Memórias de vidro

11 Quando voltamos à realidade, reparamos que já apostávamos uma corrida.


As minhas obras — Wattpad main#parts-container-new { visibility: hidden; display: none }

Retornamos a Morryes após duas semanas. A viagem fora exaustiva. Descemos em frente à casa e entramos. Os criados levaram as malas aos quartos. Subi ao meu aposento, deitei em minha cama e adormeci.

Acordei final de tarde, troquei-me de roupa, vesti um traje simples, guardei minha mascara em meu bolso, aposentei minha pistola da M&M dentro da gaveta e peguei a outra que comprara no mercado ilegal. Logo que anoiteceu. Sai sozinho pelas ruas. Escondia meu rosto com o chapéu e a alta gola do casaco. Era lua cheia e o bar lua cheia estava aberto.

— Voltaste hoje? — Perguntou Thomas ao servir uísque em um copo.

— Sim, tenho perguntas.

— Quais seriam?

Bebi a dose do uísque. — Diga-me. Quais são os carteis de contrabandistas e de apostadores que podem ter relação com a morte da Cecília?

— Sinto muito. Não detenho o conhecimento sobre tais movimentos, não seria apenas um grupo de sociopatas?

— Talvez. Há casos de psicopatia em Morryes, no entanto, em graus discretos.

— Perfeitamente.

— Obrigado pela bebida. Se encontrar qualquer informação, chame-me.

— Como queira.

Sai do bar. As luzes amarelas dos postes destacavam o breu das sombras. As nuvens escondiam a lua e as estrelas, seu pratear opaco não iluminava o céu noturno. Caminhei calmamente à ponte Vlinckouger, escorei-me sobre a mureta e pus-me a admirar o fluxo do rio.

Pareceu-me um sonho, devo ter bebido além do que poderia. Quando dei por mim, mergulhado em devaneio, escutei passos leves em minha direção. Antes de me virar saquei a pistola e destravei-a. Estava mais perto, meu coração estava acelerado, meu corpo gelado e minhas mãos tremulas. Esperei o momento certo. Virei-me e apontei a arma. Havia um homem mascarado e vestido com casaco preto. Estava parado segurando um punhal na mão direita diante de mim, certamente tentaria apunhalar-me pelas costas.

— Quem és? — Perguntei.

Não respondeu. Segurou o punhal mais forte e armou-se para a luta. Nunca havia lutado sem uma Rapier, não era bom nisso, não nessa época.

O tempo parou quando vi que em sua mão havia o punhal de Werckinberrevich, era similar ao que matara Cecília. Sua imagem ao cair em meus braços e morrer torturou-me diante de meus olhos. Naquele momento não contive minha fúria. Ignorei toda a nobreza e com isso disparei quatro vezes, o primeiro atingiu seu braço, os outros três atingiram seu peito, mas ele não caiu. Começou a caminhar em minha direção, um pé de cada vez. Não sabia o que fazer, fiquei extasiado ao presenciar tal cena. Quando tentou atingir-me no abdômen, esquivei ao lado e golpeei-o com um gancho que atingiu o queixo. Dei outro golpe em seu peito e descarreguei a arma, acertei todos os disparos, recarreguei-a e descarreguei novamente, porém, isso apenas o desestabilizou. Logo após senti algo em minha nuca e adormeci.

Acordei quando o sol apresentava sua imensidão.

— Foi um sonho? — Pensei.

Levante, escondi a arma em meu coldre e sai a correr entre as vielas. Torci para ninguém haver visto, cheguei à casa e fui diretamente ao meu aposento.

— Isso não foi um sonho. O que está havendo?

Peguei a arma e retirei o carregador, estava vazio, conferi em meu coldre se havia faltado algum, infelizmente faltava. Dirigi-me ao banheiro e olhei-me pelo espelho, estava pálido e sujo. Quando lavei minhas mãos, notei que estavam manchadas, a água que escorria delas era negra, tanto quanto nanquim de uma pena.

— O que isso quer dizer? — Cheirei o liquido, não apresentava cheiro. Com receio provei a substancia, apresentava gosto metálico, porém, adocicado como uma maçã. — O que é isso? Tem ótimo gosto — Indaguei enquanto esfregava as mãos sob a água.

Ainda restaram vestígios de tinta nos sulcos da pele e atrás das unhas. Retirei toda a roupa e averiguei pelo espelho se havia algum ferimento, aproveitei e fui me banhar.

