Memórias de vidro
39 Sabes, Edmund. Qual é o verdadeiro motivo da tua vingança?
Era uma noite calma, o vento sibilava sobre o campo. A lua fulgente acessa no céu brilhava, mas essa era quadjuvante. As estrelas cintilavam intensamente, um maravilhoso céu noturno que há muito não via. Em frente à casa havia um pequeno rio que fazia o antigo engenho funcionar. Estava eu admirando essa bela vista, do campo, da roda do engenho, das estrelas. Sentia o fresco vento de um raro dia ensolarado que antecedeu esse momento.
— É uma bela noite. — Disse Carmelia sentando-se no outro lado do banco.
— Realmente. Como estás? Acostumou-se com teu novo corpo?
— Sim, mas não me acostumei totalmente com minha visão. Tudo está tão claro.
— Foi muito conveniente descobrir como funciona o processo de transformação. Por sorte encontramos um vampiro nobre.
— Infelizmente isso faz-me estéril.
— Tudo tem seu preço. Mas enxergar no escuro possui vantagens, lembro-me de quando lutei com Simbalad, ele era demasiado forte e também tinha esse dom.
— Os dons dos vampiros nobres não são únicos?
— Não.
— Então pode haver outro que ande sob a luz solar?
— Não. Sou o único que pode fazê-lo. Ao menos catalogado. Todos os outros foram caçados.
— Quem eram os outros? Conheceu algum?
— Nicolau II, o antigo imperador da Rússia. Ele era o pai da Daniela.
— Mas os nobres não eram estéreis?
— As mulheres são estéreis, os homens não. Toda a família real era composta por vampiros. Daniela fora a única sobrevivente da revolta. Isso pelo fato de seu pai ter fugido com ela.
— Na revolta bolchevique?
— Exato. Mas o objetivo de alguém quanto a revolta era somente eliminar o sangue real.
— O Drácula?
— Acredito que sim. Creio que ele fora um dos financiadores. Alguém com tamanha influência nas sombras da sociedade, certamente poderia financiar esse movimento.
— Então temos uma pista, um norte a seguir.
— Impossível. Os dados são secretos. Mesmo que consigamos acessá-los, não constariam os verdadeiros nomes. Comecei a pensar na hipótese do envolvimento com a Rússia logo na primeira vez que soube a real identidade da Daniela, mas tive certeza ao saber sobre um magnata romeno que visitou o país alguns meses antes do golpe.
— Um magnata?
— Outro relato importante é que os momentos que ele aparecia ao público, à noite.
— Teremos que procurar nos jornais. O senhor Panz fala russo, não é mesmo?
— Bem lembrado. Os jornais podem ajudar. Amanhã partiremos a Panz.
— E quanto a Progmas?
— Devemos obter algumas informações antes de seguir a esse local. Não sabemos qual é a influência dos Werckinberrevichs nesse território. Se conseguir boas informações, poderei solicitar reforços. Os superiores acreditam na minha credibilidade de informação, basta eu os acionar, e no outro dia estarão aqui.
— Tristemente não sou de ajuda alguma, agora que não posso sair sob a luz solar.
— É o preço que pagou pela imortalidade ao meu lado. Mas não se ache inútil. Se realmente fosses, achas que haveria te adotado? Mudando o assunto. Estou curioso para saber como enxergas à noite. Há algum filtro de cores?
— Vejo tudo como via ao dia, um dia escuro com nuvens plúmbeas prontas para chover. Exatamente assim. Não sairei durante o dia, mas vejo à noite como ao dia.
— É por isso que não ascendes nenhuma luz além de uma vela no gabinete?
— Sim, muita luz faz meus olhos doerem muito. Não sei como enxergo durante o dia agora, pois certamente morreria.
— Desde que me tornei um vampiro, pergunto-me o motivo de a luz solar assassinar essa espécie.
— Já vistes isso pessoalmente?
— Não me lembro de presenciar. — Respondi-lhe.
— Logo que são expostos à luz solar, no local do contato a pele escurece e apresenta algumas manchas escuras, essas manchas espalham-se pelo corpo até o vampiro morrer.
— Por que era são sensíveis apenas a luz solar?
