Memórias de vidro

19 As nuvens atônitas pairavam sobre a paisagem fria.


Enquanto viajava em meu carro, cai em um sonho, uma lembrança das últimas que ainda passara com Cecília.

Março de 1920. As nuvens atônitas pairavam sobre a paisagem fria, um dia calmo. O vento sibilava calmamente e entrava pela fresta da janela de meu gabinete. Estava eu sentado no sofá lendo os jornais, afinal, eu me tornara o novo Duque de Morryes.

— Estás bem, Edmund? — Perguntou Cecília.

— Sim. Venha cá, sente-se.

Usava um vestido de cachemira preta, um cachecol vermelho ao redor do pescoço e um sapato de couro negro polido. Mesmo hoje dói lembrar de sua beleza feérica. Todas as vezes que recordo de seus olhos, automaticamente lembro da primeira valsa no jardim, e, logo me recordo do último olhar que me dera.

Ela sentou ao meu lado e me abraçou.

— Estás lendo tais injúrias novamente?

— Sim. Devo fazê-lo a fim de me atualizar quanto as notícias.

— Peças ajuda à tua mãe. Ela conhece muito sobre o assunto.

— Pedirei. Deixando isso de lado. Desejo aproveitar outras coisas. — Sorri aposentando o jornal ao outro lado do sofá.

Aproximei-me dela e beijei-lhe o canto da boca. Ela abraçou meu pescoço, aproximou-me dela e beijou-me. Sinto saudade dos lábios quentes da Cecília, o modo como me beijava transmitia-me paz e transbordava-me amor. Mesmo não dizendo muitas vezes, mesmo não proferindo as palavras, eu a amava, ainda a amo, após tantos e tantos anos. Feliz sou pela boa memória que possuo, assim posso lembrar perfeitamente de seu rosto.

Levantei-me e estendi-lhe a mão. Ajudei-a se levantar. Dei outro abraço apertado e outro beijo.

— Vamos à fazenda. — Pediu ela.

— Gostaria de algo fora da rotina. Poderíamos ir à praia.

— Está frio para isso. — Sorriu.

— Estou extasiado ao ponto de esquecer tais coisas.

— É mesmo? Bem... Vamos à praia. Apenas ver a paisagem nos fará bem.

— Perfeitamente.

Saímos do gabinete e seguimos nosso quarto. Ajeitei-me o resto dos detalhes, fiz as malas e pedi a um criado que descesse-as até a porta. Não passaríamos muito tempo lá, mas sempre levei roupas de emergência. Cecília fez suas malas, com vestidos de noite, de casa e algumas vestes leves. Descemos à sala de chá e encontramos Elizabeth, como sempre, bebendo chá.

— Iremos à praia. — Anunciou Cecília. — Queres ir também?

— Não. Aproveitem o casamento. Não apreciaria atrapalhar-vos em um passeio romântico. — Sorriu. — E não iria à praia sob um clima desses.

— Às vezes coisas sem sentido fazem bem. — Disse ela.

— Vamos sair agora.

— Boa viagem. — O sorriso que antes era ingênuo, preencheu-se de malícia. — As viagens trazem futuros herdeiros eventualmente.

— Vamos. — Pediu Cecília. — Adeus mãe. – Sorriu.

— Adeus, boa viagem, apreciem o momento.

Esperamos o carro chegar para que nos levasse à estação férrea. Quando chegamos, seguimos diretamente à bilheteria e compramos as passagens.

Não havia quase ninguém no trem, não era temporada, então não se tratava de um veículo grande, continha apenas primeira e terceira classe. A cabine que nos alojamos era azul marinho em quase sua totalidade. O acabamento de aço era prateado, as paredes azuis e o couro do banco negro, nele havia pregado botões de aço. A janela era grande e transparente, optamos por não a abrir de imediato, fazia frio e não queríamos nos resfriar. Entramos na cabine, sentei-me em um banco e Cecília no outro à minha frente.

O trem começou a andar lentamente e acelerou aos poucos. Em algumas dezenas de minutos Morryes já ficara para atrás. A paisagem se transformou de uma cidade ao pasto verde e vivido. O céu estava carregado, pronto para chover, a imagem lívida acariciava minha retina, bela paisagem. Bem, raramente havia sol.

Sentei ao seu lado e me encostei na parede ao lado da janela. Puxei Cecília para abraçá-la. Ela deitou sua cabeça em meu ombro e afaguei-a.

Apesar de me portar seriamente com ela enquanto observado por outros, quando estávamos sós era mais amante, não por que o fazia por gostar, mas sim por dever manter uma postura séria enquanto Duque, porém, como já mencionei, entre quatro paredes eu chorei nos colos de minha esposa.

