Memórias de vidro

10 O sangue de Daniela era realmente escuro.


Final de abril de 1920. Devido a alguns problemas na ordem em Collins, tive que retornar. Estava eu e Daniela em um carro, éramos escoltados por alguns policiais fortemente armados.

Saímos pela manhã. Ao passar pelos campos de margarida, lembrei-me da primeira vez que vera Daniela, quando não a conhecia, quase um ano se passara desde então.

— Detalhe a situação. — Pedi.

— Segundo as informações, parece que o encarregado de gerenciar o Marquesado está tentando tomar posse do poder.

— Entendo, por esse motivo aumentou os impostos. Pretende arrecadar verba a fim de lutar contra as forças locais e contra mim.

— Perfeitamente, senhor Edmund. Aparentemente está creditando a vós os aumentos tributários e está agrupando proletários para dominar-te.

— Está com a pistola que a M&M nos forneceu?

— Sim; juntamente com o coldre de perna.

— Ótimo. Se tentarem algo, proteja-se.

— Entendido senhor.

— Logo quando chegarmos, iremos ao laboratório criminalista, preciso checar uma coisa.

Fora uma longa e cansativa viajem. Paramos em alguns vilarejos para comer. Admirei os campos de rosar em um dos vilarejos que sugestivamente chamava-se "Vila das rosas". Era pequeno, no entanto, detinha um papel fundamental na produção floreira do mercado, cerda de 60% das rosas eram produzidas lá, das mais diferentes cores, brancas, rosas, vermelhas e amarelas.

Enquanto cortávamos a vila, multidões surgiram, natural de uma vila do interior.

— Leve-nos ao chefe da vila. — Ordenei ao cocheiro.

— Como queira, meu senhor. Devo manter a guarda em sua totalidade?

— Não, dispense-a toda, deixe que descansem até a hora de partirmos.

— Como queira.

Não haviam muitas pessoas. Conforme entrávamos mais na vila, crianças corriam atrás da caravana. Passamos por pessoas andando à cavalo. Logo chagamos ao centro. O chefe já sabia que havíamos vindo e nos esperava. Não que houvéssemos programados, porém, a notícia já fora espalha desde o primeiro passo dentro dos domínios. Seria falta de diplomacia minha ignorar tal cidade que movimentava quantia considerável pelo país.

Descemos eu e Daniela do carro e andamos em direção ao chefe da vila. Seu nome era Joseph das Flores, Barão da vila, para ser mais exato. Passava dos 70 anos, gordo e baixo, vestia-se formalmente. Em seu bolço não havia o lenço, o qual trocara pelo símbolo de seus domínios, uma rosa Branca.

Parei à frente e cumprimentei-o.

— Muito prazer, senhor Edmund. Sou Joseph das Flores, o Barão da Vila das rosas.

— O prazer é meu. — Respondi-lhe.

— Queres entrar em minha casa ou acompanhar-me em uma caminhada para mostrar-lhe a vila?

— Pensei em fazê-lo também. Gostaria de conhecer o local.

Acompanhei-o à caminhada. O primeiro lugar que fomos fora o mercado, um pequeno aglomerado de lojas pequenas.

— Perdoe-nos pela simplicidade em trazer-te a um lugar como este, mas é nossa cultura.

— Adoro flores. Estou lisonjeado em conhecer está maravilhosa vila. — Respondi cordialmente.

— Obrigado, meu senhor. — Curvou-se.

Entramos mais ao fundo do mercado. Andava eu, ele e Maria, sua esposa, e Daniela ao meu outro lado. As pessoas nos cumprimentavam. Era um clima harmonioso, não por aparência a fim de mostrar-se a mim, mas parecia sincera e pura sua cordialidade. Havia carrinhos de comida, alguns restaurantes, onde parte da minha escolta estava comendo, ao lado havia uma loja de vinhos.

— Aparentemente não consomem outras bebidas senão o vinho, não é mesmo? — Gargalhei.

— É nossa tradição. Há um vinhedo no Baronado ao lado. Bebemos vinho em todas as festas, gostaria de provar?

— Adoraria.

Entramos em uma adega comercial. O balconista atendeu-nos como qualquer cliente. Guiou-nos à safra de trinta anos produzida pelo Baronado.

