Memórias de vidro
18 Nesse momento lembrei-me de uma incógnita.
Era meia noite de novembro, final de novembro para ser mais exato.
Levantei-me e caminhei calmamente à cozinha. Não havia criados acordados. Estava escuro e eu não encontrara o interruptor da luz. Acendi um isqueiro e pus-me a procurá-lo. Ao acender as luzes procurei algo para comer. Um pão serviu. Sentei-me à mesa ali mesmo e comi tranquilamente.
Olhei em volta, estava tudo tão quieto e pacato. Já se passara dois meses desde a morte de Daniela. Eu saíra algumas noites a fim de achar suspeitos, mas não encontrei nada comprometedor. Pareciam não me perseguir mais.
Ao menos era o que pensava até a noite que aqui escrevo...
Voltei bem alimentado ao meu quarto, trajei um casaco de couro negro por cima de minha roupa, calça negra e uma camisa de mesma cor, de tecidos grossos e resistentes. Vesti o coldre e guardei minhas duas Colt 1911 municiadas neles, apossei-me dos magazines. Sai do quarto e segui pelos corredores até a rua. Era lua nova. Apenas os postes iluminavam a cidade, isso dificultava a busca. Caminhei cautelosamente e sem rumo. Algumas luzes dos prédios ainda estavam acesas.
Uma brisa forte me acariciou e o sibilar do inverno me cumprimentara. De repente senti uma leve tontura e perdi as forças das pernas. Levantei com dificuldade e continuei a caminhada escorado em algumas paredes.
— O que está havendo? — Pensei.
Em um beco havia um banco. Sentei-me e preferi repor as forças. Suspirei fundo e fechei os olhos.
Logo escutei um som alto de passos rápidos e pesados. Quando dei conta, alguém passara correndo em minha frente. Estava sendo perseguido por outro. O fugitivo fora alvejado no braço. Enquanto passava por mim, senti um aroma adocicado no ar, era o sangue dele. Antes que fugisse do meu alcance, agarrei-o pelo braço. Puxei com força e aproximei seu rosto do meu. Pude ver seus dentes caninos alongados, tratava-se de um Werckinberrevich. Segurei-o com força e cravei meus dentes em seu pescoço, senti sua macia carne sendo perfurada enquanto expelia sangue, quase como um suculento pedaço de bife bovino temperado com caldo agridoce de maçã antes de assá-lo sobre a brasa. Degustei o mais que pude, quando, de repente, não havia mais pulso e o sangue esgotara, ao menos o que poderia beber, o qual a pressão sanguínea poderia saciar. Abandonei seu corpo ao chão e voltei-me ao perseguidor. Apontara a arma a mim, aparentava estar assustado com o que vira.
— O que é você? — Perguntou o jovem.
— Vá embora, não te quero.
Sem demora o rapaz deu as costas e partiu a correr. Por sorte não vira o meu rosto. Olhei o cadáver ao meu lado.
— O que fiz? — Sentei-me novamente no banco.
Quando passei a mão em meu rosto, notei que havia tanto sangue. Era do homem que acabara de assassinar.
— Por que fiz isso? — Pensei. — Não acreditei que atacaria alguém desse modo.
Realmente não atacaria, porém, desde que me tornei um mestiço eu não ingerira nenhuma gota de sangue, talvez isso fora o reflexo corporal. Por sorte não ataquei o humano.
— Então é isso? Eu devo ingerir sangue periodicamente? — Indaguei-me.
Levantei com facilidade, minhas forças haviam se recuperado. Rapidamente voltei a minha casa, dirigi-me diretamente ao banheiro.
Entrei no banho. A água era quente, deixei que o fluxo da corrente limpasse meu rosto. Olhei minhas roupas, fitei a camisa encharcada de sangue.
— Tenho que me desfazer dessa roupa. — Pensei.
A água percorria meu corpo enquanto eu caia em reflexões. — Por que deveria ser assim? Eu não queria assassinar alguém dessa forma. Tentei ao máximo não viciar em tal substância, mas que agora era fundamental à minha existência.
Sai do banheiro e deitei-me em minha cama.
À manhã, despertei voluntariamente, sem nem mesmo alguém ter chamado. Levantei e trajei um terno social. Era hora de negociações a respeito da reclamação. Desci à cozinha.
— Bom dia, meu senhor. — Cumprimentou-me a governanta. — Não precisou que ninguém te acordasse hoje?
— Não. Deve chover hoje, é um mal pressagio. — Brinquei.