— Como desmaiei? — Pensei.

De repente a porta se abriu, uma criada chamava-me.

— Meu senhor, levante-se. — Calou-se por alguns segundos. — Meu senhor? Estás aqui?

— Estou no banheiro. Raras são as manhãs que acordo antes que me chamem, não é mesmo? — Ri calmamente.

— São sim. — Corroborou. — O café da manhã está servido.

— Obrigado. Logo irei.

Sai do banho, vesti-me tradicionalmente e desci à sala. Elizabeth bebia chá, como todas as manhãs fazia.

— Bom dia, Edmund. Como estás? — Perguntou ela.

— Bom dia. — Beijei sua mão. — Estou bem, e tu?

— Bem.

Sentei-me à mesa e servi-me café em uma xícara.

— Soube de uma confusão ocorrida nessa noite, houve lutas de gangues próximo ao centro. Fora um confronto armado.

— Eu soube. — Respondi enquanto levava a xícara à boca.

— A propósito, disseram-me que saíste na boca da noite. Aonde fosses essas horas?

— A um bar.

— Por que insiste em ir a esses lugares? Não basta a adega e a coleção de bebidas que tens em um quarto?

— São diferentes.

— Qual hora chegaste?

— Não sei ao certo, estou exausto. Recolher-me-ei por hora. — Levantei-me, voltei ao quarto e chamei Daniela.

Deitei em minha cama. Não demorou a chegar.

— O que desejas, senhor Edmund?

— Mostre-me o ferimento em tua mão.

— Perdoe-me, mas não posso, senhor Edmund. Acabei de trocar os curativos e a governanta mandou não os tirar por algumas horas. — Disse estatelando os olhos.

— Então responda-me algumas perguntas.

— Se souber responder.

Pedi para que sentasse em minha cadeira e virasse a mim. Parecia surpresa e não apresentava entendimento sobre a situação.

— Espero que sejas sincera.

— Estás me preocupando, senhor Edmund. Não estás a delirar por meio de ressaca?

— Não. Gostaria de saber como chegaste à Morryes e onde estão teus pais.

Seu rosto perdeu a tonalidade rosada e seus olhos se abriram assustada.

— Minha mãe faleceu há alguns anos e meu pai mora em Panz, trabalho como tua assistente a fim de ajudá-lo financeiramente.

— Entendo, louvável de tua parte. Prossiga.

— Nasci no império russo, porém, logo meus pais vieram a Burtchendil. Por alguns anos vivemos como nômades, migrando de cidade em cidade até nos estabelecermos em Morryes.

— Entendo... Mentiste a mim.

Peguei a pistola e desmuniciei-a, mostrei à Daniela. — Já soubeste de algum caso cujo o ser alvejado por quatorze projeteis dessa arma sobreviveu sem ao menos cair ao chão?

— Não senhor.

— Entendo. — Carreguei a arma e guardei-a em meu coldre. — Tenho uma reunião com os administradores das obras do teatro, quero que venhas comigo.

— Como queira, senhor.

Uma hora depois saímos com o carro. Enquanto estávamos a caminho, dei-lhe instruções.

— Será simplesmente uma averiguação da obra. Iremos a um gabinete lá mesmo. Apenas observe o comportamento dos integrantes.

— Entendido.

Durante o caminho reparei na construção da rua e analisei o desvio das ruas, certamente dificultou o trânsito local, porém, faltava meses até finalizá-la. Logo chegamos aos arredores da propriedade teatral. As obras estavam em amamento, seguindo o cronograma com apenas dez dias de atraso. Quando descemos do carro, avistamos o homem que nos esperava.

— Senhor Edmund e senhora. Sigam-me. — Pediu o homem.

Seguimos ao gabinete, uma casa média de tijolos pintados de vermelho. Fora construída como gabinete improvisado com o propósito de realizar assuntos arquitetônicos e de engenharia. Entramos na casa e fomos guiados à sala de reuniões. Lá estavam, Gregório e Isaac. Levantaram-se.

— Há quanto tempo. — Disse Isaac quando apertou minha mão. — Estas com uma dama diferente, esta seria?

— É um prazer revê-lo. Esta é Daniela, minha assistente.

— Recebi tua carta hoje pela manhã, podemos aproveitar esta reunião para orçamentarmos o projeto em Collins.

