Memórias de vidro
9 Admirei atentamente o céu e fechei os olhos lentamente.
— Sinto muito pelo que aconteceu. – Disse Thomas.
— Absinto, por gentiliza.
O bar estava fechado. Não havia fumaça ou jogos de pôquer, haviam apenas eu e Thomas.
— Por que abriste estas horas? — Perguntei-lhe ao beber uma dose.
— Tedio talvez, nada a fazer em casa.
— Entendo. Fico feliz, um bar é tudo que um homem precisa para desabafar como em casa não pode. — Entreguei-lhe o copo.
— O que fará de agora em diante?
— O que acha que farei? Investigarei a fundo. Tenho ideia de quem está por atrás disso. Torturá-lo-ei até seu sistema nervoso não sentir mais dor.
— E quem seria?
— De que importa?
— Entendo...
Ao chegar em casa avistei uma correspondência. Estranhamente não era hora de os carteiros entregarem. Havia apenas esta, as outras haviam de ser recolhidas por um criado logo pela manhã. Entrei e pendurei meu casaco no gancho, fui ao meu aposento, descansei o pacote sobre a mesa e pus-me a analisá-lo. Não havia destinatário, quão menos remetente. Uma caixa que parecia ser madeira de pino cortada em chapas finas. Abri-a, dentro havia algo coberto por um tecido de seda bordô. Retirei-o, jazia um punhal de aço polido que descansava sobre um acolchoado de tecido. — O que é isto? — Pensei segurando o objeto em mãos. Quando notei, havia um bilhete dentro da caixa. Era de papel de bambu dobrado, descansei o punhal ao lado e peguei, li-o então. Não lembro ao certo minha reação, mas senti meu coração bater rapidamente e o ódio consumiu-me.
"Este é um souvenir para nunca esquecer de sair do caminho, senhor Duque, a propósito, apesar de polida e limpa, ainda há chance de haver veneno, cuidado."
Dobrei o papel e coloquei-o na caixa.
Sentei aos pés da cama e fuzilei a adaga com um olhar gélido e extasiado. De repente a porta abriu-se, Daniela entrara a fim de trocar as roupas da cama, olhou-me sentado fitando a adaga.
— O que é isto? — Avistou de longe o objeto.
— Olhe o bilhete.
Cegou mais perto, sua pele branca empalidecera, seus olhos se abriram, arqueou as sobrancelhas para cima. — Isto é....
— A adaga que apunhalou Cecília a alguns dias, adaga de Werckinberrevich. Leia o bilhete. — Interrompi.
Pôs-se a ler, logo deixou o bilhete cair ao chão.
— Conhece esse punhal Daniela?
— Já o vi em livros. — Calou-se.
— Ajudarás em minha busca, que isso não saia desse quarto.
Peguei o punhal e deixei-o dentro da caixa, guardei-a em uma gaveta, abri outra e retirei todos os documentos que tinha sobre os casos e os Black Night. Calhamaços de folhas e fotografias de alguns casos. Ordenei à Daniela que suspendesse quaisquer atividades. Peguei uma cadeira enquanto ela avisava a governanta e posicionei ao meu lado.
— Sente-se ao meu lado.
— O que quer que eu faça, meu senhor? — Suspirou confusa.
— Leia os casos e veja as fotos. Diga-me se encontra algum padrão.
Passou-se uma hora aproximadamente. Afundávamos em papéis e riscávamos as informações importantes. Notamos alguns padrões seguidos de duas formas, como se fosse não um assassino, mas dois. Segundo os registros o primeiro padrão que encontramos há tempos foram as formas de assassinato, retalhamento ou finco de adaga no pescoço. Sempre próximos ao teatro, ao menos os primeiros; no entanto, algumas fotografias dos cadáveres em cena ou necropsia, de 15 casos fotografados, 11 foram mortos por retalhamento, curiosamente estes 11 não apresentavam alguns dentes, principalmente os caninos, os demais apenas uma adaga fincada no pescoço e 10 casos não provém de fotos.
— O que isto significa? — Pensei. — Algum fanático por dentes?
— Não senhor. Ouvi falar uma vez, usam os dentes em rituais. Acredito que sejam retirados a fim de vendê-los aos africanos residentes na Europa que seguem as religiões que usufruem da magia de sacrifícios.
— Entendo. Mas não acredito que deixariam para trás um sacrifício todo e roubar apenas os dentes. Em mercados como estes, o coração, olhos, cérebro e genitálias são os mais procurados, dentes são largamente contrabandeado para fabricação e transplante dentário, em questão o mercado odontológico.
— Então o que levaria o outro padrão?
— Provavelmente não são contrabandistas de órgãos ou colecionadores de dentes. Agora vejamos. O retalhamento pode ligar-se a fatores psicológicos, como o sadismo, no entanto, ferimentos como esses, matam pouco depois de feitos. Não seriam atração suficiente para um sádico. Acredito que seria obra de um altista ou esquizofrênico, são ferimentos brutais como de animais grandes, como um urso.
