Menino do Céu!
3 Capítulo 3 - RAMON
Quando o jogo terminou, Flamengo ganhou de 3x2, os meninos zoaram Gael e, no meio da baderna, o celular de Bruno começara a tocar, mas o toque fora interrompido logo em seguida. Então, ele pegou seu celular, largado no braço do sofá, viu as notificações e eram de Sabrina.
— Quem é? — Gael pulou subitamente ao lado dele para bisbilhotar. — Hmmmm, Sabrina, aquela maravilhosa — comentou, afinando a entonação da voz, quando Bruno visualizou o chat dela no What'sApp, lendo apenas a última mensagem, que dizia:
Sabrina:
Desculpa liguei sem querer, mas é sério, leia tudo que eu disse... 19:58
Ele desprezou o restante ao ouvir Pedro voltar a falar:
— Bruno disse que parece que a mina deu um fora... — fofocou.
— Sério, pô? — Gael olhou para ele, que estava em pé à frente deles.
— É. Sabrina não conta mais na minha lista. Garota sem noção! — Desligou o celular, sem respondê-la.
— Ah, cara, tudo bem, você tem outras mil garotas no seu pé, louquinhas por tu. — Gael, que até então estava quase deitado no colo de Bruno, sentou direito, apoiando e cruzando os pés na mesinha.
— Eu sei, eu sei, são meus olhos verdes em combo com minha pintinha na sobrancelha esquerda.
— Beijos na boca é que não vão faltar e digo mais... — insinuou Gael e mudou de assunto imediatamente: — Eu já vou indo, quer carona para casa, Bruno?
— Demorou, vamos.
Saíram de lá meio tontos, a carona com o Gael caiu bem, eles não ligavam de dirigir embriagados. Assim, não demorou para chegarem ao Guará, cidade em que ficava o edifício de Bruno. Ele encarava aquela construção esverdeada desbotada, contava as janelas, como sempre fazia para denotar a dele. Sete era o número que ele pressionava no elevador e 710 era o apartamento em que morava.
O elevador, mesmo sendo tão abafado, não o fazia sentir o ar tão pesado quanto era ao abrir a porta de casa.
— Eu estou falando contigo, mulher. É melhor me ouvir. — É a primeira coisa que ele escuta.
— Olha aí, o Bruninho chegou. — A mãe ignora o marido, o filho parecia ser o pretexto perfeito para se sair daquele diálogo. Ela o abraçou e disse: — Como você está, meu filho? — Segurou o rosto dele e ele se percebeu sendo analisado até mesmo os poros em sua face.
Mas ele não sabia o porquê. Não sabia o porquê da suposta briga que ele interrompia, da análise da mãe, do ressoar de um desespero disfarçado na voz dela. Ele somente permaneceu em pé, com os olhos pescando, a mente vegetando, a cabeça perdendo o equilíbrio, sensação corporal esquentando e ele não conseguiu forças para uma postura melhor. Apenas aí ele se deu conta do quanto bebeu.
— Deve ter enchido a cara, como sempre. — Aquele que ele conhecia como padrasto passou o palito entre os dentes e cuspiu pela janela. Em seguida, arranhou a garganta de um jeito nojento e subiu mais as calças. — Eu já te falei, Margarida, que esse moleque não presta e não tem futuro nenhum!
— Você não fala assim de mim! — Bruno soltou a maçaneta da porta, ainda aberta, e fez menção de avançar no emissor daquelas palavras, mas a tontura o pegou, ele passou a fraquejar e a mãe o segurou.
Ela o segurou como sempre fizera, desde a infância, quando Bruno corria pela casa com apenas três anos de idade e tropeçava nas sandálias espalhadas pelos corredores.
— Se não, o quê? Você não paga nem uma cueca sua com vinte anos na cara, vai ter orçamento para pagar uma de machão para mim como? — rebateu.
— Meu filho, senta aqui. — Margarida ajeitou o jovem no sofá e ele não tinha energias para se importar mais com a situação.
— Eu não sou teus amigos para você "curtir lombra" não, rapaz. — Passou para o único quarto que tínhamos.
