Memórias de vidro

8 Apenas deleitou-se em meus braços para fechar os olhos e morrer.


Recuperei-me de meu ferimento, ao menos que pudesse mover meu braço de forma a escrever documentos e assiná-lo. Depois do período de adequação e apresentação documental em prol de introduzir-me na administração do ducado, deveria saber quem eram os nobres do distrito Morckiaschen. Uma lista infindável de nomes e títulos espalhados. Sempre foi desconfortável lidar com essas coisas. Um jovem dezenove anos que casou com uma jovem de dezesseis, jamais imaginara tamanha responsabilidade prematura que tinha em suas mãos.

Após a volta da viagem nupcial, como prometi, aceitei a concessão de instalação da Machine & Machine es obras do novo teatro foram iniciadas. Logo negociações viriam para construir estradas descentes às vielas e becos de Morryes.

Não tão frio talvez, como me lembro fora em uma tarde, o sol iluminava a água da baía do porto, bela manhã. Poucas pessoas com casacos, um dia de trégua, sol ganhou sua batalha contra as nuvens, um dia que ocorre duas vezes no ano, em um país que reside entre os ventos nórdicos da Noruega e Inglaterra, raramente o pouco sol que aparece é suficiente para nos fazer tirar o casaco. Muitas vezes ouvi falar de um compatriota de idioma que se situa no equador, ao menos seu extremo norte, o Brasil, tropical e com praias lindas, porém, um país sem muita influência, certamente atuou na guerra, no entanto, sem mais, dizem que em algumas regiões os habitantes não sabem o que é frio. Somos parentes linguísticos, mas não com histórias parecidas, o Brasil fora colônia portuguesas por alguns séculos, Burtchendill adotou o português devido ao primeiro rei implantá-lo. Livros de história não dizem ao certo, embora Burtchendill trazer características da Alemanha e Inglaterra bem como uma língua germânica própria.

— Senhor, já é hora. — Disse Daniela ao me acordar. — Não devias beber em avareza nas noites de festas.

Levantei à luz pérfida cuja o brilho traia-me de mãos dadas com a ressaca, doía a cabeça, latejava ao ritmo da percussão da ópera. Após vestir o terno, sai com Branca às negociações. Enquanto íamos à vila dos peixes, devaneei ao lembrar das coisas que me ocorreram até aquele momento. Amadureci pouco, mas o suficiente para tornar-me alguém que segue os paços de sua mãe, a mulher inteligente e calculista. Enquanto vivia em Collins tinha a vida abastada de um fidalgo qualquer, mimado, apenas ouvia sim de meus criados. Após esses meses passei a mimar a mídia, dando aos jornais notícias selecionadas e omitindo informações. Aprendi a entrar no jogo de perseguição, quando a segurança que usufruía antes, como já experimentara com chumbo, agora não havia. Mergulhei a fundo no que se parecia o mundo real, um intrínseco novelo de melancolia soberba que me fazia refletir sobre o que acontecia. Após o longo caminho pela estrada de pedras um buraco havia, e nele a roda do carro afundou, fazendo-me despertar.

— Estás perdido, Edmund? Voando em visões. — Perguntou Branca em tom suave.

— Servi-me de memórias e reflexões. – Sorri.

Branca mostrou-se mais próxima a mim. Apesar de ser minha mãe, sempre foi distante. Incontáveis vezes perguntei-me se realmente me amava, porém, a cada dia deixava mostrar seus sentimentos, algo como mãe e filho. De um jeito peculiar, um tanto frio, mas existente.

Faltava muito tempo para chegar à vila. Branca, assim como eu, escorou-se na janela e pôs-se a sonhar. Sorria com o canto da boca destacando seus olhos que brilhavam feericamente.

— Agora és tu quem sonhas. — Disse calmamente. — Com o que deleitaste?

— Por muitos anos fui consumida pelo luto, desde o náufrago do Titanic, onde teu pai morrera. Hoje vejo-te, tu e Cecília se amando, repentinamente lembrei dos amorosos momentos que vivi com teu pai.

— Jamais contaste sobre o romance entre vós. Fico curioso.

Ajeitou-se confortavelmente para falar. — Contar-te-ei, mas penas como nos conhecemos.

— Que surpresa. Foi muito repentino. Por que vai contar?

— Não queres saber?

— Logicamente quero. Mas por que assim? Depois de nunca falar sobre. E assim, de repente dizer.

— Acho que amoleci um pouco vos vendo juntos. De qualquer maneira...