— Perfeitamente. Tirou as palavras de minha boca, no entanto, resolveremos os assuntos mediante ao teatro.

Gregório tomou a palavra. — Hoje é a data correspondente a aprovação da licença definitiva. Seguimos os passos que vossa senhoria, Branca, nos aconselhara. A mudança dos corredores do lado sul em museu e direcionar todas as janelas ao palácio.

— Correto. Deixe-me ver o novo projeto.

— A estrutura está pronta, podemos vê-la pessoalmente — Sugeriu Gregório.

— Ótima ideia.

Saímos da casa e seguimos à construção. Os operários não pararam de trabalhar quando chegamos.

— Este é o portal principal. — Uma estrutura de concreto e ferro. Não havia acabamento, perfeitamente compreensível.

Sem demora nos dirigimos ao ponto em questão, o corredor que se tornou um museu.

— Onde conseguirão as peças? — Perguntei.

— Algumas doações de museus cujo espaço em estoque é limitado ou já todo ocupado. Outras compramos e virão assim que as obras estiverem finalizadas.

— Entendo. É um bom local, amplo e arejado pelas janelas altas.

— Obrigado. Já que estamos verificando pessoalmente. O tempo é oportuno, conte-me mais sobre seu pedido.

— As circunstâncias que levaram a isso são confidenciais. Quero que construa algumas ruas em Collins. A primeira ligará o sul ao centro, contudo a mão de obra operaria deve ser local.

— Entendo. Isso facilita as coisas, já que nossa matriz é lá. Posso contratar alguns homens. Aceitarei o trabalho.

— Perfeito. Poderás começar as obras quando atingir oitenta por cento da conclusão do teatro. A licença provisória acaba agora, dou-vos a licença permanente.

— Agradeço. — Apertou minha mão. — Certamente estás usando teu poder muito bem. — Sorriu.

— Obrigado. Não poderia negar não é mesmo? — Devolvi o sorriso.

Gregório sabia o poder que havia em minhas mãos, qualquer discordância de sua parte eu poderia cancelas a obra do teatro e repassá-la a outra empreiteira.

Após alguns minutos andando, voltamos ao gabinete. Assinei os documentos

— Vou-me embora agora, senhores. Tenho outros compromissos.

— Foi um prazer fazer negócio com os senhores. — Disse Isaac.

— Idem, vejo que teu português está mais fluido.

— Obrigado. — Sorriu.

Voltei-me ao Gregório. — Espero nos vermos novamente.

— Assim espero.

Cumprimentei-os e sai. Entrei ao carro e parti.

— Onde vamos? — Perguntou Daniela.

— Vamos à fazenda.

— Iremos agora mesmo?

— Não, passaremos alguns dias lá, vamos à minha casa arrumar as bagagens.

Ao chegarmos, dirigi-me à sala de chá. Elizabeth, como sempre, bebia chá. Talvez depois de perder o marido e a filha, saborear o chá fosse a única coisa que restou.

— Irei à fazenda para praticar tiro esportivo. Queres nos acompanhar? — Perguntei.

— Qual o motivo de aprender tal esporte tão repentinamente?

— Tenho inimigos dos quais quero me proteger.

— Diz Phelip? O vise-regente de Collins?

— Não apenas ele.

— Estás certo em partes, porém, não me agrada. Pode ser perigoso atirar.

— Já atirou alguma vez?

— Não me entenreço por tais entretenimentos. Por mais método de segurança que seja.

— Vamo juntos. Não será como teu marido praticava, atirando com escopetas em discos de cerâmica arremessados ao ar.

— Como assim?

— Apenas venha. Ao menos para relaxar.

— Já que insiste, irei. Quando partiremos?

— Hoje mesmo.

— Arrumarei minhas coisas. — Levantou-se e seguiu ao quarto.

Fiz o mesmo. Peguei uma grande mala de couro e carreguei-a com roupas surradas e dois trajes formais. Pedi a um criado que as levasse à porta. Peguei o telefone e disquei o número da M&M.

A secretária atendeu.

— M&M fábrica de armamento bélico de Burtchendill. O que deseja?

— Dirija a ligação à Logan, é confidencial.

— O código?

— Não há código.

O som mudou, tornou um chiado e após alguém atendeu.

— Logam falando.

— É o Edmund.

— O que deseja, senhor?

— Quero dois exemplares de cada arma do teu catalogo e munição correspondente a três dias de guerra.