— Ninguém sabe, talvez seja uma condição divina. Morrer por conta da luz do sol, mas nada acontecer sob a luz de lâmpadas e velas. Também não sabemos por que não morremos ao sermos expostos à luz lunar, pois ela é reflexo da luz solas que atinge a lua. Talvez pela frequência ser baixa.
— Ficaremos loucos se pensarmos muito nisso. — Sorri.
— Conte-me mais sobre o teu plano, sobre o que passa em tua cabeça.
— Sabes o que penso quase sempre, minha doce e prazerosa vingança. — Aproximei-me dela e abracei-a. — Minha cara Carmelia, não perca teu tempo tentando desvendar meus pensamentos. Já fui um homem sonhador, porém, esse homem desapareceu com a morte da minha amada Cecília.
— Quando se referirás a mim como "Amada Carmelia"?
— Quando eu em apaixonar por ti.
Abaixou a cabeça e perguntou. — E como o faço?
— Apenas seja minha e continue realizando meus desejos. — Beijei sua boca e desabotoei seu vestido.
Na manhã seguinte despertei na cama com Carmelia ao meu lado. Levantei-me e vesti-me. Escrevi um bilhete ordenando que ficasse enquanto eu ia a Panz. Certamente ela não gostaria da ideia, mas nada poderia fazer, não poderia dirigir durante o dia, não tinha quem a levasse no isolamento do carro. No bilhete constava a ordem de pesquisar sobre Progmas. Seus habitantes, costumes e nobres, até mesmo se houvesse alguma máfia.
Entrei no caminhão e parti à estação ferroviária. As estradas eram novidade para mim, não estava familiarizado com elas, isso custou duas horas por decorrência de perder-me no caminho três vezes. Quando finalmente cheguei na estação, estacionei o caminhão no estacionamento mensal do local. Dirigi-me à bilheteria, e lá, comprei o bilhete do próximo trem. Sentei-me no banco e pus-me a esperar. Nesse tempo pudera refletir sobre minhas decisões, se a imortalidade da Carmelia valeria o preço de não poder mais usá-la durante o dia. Ela se limitou a conseguir informações por meio de tortura e pesquisa cientificas em prol do corpo vampírico. Refleti sobre como eu estava agindo, talvez arrogantemente. Eu sabia no que havia me transformado, compreendia o monstro que era, mas isso não me fazia entristecer, ainda não me faz. Hoje, se tenho arrependimentos, são por conta dos sacrifícios que cometi.
Nesse banco, pensei por horas e mais horas até o trem chegar. Embarquei no vagão da primeira classe e pesquisei minha cabine. Entrei e sentei-me no acento. Logo um garçom trouxe-me um cardápio e perguntou o que desejaria. Pedi-lhe chocolate e menta. O rapaz saiu e então pude cair novamente em devaneios.
Era uma lembrança que vivi com Cecília em uma noite silenciosa, sem lua ou estrelas, uma noite escura e aconchegante. A brisa era morna e acolhedora. Estávamos sentados no banco do jardim. Ela abraçava-me apertadamente. Conversávamos sobre como imaginávamos o casamento e como o idealizávamos. Como seria a noite nupcial e o quanto desejávamos um ao outro. O quanto sonhava em despi-la e amá-la por toda a eternidade. Memórias de luxúria regozijavam em minha mente enquanto admirava a paisagem dos campos de trigo. As memórias mais doces que um homem pode ter de suas noites, essas eram as memórias que recordei. Mas sei que nunca encontraria uma mulher como ela, uma mulher que despertasse os desejos mais profanos contido em um pecado carnal. Nem mesmo Daniela ou Carmelia foram capazes. Talvez por Cecília haver sido meu primeiro amor, talvez sua beleza angelical ou sua personalidade doce e meiga.
Todos esses sentimentos infestaram meu ser nessa viagem e quanto mais eu recordava as memórias, mais cabisbaixo e atônito ficava, eram memórias felizes que foram arrancadas de mim.
Eu entendo como Carmelia se sentia ao se imaginar ao meu lado por toda a eternidade, pois sentia a mesma felicidade ao eu imaginar minha eternidade ao lado da Cecília.
A viagem durou três horas, desembarquei na estação de Lucelene e procurei o trem que seguia à Panz. Esse não demorou mais de trinta minutos, embarquei e esperei a saída.
Pouco depois do meio dia desembarquei em Panz. Pedi um taxi e segui à casa do senhor Panz.