"Eu e Elizabeth estávamos à deriva em um baile em Collins, uma festa de comemoração pela descoberta de uma mina de ferro no baronado sob posse do marquesado de Collins. Estávamos nós a ser alvejadas por cortejos e pedidos a dança de rapazes fidalgos da nobreza.

Elizabeth sempre foi mais aberta a relacionamento, já eu, sempre seleta e detalhista.

Foi então aí que um rapaz com fugazes olhos destacados pelo colete negro e o brilho da bandeja de prata que ele carregara em suas mãos sorriu em minha direção. Acredito que seja uma lembrança distorcida. Sei que um garçom deve ser cordial com todos e todas, isso obviamente me incluía. Sorriu com covas que me enterraram.

Por que alguém que não quis a nobreza escolheria um plebeu? Parece simples não é mesmo?

A paixão, estupida como sempre, fora esse sorriso que me encantou.

— Deseja vinho, madame? — Perguntou ele.

— Sim. — Respondi arrogantemente, talvez confusa por ter sentido uma sensação estranha.

Serviu a taça até metade, curvou-se e deu as costas.

— Espere garçom! Qual é teu o nome? — Perguntei por impulso.

— Edward, madame.

— Nunca te vi aqui.

— Hoje é meu primeiro dia. Mudei-me ontem. Desejas algo mais?

— Não.

— Com licença.

Reparei-o dançar a valsa da criadagem, voando de um lado ao outro para servir os convidados. Não sei dizer o motivo que me fez segui-lo com os olhos. Após todos os cortejos e recepções apropriados veio a calmaria. Lindos vestidos de renda bordados à prata ou ouro, tecidos dos mais variados tons de amarelo, vermelho, verde e azul; alguns perolados e outros extravagantemente fugazes. Possuída pelo tedio decidi caminhar pelos cômodos da casa, fui ao corredor dos empregados e entrei em um quarto, a porta estava encostada, a curiosidade atraiu-me.

Meu caro Edmund, não preciso dizer que se trata de clichê. Posso dizer que meu corpo sentiu curiosidade e que parei no corredor da criadagem de propósito, embora, sem saber disso. Voltando ao assunto.

— Madame. O que fazes aqui? Esse corredor não é digno de vossa presença. — Disse Edward surpreso e espantado ao ver-me lá.

— O que estás fazendo?

— Estou lendo um livro de um escritor Brasileiro, Machado de Assis. — Parecia acuado.

— Adoro suas histórias, inteligentes, não são para quaisquer pessoas, apenas às que usufruem da degustação de ler boas histórias. — Entrei um pouco mais no seu quarto.

Para o quarto de um rapaz, era organizado. Havia uma cama arrumada e uma estante repleta de livros.

— Onde conseguiste os livros?

— São livros destruídos pelo tempo e umidade da biblioteca do Marquesado, comprei por preço baixo. — Ainda parecia desconfortável.

— Entendo. — Caminhei olhando seus moveis e parei em frente a estante. — Não deverias estar servindo ao baile?

— Não até a segunda ordem, madame. Minha escala terminou. Uso meu tempo livre de modo como cá vê.

— Posso? — Perguntei segurando o livro "Endymion: A poetic romance".

— Certamente madame, rogo para que não se incomode com a forma que se encontra esse livro.

— Obrigada, após lê-lo, devolverei.

— Como quiseres, madame.

Subi ao meu quarto e deleitei-me à leitura. Fui emprestando seus livros todas as semanas. Quando dei conta, caminhávamos juntos articulando sobre as obras. Não preciso falar o que aconteceu, todavia, era em um baile, estava por diversão apenas, fui ao seu quarto e lá passei a noite."

Terminou de contar a resumida história de amor. Sempre imaginei que havia escondido algo. Descobri tempos depois de branca haver contado tal história.

— Fizeste-me nessa noite? — brinquei.

— Não, nem nessa, quão menos as noites antes do casamento, fora feito nas núpcias. — Acredito que após contar-me sua história, perdeu o controle sobre a língua. Quando disse isso, logo notou e tapou a boca, ficara corada. — Sou uma dama, não digo tais coisas.

— Tens um filho homem, já senti o gosto caloroso de uma mulher, não fiques constrangida. — Corroborei em um tom despreocupado.

Logo ao fim da descontraída conversa chegamos à vila dos peixes. Como seu nome sugere, o forte produtivo é a pesca. Localizava-se ao Norte do país, no pontal norte, próximo ao porto antigo dos escravos. Vila simples, não muito luxuosa, pacata. Passamos pelo portal de entrada e nos dirigimos diretamente ao Barão responsável.