— Desculpe, senhor. O que disse? — Pareceu perplexo.

— Gostaria de algumas silhuetas de ferro também.

— Perdoe-me, mas o senhor está bem?

— Compreendo que fora um pedido repentino.

— De veras fora. Entretanto há possibilidade. Qual o prazo?

— De imediato.

Lembro-me nitidamente do som que ouvi ao telefone cair sobre a mesa e Logam pegá-lo novamente.

— Posso perguntar o porquê?

— Praticar.

— Tiro esportivo?

— Exatamente. Quanto ao pagamento, eu pago.

— Precisará de um instrutor?

— Precisamente.

— Alguém em especial?

— Sim, o atirador posicionado em uma janela do edifício ao lado da fábrica no dia que visitei a fábrica.

— Não estou entendendo, senhor.

— Sabes muito bem o que digo.

— Não poderei esconder então. — Riu. — Porém, posso garantir-lhe que o alvo não era o senhor.

— Entendo... De qualquer forma, quero o atirador e um carro carregando meu pedido.

— Ok.

— Mande-me o carro sem identificação, se possível.

— Algo mais?

— Não, obrigado.

Desliguei o telefone e desci. Todas as malas já estavam ao lado da porta. Elizabeth esperava deitada em um divã e Daniela sentada em uma cadeira. Era metade da tarde quando começara a escurecer, não havia nuvens, foi uma noite fria. O carro da M&M nos seguia, foi uma viagem de duas horas. A criadagem responsável pela propriedade nos recebeu. Felizmente os carros conseguiram passar pelo trecho acidentado que conecta a fazenda à estrada, graças as suspenções novas e tecnologia de ponta das trações.

Enquanto estávamos na estrada olhei o pôr do sol que iluminava em tons de magenta e laranja espalhados o céu. Lembrei-me de um momento quando estava com meu pai, alguns dias antes de ele embarcar no Titanic.

Era um dia sem nuvens, como estes dias de abril, estávamos andando pela praça no centro. Sentamos em um banco e nós pusemos a admirar o trafego de pessoas.

— Escute Ed. Sabes que partirei ao Estados Unidos em alguns dias. Quero que cuide das coisas até voltar.

— Demorarás quando tempo a retornar?

— Pouco menos de dois meses.

— Entendo. Mas acredito que Branca cuidará melhor.

— Sem dúvidas ela cuidará, porém, quero que cresças logo para quando se casar. Terás de ser tão rígido quanto tua mãe. — Relaxou o corpo e suspirou. — Tua mãe, que mulher. Nunca conheci alguém mais inteligente e bela, seu sorriso e seu cruzar de pernas me conquistaram. — Sorriu. — Quero que tu sejas tão esperto quanto ela, o problema é que puxaste a mim.

— Ela diz o mesmo. — Rimos.

Logo as memórias se voltaram ao dia de sua partida.

— Estou partindo, meu filho. Espero que cuide bem das coisas até eu voltar. — Abraçou-me.

Recordo nitidamente do fatídico dia que os jornais anunciaram o naufrágio. Peguei o jornal e li. Não acreditei que fosse real. Desci à sala e avistei Branca caída em lagrimas. Fora uma das raras vezes que a vi em prantos.

Um buraco na estrada acordou-me de meu devaneio.

Pela manhã seguinte, levantei e trajei-me com uma roupa surrada. Desci à cozinha para comer, fora um reforçado café com muitos pães e queijo.

— Bom dia. — Disse Elizabeth enquanto bebia café.

— Nunca vira a senhorita bebendo café. — Falei em tom de brincadeira.

— Isso porque não acordas cedo. — Tornou em mesmo tom.

— De fato.

Após comermos, saímos à varanda.

— Irá conosco ou preferes fazer outras coisas?

— Ficarei cá mesmo.

Eu e Daniela seguimos ao campo aberto. Lá havia duas mesas com um saco de areia aposentado sobre. Os alvos já foram espalhados.

— Como estás, Breda? — Perguntei à atiradora.

— Estou bem. – Apertou minha mão.

O suposto atirador era em verdade uma mulher alta e magra, cabelo negro e fosco, olhos verdes tendendo ao castanho, seu corpo era esculpido e atlético. Trajava uma calça verde de tecido grosso e uma camiseta preta.

— Belo colar. — Disse Breda à Daniela.

