Meninas Más Não Têm Bons Sonhos
9 Night VIII - This is an order - Part II
Notas iniciais

Estava entediado. Deixou-se reclinar mais contra a poltrona de seu escritório, fechando os olhos em monotonia. Belo momento para uma insônia, ironizou. Mais um efeito colateral dos inúmeros remédios que era obrigado a ingerir devido àquela doença que lhe debilitava o corpo. Logo fitou entre as estantes e a maneira com que os objetos foram distribuídos com esmero por suas prateleiras, como se milimetricamente posicionados. Os orbes azulados então desfocaram-se ao alcançar as paredes nuas, pintadas num tom neutro e contemporâneo ― o cômodo por inteiro, na verdade, assumia este aspecto moderno e destoava do restante do castelo britânico.
Chegou a quase rir de si mesmo. Estava tentando entreter-se com a decoração para aliviar o tédio! Apesar do conforto transmitido pelos botões abertos da blusa social, sentia-se sufocado. Se ao menos pudesse fumar, desejou com ardor por alguns instantes, apenas para lembrar-se de que seu hábito nocivo foi vetado pelos médicos. E não havia ninguém naquela sala, além dele mesmo, para distraí-lo durante a insônia.
Ainda que cercado de empregados e guarda-costas durante todo o dia, as noites não-dormidas de Gerard Walker eram solitárias. Aos seus subordinados, era ― merecidamente ―concedido o horário para dormir. E dentre os tantos adormecidos naquele edifício extraordinariamente imenso, seu mordomo, Cedric Morris, era um deles.
Pensar naquele loiro sisudo já lhe despertava o bom humor ― não deveria haver em todo mundo alguém tão adequado às suas provocações. Desde a infância, quando o empregado lhe foi designado, encontrara nele um alvo perfeito para seus caprichos infantis. E mesmo ao amadurecer, não deixou de implicar com aquele homem tão severo, que sempre aparentara ser muito mais velho do que sua verdadeira idade deveria transparecer. Afinal, ambos contavam com os mesmos vinte e três anos.
Num reflexo, suas recordações alcançaram algumas de suas brilhantes ideias, ou ao menos assim ele as julgara. Como quando fez com que Cedric vestisse um uniforme ninja, e também o samurai, ao visitarem o Japão. Seu raciocínio era simples: ele deveria adequar-se ao contexto histórico do país, não? Sua real intenção foi apenas divertir-se com a visão hilária de seu subordinado com aqueles trajes em situações constrangedoras (e sem alterar o semblante grave!). Porém, a consciência de que ele aceitava sua natureza implicante ― ainda que a ela reagisse ― o agradava profundamente. Era, sim, um sortudo por ter alguém como ele por perto.
E o tempo gasto em lembranças não foi de todo mal ― rendeu-lhe uma nova ideia; algo que consumiria seu enfado. Se já fizera com que o mordomo usasse daquelas fantasias, desta vez poderia pedir por algo novo: um uniforme militar. Riu com antecedência, pois a expressão séria e o porte rígido de Cedric condiziam plenamente com o espírito do exército.
Decidido a levar adiante seu plano, deixou aquele escritório monótono para avançar, silencioso, até a ala dos quartos dos empregados. A posição de destaque garantia ao mordomo um quarto privilegiado, ainda que seus aposentos não pudessem ser comparados os do próprio Gerard, seu mestre. Com cuidado, o herdeiro Walker alcançou a porta sem tranca, já que privacidade era uma regalia exagerada até mesmo para um servo exemplar como o loiro.
Ainda mais lentamente, caminhou até a cama do homem, pois não pretendia acordá-lo antes do momento exato ― sua surpresa fazia parte da diversão. Enquanto avançava por entre a penumbra do quarto, contudo, modificou seus propósitos. Era raro encontrá-lo tão relaxado, pensou o moreno, ainda que a dormir. Suas madeixas cor de ocre, antes tão alinhadas como de costume, esparramavam-se pelo travesseiro. Encobrindo-lhe a testa, tornava mais jovem o rosto do mordomo. Com a camiseta sem mangas apropriada como pijama, os músculos lapidados com exercícios dos braços e parte do tórax eram visíveis.
Gerard poderia muito bem aproveitar-se deste singular estado, assim como provocá-lo de maneira muito distinta a que mentalizara inicialmente.
Com rapidez livrou-se dos sapatos, antes de subir no colchão que mal comportava a altura de Cedric. Apesar de seus quase dois metros, no entanto, sua aparência nunca intimidara ao herdeiro, muitos centímetros mais baixo. Isto em nada afetava suas posições, e assim como oficialmente eram empregado e mestre, em seus momentos descontraídos permaneciam como provocado e provocador. E este era um destes momentos.
