Memórias de vidro

12 Certamente não havia dúvidas, seu sangue era realmente negro.


Início de maio de 1920. Eu e Daniela fomos ao bar. Era noite de lua cheia. Havia muitas pessoas bebendo, fumando e jogando cartas. Quando chegamos, fomos diretamente ao balcão.

— És um dos meus melhores clientes. — Disse Thomas.

— Sinto-me lisonjeado.

— Quem é a moça? — Sorriu à ela.

— Sou Daniela, assistente do senhor Edmund.

— Entendo. O que desejam?

— Uísque. — Pedi.

— Licor. — Pediu ela.

Serviu-nos, posicionou os copos em nossa frente e debruçou-se sobre o balcão.

— Estou com algumas informações.

— Ótimo, passe-as.

Pegou um envelope e descansou-o sobre a mesa. Abri-o, retirei o material e guardei em meu bolso. Depositei algumas notas dentro do envelope e arrastei-o de volta. Pegou o envelope e guardou.

— Soube que atacaram um homem na ponte Vlinckouger, e ouviu-se disparos. — Disse Thomas.

— Estou ciente. — Concordei.

— Fora encontrado um carregador de uma pistola Colt 1911, semelhante à tua.

— Entendi.

— Descobri algumas coisas sobre o caso, senhor Edmund. Lembra-se que deveria cuidar por suas decisões?

— Estás certo. Sabes bem quem fora o autor dos disparos. Queres quanto para se calar?

— Nada. Apenas avisar-lhe que há pessoas de olhos bem abertos sobre ti.

— Compreendo perfeitamente, porém, acredito que os olhos estejam voltados à outra pessoa que está quase sempre ao meu lado. — Sorri.

Nesse exato momento constatei minha dúvida. Thomas sorriu, com tal sorriso encontrei a resposta de algumas perguntas.

— Há coisas que desejo perguntar, porém, entre quatro paredes acusticamente isoladas.

— Sabes bem a hora que estou em casa, venha a qualquer momento, apesar de saber sobre o que se tratam as perguntas.

— Entendo, então está envolvido em algo.

Thomas pegou o copo de Daniela e serviu mais licor. — É por conta da casa.

— Obrigada. — Disse sorrindo.

Após Daniela beber, levantei. — Vamos embora.

— Foi bom te ver novamente. — Cumprimentou-me.

— Idem.

Saímos do bar. Era aproximadamente duas horas da madrugada.

— O que faremos agora? — Perguntou Daniela.

Abri os papeis e avistei o nome de um contrabandista de armas, seu nome era Wladimir. Havia uma ficha preenchida com seus dados; idade, endereço, nacionalidade, entre outros.

— Encontraremos esse homem.

A lua iluminava as ruas que não possuíam postes, isso facilitou a busca. Antes de partirmos vesti a máscara que usara na festa de noivado e dei à Daniela uma outra. Ninguém poderia nos reconhecer. Eu não poderia me envolver em tais atos, seria polêmico. Andamos algumas horas. A casa localizava-se ao leste, próxima ao porto. Não poderíamos usar transporte público usando máscaras, em meu caso não poderia usá-lo de qualquer modo, geraria tumulto. Era uma casa pequena de pau-a-pino. Uma grossa calçada levava à porta. Seguimos com cautela. Destravamos e engatilhamos as pistolas. Batemos na porta, não demorou a alguém atender.

— O que querem? — Perguntou um homem que aparentava ter 24 a 27 anos, magro, altura mediana, olhos e cabelos negros, pele branca.

Apontei-lhe a arma. — Mãos na cabeça. — Ordenei.

Assim o fez. Entramos e seguimos à sala. Nela havia uma poltrona, um rádio e alguns moveis velhos. Fizemos sentar-se em sua poltrona. Pus-me a sua frente.

— Diga, senhor Wladimir. Sabes quem é que te aponta essa arma?

— Como vou saber se estar mascarado? — Seu sotaque era estrangeiro e forte.

— És alemão, senhor Wladimir? — Perguntei.

— Não. Sou russo.

— Entendo. As cartas vindas da Rússia têm destinatário.

Voltei-me à Daniela. — Amarre-o.