Não havia mais de uma semana desde a última visita. Anunciei-me no portão de sua casa e logo fui recebido. Fui acompanhado até a sala de visitas e após alguns minutos ele me recebeu.
— É bom te ver novamente, meu amigo. — Cumprimentou-me.
— Estou lisonjeado pela chance da recepção. — Sorri. — Perdoe-me, mas, infelizmente não tenho tempo para cortejos. Desejo algo de ti.
— De mim? Com tantos presentes que me dera? Faz-me até relembrar do tempo que era guarda real do império russo. Diga-me do que precisas e ajudar-te-ei.
— Soube que havia um magnata desconhecido poucos meses antes da revolução bolchevique, gostaria de saber os pormenores.
— Não me lembro muito bem, mas tentarei passar-te apenas informações corretas, mesmo que estas não sejam muito detalhadas.
— O que me fornecer será demasiado lucro.
Sentou-se no sofá à frente e pôs-se a contar.
— Lembro-me de uma festa entre os nobres do país. Dentre esses nobres destacava-se um magnata, se não me engano chamava-se Simbad, era esse o nome que usava.
— O nome utilizado no livro do Dumas?
— Exato, provavelmente adorava a história. Mas ele fora convidado por um conde do qual o nome não recordo. Ele articulava conversas com os principais empresários da época. Infelizmente meu posto era longe, então não sei o assunto.
— É ele. — Proclamei.
— Quem?
— Esse Simbad, ele se autoproclama Drácula. Ele foi o meu malfeitor e ele assassinou Daniela.
— Por Deus, sabes como encontrá-lo?
— Infelizmente não, mas espero fazê-lo logo.
— Ele negociou com vários empresários durante aquela noite, era um homem com longos cabelos negros, pele branca. Um dos homens que ainda tem poder e negociavam com ele é o senhor Aleonal Knov, o dono de uma companhia ferroviária. Hoje administra essa empresa e outra relacionada a fretagem naval. Ambas com seu sobrenome.
— Entendo, solicitarei uma audiência.
— Como?
— O senhor deseja apresentar uma proposta de concessão que ligue tua vila a outros lugares?
— Entendi. Prepararei amanhã cedo a proposta. Pedirei preferência à empresa dele. Quando perguntarem-me sobre a inusitada preferência, responderei que desejava um traço russo nesse lugar, afinal, a Rússia era meu lar natal.
— Perfeito.
— A propósito. Como está a tua companheira? — Mudou o assunto.
— Ainda não se acostumou com os novos olhos.
— Novos olhos?
— Ela é uma vampira nobre a gora.
— Incrível, como conseguiram? Um vampiro não daria sua vida por alguém sem laços.
— Forçamos a transformação.
— Não acredito! Como o fizeram?
— Bem. Após algumas experiências, descobrimos que quando um vampiro nobre tem seu sangue quase todo drenado, ele perde o princípio vital. Com isso ele morre. Quando Daniela me transformou, ela injetou seu sangue em mim e retirou o meu. Isso fez com que seu corpo entrasse em colapso. Isso fora uma complexa questão. Quando eu fora acertado no coração, certamente perdi uma infinidade de sangue, acreditava eu. Mas na verdade eu perdi aproximadamente 60%, a coagulação manteve o resto no meu corpo, mas meu coração não se movia, com isso o sangue continuou inerte e eu não pude me regenerar. Após receber sangue humano em minhas veias, reanimei. Porém, quando o vampiro perde mais de 90% do seu sangue, não adianta injetar sangue humano em suas veias. O sangue que o cérebro do vampiro precisa, tem proteínas que o humano não tem. Com isso, em alguns segundos ocorre a morte cerebral. Logo o vampiro não pode se regenerar e acaba perdendo a funcionalidade dos outros órgãos. O sangue vampírico tenta dissolver-se com o sangue humano. Mas o abrupto contado acaba destruindo as hemácias vampíricas. Descobrimos que uma hemácia vampírica suporta quatro humanas. Digamos que o corpo sofre overdose.
— Nossa, incrível. E quanto aos vampiros reprodutores?