— Esta é uma boa bebida. — Pegou a garrafa e pediu quatro taças ao atendente que concedeu o pedido rapidamente. Sacou a rolha com um instrumento e deu em minhas mãos. – Sinta o aroma.

Era adocicado, suave e atraente; seduzira-me logo pela primeira experimentada aromática. Devolvi-lhe a garrafa. Aposentou as taças em uma bancada e serviu-as até a metade. Peguei uma delas, movimentei levemente a mão em um movimento horizontal e pus-me a sentir o cheiro da bebida novamente. Uma das melhores safras que bebera até então. Fora uma caminhada sem interesses políticos de fato, ou seja, aproveitei verdadeiramente. Ganhei o resto da garrafa para bebermos ao longo da viagem. Continuamos andando pelo mercado. Avistei uma loja intrigante, pintada de cor azul e detalhada em tons escuros de cinza. Suas vitrines apresentavam rosas de cores estranhamente belas. Parei à frente dela e pus-me a admirá-las. Havia uma rosa azul, nunca havia visto algo como. Descansava dentro de um vazo de porcelana detalhada com desenhos pretos, era um belo exemplar. Entrei na loja, não bastava o exterior dela ser deslumbrante, seu interior era ainda mais. Inúmeras cores de rosas, vasos e materiais para jardinagem.

Caminhei ao balcão.

— Com licença. Quanto é aquela rosa azulada da vitrine?

A jovem moça fora pegá-la e trouxe-a ao balcão.

— Esta, senhor?

— Sim. Quando?

— Por conta da casa ao senhor. — Sorriu.

— Obrigado. — Devolvi o sorriso.

— Gostaria de armazená-la em formol? — Perguntou.

— Por favor.

Não demorou, trouxe com ela um recipiente de vidro em forma de paralelepípedo. Fabricado sob as medidas de uma rosa e uma garrafa contendo formol. Abriu a caixa de vidro e encarcerou a rosa dentro. Aos poucos despejou o liquido até quase transbordar, deu algumas batidas no vidro para retirar possíveis bolhas, lacrou com a tampa emborrachada e algumas pregas de metal. Meus olhos brilharam certamente. Simplesmente quis aquela rosa, como quando era criança que ganhava algo que gostaria de ter, fora a mesma sensação.

Saímos da loja e fomos ao Moinho das rosas como era chamado o local da produção para fora da vila. Lá eram produzidos desde os vasos aos tecidos usados para enfeite, logicamente, a participação de tecelagem supria outros ramos na vila, como roupas, cortinas e estofaria. Era um grande edifício de concreto, serviu de abrigo durante alguns sobrevoos de aviões na primeira grande guerra. Mostrou-me como funcionava a linha de produção. Complexo, porém, organizado.

Já era meio da tarde quando voltamos à praça central. Daniela levava o vinho e eu a rosa.

— Obrigado por vossa cordialidade e a de teus cidadãos

— É um prazer recebê-lo. Tens certeza de que não desejas ficar esta noite e partir pela manhã? O sol nascente é lindo nesses campos.

— Realmente aprecio a tua cordialidade, mas passei do tempo previsto, mesmo o tempo que atrasei pode ser significativo.

— Soube o que fizeram com o senhor, desejo-te sorte.

— Obrigado, Barão. Vou-me agora. Obrigado pelo vinho e pela rosa. – Cumprimentamo-nos.

Entrei no carro e partimos com a caravana.

— O que achou desse lugar, Daniela?

— Muito bonito.

— Eu também. Adoro rosas, e vir a uma vila que as criam é maravilhoso. Voltarei a este lugar algum dia.

Não há nada a comentar em relação ao resto da viagem. Apenas admirei a paisagem e bebi o vinho.

Chegamos em Collins às 5 horas da manhã. Fora uma boa sensação, formidável, afinal, havia quase um ano desde que saíra, tudo estava como era, as luzes dos postes ainda brilhavam e os trabalhadores já seguiam ao trabalho. Ordenei que seguíssemos ao campus universitário dedicado à pesquisa. Desci com Daniela e um guarda, passamos pelo portão e nos dirigimos ao laboratório.