Assim o fez.

— Cuide dele. Procurarei algumas coisas.

— Está bem.

Primeiramente abri os armários e gavetas de toda a mobília. Não havia nada, simplesmente estavam vazios. Fui ao quarto e levantei o colchão, nada sob a cama. Abri o guarda-roupas, nada também. Não sei dizer se fora sorte ou algo do gênero. Estatelei os olhos ao chão e avistei um alçapão. Quando o abri surpreendi-me.

— Sabes dizer o que é isso? — Perguntei segurando um punhal de Werckinberrevich.

— O que tem isso?

Dei-lhe um golpe em seu nariz com a coronha da arma.

— Diga. Foi tu que mataste aquela mulher de vestido azul?

Seu sangue era negro. Naquele momento entendi algumas coisas. Fui à cozinha e procurei sal, não havia nenhum fragmento.

— Com licença. — Pedi. Empunhei o punhal e cortei seu braço, constatei a cor. Encostei meu dedo em meio ao sangue, sujando-o, e levei à boca. — Realmente, tem um sabor afrodisíaco, gosto metálico com maçã.

— O que estás fazendo? — Perguntou Daniela.

— Quero analisá-lo.

Cortei sua camisa com a lâmina. Haviam algumas cicatrizes exatamente onde havia acertado o sujeito há algum tempo.

— Era tu, não era?

Manteve-se calado.

— Não falarás?

Peguei o punhal e cortei seu peito lentamente.

— Fale!

— E se foi eu?

— Por que a matou?

Não respondeu. Finquei o punhal em sua perna e girei-o. Os gritos estavam fora de controle. Amordacei-o e sentei no sofá em sua frente. Peguei um dos papeis que acabara de receber de Thomas.

— Tenho em minhas mãos um relatório com teus dados. Tu trabalhas para um grupo, os Werckinberrevich.

Levantei sua cabeça com minhas próprias mãos e vi algo que não havia reparado até então, seus dentes caninos eram alongados.

— O que é isso? — Pensei, mas fingi não ter reparado para não mudar a situação.

Sentei-me novamente no sofá e esperei até o sangue secar. Não demorou. Levantei e averiguei se já secara.

— Daniela, traga-me água.

— O que farás?

— Apenas traga.

Trouxe um pequeno balde com água. Peguei um retalho de tecido, mergulhei na água e limpei os ferimentos que fizera com o punhal.

— Satisfeito? — Wladimir perguntou em tom sarcástico.

— O que és tu?! — Perguntei extasiado.

— Sou um Werckinberrevich. Foi eu que matei aquela mulher.

Antes que pudesse perguntar algo, começou a transbordar uma espuma negra de sua boca.

— Cianeto de potássio? — Pensei.

Após alguns segundos relaxou a musculatura e não se moveu.

Fiquei olhando o cadáver por alguns minutos. Nunca havia participado de tal atrocidade, estava entorpecido pela ira. Logo veio o remorso.

— Senhor Edmund, não foras tu que mataste o homem, ele suicidou-se.

— Irei atrás do mandante do crime.

— Como é?! — Pareceu perplexa.

— Os Werckinberrevich. Procurarei o mandante do crime e as tentativas de assassinato voltadas a mim.

Peguei um dos punhais e velei-o na minha cintura, entre o cinto e a calça.

— Vamos embora. — Falei.

Recolhi uma amostra de sangue do cadáver. Retirei todos os cartuchos de munição que haviam em meus carregadores e arma, peguei os cartuchos de Daniela, exceto os de sua arma. Retirei os projeteis de todos os cartuchos e despejei a pólvora em alguns pontos da casa. O que sobrou despejei sobre o corpo e a poltrona. Despejei no chão as bebidas que lá haviam, acendi um fosforo e ateei fogo. Acendi outro ao lado de fora.

Não poderíamos ser vistos. Nos escondemos em um beco ao lado e esperamos as chamas se espalharem. Era final de primavera, não chovera há alguns dias, o sol secou a madeira, isso facilitou o domínio do fogo. Corremos pelo breu dos becos até uma rua. Depois seguimos à ponte Vlinckouger. Quando chegamos, era possível avistar o incêndio. Bombeiros já se deslocavam ao local.