— Eles possuem sistemas diferenciados, o principio vital não está nas hemácias em si, mas sim nos vírus que elas carregam. Por conta disso não se pode assassinar um vampiro acertando-lhe a cabeça. Diferente dos nobres, descobrimos também que disparos na cabeça podem matá-los por conta da vulnerabilidade em questão do cérebro. Só não havíamos descoberto antes por questão dos números de nobres serem infinitamente menor que os reprodutores. Mas com os reprodutores, eles regeneram até o cérebro, porém, perdem informações importantes. Infelizmente não sabemos muito mais. As cobaias morreram.
— Confesso ter receio em saber detalhes desse processo.
— Posso contar a ti, mesmo que eu fora apenas um instrumentador cirúrgico.
— Ela fizera todo o trabalho?
— Sim. Com esmero, eu diria. — Sorri.
— Desejo vê-la como a vi quando conheci. — Gargalhou. — Mas corra atrás desse homem. Apesar de Daniela haver dado a vida por ti, não te culpo, ela morreria de qualquer maneira. Sua morte fora proveitosa.
— Obrigado. — Levantei-me. — Podemos caminhar? Não tive oportunidade de conhecer a vila.
— Aprecio a ideia, há um bom bar onde poderemos beber.
— Agora falas o verdadeiro português que eu entendo.
Saímos de sua casa e caminhamos até o centro.
— Algo me chamou a atenção. Se para tornar-se um vampiro nobre, deve possuir o sangue da fonte, por que não se transformou antes? Pois bebia o sangue da Daniela.
— A troca deve ser feita diretamente na artéria. Beber o sangue normalmente é como beber um bom suco adocicado como maçã. Mas também não pode ser ingerido em excesso. Há risco de conflito com o organismo.
— Entendo. Sabe, filho, eu desejo ajudar-te em tudo que for possível. Farei o que estiver no meu alcance para que possas vingar-se de nosso homem.
— Assim farei. A propósito. Parece que gostaste das armas, usou-as?
— No mesmo dia. — Sorriu. — Realmente a M&M faz armas perfeitas.
— Quanto a munição, estou trabalhando em um protótipo que possa penetrar na armadura dos Werckinberrevichs. Enviarei uma caixa ao senhor, peço que use uma a fim de teste e guarde as outras.
— Eles virão atrás de mim, não é mesmo?
— Acredito que sim. Não quero que morras, ainda restam pessoas queridas.
— Estou lisonjeado. — Curvou o braço a fim que eu encaixasse.
Estávamos caminhando calmamente e conversávamos sobre meus planos.
— Cá estamos, esse bar.
Era quase uma taberna arquitetada nos moldes do século IX. Estrutura de madeira e parede de pedras talhadas. Havia duas pequenas janelas, a porta era de ferro e madeira. Ao abrir, constarei ser realmente uma taberna. Havia música e bebida em todos os lados. Mulheres desfilavam de um lado ao outro.
— Como podes notar, esse bar era numa antiga taberna construída por vikings. A localização geográfica explica o motivo. Mas isso antes da tomada inglesa desse território. Por conta dos grandes portos que haviam perto, há uma grande variedade de raças nórdicas. Quase todos nesse bar são nórdicos, sentem-se bem em locais assim.
— Entendo.
— Apesar da aparência, há uma variedade de runs e alguns coquetéis exóticos.
Entramos na taberna e rapidamente todos fitaram-nos. Eu era forasteiro, mas voltaram ao estado normal quando o senhor Panz entrou atrás de mim. Seguimos ao balcão e pedimos o especial da casa. Infelizmente nunca descobri como ou com o que fora feita a mistura, mas era incrivelmente forte.
— Bom lugar, após a morte da Daniela, vim aqui quase todos os dias, até mesmo dormi muitas noites escorado nesse balcão. — Sorriu.
— Realmente, não há possibilidade de continuar consciente após algumas dozes dessa mistura.
— Quantas pessoas já assassinou?
— Uma repentina pergunta, poderia saber o motivo?
— Curiosidade.
— Perdi a conta há algum tempo. Sei que apenas com os experimentos que comentei, foram mais de noventa em um mês.
— E humanos?
— Não me recordo de haver assassinado algum. Talvez um ou dois. E o senhor? Também tens as mãos machadas de rubro?
— Era um guarda, assassinatos eram recorrentes, geralmente bandidos e mafiosos. Pedi a conta de quantos matei.
— Entendo, diria que é um herói então, já eu, serei o vilão.