— Amo-te. — Disse ela. — Amo-te tanto.

A viagem durou aproximadamente duas horas. Desembarcamos na estação de Logmor e conseguimos não ser notados. O hotel no qual nos alojamos localizava-se em frente ao mar, um edifício faraônico com cerca de trinta andares; talvez nem mesmo tenha como adjetivar sua grandeza. Entramos e seguimos à recepção, pedimos o melhor quarto e deixamos a bagagem ao encargo de um funcionário.

A suíte era grande e arejada, ventava muito, as cortinas brancas dançavam. Não queríamos perder tempo, era final da tarde, o sol se punha já sobre o céu rosa-alaranjado. As pegadas foram os rastros deixados por nossa caminhada. Não trocamos as roupas que vestíamos na viagem, estava frio para isso. Eu andava de mãos dadas com Cecília, caminhávamos calmamente e sentíamos o vento soprar em nossas faces. Ela soltou o cabelo que antes estava preso, com isso, o livre cabelo dançou singelamente em meio a brisa que fazia com que a areia se levantasse do chão e valsasse ali mesmo. O sibilar produzido pelo vento mesclava-se com o canto das aves. A areia era branca e estava levemente cinza devido a luz. Não nos atrevemos a molhar-nos, seria perigoso em tal temperatura.

— Linda paisagem. — Comentou.

— É sim, mesmo no inverno ela não perde a beleza.

Abracei-a, perdemos o equilíbrio e caímos sobre a areia. Ela caiu sobre mim. Olhei-a atentamente e beijei-a.

Acordei do devaneio e voltei à realidade. Fora apenas uma memória solta que quis anotar no diário que escrevo.

Voltando à realidade. Era um dia sem nuvens e ensolarado, fazia calor. Eu vestia uma camisa de seda vermelha e as demais peças de flanela negra.

— Onde iremos? — Perguntou Carmelia sentada em minha frente.

— Iremos à universidade. Desejo conversar com o reitor.

— Compreendo. Poderia saber sobre?

— Assuntos referentes aos teus estudos e outras pendencias sobre ti e outros tópicos confidenciais.

— Desculpe, mas o senhor e a Daniela tinham muitos segredos. Trabalhas com coisas que não posso saber?

— Um dia saberás, porém, não está preparada para tal. Mesmo que uma hora ou outra descubras.

— Deixemos como está então. — Seu semblante tornou-se atônito. — Por um acaso não teria haver com a morte de meu pai?

— Sinto muito, não posso dizer.

— Então estou certa.

Logo chegamos ao portão da universidade. Um monumental edifício que tutelava todos os cursos científicos e artísticos ministrados em Morckiaschen. O prédio principal albergava a administração, os cursos de direito e medicina. Sua entrada era apresentada por uma grande porta de madeira de araucária brasileira e acabada com ferro. Cravada nela, maçanetas redondas e grandes e uma larga fechadura. O piso era quadriculado em contraste de preto e branco de mármore. A recepção era de madeira, não lembro qual, seguimos diretamente a ela e busquei informações. Solicitei que nos levassem ao laboratório. Os corredores por onde passávamos eram largos e belos, o mármore do chão era polido e lustroso, as paredes brancas e acabadas em cores plúmbeas.

— Aqui estamos, excelentíssimo. — Anunciou a recepcionista apontando para a porta à nossa frente.

— Obrigado. — Dispensei-a

O laboratório não era de anatomia, era químico. Os objetos de vidro refletiam a luz tão intensamente que propiciou um certo desconforto. No centro do espaço havia uma grande mesa repleta de equipamentos, e ao lado uma pia destinada a higienização e limpeza das peças. Ao redor distribuía-se prateleiras com livros velhos e alguns objetos de estudo. Em uma dessas prateleiras havia três exceções quanto a anatomia. Descansada sobre a velha madeira um vidro com um feto humano, era branco e pequeno, deformado, aparentemente apenas as feições e características básicas o definiam como humano. No outro havia uma flor, não lembro ao certo sua espécie, orquídea ou azaleia, de qualquer forma, estava mergulhada no liquido. O terceiro vidro encarcerava uma mão mutilada no pulso, magra e pálida, as unhas largas e ríspidas.

— São os testes do laboratório químico, ao menos é o que me informaram. — A voz era familiar, vinha da porta. — São testes com o formol produzido aqui.

— O senhor demorou, Dr. Potter. — Caminhei em sua direção e o cumprimentei.