Peguei uma garrafa de vinho e abri, bebi da própria garrafa goles largos.
— Queres beber? Talvez ajude.
— Não, obrigado.
— Não há problema algum nesse momento, ninguém nos vê. De qualquer maneira, deixarei aqui, pregue quando quiser.
Aposentei a garrafa sobre a mesa.
— Devemos começar seguindo aos dentistas.
Levantei, pedi à Daniela que ficasse e fui à sala de chá. Elizabeth e Branca conversavam enquanto bebiam chá.
— Mãe, preciso conversar contigo.
— Está bem, vamos ao teu gabinete. — Sugeriu.
Lá sentamos nos sofás. Servi-lhe uísque.
— Acredito saber o motivo de haver me chamado. — Concluiu Branca com tom sério.
— Certamente. Quero que...
Interrompeu-me. — Queres que eu cuide dos negócios enquanto procuras vingar-se do assassino de Cecília? Antecipo-te a resposta.... Não.
— Como? Qual motivo?
— Sou tua mãe. Não poderia deixar meu filho partir ao suicídio.
— Então ajude-me com tua inteligência. — Supliquei.
— A polícia existe a fim desse propósito.
— Sabes que não comando o corpo de polícia, não receberia apoio. Tu sabes negociar, poderia suprir meu lugar.
— Não.
Levantei-me calado, sabia que não conseguiria nada mais. Voltei ao quarto. Daniela ainda esperava sentada.
— Quero que saía à noite comigo, vamos procurar algo.
— Sim, meu senhor.
— Descanse. Antes diga à governanta que a partir de hoje, não serás mais uma criada. Promovo-te à secretária. Com isso poderás sair da mansão a qualquer momento.
Deixei o quarto e fui à sala dos guardas. Havia apenas uma pistola carregada. Procurei por munição, infelizmente não encontrei. Prestes a sair, lembrei-me e pensei. — O armamento dos guardas é contado, significa que não deveria faltar ou sobrar armas. — Dirigi-me ao quadro do relógio ponto. — Como pensei, faltou um guarda, não posso simplesmente me apossar dessa máquina, eu seria o principal suspeito de pegá-la. O problema não seria pegá-la, afinal, são minhas, mas se notassem o desaparecimento dela, Branca não me permitiria sair. — Guardei a arma onde estava, sai da sala e fui ao Jardim para refletir.
Sentei no banco, fechei os olhos. — Certamente devo ter uma fração do talento de minha mãe. – Pus-me a analisar as saídas. — Preciso de armas. Mas como consegui-las? Não que qualquer um não as comprasse, o problema simplesmente era meu rosto ser conhecido por todos saberem que sou, como passar por isso?
Olhei o túmulo da Cecília, um pequeno mausoléu que mandei construir no jardim, o cimento ainda estava fresco e o mármore polido brilhava. A tristeza consumia-me. A cada momento que lembrava a ira dava-me as mãos. — O que farei?
O céu estrelado era refletido pela água na baía do porto. Trajei o casaco do farmacêutico, botas dos antigos guardas e roupas um pouco surradas. Daniela chegara em meu quarto. Vestes simples e discretas, vestido marrom de flanela, botas negras e um casaco grosso de couro velho.
— Como sairemos? — Perguntou aflita.
— Por atrás do jardim.
Assim o fizemos. Esperamos a troca de turno dos guardas. Quando não houvesse ninguém, passaríamos. Confesso que fora apenas sorte, muito mais sorte do que tato. Em fim saímos e projetamo-nos sob o breu das vielas. Cabeças baixas e braços enganchados a fim de parecermos um casal de pobres que queriam passar a noite pelo norte da cidade.
A noite ajudou-me em não revelar minha identidade, o chapéu escurecia minha face. Caminhamos em passos lentos até a estação ferroviária. Lá pegamos o bonde da madrugada e seguimos ao Oeste e depois ao sul. Conforme íamos nos aprofundando na periferia, aumentava o número de prostíbulos, bares e mendigos. Sujeira e mal cheiro predominavam quase em sua totalidade. Abotoei a gola do casaco, cobriu meu rosto até abaixo dos olhos, mas éramos forasteiros e havia esquecido de disfarçar meu modo de andar. Olhavam-nos, sabiam que éramos nobres pelo modo de andar, mas seguimos em frente, ignorando as chamadas.
Após algum tempo andando, chegamos na Casa de armas, o centro da gangue contrabandista de armas. Não escondiam sua localização por serem fortes e a polícia não possuir poder de detê-los em seu terreno. Era um prédio antigo, quatro andares e janelas pequenas. Fomos à porta e tocamos quatro vezes. Nesse momento cobri meu rosto com uma máscara negra de ferro fino, apenas com orifícios para os olhos.
— Quem são?
— Não importa, queremos armas. — Respondi.