— Obrigada. – Apresentou-o, uma corrente simples com um pingente de prata pontiagudo. — Foi um presente de meu pai.

— Nunca reparei em teu colar. — Entrei na conversa.

— Uso-o sempre. — Disse sorrindo.

— Podemos começar? – Pediu Breda.

Daniela sentou-se em uma cadeira e a sua frente havia uma das mesas. Sentei-me em outra cadeira.

— Começaremos com os princípios básicos. O funcionamento de uma arma de fogo é baseado em gás, uma arma à gás. – Disse Breda.

— Entendo. — Peguei um rifle.

— O rifle que estás segurando é sistematizado por ação a ferrolho.

— O que isso quer dizer?

Pegou de minhas mãos a arma e fez uma demonstração. Puxou o ferrolho para atrás e carregou a arma, seis cartuchos totalizados e empurrou o ferrolho novamente, segurou a arma e disparou. Puxou o ferrolho novamente, empurrou-o e disparou.

— A cada disparo é obrigatório carregar o cano por ferrolho engatilhado à mão.

— Desse modo? — Perguntou Daniela engatilhando a arma e depois atirando.

— Perfeito. — Respondeu Breda.

Engatilhei o rifle e atirei. Fora a primeira vez que disparei um rifle. Pude sentir meus ossos quase trincarem. O recuo da arma era tão violento que tive de deixar o braço em repouso por alguns minutos.

Mostrou-nos outras armas, uma metralhadora automática e um rifle semiautomático. A metralhadora chamou-me a atenção, pois era rápida e forte.

— Vou-me ao banheiro. — Disse Daniela.

Breda sentou-se no lugar de Daniela e realizou alguns disparos.

— Diga-me o motivo de apontar a arma à nos quando visitamos a fábrica.

— O senhor não era o alvo.

— Quem era?

Não respondeu. — Soube que foi alvejado no braço por um projetil.

— Deveria cuidar com a refração da luz na mira telescópica. — Percebi a mudança drástica de assunto, ela não queria contar nada. — Sim, fora alvejado há dois meses.

— Servi à Alemanha na guerra. Levei vários tiros. — Sorriu.

— Entendo. Ao que parece, és uma mulher forte.

— Obrigada.

— Há quanto tempo trabalha com Logan e a equipe da fábrica?

— Há algum tempo. — Olhou-me desconfiada.

— É tudo que precisava saber.

— O que quer dizer?

— Não é nada. — Conclui.

Daniela voltou e sentou-se em meu lugar, fiquei entre as duas e analisei suas técnicas. Daniela era realmente boa e aprendia rápido, no entanto, não se adaptou aos fuzis automáticos e semiautomáticos; preferiu usar o rifle por ação de ferrolho.

Eu precisava que ela me protegesse. Não poderia simplesmente dar-lhe uma arma da qual não se adaptasse. Armas veladas são boas para nobres, elas não aparecem facilmente, entretanto, um rifle é extravagante. Mas o que importava era minha segurança, não aparência.

— Gostou desse rifle? — Perguntei.

— Sim, gostei.

— Fique com ele, é teu.

Voltei-me à Breda. — Ensine-a a atirar exclusivamente com essa arma.

— Está bem.

Deixei-as praticando e voltei para casa. Na varanda estava Elizabeth com os olhos fechados, parecia devanear em sonhos e lembranças ao sentir o sibilar dos ventos do campo e ouvir os cavalos trotarem e os pássaros orquestrarem suas operas.

Sentei-me na cadeira ao lado e fechei os olhos.

— É tão bom lembrar deles, não é mesmo? — Falei calmamente abrindo os olhos.

— É bom mesmo. — Abriu os olhos também. — Lembra da primeira vez que encontrou Cecília?

— Como poderia esquecer?

— É engraçado. Após a festa de noivado ela veio cabisbaixa ao meu quarto meio, dizia que havia ficado constrangida por ter fugido durante baile.

Sorri arqueando os lábios levemente. — Mas gostei de dançar no jardim após isso.

— Lembro do quão bem se deram, eu e Branca estávamos preocupadas sobre a possível anulação do casamento.

— Apaixonei-me por Cecília quando me levou ao parque após a visita ao teu marido.

— Ela também. Quando chegaram. Após tu deitastes ela veio ao meu quarto e contou-me como foi.

Senti meu rosto corar. — Estou envergonhado.

