Memórias de vidro
17 Seu pranto fora tão silencioso, porém, tão violento.
— Senhor Panz, sinto muito.
Seu pranto fora tão silencioso, porém, tão violento. Sentou-se no sofá e apoitou seus cotovelos sobre os joelhos e com eles sustentou seu rosto.
Após se acalmar o suficiente para falar.
— Como ela morreu?
— Não sei ao certou, desacordei antes. Quando despertei já havia ocorrido. Fomos surpreendidos por assassinos.
— Entendo. Os Werckinberrevichs?
— Exato.
Enxugou as lagrimas sobressalentes e ajeitou-se no sofá.
— Quando trarão o corpo? Quero que seja enterrada aqui.
— Em uma semana.
— Como sobreviveu?
— Não sei ainda. Quando acordei estava cicatrizado.
— Suspeito o que ela fizera.
— Por favor, não diga. — Supliquei. — Não quero que minha culpa venha da tua boca. Imploro.
— Não te culpo, meu jovem. Tu farias o mesmo por ela.
— Sinto não poder trazer-lhe o corpo antes, enquanto está em perfeito estado.
— Ela não apodrecerá. “Nem mesmo a terra os querem.” É o que dizem. — Pausou a fala por alguns segundos. — Pedirei café, não posso mais esconder-te a verdade sobre Daniela.
Sentei no mesmo sofá e ajeitei-me.
— Meu rapaz. Contar-te-ei tudo o que sei. Primeiramente, como sabes, Daniela não tem meu sangue. Minha esposa era humana, porém, o sangue vampírico dela provém de uma linhagem das mais nobres casas onde hoje é a União Soviética. Ela é a filha bastarda de Nicolau II, antigo Czar russo. Quando soube que Margareh havia engravidado, o imperador ordenou sua morte. Por eu ser guarda, sabia como sair das terras. Usufrui de subornos e camaradagens de amigos. Daniela é filha ilegítima do antigo czar do império russo. — Continuou Josef. — Parece que finalmente conseguiram o que desejavam, eliminar o sangue real por completo.
— Encontrarei o mandante do crime, senhor Panz. Irei atrás dele e vingarei a morte de Cecília e Daniela.
— Obrigado. — As lagrimas voltaram-lhe à face. — Espero poder ajudar de alguma forma.
— E ajudará. — Levantei-me. — Vim dar-te a notícia pessoalmente. Devo retornar, em dois dias ocorrerá o enterro da Elizabeth, mãe da Cecília. Peço perdão por não ficar mais.
— Eu sabia que uma hora algo aconteceria com Daniela, mas não esperei que ser tão logo.
Caminhei ao carro. Apertei-lhe a mão. — Trarei o corpo de Daniela, para que seja enterrada em sua casa, em seu domínio.
— Obrigado.
— Desculpe. — Ajoelhei-me. — Perdão. Eu fui a causa da morte de tua filha. Não choro mais, eu secara todas as lagrimas que possuía.
Meus olhos estavam fundos, abraçados por uma olheira quase negra, estavam vermelhos devido a irritação do pranto. Eu ficara mais pálido e pouco mais magro.
Levantei-me e entrei no carro.
Fora uma longa e penosa viagem de trem. Fiz o mesmo itinerário de quando estava com Daniela. De tempos em tempos debruçava-me na janela e me punha a devanear.
Quando me induziram ao sono logo depois que acordei com Daniela entendida em meus braços. Fui levado ao hospital. Lá acordei. Branca estava sentada no meu lado dormindo pacatamente.
— Parece que não foi um sonho, não é mesmo? — Movimentei levemente seu ombro.
Acordou e direcionou seu olhar diretamente a mim. Olhos lustrosos e aliviados.
— Como se sente, Edmund? — Perguntou preocupada.
— Estou bem, fisicamente.
Lagrimas caíram em meu lençol. — Minha irmã está morta. Até ontem estavam tão bem. Por que houve tudo isso?
— Eles conseguiram o que queriam, mãe.
— O que quer dizer?
— O objetivo deles era a morte de Daniela. Eles mataram as pessoas que eu mais amava, as três pessoas que me amavam.
Branca calou-se e abaixou a cabeça.
— Juro por Deus, mãe. Eu os encontrarei! Eu os encontrarei! Tu aprovando ou não.
— Não direi nada.
Olhei o console ao lado do leito. Jazia um jornal.
— Dê-me o jornal, por gentileza.
Pus-me a folhá-lo. Logo na primeira página havia uma manchete que dizia algo mais ou menos assim: "Violência ou malevolência?" Dessa vez eles acertaram a manchete. Nem mesmo eu sabia o que responder àquela pergunta. Li o artigo. Levantei com dificuldade, precisei da ajuda de uma bengala. Com o auxílio de uma enfermeira pude vestir-me.
— Aposto que há inúmeros repórteres parados em frente ao hospital. — Indaguei.
— Certamente, nem mesmo eu posso aparecer em público.
— Pois bem, encará-los-emos de frente.
— Vamos. — Sorriu, agarrou-me pelo braço e caminhamos juntos pelos corredores.
Os pacientes e funcionários fitavam-nos de modo surpreso. Senti meu coração bater forte ao passo que chegávamos mais perto da porta da frente do hospital.