Uma casa que fugia do padrão da vila. Era grande a larga, bela construção e acabamento, digna de nobre. Quando estacionamos o carro, havia um grande número de criados, acredito que eram todos da casa. Branca e eu saímos e caminhamos calmamente pela calçada. Em frente à porta esperava o Barão Pietro, Barão dos peixes, um homem experiente, aparentava aproximadamente 40 anos, postura firme como de um marinheiro nato e corpo de tal. Ao lado sua esposa grisalha de quase mesma idade, olhos negros e grandes.

— É uma honra receber-te aqui vossa excelência, marquesa de Collins. — Beijou a mão de Branca. — Esse é o teu filho?

— Sim. O novo Duque de Morryes. — Completou.

— Perdoe minha indelicadeza. — Pediu. — Não esperava alguém tão novo ocupar tal cargo. — Cumprimentou-me. — É um prazer conhecê-lo.

— O prazer é meu. — Respondi.

— Entremos. — Pediu. — Os convidados já estão presentes.

Cumprimentamos sua esposa e entramos. Fomos à sala de reuniões. Lá haviam, um advogado, um empresário e um secretário de ata. Logo quando entramos, levantaram-se.

— Sou o advogado Maciel, trabalho em nome da empresa "Os Enlatadeiros", prazer em conhecê-lo.

— O prazer é meu. — Respondi.

— Sou Manuel Costa, dono do projeto. — Cumprimentou-me.

— Sou o Duque de Morryes, esta é minha mãe, Branca, Marquesa de Collins.

— É um prazer conhecê-la, minha senhora.

— O prazer é meu. Vamos direto ao assunto.

Sentamos em nossos devidos lugares. Destacarei os momentos e falas significativas que recordo. Primeiramente quem tomou a palavra fora o senhor Costa.

— Estes são os projetos, como solicitado o projeto arquitetônico e engenharia.

Branca abriu os grandes rolos de papel azul quadriculado e em cada extremidade que dobra descansou um peso de papel, afim de estica-lo.

— Não há nada errado. — Disse após uma rápida e atenta olhada.

— Certamente, qualidade é o foco da empresa. Desde seus produtos à infraestrutura. – Proclamou Costa confiante.

Não lembro ao certo de suas feições, acredito que em função do fato de ter me envolvido com milhares de pessoas individualmente, mas algo que não esqueço é seu olhar, o qual trazia consigo o fulgor dos olhos azuis e sérios que exibia, retinas quase como uma fortaleza de confiança e certeza, talvez estes olhos tenham conquistado Branca, ao menos mostrou-se assim, Branca pareceu confiar mais no Costa do que em Isaac Horse, pareceu-me certa decisão, acredito que dificilmente passaria despercebido um olhar como aquele.

— Creio que saibas a condição da aprovação. — Disse Branca.

— Certamente que sei, começaremos as obras das rodovias assim que aprovado.

O contrato tratava-se de uma empresa de enlatados que buscava exportar seus produtos usando o porto de Morryes. As condições do contrato eram: A construção de três rodovias que ligassem diretamente o porto de Morryes à vila dos peixes, pontal inglês e o pontal sul, com isso sediaram a primeira empresa de enlatados no país que exportaria à Holanda, Noruega, Alemanha, Portugal, Finlândia e França.

Não foi uma longa conversa, pelo contrário, terminamos as aprovações logo em seguida, total cumprimento das cláusulas. Interessantemente não procuraram por descontos, acredito que pelo preço social da obra ser baixo.

Não tínhamos nada a fazer depois de sair da casa do barão. Branca e eu saímos para caminhar pelo mercado. Haviam peixe em qualquer direção que olhássemos, todas as espécies e cores, mortas ou vivas.

Paramos em um restaurante 4 estrelas. Belo lugar, decoração seguindo o padrão dos restaurantes da vila, com a diferença de peixes como decoração. Sentamos em uma mesa redonda decorada com tecido bege claro e vermelho, duas velas decorativas e um pequeno vaso com tulipas. Pedi salmão cozido no limão e arroz chinês, branca escolheu caviar.

— Essa reunião não demorou.

— Como eu dissera. Todas as negociações são diferentes e possuem níveis de dificuldade. — Sorriu como uma professora lecionando.

— Certamente, mas não entendo o motivo de a coroa estar fazendo isso, abrindo o país ao mercado. — Indaguei confuso.