Após alguns minutos a porta se abriu, um homem segurava uma espingarda. — Retire a máscara, senhor. — Ordenou.
— Não. Poderíamos ir aos negócios?
Cedeu por ordem de outro homem atrás do balcão. Era um espaço repleto de armas, como uma loja comum, no engando, ilegal. Chegamos ao balcão.
— És um nobre não é mesmo? — Perguntou o homem.
— Sim, sou. — Respondi-lhe.
— Não tens medo? Vir ao ninho das cobras?
— Vamos aos negócios.
— É rápido! Sem cortejos? Que assim seja. — Deu as costas e pegou pistolas de barriu e semiautomáticas de vários modelos e depositou-as no balcão. — São bons modelos para porte velado, nobres como o senhor necessitam de armas desse porte.
— Entendo, quero com a melhor precisão e menor chance de falhas.
— Colt 1911, atente suas expectativas.
— Quanto?
— Dois mil.
— Dê-me duas, quero ela carregada e seis carregadores cheios.
— Como?
— Isso que escutou.
— Como quiser.
Não demorou a terminar de montar o pedido e organizar os objetos sobre a bancada.
— O que mais?
— Coldres, dois coldres, um para pernas e outro para debaixo dos braços.
— Aqui está.
— Quanto?
— Total do pedido é doze mil.
— Dou-lhe quinze e ninguém fez essa compra?
— Que compra?
— Ótimo.
Trajei o coldre de tórax, guardei os três carregadores e uma das armas, a outra entreguei à Daniela.
— O que? — Pareceu perplexa. — Não posso, meu senhor.
— Pegue. Vai precisar.
Ela não pode recusar. Rasgou a lateral do vestido, amarrou o coldre de pernas e guardou seus respectivos carregadores.
— Foi uma honra fazer negócios com os senhores. — Disse o vendedor.
— Que negócio?
— Desculpe, força do abito.
— Vamos, Daniela...
Saímos às pressas, corremos a um beco e nos escondemos sob o breu da sombra.
— Aqui está bom.
— O que houve?
— Silêncio. — Sussurrei. — Estão nos seguindo.
— A casa de armas?
— Não, eles sabem que seremos bons negócios no futuro, não seriam loucos o suficiente, mas alguém está nos seguindo.
— Como sabe?
— Instinto, talvez seja alucinações por conta da adrenalina, talvez não. Parece estar bem agora.
Saímos do beco e seguimos ao caminho de volta. Quando chegamos à estação leste próxima ao teatro. Subitamente Daniela apresentou-se eufórica, rosto pálido com expressão assustada.
— O que está havendo? Daniela. — Segurei sua mão.
— Não foi nada, meu senhor.
— Pode chamar-me pelo nome, não és criada mais.
Voltamos à estação norte e seguimos à minha casa. No caminho comprei uma garrafa de vinho para usa-la como desculpa para a fuga em plena noite.
— Senhor? Não vimos que saíra, quando foi? Na troca de guardas?
— Exato, estava com saudade de um velho vinho ordinário, então fui buscar.
— Desculpe a pergunta. Mas porque Daniela está com vossa senhoria?
— Pedi-lhe ajuda ao caso de beber lá mesmo, e além da conta. — Despedi-me do guarda e subi ao meu aposento, Daniela fora comigo.
Retirei o coldre e os magazines, deixei-os sobre a mesa. Daniela retirou os objetos dela e deixou junto aos meus.
— Daniela. Começaremos a investigação em alguns dias.
— Onde queres que guarde as armas?
— Deixe-as onde estão, guardarei eu mesmo, não seria bom se pegassem uma em teu quarto.
Dispensei-a para que ela pudesse dormir. Guardei as armas em uma caixa chaveada, sentei aos pés da cama e pus-me a refletir. Peguei o meu precioso pedaço jornal. — O que faço, pai? — Pensei. Deitei e fechei os olhos. Quando me dei conta, era outro dia.
Daniela acordou-me. — Senhor, acorde, senhor.
Manhã clara, perfeita para não abrir as cortinas e dormir mais, porém, Daniela era cruel quando queria, pois tratou de abrir todas as cortinas possíveis.
— És sádica? — Perguntei com o rosto afundado no travesseiro.
Não poderia dar ao luxo de dormir até tarde, havia uma conferência real, um discurso do rei, o primeiro depois de vinte anos sem sair do Palácio. Trajei meu melhor terno, olhei meu reflexo no espelho, o luto tornou a aparecer após a adrenalina da saída noturna. Olhei a cama vazia e lembrei de como adorava ver Cecília dormindo. Desci à sala de chá, a atmosfera estava opaca, silenciosa e monótona. Elizabeth ainda em choque não conseguia conversar tranquilamente sem gaguejar ou chegar ao assunto que levasse à Cecília e logo cair em lagrimas. Como já dissera outra vez, eu não deveria derramar lágrimas fora de um quarto fechado e minha cabeça descansando sobre o colo de minha esposa, mas ela não existia mais, com isso, não poderia chorar. Um nobre que é obrigado a secar seus olhos pela manhã, após tê-los afundado em mares, todas as noites caí aos prantos em silêncio.