— Era um romance ingênuo; daqueles que se lê na literatura romancista. — Passou a mão em meu rosto. — É uma pena que esse romance teve por fim o realismo. — Seus olhos lubrificaram-se. — Fico feliz que haja sido ti a se casar com ela. O meu marido havia arranjado um casamento para ela quando ainda tinha 3 anos.

— Não imaginei. Poderia saber quem fora o infortunado de não receber o amor da Cecília?

— Um nobre russo, amigo do meu marido. Não lembro do seu nome. Bem.... Esqueçamos isso, pois vê-la contigo fez-me muito feliz.

Levantei e estendi minha mão. — Vamos cavalgar.

— Vamos. — Sorriu.

Caminhamos aos estábulos, havia três cavalos apenas.

— Onde estão os outros? — Perguntei.

— Estão morrendo, meu senhor. Não sabemos a causa. Quatro foram encontrados mortos aqui no próprio estabulo, há um mês isso acontece.

— Como disse?! — Não acreditei. — Quem mataria cavalos?

Respirei fundo. — Vamos cavalgar. — Informei o criador.

Montei em um Mustang e Elizabeth montou em um Corcel. Dirigimo-nos à saída da fazenda com trotadas curtas e calmas.

— Vamos à estrada? — Perguntei.

— Vamos.

Saímos da fazenda e fomos à estrada.

— Isso traz lembranças. — Disse Elizabeth sorrindo.

— Conte-as.

— Eu e Branca costumávamos cavalgar por essa estrada quando éramos jovens, antes de partir à Collins.

Era final da manhã, o sol brilhava forte, outro dia sem nuvens. O vento estava fresco e os campos próximo ao vilarejo eram verdes, a fugacidade de suas flores me encantaram. Admirei a paisagem e aos poucos comecei a acelerar, Elizabeth fora ficando para trás.

— Venha. — Falei.

Olhou-me espantada, bateu a espora e acelerou, inclinou-se para frente e fora se aproximando. Sorri e acelerei, ela fez o mesmo. Quando voltamos à realidade, reparamos que já apostávamos uma corrida.

— Vamos até o vilarejo. — Proclamei.

Eram ótimos cavalos, corriam sem cansar.

Avistamos dois jovens montados em cavalos, nos aproximamos rapidamente. Quando passamos, gritei. — Vamos, vamos. — Entenderam e começaram a correr também.

Fora uma divertida e despreocupara competição, a qual nos sequestrava da monotonia rotineira. Entramos na vila em alta velocidade. Passávamos por vielas e ruas de pedras. Logo chegamos ao memorial. Por termos cavalos bons chegamos antes, no entanto, quem vencera foi Elizabeth, logo em seguida eu e depois os dois rapazes.

Desmontamos dos cavalos. Seus semblantes eram de espanto e surpresa ao nos reconhecerem.

— Meu senhor. — Disse José. — É um prazer conhece você pessoalmente. — Quando preparou a mão a fim de me cumprimentar, recuou.

— O prazer é meu. — Estendi a minha mão e nos cumprimentarmos.

— É uma honra te conhecer, meu senhor. — Disse Jorel.

— O prazer é meu. — Apertei-lhe a mão.

— Sou Elizabeth, prazer. — Curvou os joelhos e ergueu levemente o vestido.

Sentamos na beira de um chafariz.

— Foi uma boa corrida. — Eu disse. — Estou exausto.

— Foi mesmo. — Disse José. — Seus cavalos são lindos, um Mustang macho e um Corcel macho. Belos cavalos.

— Obrigado. Correram bem.

Infelizmente a conversa não durou muito tempo. Uma multidão surgira, por motivos logico. Nos despedimos dos dois corredores que partiram, lembro de como não conseguiram esconder o sorriso.

O chefe da vila nos encontrou na praça, o Tenente Leodoro de Camões. Nos cumprimentamos. Diplomacia é uma ferramenta da qual sempre fui hábil em usar. Subi em um palanque e discursei à vila, foram poucas palavras para animá-los, meu propósito não era esse, porém, a imagem deve ser exemplar e positiva.

Não demorei muito. Despedi-me das pessoas, montei no cavalo e sai. O caminho de volta foi no mesmo ritmo, uma boa corrida sob o sol forte e o vento fresco.

Chegamos na fazenda perto das duas horas. Ninguém havia almoçado ainda, logo que chegamos fomos comer.

Após o almoço Elizabeth fora dormir e eu voltei ao treinamento.