— Esperem aqui. — Ordenei à Daniela e ao guarda para que ficassem ao lado de fora do local.

As luzes estavam apagadas, procurei o interruptor. Após alguns minutos achei-o, acendi as luzes, e, como havia previsto, lá estava o professor e pesquisador, Dr. Potter. Basicamente um cientista fanático em descobrir a cura de alguma doença, certamente havia inventado inúmeros objetos que ajudaram em tratamentos, mas nenhum de fato que curasse alguém. Estava dormindo sobre a mesa e seus documentos, cheguei perto e chamei-o.

— Doutor, acorde. — Não respondeu, mas insisti e chamai-o novamente. — Acorde, doutor Potter.

Não reagiu. Peguei um rolo de jornal e golpeei a mesa com força. Ele acordou assustado e saltou da mesa.

— Quem está aí?

— Sou eu.

Olhou-me estarrecido. — Veja só! Há quanto tempo. Como tem passado?

— Não há tempo. Adoraria conversar contigo, porém, tenho assuntos urgentes. Preciso que analises dois objetos para mim.

— Como quiser, Edmund. O que seria?

— Isso. — Entreguei-lhe os dois guardanapos com sangue. — Se possível, gostaria que analisasse e comparasse os espécimes.

— Entendido.

Seguimos à mesa de microscopia. Retirou uma amostra de cada guardanapo e aplicou-os em uma placa de vidro cada. Analisou o sangue mais claro.

— Esse é sangue humano A+. Vejamos o outro.

Procedeu igualmente com a outra amostra, o sangue escuro, demorou alguns minutos até parar.

— Onde encontrou isso? — Perguntou ele.

— Não posso dizer-te por hora, diga o diagnóstico.

— Isso não é sangue humano, as hemácias apresentam proteínas diferentes, mas nunca vi em outros animais também. Onde encontrou isso?

— Fique com isso e descubra por si só.

— Posso ficar? — Seus olhos se iluminaram.

— Sim, mas é confidencial.

— Entendido.

— Vou-me agora, tenho assuntos pendentes. Adeus.

— Adeus, senhor Edmund.

A pressa fez-me não demorar mais que o suficiente. Encontrei os dois me esperando. Partimos logo em seguida.

— O que queria com ele, senhor Edmund?

— Nada em especial.

Ao chegarmos à minha casa, descansei a guarda. Os criados saíram a fim de me cumprimentar. Após ser recebido e entrar em casa, pedi que deixassem minha bagagem ao lado da porta e chamei um criado.

— Diga-lhes que estão todos dispensados e que voltem ao momento que decidirem.

— Entendido, meu senhor.

Com a ajuda de dois criados, depositamos as malas no corredor dos quartos, Daniela ficara ao quarto ao lado do meu.

— Descanse. — Sugeri. — Fora uma longa viagem. Não se preocupe com a hora de acordar. — Disse cordialmente.

— Obrigado, senhor Edmund.

Tudo estava em seu respectivo lugar como havia deixado. Fora uma sensação nostálgica. Deitei espaçosamente em minha cama e pus-me a olhar o forro do quarto e refletir.

— Como poderia não ser sangue humanos? — Pensei. — Poderia ser de algum animal não catalogado? Não há sentido usar sangue de um animal que pode ser contrabandeado por uma boa quantia. Poderia ser uma bactéria? Não também, tal organismo é incontáveis vezes menos que uma hemácia.

Não resisti e por fim adormeci.

— Acorde, meu senhor. — Pediu um criado.

Era duas horas quando levantei. Desci à sala e almocei. Logo após Daniela desceu e almoçou.

— Deseja algo, meu senhor? — Perguntou a governanta.

— Não, obrigado.

Não demoramos a sair. Entramos no carro e partimos. Nosso destino era o tribunal de contas e administração do Marquesado. Enquanto estávamos a caminho, disse.

— Estou carregando a pistola que ganhei da M&M e os magazines, e tu, estás com as tuas? — Perguntei.

— Sim, tirei-as apenas para dormir.

— Ótimo, eles não serão tolos o suficiente para tentarem algo, todavia, prepare-se.

— Como desejar.