— Estás atrasado, como sempre. Onde está tua responsabilidade? — Praguejou Branca.
— Estou pronto! Vamos? — Dei as costas e sai da sala.
Dia claro, sol forte e muitas cores. — Raro e imponente dia. — Pensei. Estava calor, os termômetros marcavam 28°C. Bem meu caro leitor, não há necessidade de contar-lhes as cenas até o palácio.
Entramos pelos lindos e lustrosos portões de cobre e aço, havia alamedas por todos os lados, umas de tijolos de pedra outras de asfalto. O jardim frontal era feérico com exemplares de espécies de flores que nunca vira em solo desse país. Os mais lindos exemplares eram as rosas negras. Ouvira falas que eram tão vermelhar que escureciam, diziam haver campos de flores inteiros delas; sempre admirei a beleza doce e atraente das rosas, artisticamente exuberantes e charmosamente cheirosas.
— Lindas flores, não é mesmo, Edmund? — Perguntou Branca admirada.
— São lindas.
Havia uma multidão. Um tapete vermelho estendia-se à entrada, cercado por guardas policiais que não permitiam a entrada da plebe. Cada nobre que passava pela vereda escarlate e aveludada era abordado por repórteres de inúmeros jornais; e, nosso trio não fora diferente, mas andamos calmamente. Posso afirmar que as perguntas seriam gratificantes se relacionadas à política ou economia, porém, não passavam de especulação. “Como se sente viúvo? Conte-nos mais sobre seus dias após a morte da Duquesa! ” Ou alguns cruéis e sádicos. “Como é ser o homem mais cobiçado da cidade agora que estás solteiro? ” Cada pergunta feriu mais que o tiro que tomei, fui literalmente fuzilado pelas armas da mídia; cegado por flashes de pólvora e ridicularizado por ironia. Quando nos veem, sempre dizem querer nosso lugar, a plebe que nos inveja mal sabem que quão mais alto os degraus, mais o assediam e tentam derrubar-nos, mal sabem o quão ridículo é representar a peça da etiqueta culta e eloquente, quando simplesmente desejamos um simples abraço.
Entramos no salão. Belíssimo, lustres de cristal com detalhes em ouro rosé desencadeavam uma chuva de brilho, mesas redondas cobertas por seda negra e fugaz espalhavam-se sobre a superfície plana e quadriculada do local. Sempre seguindo o padrão dos bailes de modo que um grande espaço circular jazia entre as mesas. Sentamos e esperamos outros convidados nos avistarem com intuito de cumprimentar. Quase todos lamentaram pelo ocorrido. Então levantei-me e segui ao aglomerado de nobres, enquanto conversamos olhei à mesa e notei Branca ausente. Procurei-a com os olhos. Avistei-a entrando em uma porta pequena, seguida por guardas. Pensei em ir atrás dela, mas logo que entrou na porta dois guardas aprontaram-se a fim de não permitir qualquer entrada não autorizada.
— Desculpe-me pela intromissão. — Pediu Sherlock Scoot. — Ignorando o triste fato ocorrido à tua esposa. Como está o novo Duque? Adaptou-se à rotina? — De fato parecia tentar me animar.
— Meu senhor, Grão-Duque. Estou acostumando com a rotina tumultuada e repleta de reuniões. Admiro o senhor; por representar dois dos três distritos de Burtchendill ao mundo, certamente é mais raso teu tempo livre, porém, tua agenda é um mar proceloso.
— Gostei da metáfora. De fato, é tumultuado, mas logo acostuma. — Sorriu. — Soube que o rei aparecerá ao público, não o vejo há décadas.
Foi uma curta conversa descontraída, o Grão-Duque era um bom homem. Pouco depois de conversamos um emissário subiu ao palco e anunciou.
— Senhores. Após anos sem prestigiar-nos com sua presença, hoje ,o rei apresentar-se-á.
Sinceramente esperei música ou entrada triunfal, mas o contrário se passou, por pouco não escutei o som dos batimentos cardíacos dos convidados, o silêncio ecoava a respiração e podia-se ouvir passos das pessoas. Logo um homem vestido nobremente e sobre sua cabeça repousava uma coroa, o rei, a imagem que fora plantada dele, fisicamente era de um homem gordo e velho, certamente não era magro, porém, pouco acima do peso, sua idade se escondia por atrás da barba grande e bárbara, mas aparentava quarenta anos, relativamente jovem. Caminhou até a frente e posicionou-se e pôs-se a falar.
— Caros senhores. Trago-lhes a notícia de minha volta ao público. Desculpe-me a todos por esconder-me e comandar o país pelas sombras. Trago-lhes pessoalmente a notícia de meu noivado, mas antes outro comunicado.