— Não sei se isso é certo. — Disse Daniela.

— Certo ou não já fora feiro.

Voltamos à minha casa, subimos ao meu quarto. Sentei na cama e Daniela sentou-se na cadeira à frente.

— Sabe, Daniela. Lembras dos casos de assassinato que ocorreram logo que cheguei em Morryes?

— Lembro. O que presume?

— Lembras dos padrões de finco de adaga no pescoço?

— Sim.

— Essas pessoas eram assassinadas pelos Werckinberrevich?

— Provavelmente.

— Por quê? — Perguntei fitando-a.

— Não sei, Edmund.

Levantei-me, retirei o punhal e a amostra do sangue e depositei-os à mesa.

— Se importaria se eu constatasse uma coisa?

— O que seria?

Peguei o punhal e encostei em sua pele. Levei-o ao antebraço e em uma veia fiz um pequeno furo.

— O que estás fazendo? — Perguntou assustada.

Certamente não havia dúvidas, seu sangue era realmente negro.

— Teu sangue.... — Limpei a gota que saíra do ferimento e levei à boca. — É adocicado como maçã.

Peguei um lenço e limpei o sangue em seu braço.

— Tua mão deve estar curada.

— Não está.

— Mostre-me.

Aquietou-se e não mostrou.

— Mostre-me! — Bradei.

Ela sabia que eu havia notado algo. Desamarrou as bandagens. Não havia nada além de uma fina e quase imperceptível cicatriz, estava completamente curada.

— Como suspeitei. Perguntar-te-ei apenas uma vez.

Abaixou a cabeça.

— O que é tu?

— Uma Werckinberrevich.

— Por que está em minha casa? Fora ordenada?

— Não sou uma assassina, e se eu fosse ordenada por eles a matar-te teria feito enquanto dormia há muito tempo.

— Sabe. Diga-me tudo.

— O que queres saber?

— O que são os Werckinberrevich?

Olhou em meus olhos, eu sabia que ela não estava mentindo.

— Tu não entenderias.

— Sempre achei que fossem lendas.

Peguei a adaga e segurei fortemente, passei-a levemente em meu pescoço, ao final do trapézio. Não demorou para surgir uma fina linha vermelha.

— Eu sei o que fazem, os Werckinberrevich.

Debrucei-me com o ferimento perto do rosto de Daniela.

Não demorou até que se aproximasse mais e mais. Fechei os olhos e senti seus lábios de encontro ao meu pescoço, eram quentes e macios. Sentia meu sangue se esvaindo, mas aos poucos levaram-me a uma leve tontura.

Após o ocorrido peguei o punhal e fiz um pequeno corte em Daniela, exatamente no mesmo lugar onde fizera o meu. Então beijei-lhe o pescoço. Degustei seu sangue adocicado, um sabor que talvez nenhum humano provara, e nenhuma literatura que li relatara algo similar a um humano saborear o sangue de um vampiro de modo a desfrutá-lo.

Mas não por muito tempo, não resisti a falta do meu sangue, desmaiei em minha cama.

Acordei as quatro horas da tarde. Fui ao banheiro, abri o registro do chuveiro e esperei a água esquentar. Olhei-me pelo espelho, estava pálido, muito pálido.

— O que é tudo isso? — Pensei.

Entrei no banho, deixei que a água corrente lavasse o sangue que havia sujado meu corpo, sangue meu, de Daniela e de Wladimir. Relaxei os músculos para refletir.

— O que eu fiz? — Pensei. — Estou esquecendo de algo. Oque seria? — Escorei-me na parede.

Após o banho, desci à sala.

— Sairei agora. — Falei. — Onde está Daniela?

— No jardim. — Disse Elizabeth. Olhou-me o ferimento no pescoço. — Como fez isso?

— Desmaiei devido a bebida e cai.

— Tens que parar enquanto pode. — Aconselhou.

— Obrigado por tua preocupação.

Fui ao encontro de Daniela, estava podando as flores.

— Desculpe-me por ontem. — Pedi.

