Memórias de vidro

16 Tu me amarás muito mais, Edmund....


A noite dava-se estrelada com a lua crescente ascendente ao céu. Contudo, a beleza da noite fora deixada de lado quando decidida a aparecer cobrindo a festa real. O palácio iluminado por diversas luzes era o centro das atenções. O baile comemorava o aniversário do rei, ao menos é o que me lembro.

Haviam pessoas dos mais distantes lugares, desde Baronados a Ducados. O salão principal detinha o tamanho de minha casa, impotente se comprada ao salão real. Havia mesas distribuídas por todos cantos, mesas redondas cobertas por um grosso tecido vermelho, ao centro localizava-se um castiçal quíntuplo; apesar que deter velas acesas, não iluminava como as lâmpadas grandes e redondas presas aos lustres. No centro havia uma grande clareira a fim de apresentar a dança coreografada pelos próprios convidados.

Estava estonteantemente admirado. Em meu braço direito enganchara Elizabeth. Caminhamos entre a multidão costumeira de repórteres e da plebe eufórica. Daniela e Carmelia ficaram em casa. Ordenei que Carmelia estudasse e Daniela descansasse de eu arrastá-la a todos os lados.

Finalmente chegamos ao outro lado do grande tapete. Entramos no salão e nos dirigimos à mesa mais próxima da saída. Não demorou até Grão-Duque se aproximar de nossa mesa.

— É um prazer te ver, Edmund.

— O prazer é meu.

— Parece estar mais saudável. Estás se acostumando com a intensa rotina?

— Obrigado. Aos poucos me acostumo. — Sorri. — E tu, como estás? Ouvi boatos que renunciará às posses sobre Morckiaschen.

— Pretendo, estou ficando velho e minha esposa não pode dar herdeiros. Preciso diminuir meu poder.

— Entendo, administro apenas um Marquesado e um ducado. Não imagino ter essa responsabilidade.

— Não é muito além do que já faz. — Sorriu. — Mudando o assunto. Soube que adotou uma jovem do orfanato. Nobre de tua parte.

— Obrigado. O pai dela fora quem cuidou de meus ferimentos quando levei o tiro.

— Compreendi. Coube também que ela fará medicina. Tem futuro. Agora, dar-lhe-ei um conselho, essa fama está se espalhando.

— Entendo. Fora exatamente como a diretora do orfanato previu.

— Eu acredito no senhor, porém, és um prato suculento de notícias cozidas pela mídia. Logo falarão que terás um bordel, como já dizem as manchetes sarcásticas do jornal.

— Aprecio a preocupação, no entanto, minha imagem é quase dispensável quanto aos meus objetivos. Além disso, se o farmacêutico tivesse um filho, adotar-lhe-ia. Quanto a Daniela, quem escolhera como minha criada particular fora a própria Branca.

— Não se explique, confio em ti. — Olhou para atrás. — Vou-me à mesa. Minha esposa me chama. Foi bom conversar com o senhor.

— Idem. Aprecio tua cordialidade. Espero conversarmos novamente.

Cumprimentamo-nos e depois me sentei-me novamente.

— É um bom homem. — Disse Elizabeth. — O Grão-Duque.

— É sim. Sua presença é confortante. Quase como a de um pai.

— Ele gostou de ti. Nunca virá tão íntimo de alguém, senão sua própria esposa.

— É bom tê-lo como amigo. — Sorri. — Como inimigo seria um caos.

Alguns conhecidos aproximaram-se para conversar. De repente as luzes se apagaram e no palco fugava um holofote sobre o escrivão trajado com um esmouque negro.

— Senhores, aprecio vossa presença nessa célebre data. Vossa magnificência o rei e sua noiva.

Subiram ao palco. Estavam trajados mais ricamente do que quando se apresentou prela última vez. O rei trajava um casaco preto com medalhas e adornos de ouro, uma calça de flanela negra e sapato de mesma cor. Branca usava um vestido rendado, costurado pela mais alta costura artesanal, provavelmente importado da França. Era negro com rendas vermelhas, um tanto gótico talvez. Seu cabelo estava amarrado em coque preso por um prendedor alongado, usava também um chapéu de abas longas e enfeitado por redes de seda.

— Aprecio a vinda de vossas senhorias à festa de meu aniversário. Espero que todos apreciem. — Anunciou o rei.

A música começou a tocar. Não demorou até Branca vir nos cumprimentar.

— Oi, Edmund.

— Oi, Branca. — Respondi-lhe.

— Oi, irmã. — Cortejou Elizabeth.

— Olá, Elizabeth. — Respondeu.

Sentou-se à mesa e ajeitou-se confortavelmente.

— Como vem passado, Edmund?

— Bem. E tu?

— Bem.

— O casamento está próximo. Estás ansiosa?