Sentamos em um dos bancos que rodeavam a mesa, eu e Carmelia de um lado e Potter do outro. Escorei-me sobre a mesa e tomei a palavra.

— O que gostaria de nós, doutor?

— Sobre o sangue que me proporcionou.

— Entendo. — Voltei-me à Carmelia. — Deixe-nos à sós. Assuntos de ordem confidencial.

— Como quiser.

— É uma bela moça. Essa fora a adotada?

— Sim.

Ela saiu e pôs-se ao lado da porta. Olhei seriamente o doutor escorado sobre a mesa. Retirou o velho guardanapo e descansou-o sobre a mesa.

— Encontrei algo interessante nesse espécime.

— O que seria?

— O sangue reage com sangue de outros animais.

— O que quer dizer?

— Apliquei fragmentos da amostra ainda não coagulada, ao que parece o tempo de coagulação é mais curto.

— Mais curto?

— Sim.

Os ferimentos de um vampiro curam-se mais rápido do que um humano, não deveria duvidar, afinal, a própria existência de tais seres já era algo inusitado.

— Reagiu com sangue suíno. — Continuou. — Equino, bovino e de aves domesticas. Todos apresentaram uma irregularidade nas hemácias negras da amostra. Aparentemente dilataram-se. Porém, ao cruzar a amostra com o sangue de lobo, a reação fora totalmente distinta, as hemácias se romperam.

— Entendo.

— Gostaria de saber se o senhor possui mais amostras.

— Sinto muito, não tenho. Por qual motivo o sangue de lobo propicia tal resultado?

— Não sei ao certo.

— Entendo. — Levantei e caminhei à porta, abri-a e encontrei Carmelia esperando. — Venha, entre.

Sentou no lugar que sentara antes.

— Dr. Potter, gostaria que apresentasse tua pesquisa à Carmelia, desejo que ela entenda sobre as amostras e os resultados.

— Como queira, senhor. Peço apenas mais espécimes para a pesquisa.

— Cederei quando possível. Ofereço-te estadia em minha casa e que usufrua do laboratório lá instalado.

Pareceu perplexo e estarrecido. Não esperava tal oportunidade, mas sorriu e aceitou de bom grado.

— Carmelia. Aprenda com ele a prática e mostre-me os resultados da pesquisa que fizerem juntos.

— Como quiser. — Respondeu ela.

— Entrando em outros assuntos. Averiguarei o comportamento da Carmelia quanto aos estudos. Fiquem aqui, conheçam-se melhor.

Sai da sala e dirigi-me à sala do reitor. Estava ele atrás de uma grande mesa repleta de papeis e livros. Não havia paredes visíveis, apenas prateleiras preenchidas com livros. Havia dois sofás no centro da sala, eram de couro negro e macio.

— Quem temos aqui? Senhor Collins. Desculpe, senhor Morryes. Poderia saber ao que devo a visita?

— Apenas por algumas curiosidades. — Cumprimentei-o e sentamos nos sofás.

— O que desejas, senhor? Saber como vai Carmelia?

— Não, não vim aqui para isso. Soube que o senhor tem muita influência em Morryes. Gostaria de contar com teu companheirismo, afinal, moro em Morryes há pouco mais de um ano. Vossa senhoria, reitor, conhece melhor que eu, porém, não poderia confiar em qualquer pessoa.

— Entendo. Queres um interrogatório. Bem, não tenho o que esconder do senhor. Se possível, ajudarei, com tua vingança, dando-te informações.

— Compreendo que a morte da tua esposa te cause comoção. É por isso que me ajuda?

— Não sejas tão arrogante. Pergunte.

— Estou atrás dos apostadores. O senhor provavelmente tem informações sobre.

— Apenas Deus é onisciente, meu rapaz. Não pergunte coisas deduzindo que sei a resposta. Talvez tenha ouvido falar sobre esses marginais. Acredito que sejam Os irmãos de chapéus, ao menos é o que lembro. A propósito, o senhor soube da corrida?

— Não me recordo.

— A corrida de cavalos será realizada no final da semana, ao sábado.

— O senhor acredita que estejam lá?

— Apostaria. Um dos cavalos é o Umbra Negro. Um cavalo que foge dos padrões biológicos. Dizem que é enfeitiçado, sua performance proporciona lucros em apostas.

— Então estarão lá mesmo.

— Assistirei o espetáculo. Encontre-me na cabine 18.

— Obrigado pelo apoio.

— Estás tornando-se homem, esperto como a mãe. — Riu parecendo lembrar de algo nostálgico.

Cumprimentei-o e sai da sala.

