Menino do Céu!
2 Capítulo 2 - PEDRO
As bochechas de Bruno esquentavam enquanto ele andava pelas ruas de Águas Claras, lembrando-se do acontecido. A frustração dele era maior que a quantidade de prédios da cidade. Um frio na barriga ressoava por ela tê-lo feito de palhaço e o sol fazia arder ainda mais. Não tinha outra opção além de virar a esquina, encontrar o velho e sempre sofisticado portão cinza grande, fechado e elétrico da casa de Pedro. Aproximando-se, ele apertou a campainha enquanto aguarda na imensa árvore à frente.
— E aí, beleza, cara? — saudou o amigo, ao abrir o portão.
Cumprimentaram-se com o tradicional toque de mãos masculino, o qual foi seguido de um meio abraço e uns dois tapas amigáveis nas costas. Depois, seguiram para a porta de entrada da sala externa dele, que era enorme. Por pouco Bruno quase não caiu na piscina, mesmo que soubesse de cor onde ficava. Pedro puxou-o, junto com a maçaneta da porta de vidro, fechando o acesso da piscina, que era integrado à sala.
— O que foi, cara? Está distraído por quê? — A voz do amigo ecoou enquanto ele pensava que nunca tinha acontecido algo parecido, mulheres não simplesmente o rejeitavam assim.
— Foi mal — conseguiu reiterar.
— Pega aí a geladinha — ofereceu, em seguida. Deu um gole na latinha e, pegando o controle remoto, apontando para a TV embutida no painel marrom na parede, abaixou um pouco o volume.
— Vai ser só nós dois? — Bruno se sentou no sofá bege e almofadado, sentindo o ar arejado e a claridade daquela área externa. A caixa térmica azul-escuro não estava tão longe e ele puxa uma latinha de cerveja, sem mesmo precisar se levantar.
— Acho que sim, parece que os outros caras estão organizando... — Pedro se detém em continuar a frase e franziu a testa quando percebeu o melhor amigo cortar o dedo ao abrir a lata.
Fora a voz do cara do comercial de banco na TV, o único som possível de se ouvir era o de Bruno tomando fortes goles da bebida. Pedro tirou a latinha do amigo, que murmurou, mas não tentou revidar, deixando a cabeça pender na almofada de forma a fitar o teto. Ele realmente não conseguia se livrar do pensamento involuntário sobre a Sabrina.
— Calma, Bruninho, cerveja é mais leve que uísque, mas ainda tem álcool. — Pedro sentou ao lado dele, com preocupação, e observou a expressão alheia de quem dispensa esse comentário. — Ih, o que rolou com a Sabrina?
Bruno ficou em silêncio por alguns instantes, cogitando a ideia de falar ou não, contudo, Pedro era seu melhor amigo e nada passava despercebido ao olhar dessas criaturas companheiras.
— Você acredita que eu estava lá preparado pra guerra e a Sabrina não quis nada comigo? — Acabou desembuchando.
— Sabrina, aquela menina linda que você estava no AP dela agorinha? Pô...
— Sim. Isso aconteceu agora, véi! — Bruno se pôs em postura contestante.
— Como ela não te quis? Você é "mó" galã, como ela pode te recusar? Ela deve estar se fazendo difícil — contestou.
— Ela disse que não queria sexo sem compromisso, queria com alguém que amasse ela... — desdenha, virando o rosto para o lado contrário.
— Pô, mas na humilde, ela não está errada. — Riu fraco, devolvendo a bebida do garoto.
— Boa sorte para ela então — ironizou, pegou a lata e deu mais um gole.
— Vejo que não vai mais tentar com ela, não é? — Pedro largou sua latinha de cerveja vazia na mesa de centro e pegou outra.
— Agora que eu já sei que ela não vai me dar o que eu quero? Sai fora, moleque — esnobou e Pedro riu mais uma vez.
— Para o seu consolo, tenho um lugar para gente ir resenhar.
— Fala aí — animou. — Vai ser aonde agora?