— Mentiria se dissesse que não, porém, não estou fixada apenas em tal evento. A propósito, soube que adotaste uma menina, é verdade?

— Sim é.

— A filha do farmacêutico, se não me engano. Estou certa?

— Estás, veja só que perspicaz de tua parte.

— Teus abusos estão aumentando.

— Nossos laços estão se dissipando.

— O que quer dizer? — Tornou seu semblante sério. — Sou tua mãe.

— Do que adianta ser mãe e esconder demasiadas coisas do filho?

— Apenas me preocupo contigo. — Disse cabisbaixa.

— Qual cargo ocupará quando se tornar rainha? — Mudei o assunto.

— Chefe da inteligência real e estrategista de combate. Por quê?

— Para saber quem terei que enfrentar. — Sorri.

— Entendo. Parece que nasceste com minha convicção. — Devolveu o sorriso.

— Provavelmente. Há assuntos que adoraria lhe contar, como quando fui à Collins anunciar meu conhecimento sobre os atos e Phelip Matos ao próprio. Dar-te-ia orgulho.

— Parece bom; outro dia me Conde, trocaremos alguns segredos. — Sorriu. — E tu, estás melhor? Irmã. — Perguntou à Elizabeth.

— Estou. O tempo é o único remédio eficaz. — Sorriu. — E a tua relação com o rei, é como?

Apoiou-se sobre a mesa. — Nada do que imaginam. – Pôs a mão no ombro esquerdo e estatelou os olhos para baixo.

— Entendo. Devido ao passado, não é mesmo?

— Qual passado? — Perguntei.

— Nenhum que te interesse. — Respondeu Branca.

Levantei-me e sai. Elas continuaram a conversar. Dirigi-me ao grupo de nobres de idade próxima a minha. Entrei na roda.

— Perdoem-me a intromissão, senhores. — Pedi.

Consentiram por minha entrada. Lá haviam os gêmeos Fabrico e Fábrico Gaspado, filhos de um burguês dono do condado Praieiro. Eram loiros, olhos castanhos, magros e altos. Havia também o Joaquim B.... Não recordo de seu sobrenome, fora uma casa que não durou muito tempo. Era magro e baixo, cabelos negros e olhos azuis. Também se encontrava a Josefina Magalhães, corpo rígido e bem formado, como uma mulher madura; rosto oval e fino, linda moça. Olhos negros e cabelos de mesma cor, em contraste sua pele era branca. Acompanhada dela estava sua prima, Margarida Magalhães, digamos que eram tão parecidas, podendo ser chamadas de irmãs gêmeas. O motivo do qual se dava, era que seus pais eram gêmeos e as esposas eram gêmeas; dois irmãos casaram-se com duas irmãs. Mesmo hoje quando lembro, pego-me a pensar como é curioso.

— É um prazer conhecer-vos, senhores. — Cumprimentei-os. E voltei-me às moças. — É um prazer conhecê-las, senhoritas. — Beijei-lhes a mão.

O reciproco dos cumprimentos aconteceu.

Infelizmente não entrei mais à conversa. Apesar de eu ser um ou dois anos mais velho, os seus assuntos não me agradavam. Talvez eu tenha mudado demasiadamente, contudo devido aos fatos decorrentes que vivi, talvez estes fizeram-me amadurecer.

Disfarçadamente me afastei da roda que falava vulgarmente dos poderes de seus pais, sobre a moda e relacionamentos. Articulei-me revolta à mesa. Branca já se retirara.

— Estás sozinha? — Perguntei à Elisabeth.

— Como vês, sim. Fui abandonada à deriva, sozinha. — Brincou. — Vamos dançar?

— Com o maior prazer, madame. — Sorri.

Eu e Elizabeth dançávamos sem preocupações. Leve e calmamente. Dancei também com outras mulheres na troca de casal. Retornei à mesa e pus-me a beber vinho e comer alguns aperitivos.

A música parou repentinamente.

— Cá Voltei-me, senhores. Digo-vos que meu casamento será em um mês. Apreciaria a presença de todos aqui presentes. — Anunciou, o rei.

Não fiquei muito tempo depois do pronunciamento. Elizabeth voltara comigo em meu carro. Era três da madrugada, o calmo ar de Morryes me dava sono. Não demoramos a chegar. Dirigi-me diretamente ao meu quarto, deitei-me em minha cama e dormi sem nem mesmo tirar a roupa.

Após alguns minutos acordei com Daniela me chamando, sussurrava meu nome e pedia para que acordasse.

— O que queres?

Um disparo ocorreu. Saltei da cama.

— O que está havendo?

— Estão aqui.

Abri as gavetas e peguei as pistolas. No bolço do casaco guardei os carregadores e apunhei uma pistola, a que ganhei da M&M. Daniela apunhava as duas que comprara na casa das armas. Infelizmente todas as armas que compramos estavam guardadas na sala dos guardas. Saímos do quarto e seguimos pelos corredores.