Sem demora os murmúrios tornaram-se pandêmicos no baile. Um guarda veio ao meu lado e pediu que eu fosse ao palco. Não sabia o que fazer, meu coração quase sairá pela boca, os murmúrios e olhares curiosos se intensificaram. Quando cheguei ao destino ajoelhei-me perante o rei.
— Com total reconhecimento real. Eu, Frederico IX, elejo Edmund de Morryes o novo Duque-Marquês de Morryes e Collins.
— Como? — Perguntei. — Perdão vossa magnificência, mas não posso assumir tal responsabilidade
— Declaro-te o novo título nobiliárquico criado cuja jurisdição está sob a tutela entre os títulos de Duque e Grão-Duque, o Marquesado de Collins e o ducado de Morryes estará, a partir desse exato momento, sob sua posse efetiva.
Gostaria que fosse está a maior surpresa, porém, houve outra maior. Quando dei conta, Branca aparecera junto ao rei.
— Branca de Morryes. — Disse o rei. — Será a nova rainha de Burtchendill após a cerimônia matrimonial.
Não sabia se havia ouvido corretamente, se não fora uma alucinação, um devaneio devido ao espanto. Era real, tão real quanto meu choque, estava perplexo, sem reação, extasiado. Um guarda guiou-me até fora do palco e sentei em uma cadeira. Alguns convidados me parabenizavam, outros olhavam-me com ódio. Ser nomeado um Duque pelo simples direito de herança é algo comum, entretanto, ser nomeado por meio de ordem direta do rei é completamente assustador.
Senti um mal-estar e sai do salão. No lado de fora os repórteres já sabiam da notícia e me bombardearam de perguntas. Andei até meu carro e entrei. Deram batidas no vidro e até puxões a fim de abrir a porta por meio de força.
— Vamos voltar, rápido. — Ordenei ao chofer.
Com dificuldade o hábil motorista passou pelo enxame de curiosos e finalmente chegara à rua. Enquanto voltava refleti sobre os fatos. — Por que me tornar Duque-Marquês? Por que Branca será noiva do rei?
— Parece que irá surgir notícias sobre o senhor. — Disse o chofer.
— Parece que sim.... — Pausei a fala e pensei. — Serei o alvo da mídia por algum tempo. Nesse intervalo não poderei investigar os casos, não diretamente. Ela pensou em tudo, não quis que eu me vingasse, então transmitiu os olhos a mim, nunca pensei que seria assim, mas ser rainha? O que pode haver de ligação, será para me vigiar?
Logo que cheguei, desci do carro e fui ao meu quarto. Parecia o único lugar pacato. Abri a gaveta com os documentos dos casos; como suspeitei, não estavam mais lá; fora a única gaveta arrombada, as demais permaneciam trancadas. Chamei Daniela, porém, não atendeu ao chamado. Parti à sua procura. Encontrei-a dormindo em seu quarto de empregada.
— Daniela. Acorde.
Parecia sem forças, fadigada; não por preguiça, mas simplesmente sem energia.
— O que houve? Desculpe, meu senhor, não estou bem.
— Entendo, deram-te sedativos. Volte a repousar, não preciso de ti por hora. — Sai do quarto e fui ao gabinete.
Parecia organizando como sempre, porém, sempre deixei uma armadilha para pegar bisbilhoteiros. Fui averiguar, a gaveta de contratos não fora arrombara, significa que Elizabeth forneceu a chave, mas não perceberam o ângulo que retiro a chave. Aprendi com meu pai quando novo, descobrir quando alguém vasculhava meus pertences. Ensinou-me outros métodos também, porém, este já bastava. O ângulo era diferente, abri a gaveta, não retiraram nada, felizmente em meu gabinete guardo apenas coisas relacionadas ao trabalho.
— O que está havendo? – Pensei.
Quando a noite, caiu Elizabeth e Branca retornaram da festa. Esperei-as na sala de chá.
— Parabéns, querido. — Disse Elizabeth ao me abraçar.
— Obrigado.
Fitei Branca. — Parabéns a ti.
— Obrigado. Parece que agora serás o centro das atenções, parabéns. — Olhou-me por cima.
— Quando partirás ao palácio? — Perguntei.
— Hoje.
— Entendo... Voltei ao meu quarto e deitei-me para refletir, mas logo adormeci.
Acordei no meio da noite. Era lua nova, as estrelas granuladas ao redor da esfera negra e maciça iluminavam levemente o céu, competiam sua luz com as luzes dos postes. Sai às três ou quatro horas da madrugada, trajado com um casaco, chapéu e a máscara do meu noivado. Caminhei calmamente entre as vielas e as ruas sob o breu da noite. Pouco depois escutei um grito seguido por quatro disparos de armas de fogo, não muito distante, duas ou três ruas ao lado. Quando dobrei a esquina, avistei dois vultos em uma luta feroz sob as sombras do beco. Um dos homens sacou uma pistola e atirou, alvejando assim o outro. O projetil acertou-lhe o abdômen, porém, fora desarmado logo em seguida e jogado ao chão com uma rasteira. O ferido agarrou-o por atrás e mordeu o pescoço do atirador. Dei um paço e fui notado. Sacou uma adaga, fincou-a no pescoço do homem que caiu inerte e ensanguentado e fugiu. Corri à sena, infelizmente não havia nada a ser feito. O fugitivo deixara um rastro de sangue.
