Memórias de vidro

7 Pude ouvir o som do projétil expelido pela pólvora negra.


Fevereiro de 1920, final do inverno. Uma manhã morna. Haviam várias pessoas, nobres, plebeus e imprensa. O tom negro se via a pintar a paisagem, o som dos rifles atirando ao céu arrancara lagrimas de Cecília e Elizabeth. É triste dar adeus, um tanto assustador talvez, mãe e filha abraçadas vendo o duque descer lentamente ao fundo de uma cova. A mídia sem qualquer pingo de delicadeza, buscava manchetes sobre o funeral. Olhavam atentamente o momento e registravam em seus cadernos; alguns ainda tiravam fotos, ignorando completamente a ética lançavam as luzes dos flashes de pólvora.

Lastimas e pêsames pairavam sob a tutela das expressões das pessoas presentes, lagrimas, soluços, náusea, olhares estatelados à terra, cabeças baixas, chapéus de cavalheiros segurados em suas mãos à altura do peito, militares do ducado em frente a alguns subordinados segurando seus rifles. Talvez o clima da tarde fosse frio, parecia ser. Abracei Cecília, apertava meu casaco, amarrotando-o. Seu abraço apertado fazia-me sentir seu coração bater e bater, foi contagioso, a angustia não cabia em meu peito. Pouco a pouco as nuvens escureceram, uma brisa calma passou e começou uma leve garoa. Foi doloroso não poder sequer derramar uma lagrima de consolo. Um homem forte, essa imagem tinha de dar aos demais, mesmo tento a vontade de chorar como criança, pois doía-me não poder derramar uma lagrima a fim de cair aos prantos junto dela. Após o funeral concluído, segurei Cecília; cambaleava entorpecida devido a tristeza e cansaço. Caminhamos sobre a grama às alamedas do cemitério.

Fomos abordados por um sujeito, envolto por uma grande capa de couro de javali costurada firmemente, usava chapéu e um pequeno e redondos óculos para leitura.

— Meus pêsames, duquesa. Compreendo ser uma grande perda, estou presente em nome do rei, o qual vos manda as condolências.

— Obrigada. — Respondeu ela enquanto tentava se conter. — É honroso receber as condolências do rei.

— Não há necessidade de conter-se, sem formalidades, respeito esse momento, a propósito, é muito bom te conhecer, senhor Edmund. — Estendeu a mão.

— O prazer é meu. O senhor, quem seria?

— Sou o escrivão real.

Logo chegou o Grão-Duque e entrou na roda.

— Desculpe atrapalhar-vos, vim apenas prestar meus pêsames. — Olhou o escrivão. — Senhor escrivão, é uma honra ser agraciado por vossa presença.

Um Grão-Duque não costuma cortejar alguém sem alguma maior influência na realeza. Surpreendi-me quando soube. O escrivão era primo do rei.

— Certamente creio o mesmo. — Respondeu o escrivão.

Cumprimentaram-nos e saíram a caminhar. Um carro nos esperava, dentro estavam Lili, a criada particular da Cecília, e estava Daniela.

— Senhora, estás melhor? — Perguntou Lili preocupada, apoiando Cecília para subir a escada do carro, ajudei pelo outro lado.

— Desculpe, não quero falar nada.

— Entendo. Perdoe minha indelicadeza.

Cecília repousou sua cabeça em meu ombro. Era torturante vê-la assim. Apenas segurei sua mão enquanto olhava para Daniela e Lili.

Olhei a paisagem das vielas estreitas. Senti algo me perturbando, um sentimento de inferioridade. Onde sentir que a vida é tão efêmera quanto uma folha em um lago, um simples sopro do cálice da vida.

— Chegamos. — Disse o chofer.

Segurei Cecília para ajudá-la a sair e andar. Ao entrar na casa, um peso se sobrepôs em mim, não sei descrever fielmente, mas foi algo frio e solitário, parecia ecoar o silêncio.

Entramos. Levei Cecília ao quarto, sentou na cama, me ajoelhei no chão em sua frente e apoiei minha cabeça em seu colo, agarrei o vestido. Nesse momento meus olhos inundaram-se, ela abraçou minha cabeça envolvendo-a. Um homem tem seu orgulho abolido quando está descansando sua cabeça sob o colo de sua mulher entre quatro paredes, onde olhos e fofocas não nos veem, onde apenas sua mulher sabe quem és verdadeiramente. Um homem com a estirpe de um nobre fora desse espaço é imortal, onipotente e onisciente, não possui fraquezas. Em seu colo afundei meu rosto e chorei. Não sei ao certo por que derramei essas lagrimas, admirava o antigo Duque, mas não o suficiente para tal. Talvez estivesse triste por ver Cecília em luto, ou estive pensando em meu pai, talvez até imaginando quando seria a hora de minha mãe. A morte é a única certeza que temos a respeito da vida, sabemos que tudo morre, mas negamos a aceitar facilmente a perda, por um simples motivo, a dor. Depois de me acalmar deitamos e escutamos o som da chuva.