Com a morte de Daniela e Elizabeth, e Branca residente no palácio, fiquei só com os criados e com a Carmelia, isso nos aproximou.
Comi e dirigi-me à porta. Entrei no carro e parti.
Segui ao palácio, contudo, apenas os Duques, Duque-Marquês e Grão-Duque foram convidados a participar.
Entrei no domínio pessoal do rei. Desci do carro. Haviam inúmeros criados esperando. Caminhei à porta e entrei. Um mordomo surgiu em minha frente.
— É um prazer receber vossa senhoria, Duque-Marquês de Morryes. — Curvou-se. — Por favor, siga-me.
Calmamente andamos entre os corredores luxuosos, faziam minha casa tornar-se um hotel portuário. O tapete carmesim forrava o assoalho firme, os tecidos colados na parede eram longos, finos e foscos, os acabamentos de madeira e estrutura da engenharia eram cobertos por tinta dourada. Na parede sem janelas havia quadros pintados por inúmeros artistas renascentistas, pequenas esculturas de bronzes e algumas coleções de objetos arqueológicos sobre pilares de gesso.
Fora uma longa caminhada até chegarmos a uma porta. Entrei na sala. Seus moveis eram de madeira de pinheiro Brasileiro, Araucária, se não me engano. Madeira mole e de fácil acabamento. Possibilitou os detalhes nas mesas e armários jazidos no local. A mesa localizava-se no meio da sala, era longa, havia cerca de vinte e duas cadeiras distribuídas, uma em cada polo da mesa, e dez em cada lateral. As cadeiras eram almofadadas por pelúcia forrada por um tecido vermelho e possuíam um longo encosto.
Já presente, o senhor Sherlock estava sentado em um dos polos da mesa. Sentei ao seu lado direito na lateral da mesa.
— Como estás, meu senhor? — Perguntei.
— Muito bem, creio, e tu? — Apertou a minha mão e sorriu.
— Idem. — Devolvi-lhe o sorriso.
— Parece que foi o primeiro a chegar.
— Talvez não venham, afinal, somos nós os representardes locais. Provavelmente serviremos de mensageiros aos demais do conselho.
— É provável.
Após alguns minutos Branca surgiu e o seu lado havia o próprio rei. Levantamos e nos curvamos. Caminhou em nossa direção e se pôs próximo a nós.
— É extasiante às minhas retinas a tua presença, aprecio tua recepção. — Proclamou Sherlock olhando os olhos do rei
— E uma honra conhecer-te, meu rei. — Curvei-me novamente.
Seus olhos eram fortes e fixos, rosto robusto e largo, maxilar quadrado e feições bem delineadas. Fitou-me com frieza e silêncio. Deu as costas e voltou ao devido lugar. Sentou-se no outro polo da mesa e branca sentou-se ao lado.
Meu coração batia rapidamente, nunca fora induzido a tal pressão. Senti meu rosto enrubescer. Respirei fundo e mantive a calma.
— Vamos diretamente ao assunto. — Ordenou o rei. — Esclareça a situação, senhor Scoot.
— Conforme o relatório da reunião apresentado com a abertura do processo, solicitamos a reforma do sistema farmacêutico e a implantação se um novo sistema antes que ocorra um colapso.
— Entendo. Vejamos os valores.
— Aproximadamente um terço do tesouro nacional.
— Desculpe. — Pediu o rei. — Creio não ter escutado corretamente. Repita.
— Um terço do tesouro nacional, vossa magnificência.
O rei fechou os olhos e respirou fundo.
— Quanto tempo para ser concluído? — Perguntou.
— Após liberado a verba, aproximadamente sete anos para completude, mas conforme os postos forem criados, entrarão em funcionamento de imediato.
— É muito tempo. — Disse ele.
Apenas observei seus comportamentos. O senhor Scoot apresentava semblante sério e obstinado. Os dedos cruzados sobre a mesa, olhos fixos e lubrificados, sua pele brilhava com um leve suor e respirava pesadamente.
Quanto ao semblante do rei, mostrava-se do mesmo modo de quando antes, porém, não escondeu a surpresa do valor orçamentado.
Não lembro ao certo de como acredito haver apresentado meu porte. Lembro apenas de sentir meu coração bater, o suor escorrendo em minha testa e todo o meu corpo rígido enquanto respirava pesadamente.
Ao final da reunião, a atmosfera era tensa.