Bruno tentou juntar algumas forças em si para dizer algo, não entendia como tinha ficado tão ruim por conta de um pouco de cerveja. Quando pensou em algo para revidar, uma tosse, amarga e ardilosa, invadiu a sua garganta e o súbito jato de vômito saiu ao chão, respigando aos pés da mãe.
— Vamos tomar um banho — ordenou ela, o erguendo em seus ombros.
— Muita pilantragem desse irresponsável. Vinte anos, vinte — frisou. — E mamãe tem que dar banhozinho igual dá no Bryan de cinco meses.
— Ramon, chega! — pediu Margarida, finalmente se manifestando na conversa.
— Isso mesmo, Margarida. Passa a mão na cabeça do seu filho mesmo, passa para você ver — ameaçou, em tom de aviso.
Com a cabeça deitada no ombro da mãe, que era menor que ele naquele momento da vida, ele encarou o padrasto, que estava com o olhar distraído na janela, lembrou-se do dia que ele o pegou na esquina usando drogas com alguns amigos. Não via razão pela qual Ramon não o denunciara para a mãe, talvez para protegê-la ou para que pudesse viver subordinando o jovem dessa maneira.
— Tudo bem, mãe. Deixa, eu consigo tomar banho sozinho. Para que inventar isso? — reclamou, soltando o braço da mão da mãe e fechando a porta do banheiro.
No silêncio que ficou mais tarde, Bruno ajeitou a cama em seu quarto, que na verdade era mais de Bryan do que dele, apesar de o berço está no quarto do casal. Ao deitar, ainda sentindo os resquícios do álcool no corpo, porém sendo levemente neutralizados pelo relaxamento de musculatura após o banho quente, ele pegou seu Samsung Galaxy J2, sendo a única iluminação do cômodo escuro e checou celular, os amigos dele papeavam no grupo, animando um futebol no dia seguinte.
Pedro:
A gente se junta com os cara de lá, vai se muito toppp 00:10
Bruno:
Eu topo o fut 00:12
Na mesma hora que ele envia a mensagem no grupo, aparece outra, "da indesejada" como ele se referiu a ela em pensamento.
Sabrina:
Boa noite, dorme com Deus 00:12
Bruno bufou, impaciente, queria que a menina colaborasse e o deixasse em paz. Ele já havia ignorado as mensagens anteriores dela nesse intuito. Ela o perguntava se ele estava bem, por onde andava, escrevia textões, fazendo o garoto considerá-la pior do que a mãe. Se ele fosse ela, definitivamente não ficaria forçando barra com alguém que o tratasse assim.
Sabrina:
Desculpa por mais cedo, estou me sentindo culpada. Eu gosto de você, Bruno. De verdade. Mas não gosto dessa ideia de me usar só pro seu próprio prazer. Queria que você gostasse de mim de verdade e me olhasse como se eu fosse a coisa mais preciosa que você já viu. 00:13
— Ai, eca, meu pai do céu! — murmurou para si mesmo, apenas visualizando mais uma.
Ele nunca vira uma menina para pagar papel de trouxa desse jeito. Ela estaria se achando um diamante ou algo assim? Quer saber? Ainda bem que ela não quis — pensou ele. E iria atrás de outra que pudesse ter mais noção do ridículo e amor próprio.
Tipicamente, ele esqueceu o lance todo, colocou na playlist do celular e, quando se é uma pessoa eclética, se encontra Lucas Lucco, Gustavo Lima, funk proibidão, eletrônica, Charlie Brown e Lana Del Rey em uma mesma playlist. Ele foi na cantora favorita dele, que sempre o mantém calmo. Colocou os fones e deu play em uma música da Lana chamada Ride, ouvindo-a até agarrar no sono.
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"Lombra" é uma gíria que exprime sensação de leseira provocada por alguma substância e "curtir lombra" é uma expressão idiomática que, na região do Distrito Federal, teria um significado próximo à tentativa de dividir um devaneio com alguém.
PLÁGIO É CRIME – MENINO DO CÉU! — CARINE AGUIAR
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