Pela manhã levantei cedo, Cecília ainda dormia. Levantei, não precisei trocar de roupa, pois dormira com a do velório, apenas vesti um casaco e sai. A neblina cobria as ruas e o orvalho abraçava as janelas dos prédios, um branco sepulcral, cujo frio encandecia a calma. Era audível apenas os sons dos carros. Estava indo ao bar de jazz Pantera. Se quisesse ouvir boa música, esse era o lugar certo. Dobrei algumas ruas e deparei-me com as portas do teatro, sendo pouco a pouco devoradas pelos cupins. Nem mesmo a armadura de metal que folhava a madeira detinham-nos. A cidade estava vastamente quieta e sozinha, as ruas de pedra sumiam em poucos metros. Em frente a porta do teatro havia um homem. Estatelou um olhar frio sobre mim. Não pude ver seu rosto, estava coberto por uma longa gola de uma capa que se estendia sedosamente até o chão e um chapéu coco.

— Quem és? — Foram essas as palavras deste misterioso homem antes de dar as costas e entrar no teatro.

Não posso dizer o motivo de ter a curiosidade por aquele momento. Senti algo fazendo-me entrar, talvez uma maldição ou a simples busca curiosa como um repórter faz à elite. Desleixo meu deixar-me seduzir por simples desejos torpes. Ignorando qualquer senso de lógica e cuidado decidi averiguar. Subi cautelosamente os degraus da entrada do teatro que fora fechado poucos meses antes. Sua porta deveria estar lacrada. Cheguei perto, olhei para trás, mas nada vi. Abri calmamente.

O silencio sepulcral ecoava pelos corredores escuros. Quando crianças, aprendíamos que quanto mais poeira se instalava em algo em um curto período de tempo, mais problemas haviam no ar e, realmente, Morryes possuía um ar problemático. Entrei no salão dos acentos, apenas a luz da manhã passava pelo telhado de vidro e enriquecia a beleza do abandono e solidão, basta essas palavras a descrever esse momento, meu peito apertou, como se estivesse me identificando com isso. Caminhei lentamente entre os acentos até chegar ao palco de madeira negra e gasta pelo tempo, no entanto, muito forte. Dei a volta e subi. Olhei os lugares vazios. — Então é essa a visão que eles têm. – Pensei. Vislumbrou-me a retina ao ver essa imensidão. Misteriosamente senti uma brisa fria passar e derrubar meu chapéu. No fundo da plateia o som de passos surgiu. Logo um vulto negro apareceu, o homem que vera antes de entrar. Seus olhos eram verdes, fora a única coisa que pudera ver. Sacou uma pistola e apontou-a a mim. Não sabia o que fazer, fiquei paralisado. Não sei explicar o medo e o frio que senti nesse momento.

— Não deverias buscar respostas às perguntas que não deveriam ser feitas. — Fora o que o misterioso homem proferiu.

Pude ouvir o som do projétil expelido pela pólvora negra e sentir meu braço queimar, não pela pólvora, mas pelo projetil que penetrara em meu braço. Ajoelhei-me em meio ao vago palco empoeirado banhando-se com meu sangue que escorria. Olhei para ele, olhos frios, olhos de quem poderia ter-me matado sem remorso, mas assim não o fez, apenas lançou-me um olhar cerrado, deu as costas e saiu.

Levantei assustado, nunca alguém apontara uma arma a mim, quão mais atirado. Sentia muita dor, quase insuportável. Corri à saída, apoiava-me em tudo que tocava. Um rastro de sangue manchara os velhos e clássicos tapetes. Após um momento tortuoso sai do teatro pela porta da frente. Andei até o primeiro estabelecimento aberto e procurei por ajuda. De início o farmacêutico chocou-se, claro! Um nobre que governa o ducado entrar em sua propriedade pela manhã.

— O que houve? Senhor, estás sangrando. — Perguntou prestando ajuda.

Gritou para chamar alguém a fim de o ajudar.

— Fui alvejado. Ajude-me por favor. — Pedi desesperado.

Agarrou-me o casaco e cortou a manga com uma tesoura, deitou-me sobre o balcão, pegou compressas, logo uma garota chegou.

— Ajude-me, filha, ele está ferido, traga água quente.

— Muito obrigado senhor, a propósito, qual é o teu nome? — Perguntei enquanto gemia.

Uma dor lancinante, foi o que senti, meu braço perdendo temperatura aos poucos pelo frio e eu haver perdido a manga de meu casaco. Pedi por morfina. – Dê-me morfina, dê-me morfina.