— Eu que peço. Entendo tuas preocupações. — Disse cabisbaixa enquanto segurava uma azaleia.

— Investigarei algumas coisas. Hoje poderás ficar aqui se preferires.

— Aonde vais?

— Procurarei informações sobre algumas gangues.

— Acompanhar-te-ei.

— Apronte-se então

Voltei para dentro e dirigi-me ao gabinete, peguei o telefone e disquei o número do corpo policial.

— Policia de Morryes.

— Passe-me ao chefe de polícia. Diga que é Edmund de Morryes que o deseja.

— Como queira, meu senhor.

— Pois não, Duque-Marquês. — Disse o senhor Jaspe, o chefe de polícia.

— Irei a teu gabinete em uma hora aproximadamente. Estejas lá. — Desliguei.

Após trinta minutos Daniela chegou na porta do gabinete.

— Estou pronta.

— Ótimo, vamos.

Saímos às pressas e entramos ao carro.

— Leve-nos ao departamento policial.

Ao chegarmos, dirigi-me diretamente à sala do Charles.

— É um prazer recebê-lo. — Cumprimentou-me cordialmente.

Era um bom homem, um tanto rígido, porém, com princípios.

— Desejo ler alguns relatórios sobre as gangues em Morryes.

— Como queira. Quem é a dama?

— Minha assistente.

— Assistente armada? — Sorriu. — Reconheço armas veladas há quilômetros.

— Não poderia esperar menos. — Sorri.

Levantou-se e andou até os arquivos, abriu uma grande gaveta e pôs-se a procurar algumas pastas. — Deixa-me ver. — Disse enquanto procurava. — Encontrei. — Retirou quatro pastas do arquivo e voltou à mesa.

— Estas pastas são os arquivos dos contrabandistas, apostadores, lutadores clandestinos e assaltantes. — Entregou-me as quatro pastas.

— Antes de eu ler, diga-me o relatório do que sabes sobre.

— Vejamos. — Pausou a fala a fim de concentrar-se. — Sabe-se que existem seis gangues poderosas. Os Irmãos de chapéus, são os apostadores que agem nos jogos de corrida de cavalos. A Casa das armas, são contrabandistas de armas e bebida. O Cartel da luxúria, grupo que comanda a prostituição em Morryes. Os The wolves of street, contrabandistas de bebidas, frequentemente estão disputando poder com a casa das armas. O campeão, é o grupo que organiza e executa lutas ou torneios clandestinos. Os Black Night, concorrem com todos os outros, exceto prostituições.

— Há alguma especificação? Algo como uma tatuagem ou símbolo que os identifique?

— Sim, apenas com os Black Night e O campeão possuem. Entenderás melhor se averiguar as ilustrações.

Abri a pasta e procurei as identificações físicas das máfias. O campeão padronizava um raio negro no peito ao lado direito, representava força de Zeus. Os Black Night padronizavam um círculo negro na mão direita. Segundo o relatório, o círculo representava a lua nova que escurece a noite. Uma característica chamou a atenção, a cada grau que se subia entre os Black Night acrescentava um detalhe no desenho, eram três níveis. O Escudeiro, tatuagem simples com apenas o círculo. O Cavaleiro que tem o círculo e duas pontas da rosa dos ventos, o leste e oeste. E o Senhor, acrescentando o norte e sul da rosa dos ventos à tatuagem.

— Recentemente houve frequentes assassinatos. Ontem mesmo houve um incêndio. O corpo de polícia acredita ser um ataque entre máfias. — Disse o chefe de polícia.

— Entendo. — Folheei outras páginas e encontrei fixas de integrantes presos, mortos ou que conseguiram escapar das mãos policiais.

Surpreendi-me ao ler o nome: Franco Hanzt. O financiador publicitário das obras do novo teatro.

— Este homem está solto. Se sabem que pertence ao Black Night, por que não o prendem?

— Apesar de todos saberem, o senhor Hantz foge da lei e consegue burlar nosso sistema. Por isso não conseguimos prendê-lo.

— Entendo. A propósito, levarei os arquivos.

— Há copias no setor de arquivamento, fique à vontade.

— Obrigado.

— Poderia saber o motivo de procurar sobre?