Apesar da pouca luminosidade, pude notar uma acentuada diferença de tonalidade entre o sangue dos dois. O do fugitivo parecia menos denso e mais escuro, tirei dois guardanapos do bolso e mergulhei um no sangue do assassinado e outro no sangue do assassino. Olhei o ferimento do morto, batia com o padrão dos assassinos, idêntico aos relatos fotográficos. Não pude realizar um estudo aprofundado devido ao tempo.
Ao chegar em casa, dirigi-me diretamente ao quarto, abri as amostrar sobre a mesa e pus-me a analisá-las. Olhei-as atentamente. Chamei Daniela, já havia recuperado as forças graças ao remédio ter perdido a eficácia.
— Traga-me uma faca afiada e alguns guardanapos de bolso.
— Desculpe, meu senhor. Poderia saber o motivo? — Pareceu surpresa pelo inusitado pedido.
— Apenas traga.
Não tardou em sair e obedecer. Trouxe uma faca de cortar peixe e aposentou sobre a mesa ao lado de minhas mãos.
— Desculpe a pergunta, meu senhor. O que houve? Tu pareces diferente desde ontem.
— Chame-me pelo nome.
— Certo. — Hesitou por não ser intima o bastante. Sem permissão de seu senhor, um empregado não poderia jamais chamá-lo pelo nome. — Edmund. — Completou.
— Ontem roubaram todos os arquivos que adquiri sobre os casos. Sei perfeitamente quem os pegou, a mesma pessoa deu-te sedativos. Quanto a hoje. — Pausei a frase. — Não conte a ninguém.
— Certo.
Contei-lhe com detalhes; ficou surpresa.
— O que farás com a faca? — Perguntou ela.
Peguei a faca e passei-a levemente em meu antebraço. Fora o suficiente para abrir um ferimento sem atingir veias ou artérias; sangrou pouco, uma linha vermelha apenas. Peguei um guardanapo limpo e mancheio com meu sangue e estanquei em meu braço com o guardanapo sobressalente que transbordava pelo corte. Esperei cerca de dez minutos e enfileirei um ao lado do outro as peças de pano manchado, primeiramente o meu, logo o do atirador e por último o do fugitivo. Mesmo negando-me em aceitar a realidade, o sangue era realmente escuro, quase negro. O meu compatibilizava com o do atirador.
— O que é isso? — Pensei em voz alta. — Irei ao médico amanhã para saber sobre alguma doença catalogada que apresente tal sintoma. Sabe algo sobre isso? Daniela.
— Sinto muito. Não tenho conhecimento sobre isso.
Dispensei-a. — Vá dormir, desculpe te chamar tão repentinamente.
— Eu que agradeço pela confiança, senhor Edmund. — Saiu.
Pela manhã seguinte despertei preguiçosamente como de costume. Vesti-me e dirigi-me à sala de chá. Lá bebi café. Agenda estava lotada e sem espaço para um caractere a sequer. Daniela tomara café junto comigo; como minha secretaria é fundamental acompanhar-me em assuntos como estes, principalmente negócios mercatórios e econômicos.
Saímos de casa e entramos no carro. Antes de fechar a porta disse à governanta que nos acompanhava. — Não permitas que abram uma porta sem minha autorização.
— Perfeitamente, meu senhor.
Fechei a porta e arrancamos.
— Onde vamos, senhor Edmund?
— Resolver assuntos com a Machine & Machine. Acredito que queiram apresentar o primeiro projeto finalizando de uma arma nacional.
— Como são essas negociações? Não tenho experiência, na verdade meu pai não me deixava entrar na política. — Paralisou com semblante vegetativo e fixo ao horizonte. — De qualquer maneira, como funcionam as negociações?
— Ainda sou inexperiente em tal quesito, devo à minha mãe por ter-me ensinado tudo que sei a respeito. Após meses envoltos por tal cotidiano, aprendi como funciona. Explicarei outra hora. Hoje não será nada mais que a apresentação, os planos deles são bons.
— Tua mãe é uma mulher esplêndida.
— Certamente, é uma mulher e tanto.
Não trocamos muitas palavras após o diálogo. Logo chegamos ao escritório construído ao lado da obra. Descemos do carro e caminhamos até a porta. Bati algumas vezes.
— Preste atenção, Daniela. Logo isso será tua rotina também.
— Perfeitamente, senhor Edmund.
A porta abriu. Era George Logan.
— Perdoe-me em fazê-lo vir a um lugar como esse, vossa excelência, Duque-Marques.