— Desculpe, não temos morfina, o ultimo estoque acabou e não há mais fornecedores vendendo.

Acatei quieto. O farmacêutico fez um torniquete com um curativo, terminou de retirar o excesso de sangue e derramou álcool. Nunca havia sentido tanta dor, muito superior ao próprio projétil que penetrara em minha carne. Tentei puxar o braço, mas estava preso. — Está queimando, morfina, morfina. — Bradei como um animal capturado. Joguei rio abaixo o orgulho e masculinidade nobre nesse momento. Lembro rapidamente da garota trazendo água quente e alguns materiais.

— Isso doerá, senhor, mas não se preocupe, servi na guerra como médico, mesmo sendo farmacêutico. — Disse em voz calma de tonalidade transbordando nostalgia.

Aos poucos senti a pinça entrar pelo orifício do projetil. Mexia em círculos e cutucava procurando o objeto.

Após algum tempo escutei o som tão desejado, o som do chumbo sendo abandonado em queda livre em uma bandeja de aço.

— Vamos coser agora. — Alertou o farmacêutico.

— Está bem.

— Tens sorte, meu senhor, não rompeu nenhum vazo importante e a hemorragia está estancada, realizarei o processo de limpeza e após iniciar a cose.

Foram momentos dolorosos. Ele costurava enquanto sua filha retirava o excesso de sangue. A sutura não demorou, enfaixou, ajudou-me a levantar. Fiquei em pé, meu casaco estava ensanguentado.

— Desculpe, sei que não é digno de ser usado por ti, peço para que não se ofendas por ter apenas esse casaco a lhe oferecer. — Disse o farmacêutico. Era simpático, por outro lado, não conseguia esconder sua preocupação, normalmente um nobre se recusaria usar a roupa da plebe.

— Não há problema algum. Peço desculpas por fazer-te trabalhar repentinamente, a ti e tua filha, obrigado. — Vesti o casaco, era verde musgo, mesmo sendo possível ver que era um tecido barato, sabia que era também seu melhor casaco.

Não encontrei palavras para agradece-lo. — Quanto queres? — Perguntei.

— Nada senhor, não precisa pagar.

Realmente ele não conseguia esconder o que realmente pensava. Quando lhe perguntei sobre isso e me respondera que não queria dinheiro, suas sobrancelhas enrugaram-se levemente e seus olhos brilharam, não por simples felicidade, mas ele era um dono de uma pequena farmácia jazida em um edifício de dois andares, o qual usavam o primeiro antar como comercio e o segundo localizava a casa, então o brilho de seus olhos eram lagrimas retidas em sua retina, mas segurava para não as derramar.

Sua filha tomou a palavra. — Pai, precisamos pagar o aluguel desse mês, está atrasado. Desculpe por ser aproveitadora, mas poderia nos ajudar com esse problema?

Seu pai disse enfurecido. — O que está dizendo garota mal-educada? Vá para dentro. Desculpe-a, senhor. Ela está cansada devido ao trabalho e ao estudo.

— Espere. — Pedi. — Sinceramente gostaria de dar-vos esta casa como presente, mas não posso fazê-lo por problemas sociais. Se dar ao senhor, terei de dar à toda a cidade. Espero que entenda, mas posso te dar o preço da consulta com prêmios por honraria da segurança pública, com o dinheiro que receber poderá pagar um ano de aluguel adiantado.

Para alguém como eu, a quantia de um ano de aluguel, é a quantia do casaco que fora cortado, um valor literalmente pequeno, mas pude ver em seus olhos a felicidade.

— Devo ir agora, talvez já tenham dado falta. — Cumprimentei os dois e sai.

Andei calmamente pela neblina. Não mudaria o fato de haver ou não dor, mas andar sem pressa exigiria menos de meus músculos. Quando cheguei ao portão, fui surpreendido por criados que saiam às pressas a me procurar.

— Meu senhor, meu senhor, como estás? Onde foste? Estamos todos preocupadíssimos. – Perguntou-me a governanta.

Caminhei até a porta, e abri com dificuldade, dirigi-me a sala de chá. Lá esperavam, Branca, Cecília, Elizabeth e a governanta.

— Onde esteve? Meu filho. Saíste cedo e sem avisar, o que é esse casaco velho? — Branca segurou minhas mãos com força. — Estava apreensiva, não saberia o que fazer se não voltasse.

— Estou bem, mãe, a propósito, ajude-me a despir o casaco, por favor. — Pedi.

Assim o fez, retirou meu casaco, perceberam que não vestia camisa. Repararam o grande e firme curativo, desesperaram-se naturalmente.

— O que houve? — Cecília olhou-me assustada enquanto levantava.

— levei um tiro. — Respondi.

Perguntas e mais perguntas metralhavam-me, obviamente acompanhada de preocupação.