— Curiosidade.

— Entendi o recado.

Levantei-me. — Vou-me agora. Estou profundamente grato a ti.

Levantou-se e apertou minha mão — Quando precisar, é só ligar.

Peguei os documentos e sai. Voltamos ao carro.

— Leve-me à Publicity Solutions.

Andávamos pelas ruas do centro. O sol da tarde era forte, os termômetros marcavam vinte e oito graus centigrados. Eu estava trajado com uma camisa bordo, e sobre ela um colete preto, vestia também calças negras e um sapado de mesma cor. Desabotoei alguns botões da camisa.

— Odeio essas estações! Prefiro o outono e inverno.

— Eu também. — Daniela trajava um vestido branco de tecido fino. Amarrou seu cabelo, fez um coque e prendeu-o com prendedor.

— Se és mesmo uma Werckinberrevich por que pode andar sob a luz do sol?

— Sou filha de um Werckinberrevich nobre.

— Qual é o teu sobrenome?

— Panz.

— Da vila?

— Sim.

— Daniela de Panz?

— Isso mesmo. Sou filha do Josef de Panz.

— O antigo guarda real do império russo?

— Exatamente.

— Quando voltarmos, conte-me tudo.

Era uma empresa grande, um edifício de cinco andares com os tijolos pintados de vermelho. Havia uma placa escrito “Publicity Solutions.” Saímos do carro e nos dirigimos à recepção.

— Desejo encontrar o senhor Hantz. — Informei.

— Informar-lhe-ei sobre a visita. — Pegou o telefone e discou seu número. — Senhor Hantz? Vossa senhoria, Duque-Marquês de Morryes, deseja lhe falar. — Logo desligou o telefone. — Sigam-me. Saiu de atrás do balcão e nos guiou pelos corredores de madeira vermelha com tapetes negros. No último andar havia uma porta grande e larga. A recepcionista a abriu. Entramos na sala e ela fechou-nos lá. Era um grande espaço com alguns movei nas paredes, dois sofás e uma larga mesa de madeira repleta de papéis.

— Ao que devo a honra? — Perguntou Hantz enquanto se levantava de sua poltrona.

Caminhou em nossa direção. Quando chegou perto de Daniela, seu semblante mudou, seus olhos se cerraram, fuzilando-a.

— Queremos apenas conversar. — Respondi.

— Compreendo. — Cumprimentou-nos.

Sentamos em um sofá e Hantz no outro.

— Gostaria de saber como está o processo de publicidade do teatro. — Indaguei.

— Minha equipe já começou a trabalhar na campanha.

— Conte-me mais.

— Primeiramente inauguraremos o teatro com uma peça original da universidade de belas artes de Morckiaschen. Se quiseres ler o roteiro, entrego-o a ti.

— Não, obrigado.

— Quanto a exposição do museu, acredito terem informado a respeito da entrega e compra das obras.

— Sim, estão providenciadas.

— Entendo. E cartaz ainda está sob estudos.

— Perfeito, gostaria de saber sobre outras coisas.

— Quais seriam? — Encostou-se relaxadamente no sofá.

Antes de dizer-lhe algo, reparei que em sua mão direita havia uma tatuagem, um círculo negro com quatro pontas da rosa dos ventos.

— Bela tatuagem. — Disse.

— Obrigado. — Respondeu escondendo-a disfarçadamente com a mão esquerda sobre. — O que desejas saber?

— O senhor lembra de quando nos vimos pela primeira vez, na apresentação do projeto do teatro?

— Lembro.

— Lembras do que disse quando passou por mim?

Seu semblante mudou novamente, tornou-se mais sério. — Entendo onde quer chegar.

— Permita-me deduzir algumas coisas. — Pedi. — Tu sabes sobre os Werckinberrevich, não é?

— Como descobriu?

— Acaso, simplesmente ao acaso. Não se preocupe, nada sairá de minha boca aos outros.

— Assim espero.

Levantei-me. — Nos encontraremos novamente. — Cumprimentei-o. — A propósito, conheço a pessoa que está ao meu lado. Avise teus companheiros para que não encostem um dedo sequer em Daniela.

— Como queira.