— Entendo a situação, não se preocupe. As obras do teatro estão atrasando o transito do centro.
— Obrigado por entender. — Sorriu. — Vamos aos assuntos. Como havia em contrato, o senhor deverá aprovar ou reprovar o armamento antes do mesmo ser produzido.
— Vamos. — Pedi.
Saímos do gabinete e nos dirigimos ao um campo de tiro. Fora a primeira obra concluída para os testes dos projetos. Enquanto andávamos perguntei.
— Os protótipos são feitos artesanalmente?
— Sim, para mostrar-lhe a eficácia das armas.
— Entendo.
Chegamos a um barracão de concreto e ferro, entramos. Admirou-me o comprimento do local.
— O campo de tiro conta com setenta metros de largura por quinhentos metros de comprimento, possui cinco estandes. — Guiou-nos ao balcão. — Estas são as armas.
Lá havia uma mesa com três protótipos de cada modelo. Um modelo de rifle e um de pistola. Logan pegou a pistola e apresentou-a.
— Esta é a Machine & Morryes P11-1920, abreviada como, M&MP11-1920, semiautomática, cano de seis polegadas com raios angulados em cento e oitenta graus, calibre oito milímetros. Aliás, os calibres de todas as armas seguiram padrões novos e exclusivos do país.
— Bela pistola. — Peguei um exemplar em mãos, apertei a trava do magazine para conferir se estava ou não carregada, puxei o ferrolho e travei. Estava desmuniciada.
— Já atirou, senhor? — Perguntou ele.
— Não.
— Poderia aprender agora. Preparamos o cenário e um número satisfatório de exemplares. Acreditei que traria mais pessoas com o senhor.
— Está bem. — Peguei uma caixa de munição e pus-me a carregar os magazines, recarreguei o meu, Logan recarregara as outras duas.
Fomos aos estandes. Lá haviam silhuetas de ferro há cerca de cinquenta metros. Ensinou-nos a técnica da empunhadura. Realizamos alguns disparos. Dos sete projéteis, acertei apenas dois. Daniela fora melhor que eu, acertou cinco. Seguimos ao balcão novamente e averiguei o rifle, chamava-se M&MR21-1920; este não fugia das características alemãs. Atiramos com o rifle também.
Saímos do campo e voltamos ao gabinete.
— Mostre-me o projeto em papel.
Já havia preparado tudo. Desenrolou os papeis dos desenhos e especificações dos protótipos. Analisei cuidadosamente os desenhos e os custos com a produção.
— Lembrando sobre o calibre ser diferente. É pelo fato de criar um monopólio?
— Correto, porém, temos o intuito sobre o quesito segurança. Como discutimos em tua casa há tempos. Com o calibre sendo diferente, não poderiam ser substituídos por outras marcas, ou seja, a munição contrabandeada não serviria em nossas armas, lembrando que poderemos vender e controlar os compradores.
— Perfeito, mesmo assim, continuarão a contrabandear quando precisarem de outros calibres, no entanto, em volume menor.
— Este problema terá de ser solucionado após o início das vendas.
— Entendo. Deixemos isso de lado por hora.
— Com a aprovação do projeto seguiremos com a fabricação artesanal. As primeiras unidades serão doadas a tua equipe de segurança domiciliar.
— Tentando comprar-me. — Ri. — Não me importo, aprovarei o projeto. Mas antes desejo conhecer a equipe de produção artesanal.
— Como queira, senhor.
Caminhamos novamente ao campo ao lado havia a oficina. Não era grande, o espaço maior era dedicado a fundição do ferro, os demais setores eram menores e amontoados. Ferro para todos os lados. Não entrei ano local, paramos em frente a porta.
— Peço que aguarde um instante.
— Está bem. — Concordei.
Deixou-nos ali e fora chamar o pessoal.
— Senhor Edmund, qual é o motivo de conhecê-los? — Perguntou Daniela.
— Apenas curiosidade.
Não demoraram, acompanhando Logan vieram dois homens e uma mulher. Pararam à minha frente.
— Esses são os chefes das equipes.
— Muito prazer, sou Edmund.
Permaneceram calados. Logan tomou a frente. – Apresentá-los-ei. Este é Miguel, nosso mestre da forja. – Um homem alto, corpo rígido e negro, cabelo grande e volumoso, vestia uniforme de tecido forte com couro.
— Muito prazer, vossa senhoria, Duque de Morryes. — Disse ele.
— O prazer é meu.
O outro chamava-se Pierre Petit, um jovem de aproximadamente minha idade na época, detinha a alcunha de gênio pelas instituições de seu país. Formado em engenharia, ele cuidava da supervisão e projetos das armas artesanais. Seu físico destacava o estudo, era franzino e branco por conta de praticamente não conhecer o sol..
— "Mui prrazê."— Disse ele. — Meu senhor, sou Pierre Petit. Sou filho de uma boa família Francesa e estaria em Burtchendill sobre estadia do intercâmbio. — Claramente não era hábil em nosso idioma, afinal são parecidos, dificilmente alguns vícios de pronuncia são extintos.