Ao chegar, havia o tumulto de sempre, jornalistas, nobres e plebeus aglomerados esperando palavras de uma celebridade. Caminhei com dificuldade até a porta do grande monumento edificado. Não prestei atenção no caminho pela multidão. Estava preocupado apenas com o que estava por vir, a assembleia do tesouro.

A sala era grande e quase vazia. Havia uma grande mesa com cinco acentos; entretanto, apenas um ocupado, na extremidade, tal pelo visse-regente, Phelip Matos que estava acompanhado por um segurança posicionado em pé atrás da cadeira. Sentei-me no outro polo da mesa e Daniela ficou atrás de mim servindo como guarda. Sabia que ela não possuía esta habilidade, ao menos sem treiná-la, porém, sua postura lembrava a de um militar experiente.

— É uma honra vê-lo tão vívido. Tornou-se um homem? — Perguntou Phelip.

— Como vês, não sou o mesmo de quando sai, adquiri conhecimentos que me mudaram. Bem.... Tu mudaste também.

— Obrigado por notar, mas seria para melhor ou pior?

— Tu decides o que é melhor ou não.

— Entendo.

— Como está a regência do Marquesado? Senhor Phillip.

— Está ótima, exceto pelo fato da crise que fizeste.

— Compreendo perfeitamente a situação do meu Marquesado e sei exatamente os detalhes da administração que a rege.

— O que queres dizer?

— Sabes tão bem quanto meu serviço de inteligência.

— Entendo. Branca está envolvida.

— Não interessa quem está ou não envolvido. Como uma mãe preocupada com o poder do filho; ela me auxilia, mas há pessoas que são discretas e podem estar atrás das paredes nos escutando, e, relatando diretamente a mim.

— Não compreendo o que dizes, poderia acusá-lo de espionagem.

— Certamente poderia, contudo, se estivesse em poderes fora de meu alcance.

— Isso é uma ameaça?

— Não. Imagine. – Sorri. — Talvez o que seja ameaça, sejam os atiradores posicionados no prédio ao lado; um mirando em mim e outro em minha segurança.

Olhou-me com expressão séria. — O que estás tentando dizer?

Apoiei-me com os cotovelos sobre a mesa, cruzei os dedos e disse calmamente.

— O que quero dizer é que teus dois atiradores estão sobre os olhos dos meus.

Não esboçou reação. — Não imaginei que fosses tão preparado, quando saiu não sabia nada disso.

— Estás certo quanto a negociações envolvendo empresas e economia cujo a responsabilidade era da Branca. — Descruzei os dedos e sorri sarcasticamente. — Porém, não estamos em uma negociação.

— Entendo.

— Por lei não posso tirar-lhe da regência, aproveite sua estadia no topo do Marquesado até Branca casar-se com o rei.

— Como?

— Não soubeste?

— Soube o que?

— Branca se casará com o rei. Fique à vontade com seu ego até ser julgado.

— Maldito! — Devolveu o sorriso sarcástico.

— Creio que esteja encerrada nossa conversa. — Levantei-me. — Vou-me agora discursar ao povo. Espero que estejas lá, mas saiba que eles te odiarão. — Curvei-me, dei as costas e caminhei à porta.

Sai da sala. Meu coração batia rapidamente. Não sabia como seria, nunca havia feito algo parecido. Blefar em um nível completamente diferente a um jogo de pôquer é excitantemente difícil.

Era hora de ir ao palco e dar entrevistas. Sai do prédio e caminhei ao topo da escadaria. Os jornalistas posicionaram-se e começaram o bombardeio de perguntas e flashes.

— Responderei algumas perguntas, peço-lhes ordem.

Aquietaram-se, um silencio que poderia ouvir os cochichos.

— Duque de Morryes, o que tem a dizer a respeito dos desvios tributários.

— Primeiramente quero esclarecer alguns equívocos. Enquanto estava ausente, quem gerenciou meus domínios fora o vise-regente Philip Matos cujo poder era pleno sobre o Marquesado.

— Quer dizer que acusa o vise-recente pelos impostos?

— Não posso afirmar, seria prematura tal decisão.

— Quer dizer que não sabe quem foi?

— Estamos trabalhando para descobri o estopim do furo tributário.

— Quanto ao aumento dos impostos? — Perguntou outro repórter.

— Esta decisão fora executada por decisão do senhor Matos.