— Creio não ser possível executar tal ordem. — Proclamou o rei.
— Como é, vossa magnificência? — Perguntou Sherlock.
— Não aceitarei a reclamação.
— Vossa excelência provavelmente adicionou em pauta as possibilidades da tua negação, os efeitos ocasionados por ela.
— A plebe não tem coragem para se rebelar.
— Vossa excelência, suplico para que aceite a reclamação. O império russo caiu pelas mãos da plebe. O mesmo ocorrerá caso negue.
— Não voltarei em minha palavra.
— Não insistirei, meu rei.
— Creio que a reunião dêu-se por encerrada. — Proclamou.
Saímos da sala sem cumprimentar o rei ou a Branca. Eu sabia que abri minha boca e meter-me em meio a reunião. Na porta do palácio estendi a mão a fim de cumprimentar o Grão-Duque.
— Poderia pedir tua companhia a um café? — Perguntou sorrindo.
— Adoraria, meu senhor.
Sherlock dispensou seu carro e partimos a caminhar pelos arredores próximos ao palácio. Caminhávamos em direção à rua comercial nobre. Lá entramos em um restaurante e fizemos o pedido do dia. Sentei em uma cadeira de uma mesa de dois lugares, Sherlock sentou-se no outro.
— Parece que não deveria ter aparecido na reunião. — Confessei.
— Não diga isso, Edmund. Seria pior que não o fizesse. Apesar de ter ficado quase no anonimato, fora fundamental para minha segurança.
— O que quer dizer, senhor?
— Por Branca ser tua mãe, o rei respeitou-a e não agiu deliberadamente, ele poderia ter feito qualquer coisa sem eu ter o senhor como escudo.
— Fui usado então. — Sorri.
— Foi sim, mas não é falácia se disser que gosto de ti.
— Obrigado.
— Agora começa a minha preocupação. Tornei-me um inimigo íntimo do rei.
— Entendo, quando abriu o processo de reclamação tua sentença de morte fora assinada.
— Exato. Devo aumentar a segurança ao meu redor. Mas garanto-te uma coisa, meu jovem. Se eu morrer, levarei o império comigo.
— Não profira tais palavras demasiadas ameaçadoras aqui, podem ouvir-te.
— Minha esposa precisa de medicamentos. Terei que ir a outro país providenciar seu tratamento. Eu juro que transformarei esse país em uma república.
— Belas palavras, senhor, porém, é, de fato, palavra difícil de manter. Quanto a tua segurança, aconselho uma mulher, seu nome e Breda, ela trabalha como instrutora no campo de testes da M&M. Fale com Logan e procure se informar a respeito de segurança particular. São bons profissionais. Tive a oportunidade de ser treinado por Breda.
— Por qual motivo começou? — Perguntou preocupado.
— Há mais de um ano sou perseguido por assassinos.
— Estás certo. Aposto que andas armado.
— Correto. Tenho armas sobrando em casa, as que eram de Daniela. Se quiseres alguma, apareça em minha casa e dar-te-ei algumas delas.
— Obrigado.
— A propósito, queres iniciar uma revolução?
— Não diga isso, poderemos ser mortos. — Pediu ele sorrindo.
Apesar de eu saber que eu não morreria facilmente.
— De qualquer maneira tratarei de minha esposa primeiro, algum dia poderemos ir a um campo e praticar disparos.
— Poderemos sim. Deverias ter visto Daniela atirando, era tão boa quanto seu pai, um antigo guarda real do império russo.
A comida chegou, no meu prato havia espaguete com molho e carne. O de Sherlock apenas um bife mau passado e salada. Comemos e continuamos a conversar.
— Estou procurando um herdeiro para que possa me substituir, tu estás em minha lista. — Sorriu.
— Fico lisonjeado, senhor, mas devo recusar.
— Por quê?
— De que adiantaria ser Grão-Duque de um país republicano? — Sorri.
Não conseguiu se conter e devolveu-me o sorriso. — Entendo, assim espero.
Acabamos desviando um pouco o assunto.
— Desculpe perguntar-te isso. Como Cecília falecera?
— Esfaqueada por um punhal envenenado.
— Soube que o assassino estava escondido entre a multidão.
— Estava, um dia sem sol, as nuvens eram nuvens de chuva.
Nesse momento lembrei-me de uma incógnita que apenas Daniela poderia responder. Se o assassino de Cecília fora um Werckinberrevich. Como ele saíra em pleno dia? Ele deveria ter feito isso à noite.
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