— O prazer é meu.
A mulher chamava-se Morgana, chefe da montagem e supervisora dos testes. Era magra e alta, negra de cabelo crespo e usava um lenço cobrindo-o, teve de raspa-lo em um acidente com pólvora que caiu sobre seu cabelo, isso resultou em um incêndio.
— Muito prazer, sou Morgana.
— O prazer é meu.
Caminhei em direção à oficina, quando pisei com o primeiro pé, Logan disse.
— Não será de teu agrado esta visão, meu senhor. Está suja com graxa e óleos.
Parei e olhei-os, fitavam-me seriamente. Pareciam não importar qual era minha posição política.
— Já presenciei coisa pior. — Dei as costas e enquanto passava por eles disse. — Estou de olho em vós quatro. — Continuei seguindo em frente.
— Mas há apenas três. — Sussurrou Daniela.
— Olhe direito. No prédio mais próximo há alguém pertencente a esse grupo.
No prédio, o vidro de uma mira telescópica refletia o sol. Sabia que o intuito não seria me matar, porém, um atirador bem treinado poderia ler lábios através de sua mira, com isso seria um mensageiro. Com a mesma caneta peguei o documento e assinei, dando-lhes continuidade à produção. Caminhei até chegar ao carro.
— Obrigado por nos ajudar, senhor. — Cumprimentou-me Logan.
— É inevitável tal decisão. — Apertei-lhe a mão e entrei ao carro.
Partimos em direção à estrada, pus-me a pensar sobre o que acabara de ocorrer.
— O que houve? — Perguntou Daniela.
— Isso tudo é suspeito. — Respondi. — Primeiramente, Pierre não é Frances, pelo sotaque posso afirmar que ele é canadense.
— O que queres dizer?
— Há algo que estão escondendo.... De qualquer forma, esqueçamos isso por horar. Quero visitar um local.
— Como quiser, senhor Edmund.
Concentrei-me em outras coisas, ao olhar o céu, lembrei de quando chegara à Morryes. Era quase o mesmo céu, deleitei-me em memórias. Fechei os olhos e lembrei da primeira vez que vi Cecília, aquela mulher tímida e linda. Lembrei de nossa primeira dança no jardim em nosso baile de noivado. Talvez haja me apaixonado naquele momento, mas a amei quando a beijei pela primeira vez. Lembrei de cada segundo daquela cena. Recordei de nossa primeira noite de amor logo após ao casamento, a viagem à fazenda e nossa conversa a beira do lago. Lembrei de sua deslumbrante beleza em nossa última caminhada juntos. Quando dei por mim já havíamos chegado ao parque.
Descemos do carro em frente ao parque The Garden of flowers. Lembrei imediatamente da primeira vez que viera com Cecília ao parque. Meu coração começou a acelerar e quase perdi o chão em meu arfar.
— Estás bem? Meu senhor.
— Sim.
Entramos pelo portal frontal e caminhamos pela estrada de pedra. Como sempre havia muitas pessoas se divertindo. Continuamos caminhando calmamente pela vereda.
— Daniela. — Chamei-a para andar ao meu lado. — Chame-me de Edmund apenas.
— Perdoe-me, mas não tenho esse direito. — Disse com a cabeça baixa.
— Tens agora.
Paramos em frente ao muro de trepadeiras, intrínsecas como sempre. Segurei a mão de Daniela, passei pela folhagem e puxei-a. Ficou assustada pela repentina ação.
— O que está fazendo?
— Levando-te a um lugar.
A folhagem continuava bela e fugaz, algumas flores estavam murchas, outras vivas e algumas esperando a troca de estação. Chegamos ao banco do lindo lugar. Sentei quase ao final do banco e Daniela sentou-se no polo oposto. Fechei os olhos a fim de admirar o sibilar do vento e seu assobio suave e leve. Senti-o passar em meus cílios e meu pescoço. Pude respirar profunda e levemente. Daniela fitava o chão, parecia aflita.
— Relaxe e sinta esse momento. Esse ar é bom, feche os olhos e deixe ser tocada pela brisa.
Não disse nada, apenas fechou os olhos e suspirou. Seu rosto estava sereno ao aproveitar o momento. Pele clara e bochechas rosadas, seu cabelo dourado refletia levemente a luz laranja do entardecer.
— Desculpe-me por isso. — Pedi antecipadamente.
Deitei minha cabeça sobre seu colo. Pude sentir sua musculatura enrijecendo. — Por favor, não abra os olhos. — Pedi sussurrando calmamente. Sua musculatura relaxou e suas pernas tornaram-se macias.
Admirei atentamente o céu e fechei os olhos lentamente. Logo senti uma lagrima correr em meu rosto. Cai ao pranto em silêncio. A única prova de que chorei foram minhas lágrimas, que nesse momento não hesitei em mostra-las.
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