— O senhor estava ciente do ocorrido?

Infelizmente não fazia ideia, porém, não deveria dizer isso; seria como abandonar o Marquesado à deriva dos corruptos, embora tivesse sido exatamente o que fiz. Não poderia dizer que sabia, aplicaria a ideia de cumplicidade, com isso seria o estopim de uma revolta, eu não queria isso.

— Compreendia que haveria um aumento nos impostos, entretanto, o valor dez por cento do respectivo valor que fora anunciado. — Não faria mal mentir a fim de evitar catástrofes. Pensei.

— Qual é o motivo que levou a aplicação de um imposto dez vezes maior que o previsto?

— Eu assinei uma ordem. Soube há pouco que não fora obedecida, por esse motivo voltei.

A multidão não parecia satisfeita. Era um imposto exorbitante que fora cobrado. Em poucos meses levaria cerca de oitenta por cento do comercio local à falência, seria o fim; perderia meu poder sobre Collins, seria rebaixado, e, o meu nome e da Cecília seria manchado. Os nobres em Burtchendill sempre contiveram as revoltas, quase todas, usufruindo do sistema do circo e do pão ensinados pelos romanos. Eu deveria usar tal ferramenta para controlar a massa, mas o que poderia usar? Retirar o imposto e dizer que não aplicarei os supostos dez por cento ou retirar algum outro imposto juntamente.

Pus-me a pensar rapidamente e limitar o foco de uma possível revolta. Essas espécies de pensamento devem ser destruídas logo na raiz. Se retirasse impostos sobre os sindicatos, apenas eles sairiam ganhando e o proletário diriam que o governo é sindicalista e manipulador; de qualquer forma, manipulador ele é, mas não poderia explicitar tal poder. Ocorreu-me a ideia de promover mudança na infraestrutura de Collins, simplesmente arrumar algumas ruas, pavimenta-las.

— Antes que qualquer conclusão. Retiro imposto total e aplico publicamente os dez por cento como eu estava ciente. Construirei uma avenida comercial que ligará o polo sul do Marquesado ao centro, favorecendo o comercio e aumentando o emprego temporariamente.

Não sei descrever ao certo a reação da plebe ao presenciar um dos únicos atos que os ajudariam. A atmosfera que antes era ameaçadora, estava agora pouco mais relaxada. Caminhei com dificuldade pela multidão e entrei ao carro, partimos logo em seguida.

— Estou tenso. — Confessei. — Nunca pensei que teria essas espécies de problemas prematuramente.

— Espero que resolva logo, senhor Edmund.

— Enviarei uma carta à The little castle, assistance in architecture and engineering pedindo-lhes o orçamento da obra.

— Senhor Edmund. Permite-me fazer um comentário pessoal?

— Claro.

— Não és o mesmo que quando vira pela primeira vez. Branca, minha senhora, ensinou-lhe muitas coisas.

— Não fora isso que me mudou, fora a morte de Cecília, a qual fora o estopim da minha mudança.

— Desculpe-me pela intromissão.

Sorri cordialmente. — No momento és a única mulher que sabe de minha intimidade, não peças desculpas por isso; apenas diga. Meu coração já fora despedaçado, não há nada que possas dizer que o fragmente mais.

Ficou quieta e pôs-se a admirar o Marquesado.

— Essa paisagem é familiar. — Disse ela.

— Já esteve em Collins?

— Já estive em vários lugares, não ganho dos circos e dos ciganos apenas. — Sorriu.

— Posso perguntar-te o motivo?

— Sou filha de um casal Burtchen, nasceram aqui, mas eu nasci em outro país. Pouco antes da guerra fugimos e viemos à cá.

— Então não és Burtchen?

— Não, mas criei-me aqui. Lutaria por Burtchendill.

— Isso é bom. — Sorri confortavelmente.

Voltamos à minha casa. Já era noite. Entramos e seguimos à sala. Jantamos calmamente e subimos ao quarto.

— Gostaria de conversar mais contigo. — Eu disse antes de entrar ao quarto.

— Estarei a tua disposição, senhor Edmund.

— Está bem. Boa noite.

— Boa noite, senhor Edmund.