— Onde estão os guardas? — Perguntei.

— Mortos.

— O que?

Partimos ao aposento de Elizabeth. Seu quarto estava em estado caótico, haviam procurado algo em tudo. Roupas espalhadas, cortinas rasgadas, papeis jogados ao chão.

E lá sobre a cama jazia Elizabeth, inerte, não respirava ou esboçava os mínimos sinais de vida.

— O que é isso? — Lagrimas se jogavam de meus olhos.

Daniela me puxou. Não poderia ficar em luto em um momento como o qual passava. Corremos pelos corredores e descemos as escadas.

Eu estava atordoado, não acreditara que tudo aquilo fosse verdade. Pois bem, era. Provei a resposta de minhas dúvidas quando eu fora alvejado nas costas por um projetil que perfurou o pulmão. Respirava com dificuldade. Seria mais confortante não ver o sangue, porém, via-o, pois, o projetil varara meu tórax. Senti meu corpo frio. Daniela atirou e alvejara o homem, acertou-lhe cabeça. Agarrou-me pelos braços e ajudou-me a levantar.

— Ele não morreu, contudo, isso foi o bastante para desmaiá-lo. — Disse Daniela.

— Acertar-lhes a cabeça deixa-os inconsciente? É bom saber. — Indaguei com dificuldade.

Saímos da casa e seguimos a qualquer direção, qualquer rua que pudesse abrigar nossa segurança.

Sentia falta de ar, escorria sangue pelo nariz e pela boca. O refluxo do sangue pela traqueia fazia-me tossir demasiada e incontrolavelmente.

Quando quase chegando à ponte Vlinckouger, senti mais um golpe do chumbo, dessa vez na perna. Logo estatelei-me ao chão. Perdera muito sangue, apenas puder ver Daniela arrastando meu corpo inerte, o qual já não possuía força para mexer um musculo.

Apenas mantive-me acordado, entretanto, o som era quase inaudível. Uma visão conformou-me nesse momento. O perseguidor fora alvejado na cabeça também. Parecia o último a cair. Notei que Daniela havia ferimentos de vários projeteis, dois em seu peito, um em um braço e outro no abdômen.

Estávamos agora sobre a ponte Vlinckouger. O sibilar da brisa ainda é nítido em minhas lembranças. Estava frio e meu corpo dormente. Daniela deitou-me no chão. Meu corpo fora assolado por uma dor lancinante, no entanto, eu não possuía força para falar ou gritar qualquer coisa. Senti meu sangue escorrer da boca. Sufoquei e tossi inúmeras vezes. Comecei a tremer e perdem o tato. Daniela descansou minha cabeça sobre o seu colo e caiu em prantos.

— Desculpe, bem quando te amo, despeço-me. — Proferi com o resto de minhas forças.

— Tu me amarás muito mais, Edmund....

— Adeus...

Fechei os olhos.

Quando despertei, minha visão estava opaca, via apenas a luz branca da manhã. Havia uma multidão ao meu redor. Estava atordoado e não compreendia o que estava havendo.

Aos poucos escutei meu nome. — Edmund, Edmund. – Bradava a voz da Branca. Senti ser puxado.

Jogaram água em meu rosto. Logo uma pequena parcela dos sentidos voltou.

A imprensa estava toda ali. Realmente era Branca a me agarrar.

— O que está havendo? — Perguntei ainda entorpecido. Mas som não sira da minha boca.

— Não mexam nos corpos. — Ordenou um policial que segurou Branca e tirou de perto de mim.

O dourado em meu peito brilhava com fulgor os fios de cabelo da Daniela. Afaguei-a com calma.

Olhei ao redor. Não havia semblantes aliviadas, pelo contrário, mostravam-se apavorados. Flashes de câmeras a todos os lados, brilhos e mais brilhos. O som ficara mais claro. Ouvi então os cochichos e lamentações, os gritos e os prantos. Também ouvi as sirenes e buzinas.

Abri largamente os olhos e levantei rapidamente meu tronco. O silencio ecoou o bater de meu coração e os sussurros alheios em volta.

Olhei Daniela, seus olhos estavam fechados, o corpo frio e flácido.

Seu rosto apresentava-se sereno com um sorriso fraco.

"Tu me amarás muito mais, Edmund..."

Fora o que lembrei. O que isso queria dizer?

— Daniela. Acorde. — Sacudi fracamente seu corpo. — Acorde... Acorde. — Dos meus olhos, vertiam lagrimas. — Acorde, isso e uma ordem. — Bradei.

Abracei-a fortemente e beijei-lhe os lábios, estavam frios e tristes, contudo, o que fora o estopim para meu infortúnio fora não sentir seu coração bater.