Memórias de vidro
6 Sua beleza exuberante era a única coisa que via em meio a tudo.
Até esta data, novembro de 1919, não há algo a lembrar, ao menos no momento que vos cá escrevo. Os dias passaram normalmente, até o casamento, que hoje é uma das memórias que quero lembrar pouco antes de fechar meus olhos pela última vez.
Acordei às seis da manhã com Daniela tirando meus cobertores. Não pude contê-la, acabara de acordar, sem força alguma, a qual retornava apenas uma ou duas horas depois de despertar. Levantei e fui à janela. Um belo nascer do sol, exuberava sua majestosa luz que ao passar pelo horizonte, avermelhava o céu como se os deuses derramassem sangue na via láctea.
— Realmente é hoje, 12 de novembro de 1919. – Pensei.
Daniela pegou minhas roupas e deixou-as na cama. Um esmouque negro de tecido fino que refletia a luz com clareza e leveza. Os sapatos esbanjavam fulgor, era detalhado com tiras em couro fosco, solado de madeira, forro em seda vermelha no interior. Trajei-me e sai de meus aposentos. Fui à sala de chá, lá estavam Branca e Elizabeth.
— Estou tão feliz. — Elizabeth parecia realmente contente. Levantou e me abraçou. — Teu filho está lindo, Branca.
— Obrigado irmã. Está lindo mesmo. — Branca parecia diferente nesse momento, de repente começou a lacrimejar.
— O que houve, mãe? — Perguntei preocupado.
— Não é nada, apenas um pouco de poeira que entrou em meus olhos, afinal, esta casa é velha.
— Deves ser sincera consigo mesma, Branca, minha irmã, eles se parecem. Sabia que chorarias ao vê-lo assim. Faz-te lembrar de teu casamento também. – Afirmou com uma xícara de chá em mãos. — Imagino como reagirá quando ver Cecília.
— Deixando isso de lado. Os preparativos estão quase prontos. O casamento será ao fim do dia.
Conversamos por alguns minutos. Fui retirado da sala para que Cecília se arrumasse lá. Então voltei aos meus aposentos.
A luz da manhã era bela, azulada pelo inverno. Intrigantemente não fazia frio no dia de meu casamento, o clima era agradável, talvez eu lembre assim, ou o destino nos deu um presente. As horas passaram e um carro me esperava. Entrei e segui à catedral. Uma linda e monumental igreja arquitetada sob os moldes góticos. Desenhos e estátuas de várias formas e demônios. Dentro, um lustroso e extravagante brilho vinha do ouro nos detalhes das paredes. Estava cheia, pessoas que nunca vira em meu país; outras reconhecia da festa de noivado. Mulheres com vestido de noite dos mais lindos luxos. Joias de pedras preciosas dançavam com os movimentos das damas.
Subi ao altar e esperei por trinta minutos. É inexplicável a sensação de esperar alguém que passará a vida toda ao seu lado. Meu peito doía em arfar. Os convidados fitavam-me, olhos e mais olhos voltados a mim, confesso que foi um tanto assustador.
Então os sinos badalaram e a orquestra começou a tocar. As grandes portas velhas da igreja se abriram. Lá vinha Cecília acompanhada do padrinho. Seu vestido era branco e longo. Um espartilho detalhado com pedras azuis desenhava seu quadril esbelto e avantajava seus seios. A cauda do vestido estendia-se por metros. Seus sapatos polidos refletiam o brilho em sua superfície branca. O mundo havia ficado mudo, as cores se apagaram, um branco e preto ao seu redor. Sua beleza exuberante era a única coisa que via em meio a tudo.
Subiu os degraus. E então seu padrinho soltou-a. Segurei sua mão, estava fria, ou a minha muito quente. O meu coração quase não cabia em meu peito. Cecília posicionou-se ao meu lado. Logo o bispo recitou a palavra e iniciou a cerimonia.
Após o beijo, nos dirigimos aos convidados. Caminhamos com passos curtos e suaves sobre o tapete vermelho de camurça e seda. Não escutei musica alguma, quiçá ao modo que me encontrava simplesmente concentrado em Cecília. Ao passar pela grande porta da igreja, fomos banhados por uma procela de arroz e comemoração. Flashes e perguntas ecoavam a todos os lados. Ignorei-os e entramos ao carro. Seguimos à mansão do ducado, onde ocorrera a festa.
Estava noite, pouco estrelada e poucas nuvens. Quando descemos do carro, havia uma multidão, como a primeira vez que cheguei. As tradicionais mariposas com seus cadernos, canetas e flashes. Casamento estre nobres sempre foi um assunto muito discutido pela mídia nas cidades de todos os países. Passamos pela plebe e repórteres, um longo caminho, tortuoso talvez. Cecília não estava mais com seu vestido de noiva, trocou-se antes da festa; trajou um vestido de noite, azul marinho, usava brincos de brilhantes, colar de prata, e seu anel de casamento. Então entramos no salão. Haviam muitos convidados. Logo voltaram seus olhares a nós.
— Eis aqui o casal, Edmund de Morryes e Cecília de Morryes. Estou muito feliz com o casamento. — Disse Elizabeth no palco.
Fomos cercados por algumas pessoas.
— Parabéns pelo casamento, sou Lucio, representante da mineradora de ferro. Muito prazer.
— O prazer é meu. — Disse Cecília.