Sentei em minha cadeira em frente a uma escrivaninha. Acendi a luminária e pus-me a escrever uma carta.

"Caro Gregório Servero.

Devido a recentes fatos ocorridos. Escrevo-te a proposta de orçamento a fim de prestar serviço em obra.

Quando possível, que seja o mais breve, peço-te uma reunião para negociar possibilidades e valores."

Envelopei a carta e enderecei-a, aposentei-a sobre a escrivaninha e deitei em minha cama.

— Não pensei que seria tão difícil cuidar dos negócios. Agora entendo o motivo de Branca ser reservada e não muito presente. — Levantei e caminhei à biblioteca. Acabei por perder o sono.

Nossa biblioteca não era grande, entretanto, havia algumas enciclopédias medicas ou biológicas que continham informações. Procurei na cessão de ciências biológicas. Encontrei alguns livros, peguei-os e descansei-os sobre a mesa. O cheiro do mofo logo trancou meu nariz. Meus olhos ficaram irritados devido a poeira. Folhei as páginas com cautela e zelo. O livro cujo assunto era o sistema circulatório não apresentava pistas sobre o que procurava. Não havia relatos de doenças. Nem uma pista sobre o sangue encontrado. Deitei a cabeça sobre meus braços e dormi usando os livros como travesseiro.

Pela manhã seguinte acordei com tapas deves em meu ombro.

— Senhor Edmund, acorde. Já é hora de levantar.

— Está bem, Daniela.

Quando levantei, ela retirou os livros que havia dormido sobre.

— O senhor está com o nariz inchado, aconteceu algo?

— Estou? Dormi sobre esses livros e acabei assim por conta do mofo.

— O que tanto estudas?

— Estava pesquisando sobre o sangue. Conheces alguma doença que o escureça como vira no guardanapo?

— Não senhor. Não que eu lembre.

— Entendo, de qualquer maneira, encontrarei algo.

— O que deduziu até agora, senhor Edmund?

Fiz um gesto para sentar em uma cadeira vazia.

— Estou analisando a possibilidade da maioria das vítimas nos assassinatos em Morryes serem causados por lutas entre gangues rivais. Mas por que inicialmente aos arredores do teatro?

— Não seria por conquista de território. O teatro pode ser um ponto de venda de contrabandos.

— Certamente, porém, quando entrei no teatro, não havia indício do exercício de tais atividades.

— Fica próximo ao mercado. Em noites de lua nova é provavelmente o melhor momento para mover os contrabandos pela região.

— Concordo, bem pensado, o teatro fica na rota direta entre o porto e o mercado.

Levantamos e saímos da biblioteca.

— Quero te levar dar um passeio

— Como desejares, senhor Edmund.

Saímos da minha casa. As ruas estavam menos tensas, olhavam-nos como forasteiros.

— As pessoas daqui não são curiosas quanto a vossa presença?

— Sim, o Marquesado é menor que o ducado. A população vive naturalmente com a nobreza. Culturalmente a lacuna entre nós é menor. Vejas só pela vila das rosas; a nobreza lá é quase unida com a plebe, em contrapartida, Morryes preserva tal espaço em distancias astronômicas. Quando fui fuzilado por perguntas, ainda não estava preparado, aqui eventualmente ocorre isso, como ontem. Realmente as pessoas aqui são mais fechadas e não ligam muito para a nobreza.

— Não lembro dessas coisas.

— Conheço um bar muito bom. Queres conhecê-lo? — Sugeri.

— Se o senhor quiser.

Passamos pela praça central, uum local simples, calçadas de pedra e um monumento. O memorial da declaração de independência de Burtchendill, era apenas um capricho que os antigos chefes do Marquesado implantaram ali, apenas como uma recordação. Seguimos à viela com uma placa Sr. Jones. Era um beco escuro e úmido, um tanto sombrio também. Entramos no beco e caminhamos calmamente. Daniela andava ao meu lado, quase escorregou duas ou três vezes em possas de óleo e água. Quase no final da viela havia uma escada apertada e sombria que descia ao subsolo.

— É seguro? — Perguntou Daniela.

— Claro! Vamos.

Descemos os degraus com cautela para não escorregarmos, seria uma dolorosa queda. Não era longa. Logo chegamos a uma porta de madeira.