Fora chegado o dia da corrida.

A plateia era imponente, milhares de pessoas sentavam-se nas cadeiras do estádio. Nunca entrara em uma arena de hipismo como esta. As estruturas metálicas eram reforçadas pelo cimento e sustentavam um amplo espaço de bancos, cerca de cinco mil pessoas estavam acomodadas na área simples, o camarote acomodava aproximadamente quarenta cabines. A pista era de areia fina cercada por uma longa cerca de madeira branca de um metro e meio de altura, eram espaçadas largamente umas das outras. A grama verde preenchia os largos espaços sem serventia. A largada detinha quatorze baias e ao lado havia um grande curral, o qual servia de local de preparo dos cavalos.

Sentei-me em uma poltrona no camarote 18, o qual proporcionava uma ampla virão em um dos polos da elipse. Os camarotes da lateral já haviam alugado, restou-me apenas o 18. Pedi a um garçom que trouxesse vinho e aperitivos.

Quando os cavalos começaram a entrar no curral, fora possível distinguir o famoso Umbra Negro, seu corpo era rígido e musculoso. Seus cascos polidos com alguma espécie de verniz e suas ferraduras eram lustrosas e refletiam as luzem em determinados ângulos. Sua crina negra era lisa e curta, talvez mais macia que os pinceis mais caros, quiçá os mesmo fosse feito de crinas como essa. O rabo estava amarrado como uma trança a fim de não comprometer o desenvolvimento do animal. Porém, não fora apenas o cavalo a chamar a atenção. Se os apostadores derretiam seus corações diante do animal, as mulheres devaneavam ao presenciar o cavaleiro. Um homem alto, cabelos negros e pele contrastante, tão branca quase transparente, seus olhos eram azuis como os de Cecília e seu corpo era forte, digno que cavalo que montava. Trajava um uniforme negro, mesmo os adornos metálicos eram pretos. O único conforto pálido em meio a tanta escuridão, era sua pele. Não demorou a um apostador vir à porta. Permiti que entrasse. Paralisou-se em pé à minha frente e cumprimentou-me.

— Apostarei trezentos dólares no cavalo negro.

— Boa escolha, senhor.

— Poderia perguntar-te algo? – Pedi.

— Depende.

Retirei uma nota de meu bolso e entreguei-lhe.

— Pode informar-me?

— Sobre?

— Para quem o senhor trabalha.

— Trabalho por conta, senhor.

— Mentiroso, trabalhar para os Irmãos de Chapéus. — Proclamei. — Já vi uma foto tua na ficha de presidiários dessa gangue.

O homem empalideceu e entorpeceu-se, aparentemente com medo.

— O senhor deve estar enganado.

— Talvez sim, mas diga ao seu chefe que estou atrás dele.

Sem demora o apostador saiu. Logo entrou na sala o reitor. Levantei-me e cumprimentei-o. — Aprecio tua presença, senhor. Estás só?

— Obrigado. Estou, minha esposa não gosta de corridas de cavalos. — Sorriu cordialmente.

Sentou-se na outra poltrona, cruzou as pernas e retirou de seu bolso um charuto cubano, ateou fogo e deu uma longa tragada.

— Quer? — Estendeu o fumo segurando-o.

— Não fumo, obrigado, não por enquanto.

Do autofalante uma voz surgiu. —Agradecemos a presença de vossas senhorias. Esperamos que apreciem o evento. — Sessou a transmissão.

— Em qual cavalo apostou?

— No Umbra Negro.

— Sei. Tenho a sensação que ele não ganhará.

— Por que achas isso?

— Veja como a arena está lotada. Garanto-te que todos estão apostando nele. Não me surpreenderia se outro ganhasse, os apostadores lucrariam uma fortuna.

— Perfeita logica. Estou estudando exatamente esse comportamento.

— Jovem esperto. — Sorriu.

Após alguns minutos a sirene soou anunciando a preparação dos cavaleiros e seus cavalos. O Umbra estava na terceira baia. Os turfes preparavam os cavalos, massageavá-os para relaxá-los, assim proporcionado uma eficaz largada. Os cavaleiros montaram e o silencio tomou o local.

— Gostaria de ver mais de perto? — Perguntou o reitor segurando um pequeno binóculo prateado.

— Por favor. Obrigado. — Peguei o objeto e pus-me a observar os participantes.