Estufei o peito e com coragem abri a porta. Logo flashes e mais flashes surgiram. Perguntas aleatórias uma por cima das outras. Havia gritos e cochichos. Com Branca ainda enganchada em meu braço dei passos calmos e lentos. Por inacreditável sorte consegui penetrar na multidão e continuar caminhando. As pessoas nos evitavam, mesmo fazendo-nos várias perguntas, mantinham-se afastadas. Apenas os ignoramos. Não fora difícil chegar a um ponto de taxi. Já havia um esperando algum cliente. Entramos nele e ordenei que fossemos a minha casa. Estava destruída por dentro, quase irreconhecível. Os criados ajuntavam no que podiam. Separavam o que ficaria e o que iria ao lixo.
Seguimos à sala de chá e sentei-me na cadeira. Apenas pus-me a olhar ao redor. Chamei o mordomo.
— O que deseja, mu senhor?
— Quem morreu? Exceto Elizabeth e Daniela.
— Os guardas apenas. Os demais se esconderam nos alçapões de segurança.
— Entendo. Estou aliviado.
Enquanto voltava de Panz, fui surpreendido por uma visita.
— Estou surpreso em ver-te, senhor Logan.
— Mesmo? — Sorriu.
— Na verdade não. — Continuei. — Já há algum tempo que não nos encontramos.
— Meus pêsames por Daniela.
— Obrigado. Sente-se.
Assim fez, sentou-se em minha frente.
— Estás só? — Perguntei.
— Sim. Fui a uma reunião para orçamentar um grande pedido.
— Compreendo. A propósito, gostaria de fazer-te um rápido interrogatório.
— Sobre?
— Bem. Deixando de lado as cortesias e cumprimentos. — Disse em tom sério. — A M&M trabalha para quem?
— O que queres dizer? Meu senhor.
— Exatamente o que escutou. Para quem o senhor trabalha?
— Não estou entendendo.
Saquei minha pistola e apontei a ele. — Para quem trabalha? — Bradei.
O suor escorreu em seu rosto, os olhos alargaram-se e as sobrancelhas levantaram-se.
— O alvo de teu grupo está morto. Sempre que podiam, apontavam uma arma a ela.
— Desculpe...
Interrompi. — Eu sei que és parceiro de Hantz. Tua quadrilha armamentista fabricava armamento para os Black Night.
— Isso é um ultraje. Mesmo do senhor, não posso receber tais acusações.
— Não minhas, senhor Logan. Já notara os pontos há muito tempo. Não se preocupe, não abrirei a boca. Apenas diga, para quem o teu grupo trabalha? Bem.... Tu não dirás nada. Ao menos diga-me quem assassinou Cecilia, Daniela e Elizabeth?
— Não adianta ir atrás deles sem poder matá-los
— Então o que mata?
— Não posso dizer.
— Apenas diga-me se estão do lado deles.
— Não.
— Entendo. Se não estão contra mim, não interferirei.
— Posso te perguntar algo?
— Pode.
— Como Daniela faleceu?
— O senhor sabe bem como ela morrera.
— Então ela fez mesmo?
Peguei um canivete que sempre carregava em meu bolço. Armei-o.
— Sabe, senhor Logan. — Passei firmemente a lâmina do canivete na ponta do meu dedo indicador esquerdo. — O senhor pode ver claramente o que ocorrera.
Da ponta do meu dedo escorreu sangue. Era negro como nanquim. — O senhor bem sabe que Daniela era uma vampira nobre, não é mesmo? — Continuei.
— Ela se suicidou. Mas por que teria feito isso?
— Por que eu falecera em seus braços.
— Entendi.
— Quero dizer a ti antes. Se alguém me perseguir, alguém do teu grupo, acabarei com ele.
— Como queira, meu senhor.
— Deduzo que os Black Night os cassem, estou certo?
— Não tenho motivo de esconder do senhor. Sim, nosso grupo, Black Night, caça e mata os Werckinberrevich.
— Por esse motivo retiravam os dentes das vítimas dos assassinatos?
— Sim.
— Por que o retalhamento?
— Não posso dizer.
— Descobrirei mais cedo ou mais tarde. A propósito, ninguém deve saber o que sou.
— Como queira, meu senhor.
Levantei-me e abri a porta.
— Não demorarei a procurar-te novamente. — Afirmei.
Cumprimentou-me e saiu da minha cabine.
Não ocorrera nada no resto da viagem, quando retornei a Morryes havia um criado me esperando. Após duas horas depois de haver voltado.
— Meu senhor. O velório de Elizabeth fora adiantado, está ocorrendo. Branca ordenou que lhe desse a notícia.
— Obrigado por fazê-lo. Se quiser retornar a minha casa, fique à vontade, está dispensado.
— Desculpe, mas gostaria de ver a madame pela última vez.
— Vamos encontrar um taxi.
Seguimos ao velório. Realmente era um dia como Elizabeth adorava, não muito quente, porém, era colorido e vivo. Ela adoraria ter visto esse céu.
O tumulo de Elizabeth era ao lado do marido, o antigo Duque de Morryes. Jazia as palavras "Vivi, vivi pouco, tão pouco, mas vivi o suficiente." Seu nome e as datas de nascimento e óbito. Eram escritas em tinta prateada sobre mármore negro torneado e entalhado.
Foi um belo funeral, sem chuva ou algo que desfizesse o lindo dia que era.
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