— Na casa de Gael.
— Boa. Vai rolar a "massa"?
— É lógico.
— E da última vez consegui aquele lance com a... — Pensou um pouco. — Esqueci o nome da mina. Mas, meu Deus, se eu conseguir outra vez vai ser irado.
— A Débora. Sim, ela vai estar lá e a minha deusa Ariana também — disse, esmurrando, levemente, a mão de Bruno, e acrescentou: — E eu acho que os manos do Gael vão levar umas balas para gente.
— Que dia vai ser? — perguntou.
— Hmmm... — Ele olha para cima tentando relembrar. — Estamos em Maio de 2019, hoje é dia 26... dia 30. Vai ser dia trinta. — Checou o calendário no celular.
— Ah... — Bruno apoiou os cotovelos no joelho e abaixa o olhar, reflexivo, para a latinha.
— Por quê? — Pedro jogou o celular na mesinha.
— Um negócio que minha mãe quer que eu faça aí, mas deixa para lá, não vai cair no mesmo dia.
— Ah, beleza, mano.
No mesmo instante, um homem bem vestido, alto, branco e engravatado, veio deixar a carne de churrasco, Bruno agradeceu, com a voz baixa e sem olhar diretamente para o sujeito, e o celular de Pedro tocou. Ele assentiu alguma coisa, enquanto Bruno petiscou um pedaço de carne assada do prato que estava dando bobeira na mesinha de centro, sem esquecer-se da mancada de Sabrina.
— E aí? — perguntou Bruno, quando Pedro terminou a ligação.
— Gael confirmou que vai "chegar aí" — informou.
— Pensei que ele não ia vim.
— É torcedor do Atlético Paranaense, 'cê acha que ele ia perder esse jogo com a gente, Brunão?
— Isso tudo é para vermos você ficar só no cheirinho — provocou.
— Vai se ferrar, ow.
Não demorou para Gael adentrar a sala com uma bermuda jeans e uma camiseta lilás muito sofisticada, assim como o comportamento dele. Era tão vaidoso que, preconceituosamente, Bruno desconfiava de sua opção sexual. Contudo, a forma desonrante que ele falava sobre mulheres fazia-se concluir que não poderia ser mais hétero do que isso. O jogo começou assim que o papo deles estava esquentando, fazendo-os interromperem o assunto para assistir melhor.
— Atlético Paranaese vai virar ainda, nossa zaga é muito boa — afirmou Gael no final do primeiro tempo, bem sério.
— Primeiramente, eu achei que torcedor de Atlético Paranaese nem existia — caçoou Bruno, abrindo a mão em protesto, só para ver a reação dele.
— Ainda não, mas você sempre será bambi — Pedro interferiu, fazendo o amigo olhá-lo surpreso.
— Cara, eu tô defendendo seu time, seu mulambo! Ser chato é requisito pra entrar pro fã-clube do Flamengo, é? — Intrigou e começaram a rir da situação.
Mais papos sobre mulheres voltam, conversam também sobre drogas, sobre os próximos jogos, sobre a copa de 2022 que será em novembro...
— Será que o Brasil vai ganhar, véi? Sempre perde, essa porra — Pedro reclamou.
— Se o Neymar não for, a gente ganha... — disse Bruno e Pedro o empurrou enquanto Gael só observava.
— Para, véi, ele é o melhor jogador que está tendo! — defendeu Pedro.
— Só se for artilheiro de rolar grama, né? — revidou.
— Ele, mesmo assim, foi melhor do que o Gabriel Jesus — Pedro argumentou.
— Ah, véi, acho que isso é relativo, o Jesus também jogou muito, apesar dos vacilos, o Neymar já estava de sacanagem! — pontificou. — Até o Philippe Coutinho deu mais resultado que ele...
— Calados! Vai começar o segundo tempo — Gael interrompeu a discussão.
PLÁGIO É CRIME – MENINO DO CÉU! — CARINE AGUIAR
Fale com o autor