— Há boatos em Morryes de que o senhor é conhecedor de bares, senhor Edmund. — Daniela falou em tom de brincadeira.

— Parece que eles estavam certos. — Sorri confiante. — Conheço quase todos os bares de Collins. É um costume que meu pai me ensinou. Abrimos a porta.

Era um bar simples com moveis de madeira velha e escura, pequenas mesas e alguns bancos enfileirados seguindo o curso do balcão. O jazz tocava numa vitrola fumegante no canto. Atrás do balcão havia um homem, estatura mediana e cabelos cinzas ainda corados de negro; tinha mais ou menos quarenta anos e trajava uma roupa esporte e um colete preto.

— Há quanto tempo. — Disse Jones, o dono do bar. — Estás acompanhado, soube que se casou, é ela?

— Desculpe, não é, esta é Daniela, minha guarda-costas. — Sentei em um banco e apoiei-me no balcão. — Minha esposa faleceu há algumas semanas.

— Sinto muito. — Surpreendeu-se. — Desculpe fazer-te tocar no assunto.

— No momento desejo apenas uma de suas obras primas.

— Como quiser, chefia.

— O que queres beber? Daniela.

— Um conhaque, por favor.

— É para já moça bonita.

Deu as costas e selecionou algumas garrafas na prateleira atrás do balcão, descansou dois copos sobre a mesa. No meu despejou uma mistura de uísque, absinto e açular, no de Daniela despejou conhaque e alguma outra bebida que nuca soube o que era, parecia licor.

Bebi em um gole a minha bebia. Não mais que dois segundos meu corpo esquentou.

— Está ótimo, como sempre.

— Obrigado.

Quando Daniela bebeu o primeiro gole, começou a tossir e fez careta.

— Não é acostumada a beber, moça? — Perguntou Jones.

— Não, é que não posso ingerir muito sal. A mistura está extremamente salgada, não que esteja ruim, muito pelo contrário. — Tentou explicar.

— Não tem problema, os drinques que sirvo são para homens. — Gargalhou. — Farei outro sem sal.

— Obrigada.

Apesar de seu bar ser abaixo do subsolo e ao final de uma viela escura e úmida, era um mestre de misturas. Ele reproduzia o aroma e o gosto com qualquer bebida que ordenassem. Ganhou dinheiro, mas não quis abandonar seu lugar. Também fora um mestre cervejeiro, aprendeu os dotes sobre tal em uma excursão à Alemanha, onde refugiou-se por alguns anos, porém, fora deportado como imigrante ilegal.

— Como estão os negócios do teu irmão? — Perguntei.

— Estão a todo vapor.

— O que teu irmão faz? — Perguntou Daniela.

— Contrabandista de bebidas no Estados Unidos, a lei seca mal começou e já está dando dinheiro. — Riu.

— Parece que teu irmão nunca pisará em Burtchendill outra vez, não é mesmo?

— Com certeza, depois do ocorrido, jamais voltará. — Estatelou o olhar à um como e serviu conhaque.

— O que houve? — Perguntou ela.

— Isso é uma história para outro momento. — Sorri.

Jones sorriu também. — Soube que irá construir uma rua ligando o sul ao centro da cidade. Por que o fez tão repentinamente?

— Infelizmente não posso contar.

— Entendo, sigilo profissional. Meu irmão também tem essas coisas. Para falar bem a verdade, nobres e contrabandistas são muito parecidos, possuem comportamentos quase idênticos, só que alguns não escondem o que fazem.

— Não fale isso, seria alta traição. — Pedi.

— Sabe rapaz. Se parar para pensar, verá que o mundo do crime é o mais sincero. — Serviu-se outra dose.

— Pode estar certo, porém, a vida nele é mais curta.

— Certamente. Bem, o que trouxe vossa senhoria ao meu humilde bar? — Desviou o assunto.

— Apenas apreciar sua bebida.

Levantei, retirei minha carteira e paguei pelas bebidas. — Vou-me agora, Jones. Foi bom te ver novamente.

— Idem. — Cumprimentou-me.

Saímos do bar e voltamos a andar pela viela até sair na rua.

— Estás com fome, Daniela?

— Não, senhor Edmund.