— Há muitas coisas que não sabes, meu querido Edmund.

— Algumas mercadorias estão em falta.

— Como? — Pareceu curiosa.

— Quando fui alvejado no braço, um farmacêutico ajudou-me. Pedi-lhe morfina, mas não tinha e disse-me que não havia em quase lugar algum, nem mesmo os importadores a possuem.

— Estranho. Investigarei, não deveria parar, quão mais um medicamento de tamanha importância.

— Seria obra de uma empresa que deseje um monopólio farmacêutico de Burtchendill? — Perguntei.

— É uma hipótese forte, contudo o rei não permitiria tal crime.

— O que o rei está fazendo? Nunca falam sobre, não o vejo nos jornais, parece que não há rei algum.

— Como te disse uma vez, ele sabe o que faz.

A comida chegou. Comemos e saímos, dessa vez a Morryes. Longa viagem novamente, voltei refletindo sobre os mesmos pensamentos da ida.

Talvez aquele momento abriu meus olhos um pouco mais. Sabia que o mercado estava sob tutela do rei e que estaria consciente da falta de morfina, isso significa que realmente estávamos sem o medicamento ou estava sendo desviado por alguém.

Pela manhã do outro dia. Abri os olhos e admirei Cecília dormindo delicadamente, mas logo levantei. Não havia nada a fazer. Vesti-me, fui comer e voltei ao quarto. Cecília ainda dormia. Abri a gaveta que a muito não abria e pus-me a ler os registros dos casos. Investiguei os padrões novamente, analisei as armas usadas. Nos últimos casos haviam objetos curiosos como, cruzes, terços e ampolas com água salgada junto aos corpos, mas não haviam suspeitos. Era como se o assassino fosse um fantasma ou um demônio. Não fiz progresso algum.

Após uma ou duas horas analisando os documentos Cecília acordou.

— Bom dia, meu amor.

— Bim dia, querida.

— Onde vais vestido assim a essas horas? — Perguntou sonolenta.

— A lugar algum, até porque, não está cedo, tu que acordaste tarde.

— Uma dama tem de ter um longo sono de beleza.

Quando peguei o jornal, havia a notícia de assassinato, mas agora apresentava um corte na artéria do pescoço. Era uma mulher, cabelos negros, pele branca; fora o que pude ver em foto. Talvez estivesse preocupado com tal, não é para menos, como Duque, deveria manter a segurança, mas precisava distrair-me.

— Queres ir ao parque? — Perguntei à ela.

— Sim, aprontar-me-ei. Espere por mim na sala e chame as criadas. — Pediu gentilmente.

— Está bem.

Esperei-a na sala enquanto conversava com o mordomo sobre coisas aleatórias.

Tal como uma vaidosa mulher, Cecília tardou em arrumar-se, demorou uma hora para descer. Estava deslumbrante, uma hora muito bem gasta. Usava um vestido vitoriano de camadas azul-celeste repleto de rendas negras, um chapéu preto com rosas artificiais azuis.

— Estás magnifica. — Afirmei beijando sua mão.

— Ilude-me. — Sorriu.

Não demoramos a sair. Entramos no carro e partimos. A luz refletida em sua pele branca e o vestido azul destacou-o seus olhos e o contraste do rendado negro com seu pescoço fino de bem desenhado moldava-se nos padrões artísticos de Apolo.

— Antes de chegarmos ao parque, preciso ir a um lugar. — Pedi.

— Não vejo problemas, temos tempo.

Nuvens plúmbeas aprontavam-se para chover. O vento sibilava calmamente. A baixa vivacidade da paisagem destacava Cecília com sua beleza feérica, não lembro de adjetivos suficientemente próprios para descrevê-la, mas lembro dela, isso já basta.

Estávamos caminhando calmamente numa rua intensamente movimentada perto do centro. Naturalmente chamamos a atenção. Não tardou em surgir um repórter fazendo-me perguntas. Logo burgueses e plebeus esqueciam divergência a fim de nos cumprimentar. Mas este era o menor dos meus problemas.

Repentinamente Cecília perdeu sua força e apoiou-se em mim.

— O que houve? — Perguntei assustado.

Apertou meu paletó com força, caiu em meus braços e sem ao menos dizer uma palavra, transbordou sangue de sua boca. Sua pele empalideceu. Tentei reanimá-la, mas fora perfurada em seu abdômen por uma adaga envenenada.

Poderia dizer que teve a oportunidade de dizer que me amava, mas não. Apenas deleitou-se em meus braços para fechar os olhos e morrer.