Esboçando um sutil sorriso malicioso, engatinhou por sobre o loiro, até alinhar ambas as faces. Com a mínima movimentação, o subordinado despertou de súbito. E levaria o patrão ao chão, tratando-o como um invasor, se não reconhecesse seu característico aroma, assim como o ritmo da respiração que ele tão bem conhecia. Percebeu então a posição na qual seu superior se encontrava, sustentando-se sobre as palmas das mãos e os joelhos, enquanto mantinha-se tão próximo.
― Senhor Gerard? ― Apesar de seus esforços em manter o tom firme, transpareceu um mínimo eco de seu recente acordar.
― Tinha esquecido como você fica enquanto dorme ― murmurou o moreno, suave. Suas íris azuis ardiam ao fitar o outro.
― Se precisa de algo, posso me arrumar imediat-
Ao calar a oferta solícita de seu empregado, usou de seus próprios lábios. Sem qualquer cerimônia, conjugou sua língua ao contato, entrelaçando-a ao do maior com habilidade. De maneira alguma era este o primeiro beijo entre eles, ainda que o intervalo entre a última vez fosse extenso. Tão preocupado com os inúmeros problemas de família, e tendo como bônus um meio-irmão rebelde a frustrar todo o seu planejamento, pouco tenho tinha para permitir-se aproveitar de seus prazeres. Porém, ao menos por aquela noite estava livre ― livre para desfrutá-la com aquele que compartilhara de todas as suas primeiras experiências.
Depositou todo o desejo acumulado em seu gesto, devorando os lábios de Cedric com uma voracidade que contrastava com a elegância natural que sua imagem transmitia. Talvez houvesse herdado de sua mãe a habilidade instintiva de atrair, através de sua imagem, seu porte e sua voz, a qualquer um a que se dirigisse. No entanto, nada poderia cativar mais do que seu próprio toque: o sabor de sua boca, assim como sua textura e maciez, mesmo quando ferozmente esmagados contra os lábios finos do mordomo. Somados ao inebriante odor de cigarros caros já inerente ao seu corpo, sua presença era marcante e irresistível. Tentadora.
Principalmente quando afundava seus lábios aos do serviçal, que obviamente reagira ao ataque repentino, apesar de um breve momento de surpresa. Levou suas mãos calejadas aos braços bem proporcionados de Gerard, pressionando-os com uma força incontida. Em meio ao beijo, o menor liberou um gemido abafado, arrepiando-se com o contato ― e percebeu que seu gesto fez com que o outro retesasse, em preocupação.
Que droga! Ele não era a porcaria de uma boneca frágil para quebrar-se com facilidade. Aparentemente seu mordomo não concordava com esta proposição, já que deixou de correspondê-lo com a mesma intensidade de antes ― e aquele leveza o deixava possesso! No entanto, também notou a força de vontade com que Cedric reprimia-se; ao afastar-se, para recuperar o fôlego, aproveitou-se para fitá-lo com um sorriso obsceno e desafiador.
― Ok, Ceddie ― sussurrou rouco, ao aproximar-se a ponto de tocar sua testa com sua franja negra. ― Vamos jogar, se é isso que quer.
Seguiu as palavras com sua própria investida, avançando sobre o pescoço do outro com os lábios aquecidos. Percorreu a extensão numa trilha úmida proporcionada por sua língua, e as lambidas foram seguidas por chupões. E mordidas. Enquanto arrastava os dentes por sobre a pele do loiro, também friccionava suas coxas com auxílio de um dos joelhos, metido entre suas pernas. Ao fincar seus dentes na carne do outro, ao mesmo tempo em que chegou a roçar de leve em sua ereção, sentiu que o controle do mordomo sofreu um breve deslize, pois as mãos em contato de seu corpo o agarraram com veemência mais uma vez.
Mas aquele maldito domínio o frustrava, ainda que a consciência de que conseguira despertá-lo tenha satisfeito seu ego. Apesar de seu autocontrole, ele não poderia disfarçar o órgão rijo entre suas pernas. Ansiando por alguma reação mais divertida, Gerard prosseguiu ao sugar e morder do corpo do outro ― deliciava-se com qualquer mínimo contorcer enquanto avançava para baixo.
Nem mesmo a camiseta que encobria o tronco de Cedric era um empecilho para sua vontade: fitando-o enquanto o fazia, usou de seus dentes para puxar o tecido até onde pôde alcançar. Sabia que seu olhar iria ampliar a excitação do outro, e estava ansioso para observar de sua reação. Até mesmo permitiu-se rir (uma risada baixa, lasciva) quando os olhos desbotados do empregado arregalaram-se minimamente. Suas íris azuladas escureceram-se com o desejo crescente ao fitar o corpo abaixo do seu ― toda uma extensão de músculos pronunciados, apenas à espera de sua boca faminta.