Devolvi o binóculo e esperei a largada. Era uma corrida de dez voltas. Logo houve o disparo do revolver de festim. Todos largaram rapidamente, como era previsto o favorito estava na frente dos demais. Assim se sucedeu por seis voltas. Quando de repente o cavalo caiu e rolou na pista. O cavaleio estatelou-se alguns metros à frente. Fora ordenada a continuidade da corrida enquanto retiravam os feridos da pista.

— Estava correto. — Disse o reitor. — Os irmãos de chapéu devem ter ganhado muito dinheiro agora.

— Agora começo meu trabalho. Obrigado pelo convite. Vou-me embora. Adeus.

Levantei, cumprimentei o reitor e sai do camarote. Segui à sala de apostas, o ganhador se chamada Barbado Dias. Apostou no cavalo que ficou em segundo, com isso, faturou cerca de 60% das apostas. Quando fui ao banco na arena, lá estava ele acompanhado de seus guardas. Um homem negro e alto, corpo forte e rígido, maxilar quadrado. Trajava um terno de veludo bordo e calça de flanela branca, usava relógios, anéis e pulseiras de outro, fumava um charuto enquanto fiscalizava a contagem do dinheiro. Aproximei-me calmamente, não demorou a ser cercado por segurança.

— Pretendo falar com o chefe.

— Não há essa possibilidade.

— Não negue se sabe quem sou. — olhei-o de cima.

Eles sabiam que não poderiam discordar, não poderiam negar algo a mim. Permitiram que passasse, porém, se prontificaram a sacar as armas se necessário.

— Parabéns pela vitória, senhor Dias. — Cumprimentei-o.

— Obrigado, Duque-Marquês. Ao que devo a visita?

— Já te deram o recado.

— Entendo. Vamos à uma sala.

— Como queira.

Seguimos à sala de reuniões do próprio banco. Bárbaro entrou na sala e eu o segui. Quando os seguranças tentaram entrar, barrei-os e ordenei que não o fizessem.

— Deixem-nos. — Corroborou Dias.

Sentou-se em uma poltrona atrás de uma mesa e eu sentei-me em um sofá um pouco distante. Relaxei meu corpo e respirei profundamente. Ele cruzou os dedos com as mãos sobre a mesa, respirou profundamente, delineou um semblante sério.

— O que deseja de mim, senhor Edmund?

— Estou em um dia de sorte. Não precisei procurá-lo. Onde está teu irmão?

— Não interessa. Diga o que quer.

— Então não temos cortejos? Como quiser. — Saquei a Colt 1911 do meu coldre e engatilhei.

Naturalmente não esboçou reação, era profissional. Mantive a arma apontada.

— Diga-me o que sabe sobre alguma seita, se conhece alguma.

— Não sou religioso, meu único deus é o ouro.

— Entendo. O senhor possui tatuagens?

— Não, sou negro, não apareceria. Diga logo o que quer.

— Senhor Dias, diga-me o que sabe sobre os Black Night.

— Nem mesmo eu sei muita coisa, são meus concorrentes, quando vejo um, elimino.

— Entendo. Eu deveria eliminá-lo antes, não concorda?

— Não sei qual é teu motivo, mas não deixaria algo assim se fizer.

— Compreendo, de qualquer forma, não conseguirá me mata facilmente.

— O que quer dizer?

— Quero dizer que sei que esconde algo. — Guardei a pistola no coldre. — De qualquer maneira, não falarás. Deixemos isso para depois.

— Se quiseres saber sobre o desvio das construções civis, perdeu seu tempo, não sou o mandante.

— Por quem está sendo manipulado?

— Não sei, não o conheço.

— Entendo. Qual é o motivo do desvio?

— Para que desviam dinheiro? Não é para jogá-lo ao rio.

— Estão arrecadando verba?

— Retiro meus elogios quanto a tua perspicácia.

Fora uma boa piada, nos dois sorrimos.

— Quem mais eles controlam?

— Não sei.

— Por que está me dando todas as informações que estou pedindo?

— Não sou do tipo que gosta de ser encoleirado, gosto de encoleirar.

— Queres me usar a fim de que eu encontre o chefe?

— Talvez.

— Entendo. Se me fornecer informações, poderá usufruir de tal pensamento. Acredito que estejamos a caça do mesmo sujeito.

— É um companheiro então?

— Não.

Levantei-me e segui à porta. Quando quase encostei na maçaneta senti algo em minhas costas. Voltei-me à Dias. Seu rosto delineado confiante pelo golpe, porém, estarreceu em notar a facilidade que retirei a faca das costas e limpa-la com um lenço.

— Pegue. — Joguei-a para que ele segurasse. — Eu disse que não podes me matar facilmente.

— Como é possível, maldito?

— Estou estudando como não ser mais possível.