— Quero te levar a uma loja de bolos que está há algumas quadras.

— Está bem.

Era uma bela loja, havia reformado enquanto estive fora, pintaram-na de azul com detalhes brancos, aumentaram as vitrines e trocaram a porta, trocaram por acabamentos de madeira de pinheiro com desenhos e detalhes onde preenchia-os com vidro. Entramos, seu piso estava polido com cera, embora não houvesse identificado a madeira, mas era clara e lustrosa. As prateleiras em pinos e ferro, e nelas, descansavam bolos de infinitas cores, modelos e tamanhos. Fui ao balcão e pedi um bolo branco feito em uma caneca preta, era coberto por caramelo e chocolate ralado.

— Escolha um. — Eu disse.

— Não poss....

Interrompi. — Gostas de morangos? Vendem um bolo delicioso.

Não resistiu, Daniela realmente parecia faminta. Sua caneca era branca, a massa do bolo de chocolate com cubos de morango picados, espalhados e coberto por uma calda de maracujá. Não lembro ao certo como era a calda, mas também havia chocolate ralado, nesse caso, o amargo. Paguei os produtos e saímos da loja. Comemos o bolo com colheres de aço polido enquanto andávamos.

— Deves pensar que estou sendo infantil por ir a vários lugares e arrastar-te comigo. — Terminei o meu bolo e segurei a caneca. — Desculpe. Não pude conter a nostalgia, ela supre minha carência sobre o luto, ao menos uma pequena parte. Desculpe arrastar-te comigo.

Não disse nada, apenas continuou comendo seu bolo, talvez não soubesse o que dizer ou simplesmente não quisera responder. Encerrei o assunto ali mesmo. Já havíamos terminado de comer e andávamos carregando as canecas.

Estávamos anestesiados pela calma quando, de repente, um caminhão passou e desviou de um animal. Apenas pude puxar Daniela da rota de colisão. Meu coração começou a bater rapidamente, quase havia a atropelado. O motorista saiu tremendo do caminhão, não escondeu o pânico e o susto. Por sorte o único ferimento que ela sofreu fora um corte fundo na palma da mão. Peguei meu guardanapo e amarrei-o em sua mão com minha gravata.

— Minha caneca. – Disse ela. Havia caído e fragmentou-se em vários pedaços.

Levantei-a. O motorista veio correndo prestar socorro.

— Perdão, não queria. — Mal conseguia proferir frases completas e coesas.

— Ela está bem, apenas um corte na mão.

— Desculpe, desculpe.

— Está bem, está bem. Apenas acalme-se. — Pedi.

Em alguns segundos um aglomerado de pessoas surgiu. Olhares curiosos e torpes cercavam-nos.

— Chega. — Bradei. — Sumam-se daqui.

Voltei os olhos à Daniela. — Estás bem? Machucou algum outro lugar?

— Não. Vamos sair daqui. — Pediu.

O motorista desculpou-se muitas vezes até partir. Talvez o susto tivesse ampliado em notar que quase atropelara a guarda e o próprio Duque-Marquês. Perdoei-o, não era sua intenção. Entramos no primeiro taxi e voltamos à minha casa. Abri a porta e entramos, chamei a governanta e pedi que fervesse um bule com água e trouxesse linha e agulhas. Levei-a à cozinha logo em seguida.

— Desculpe, senhor Edmund. Prefiro que não vejas isso. — Pediu Daniela.

— Entendo. Está bem, esperarei no lado de fora.

— Obrigado.

O som do bule fumegando vapor já era audível juntamente com o som metálico da caixa de primeiros socorros. Aparentemente fora um corte fundo, ela gemeu em algumas agulhadas, apesar de ter se controlado ao máximo para não o fazer. O procedimento demorou cerca de trinta minutos.

— Pronto. — Disse a governanta.

Voltei à cozinha e vi a mão enfaixada de Daniela.

— Estás melhor? — Perguntei.

— Sim, estou. Obrigado por ter-me puxado. — Uma lagrima discretamente escorreu de seus olhos.

Outro criado estava carregando a água e o curativo improvisado a fim de despejar a água no ralo e jogar o curativo fora, porém, vi uma peculiaridade que me intrigou. O sangue de Daniela era realmente escuro.