— Alice, — comecei, agarrando seu ombro com uma mão e olhando diretamente para seus olhos. – ela não sabe de nada, nem desconfia. – sua cabeça balançou freneticamente e o chocolate foi esmagado pela pressão das suas mãos em punhos, imediatamente guardei o papel de qualquer jeito no bolso e a puxei para sentar na cama, me ajoelhando e ficando em sua frente.
— Eu vou para o lugar ruim, lugar ruim. Não, não, não! – seus sussurros ficaram cada vez mais altos, palavras saindo de forma desconexa. Minha ansiedade foi crescendo com seu ataque de pânico e minha vontade era de gritar com ela, mas respirei fundo e me controlei.
— Pare com isso, você não vai pra lugar nenhum. Se acalme! – a última palavra saiu mais alto que eu pretendia e finalmente tive sua atenção, suas pupilas estavam dilatadas e a veia em seu pescoço pulsava descontroladamente. – Presta atenção em mim, eu não vou deixar ninguém te levar. Se a Jane Esquisita descobrir de alguma forma, o que não vai acontecer, eu irei assumir a responsabilidade sozinha, entendeu? – Alice assentiu lentamente e seu lábio inferior tremia ligeiramente.
— E se eles me-
— Não. – a interrompi com a voz firme. – Se...se eles souberem que você me ajudou, você pode dizer que eu te obriguei, merda, pode dizer até que eu te ameacei. OK? – eu não estava pensando nas consequências, afinal, o que eles poderiam fazer além de acrescentarem algo a mais no meu prontuário?
— Você promete que eles não vão me levar? – a voz de Alice estava fraca e eu quase senti pena.
— Prometo. – foi a primeira promessa que já fiz a alguém e inacreditavelmente eu quis cumprir, de alguma forma considerei Alice como uma amiga nesse lugar estranho e isso me chocou. Ela deu um sorriso mínimo e saiu rapidamente do quarto.
Fui até a porta e a observei desaparecer pelo corredor, e então a fechei, praguejando por não ter uma chave para trancar. Sentei-me na cama desconfortável e peguei o papel, agora amassado, do bolso da calça. Meus dedos desdobraram cuidadosamente, a borda do papel ficando levemente úmida em minha palma suada.
Paciente: Isabella Marie Swan.
Meus olhos ignoraram as informações simples sobre mim e foram atraídos para o laudo, causando náuseas imediatas pelas palavras.
A paciente apresenta comportamento impulsivo, irritabilidade e agressividade, indicados de acordo com os pais, por um histórico constante de lutas corporais e agressões verbais violentas. Demonstra baixa tolerância, apatia e indiferença emocional e/ou com os outros. A paciente também apresenta atitudes irresponsáveis pela segurança própria ou alheia. De acordo com a mãe, a paciente-
E então não há mais nada, viro a página para encontrar o restante e encontro apenas o amarelado do papel. Minha mente tenta se focar em algo, mas a enxurrada de emoções é como uma represa sendo aberta, não tem como controlar. Meus olhos ardem pelas lágrimas não derramadas, mas não é tristeza, e sim pela raiva que bombeia no meu sangue e me deixa congelada.
Eu quero gritar e me mover para bater em algo, mas as palavras rolam em negrito na minha cabeça, incapacitando meus músculos por um momento.
Comportamento impulsivo.
Meu corpo se levanta e é como se eu não estivesse realmente ali, o travesseiro é a primeira vítima de minhas mãos raivosas e o algodão flutua como flocos de neve em uma estação melancólica.
Irritabilidade.
Tento mover o colchão da cama mas é impossível, caio desajeitadamente em cima e esperneio, meus braços e pernas batendo de jeito descontrolado no colchão duro, a raiva se mistura com adrenalina e meu corpo sabe que têm que liberar isso de alguma forma.
Agressividade.
Minha respiração sai em lufadas de ar quando fico de pé, minhas pernas e braços querem fazer do armário sua segunda vítima, mas por um breve momento de lucidez a consciência me lembra do barulho e decido abrir as gavetas, jogando as roupas pelo ar e rasgando uma camisa quando vejo o bordado da clínica estampado.
Atitudes irresponsáveis pela segurança própria ou alheia.
Minha garganta coça e eu sei o que quero fazer, sem pensar, levo meu braço esquerdo até a boca e meus dentes fincam na pele quando o grito abafado saí, a dor sendo apenas um incentivo.
E, finalmente sinto uma lágrima solitária rolar por minha bochecha e paro, caindo sem jeito no chão por cima de algodão e roupas espalhadas. A batida do meu coração se normaliza, assim como minha pele fica fria enquanto o efeito da adrenalina vai se dissipando e quando o amargo dos pensamentos se acalma, pego o papel perdido em meio ao caos do quarto.
Olho zombeteiramente para o diagnóstico e decido me livrar disso.
O banheiro abre no instante que roço a maçaneta, revelando Rosalie com sua habitual expressão de nojo, só que mais intensificada agora.
— Cuidado por onde toca, praga. – falou, olhando para minha mão ainda estendida, suas palavras e tom de voz alimentam minha raiva ainda em chamas.
— Foda-se. – respondo, sem paciência para tolerar sua mesquinharia.
— Como é? – ela diz e eu a empurro com força para fora do caminho, Rosalie guincha e seu olhar é doentio quando observa o lugar no braço em que a toquei.
— Eu. Disse. Foda-se. – meu tom é baixo e ainda mais perigoso, ela pega a dica e corre, felizmente me poupando de sua presença. Entro na terceira cabine do banheiro, pego a folha já amassada e desgastada do bolso e pico em dezenas de pedaços, vejo boiar na privada e dou descarga, vendo os fragmentos rodopiarem e finalmente desaparecerem. É como se o que estava escrito não me afetasse mais e fosse para o lugar que pertence, o esgoto.
A sensação de alívio é quebrada pelo som débil de alguém vomitando, saio da cabine e antes que eu possa averiguar, sou parada pela minha figura no espelho. Meu cabelo castanho em grande desordem, pele do rosto avermelhada e olhos arregalados, definitivamente estou combinando com este lugar. O barulho me tira do devaneio e sem hesitar, abro a cabine do lado.
O cheiro azedo e enjoativo agride meu olfato e cubro meu nariz com a manga, a visão me fez querer virar e voltar para o quarto.
— Alice! – sua pequena estrutura treme e se contorce quando eu falo. Agachando-me, toco seu braço e tento a ajudar se levantar, ela é mole como uma boneca de pano, meus braços já cansados protestam quando a movo. Com o pé, fecho a tampa do vaso e a coloco no assento.
— Ele não quis. – ela murmura.
— Quem? Alice, o que aconteceu?
— Jasper. Ele não quis comer o chocolate comigo. Ele nunca quer nada comigo. – sua voz chorosa falha na última frase e resisto a tentação de revirar os olhos.
— Por isso você está fazendo... isso? – pergunto, tentando realmente entender suas ações. Alice dá de ombros e funga, levantando a cabeça para me dar um olhar intenso.
— Você não pode amar verdadeiramente sem enlouquecer.
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