Se ele quisesse se manter estoico; pois bem, iria aproveitar-se até romper de vez qualquer restrição sua. Ainda que compreendesse o motivo pelo qual o mordomo agia de tal maneira, isto não lhe impediria. Provocá-lo deixava tudo mais interessante. Além disso, não se deixaria levar pelas limitações de seu corpo. Desde que sua relação com o loiro atingiu tal nível de intimidade, as marcas de suas carícias sempre se destacavam entre sua pele pálida ― como manchas que denunciavam aquelas noites cálidas e desenfreadas.
Mas ele mesmo estava pouco se lixando para aquilo que poderia muito bem ocultar com um terno. De maneira alguma deixaria de aproveitar da vida e seus prazeres devido às suas limitações físicas. Cedric, contudo, não compartilhava de sua opinião, e atiçá-lo até que pensamentos coerentes não se manifestassem era algo constante na relação de ambos. Quando ele relutava, crescia em seu íntimo a vontade de quebrar esta relutância.
Era com este objetivo que delineava o tórax e abdômen com sua língua, ou sugava do peito de modo a criar também suas próprias marcas. Apesar de suas pretensões, o moreno também era atraído pelo aroma masculino, como se instigado a provar mais e mais por aquele cheiro desconhecido e envolvente. Não deixou nem um momento sequer de esfregar-se contra o membro que latejava, assim como o seu próprio.
E por que não estimulá-lo mais?
― Acho que não dá para aguentar muito mais, não é? ― murmurou, em um tom sedutor e arrastado, ao apanhar o comprimento teso ainda recoberto por pano entre sua mão.
Ao afastar seus lábios da pele de Cedric, sorriu travesso para ele, enquanto ajustava sua posição ao envolver seu quadril com as duas pernas desta vez. Pôde enfim sentar-se em seu colo, e o atrito entre os corpos fez-se intenso e enlouquecedor. Quando avançou novamente até a boca do homem loiro, não deixou de contorná-la com a língua em provocação, antes de adentrá-la com ímpeto e ousadia.
Como da primeira vez, o serviçal reagiu de imediato, pressionando suas coxas ao retribuí-lo. Mas agora era ele a dominar seus lábios, explorando-o à sua vontade com uma sede quase opressora. Ao enroscar sua língua à outra, em uma indescritível e plena satisfação, Gerard também ondulava seu corpo ― inicialmente lento, para acelerar conforme os dedos a agarrar suas pernas aumentavam de intensidade, assim como com o beijo a arrancar todo o seu fôlego.
Com o mover cadenciado de seu quadril, o friccionar de sua ereção à dele, contínuo e insinuante, levou o empregado a ceder à sua tentação. Deixou de beijá-lo para devorar de sua garganta, e seus lábios e dentes não eram nada gentis a enfim saciarem-se. Ainda em seu colo, Gerard insistia em seu roçar, ainda que seus movimentos sofressem pequenas interrupções quando o líder Walker apenas conseguia gemer indecentemente.
E de súbito se viu pressionado contra a maciez do colchão, quando Cedric inverteu suas posições sem qualquer dificuldade. Ambos se encararam, por alguns segundos apenas, conscientes somente da ânsia um pelo outro ― e o loiro invadiu seus lábios de novo. Eram brutas as mãos a percorrer o corpo do mestre, agora subjugado por seu subordinado.
Logo avançou para satisfazer sua fome, mordiscando e lambendo o pomo-de-adão do menor enquanto as mãos agora despudoradas lhe arrancavam grunhidos e gemidos ao incitá-lo em toda a superfície ao alcance. Apertou entre seus dedos quadris, coxas, nádegas, com uma intensidade proporcional aos arrepios do moreno a retorcer-se abaixo de seu corpo. E, impaciente, o mordomo nem ao menos despiu-lhe com cuidado da fina roupa que vestia ― acabou por arrebentar os botões com a força de seu puxão.
Agora eram seus lábios, sua língua a acariciar vorazmente o torso de Gerard, proporcionando-lhe as marcas que poderiam durar semanas tal foi a avidez. Mordidas davam lugar a mamilos sugados, seguidos de lambidas e chupões. Não havia tempo para se recuperar ― ou pensar. E desde que o mais alto liberara seus instintos, o herdeiro nem uma vez recordou-se de que conseguira seduzi-lo.