Poderia escrever milhares de nomes que se reuniram ao nosso redor a fim de nos bajular. Alguns como: O casal Alex, um homem chamado Alex, nascido em Burtchendill e sua esposa americana, Alex, foram notícia uma vez, “Um casal de mesmo nome”. Também haviam Os Pantz, Os gêmeos Granskiscov, Senhor Vladmir Papacoch, Senhorita Amélie Amour; ninguém sabe seu verdadeiro sobrenome nem sua idade “Uma dama não tem idade” dizia ela. E mais algumas pessoas. Após o atormentador cerco, eu e Cecília nos separamos e fomos conversar com os convidados que nos interessavam. Cecília foi a um grupo de mulheres. E eu, por minha vez, dirigi-me a uma roda de homens. Estavam bebendo vinho e champanhe, entrei na roda.
— Estão se divertindo, senhores? — Perguntei.
— Não mais que você vai após a festa. — Respondeu um velho senhor, parecia bêbado logo no início da festa. Voltei-me a outro, que me cumprimentou.
— Muito prazer, sou Franklin, dono da atacadista Franklins Free.
— O prazer é meu, estou feliz por conhecer alguém que contribui em nossa economia.
— Sou Green, Tony Green, representante do diário nacional, gostaria de perguntar algumas coisas.
— Depende. Pergunte.
— Primeiramente, quando notou que gostava da Duquesa?
— Há algum tempo.
— Quando foi seu primeiro beijo?
— A alguns meses.
— Quando dormiram juntos pela primeira vez?
— Ótimo. Acabaram as perguntas. — Por esse motivo não dou entrevistas. Pessoas assim não medem suas perguntas.
Caminhei em direção aos nobres. Lá estavam o Grão-Duque e senhora conversando com os demais. Era o título mais alto que comparecia em casamentos de nobres com nobiliarquia acima de conde.
— É uma honra receber vossa excelência, Grão-Duque de Morckiaschen e Lognorth, Sherlock Scoot e sua dama, senhora Scoot.
— És então o novo duque de Morryes? É um prazer te conhecer.
— O prazer é meu, senhor. — Respondi, voltei-me a sua mulher. — Estou extasiado em presenciar sua beleza pessoalmente, minha senhora.
— Sem bajulações, meu amor. — Pediu num tom para que a elogiassem mais.
— Estão gostando da festa? — Perguntei.
— Estamos, realmente digna de um casamento que ocorre de cinquenta em cinquenta anos.
— Obrigado. Fora organizada por Elizabeth, mãe da Cecília.
— Desculpe, estão me chamando em uma mesa. — Disse o Grão-Duque. Cumprimentaram-me e saíram.
Voltei-me aos outros. Lá estavam, o visconde do ducado, Alfred Dumos, Adolf de Lucilene do Condado Lucilene e sua esposa Mary. Também havia os irmãos Adolf e Francis Hofenscokfen, sócios de uma empresa herdada do pai, a "Generals Knives" empresa de utensílios de cozinha, usados pelos maiores cheffs do país. Nunca esquecerei o slogan deles "Nossas facas cortam como baionetas" jamais soube por que essa frase, era engraçada e sem sentido, mas foi banida logo depois do início da segunda grande guerra.
— Com licença, senhores. Estão aproveitando a festa? — Perguntei.
— Estou. — Respondeu senhor Lucilene. — Como o senhor Grão-Duque te disse, digno de um casamente que ocorre de cinquenta em cinquenta anos. — Riu.
— Linda festa, tal como a noiva. — Disse Mary Lucilene. — Simplesmente magnifica
Logo surgiu um convidado, entrou à roda.
— Meus parabéns pelo casamento, sou Charles Jaspe, chefe de polícia do distrito de Morckiaschen, é um prazer conhecê-lo, novo Duque de Morryes. — Cumprimentou-me.
— O prazer é meu, senhor Charles.
Um dos Hofenscokfen trouxe o assunto. — Soube que estão investigando os casos de homicídio em Morryes.
— Estamos, por ordem do rei. Preocupa-o sobre sua segurança. Estamos investigando possíveis ligações externas ao caso.
— Como os bolcheviques por exemplo? — Sugeri.
Olhou-me com seus velhos olhos serrados. — Onde conseguiu essa informação?
— Apenas palpite, querendo ou não, nossa localização e prestigiada. Seria bom a um partido como eles ter em posse terras como as nossas, também não se pode ignorar a monarquia cá presente.
— Entendo, de qualquer forma, as investigações ocorrem bem. — Concluiu.
— Soube pelos jornais, prenderam um homem acusado de tráfico de petróleo, mas quando abriram eram barris de água do mar. – Disse Dumos, fazendo piada. — Parece que deram uma volta e tanto no orgulho policial. — Riu.
— Com licença, senhores. — Disse Charles sem responder ao comentário de Dumos. — Vou à roda dos militares.
Andei entre os convidados até a hora da valsa. Os convidados fizeram um grande círculo e abriram espaço para eu e Cecília passarmos. Caminhamos até o centro, olhei em seus olhos, brilhavam como a lua cheia numa noite prateada, segurei em sua cintura e demos a outra mão. Ao som da orquestra começamos a dançar, levemente, muito levemente, assim como a primeira vez que dançamos, mas dessa vez ela não fugiu. Após a música nos beijamos e fomos contemplados pelos aplausos dos convidados.
Fora uma bela noite, feliz e alegre. Após a noite de núpcias, eu e Cecília fomos a Paris.
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