Num ímpeto, sua calça foi arrancada, assim como sua veste íntima. Ao contrário de si mesmo, o loiro usava de sua ferocidade insana, e não de uma sedução hipnótica. E assim o acariciava, com violência, ao arranhá-lo com unhas e dentes, ao criar talhas com os dedos a pressionar suas coxas. Aquelas marcas denunciavam sua presença ― silenciosa, ainda que arrebatadora.
Extasiado e agora rendido, o moreno lançou para trás sua própria cabeça contra o travesseiro, enquanto entrelaçava seus dedos às madeixas claras do maior. Com isso, sua garganta ficou mais uma vez exposta para que o mordomo dela abusasse com sua língua, enquanto as mãos ocupavam-se em envolver o membro de seu mestre ― teso em toda a sua extensão. Antes de iniciar qualquer movimento, tocou sua glande, espalhando a lubrificação da ponta à base, para em seguida deslizar por todo o comprimento repetidas vezes.
Em meio a um prazer entorpecente, Gerard nem ao menos percebeu que o outro mudara de posição, somente quando os dedos foram substituídos pelos lábios do subordinado. Sua boca era quente ao envolvê-lo, assim como era úmido o rastro lascivo de sua língua. Ainda fixadas entre os fios loiros, as mãos do homem menor agarravam-se com sofreguidão àquilo que lhe mantinha a única e estreita relação com a realidade. Porque era tragado para um inexorável êxtase enquanto sentia a ereção a pulsar entre lábios ávidos que o comprimiam; estava prestes a liberar-se no fundo da garganta de seu mordomo. E permitiu liberar sem nenhuma restrição sua voz, sem preocupar-se nem mesmo com a porta entreaberta a delatá-los.
― Cedric...! Cedric!
****
Sentiu algo duro a aparar-lhe a queda, mas o sono ainda presente fez com que sua percepção fosse mais lenta que de costume. Não demorou a percebê-lo, no entanto. Que ótimo, caíra da cama com aquele pesadelo bizarro! Enrolada entre os lençóis, estatelada no chão, também notou que uma figura pequena completamente desperta lhe fitava de pé.
Suzuna apanhou entre seus dedos um dos jogos sobre a cômoda, analisando-os com uma profundidade desnecessária. Enfim pronunciou-se, sem fitá-la:
― Onee-chan, não deveria ficar até tarde jogando ― complementou, como sempre apática: ― Você fala enquanto dorme.
Droga, até ela!
― O... O que você ouviu? ― sondou Misaki, receosa.
― Se me dissesse que era fujoshi, eu poderia ter ganhado alguns para você. ― E acenou com um dos discos, ignorando sua pergunta por completo.
― Suzuna, eu- ― Era inútil, pensou a morena. Convencer sua irmã mais nova seria tempo desperdiçado. Talvez o que dissera fosse constrangedor demais para relembrar. Não sabia o que significava o termo estranho que ela utilizara, mas também não estava interessada o suficiente para perguntar.
Apenas queria esquecer... de tudo.
― Ah, alguém te ligou ― acrescentou a garota, deixando o quarto.
Merda! Ao apanhar seu celular, a tela denunciou as vinte e uma ligações de um único número que ela desconhecia. Entretanto, era óbvio a quem pertencia, e confirmou sua hipótese ao atender a vigésima segunda chamada.
― O que você quer? ― vociferou, enraivecida. Seria capaz de socá-lo se ele estivesse ao alcance de suas mãos. Sim, um belo de um punho fechado a atingi-lo em cheio!
― Como estamos amáveis hoje ― implicou Usui, sem alterar o tom tranquilo. ― E como vão os sonhos, Misa-chan?
― Não te interessa! ― berrou, constrangida ao lembrar-se de que fora o irmão mais velho dele a protagonizá-los desta vez. ― E se continuar, vou desligar na sua cara!
― Sabe que vou ligar de novo ― continuou ele a irritá-la. E conseguiu, pois ela grunhiu muito mais furiosa.
― Vai continuar a zombar de mim até quando, seu idiota? ― questionou, e sua voz delatava sua raiva.
Takumi pareceu pensar por alguns segundos, somente para responder simplesmente: ― Enquanto continuar divertido.
Sua paciência já ínfima esgotou-se, e por alguns segundos deixou de respirar enquanto reunia o fôlego necessário para gritar a plenos pulmões:
― Imbecil! Babaca!
Enfim encerrou a ligação daquele estúpido, atirando o aparelho à cama ainda desarrumada. Ter que lidar com ele, ainda por cima! Porém, desta vez sua maior preocupação não era um maldito implicante. Aqueles sonhos estavam piorando. Como se predissessem algo. E, como sempre, ela não tardaria a descobrir.
Fale com o autor