— Admito não apreciar esse comportamento, mas se não assassinares nosso malfeitor, ele continuará a destruir. Então alguns sacrifícios fazem-se necessários.
— Falas como um bom líder. — Proclamei.
— Como o Odisseu. — Respondeu-me.
— Os deuses não esperam menos da minha vingança; como a de Aquiles ao Heitor. Conheci um Werckinberrevich há algum tempo, gostaria de apresentar-te ele. Um bom homem. Apesar de suas mãos serem mais sujas que as nossas, era um homem respeitável. Presenteou-me com um discurso belo sobre a guerra noturna que enfrentamos.
— Apresente-o a mim algum dia.
— Retornarei a Morryes depois de amanhã. Gostaria de me acompanhar?
— Infelizmente não posso abandonar essa vila.
— Um dia ou dois não farão diferença. Quero que conheças os soldados do grupo, talvez encontre algum compatriota.
— Ficarei dois dias e nada mais.
— Perfeitamente. Partiremos hoje a minha casa de campo e depois seguiremos a Morryes. Apresentar-te-ei à equipe que fábrica as armas. Preciso apresentar os protótipos do novo projetil e também tenho que suprir minha sovina de sangue.
— Carmelia ainda é virgem?
— Sim, não teve a oportunidade de experimentar sangue humano. Digo-te que estou controlando esse feito, talvez não por muito tempo, mas o suficiente, espero. Apesar de eu assassinar deliberadamente os vampiros, ainda evito tirar a vida de um humano. Receio que com Carmelia seja diferente. Quando a abstinência a afligir, certamente matará sem remorso.
— Estás tentando encolerizá-la?
— Isso ela já está.
— E como o faz?
— Retribuo seu amor em troca de sua obediência.
— Entendo. Espero que consiga mantê-la por muito tempo.
— Estou em um jogo de xadrez, meu caro Panz, um jogo cuja as peças movem-se sós. Carmelia é minha rainha, mas não é a única peça.
— Belo discurso, mas é triste.
— Realmente deplorável. — Falei. — Sou um canalha.
— Sabes, Edmund. Qual é o verdadeiro motivo da tua vingança? É uma pergunta estranha vinda de um homem cuja a filha fora arrancada pelo mesmo homem que assassinou a tua esposa. Digo, se desejavas tanto viver ao lado da Cecília, mesmo depois de morto. Por que não traçou um caminho que o fizesse. Escolhera a vingança a fim de satisfazer-te. Meu querido rapaz, estimado amigo, não posso pedir que abra mão desse desejo, mas não faça loucuras, como as quais fizera com essa garota que te acompanha. Realmente, te conheci quando ainda no início da tua vingança, mas ainda restava bondade no teu coração. Hoje, vejo que não há nem mesmo uma célula boa.
— Reflito constantemente sobre isso, meu amigo, mas sempre chego na mesma conclusão egoísta e fútil. Sei sobre meus atos, mas veja, senhor Panz. Provei o gosto suave da vingança, contradisse todos os conselhos dados referentes a recomendação da minha desistência. Mas não ouvi essas pessoas, e fascinei-me pelo gosto do meu desejo. Não sou mais humano, não por ser vampiro, mas por não guardar mais humanidade em meu coração. Por outro lado, o que aconteceria se eu desistisse da minha vingança? Certamente meu malquisto tiraria mais alguém de mim. Por essa ótica, pessoas queridas morrerão de qualquer maneira, e, como disse, prefiro destruir esse mal, essa erva daninha que impregna os campos de trigo, pois, como concluímos há pouco, ele não parará de brincar com os outros. Meu senhor, meu caro e estimado Panz, o senhor não viu o corpo da jovem Werckinberrevich chamada Angélica, uma bela mulher no auge da sua maturidade e beleza, uma mulher de cabelos vermelhos e pele branca. Seu corpo apresentava cicatrizes profundas espalhadas em todos os lugares. Diga-me, desejas que permita algo assim solto? Que possibilite outras vítimas?
— O senhor assassinou 90 pessoas no último mês, provavelmente houveram torturas em quase todos os casos, também desde quando iniciou tua vingança. Meu amigo, se continuares assim, acabará como o Drácula.
— Sei disso, mas não me importo. Sei que sou alvo de vinganças, e que tirei vidas preciosas para outras pessoas. Não posso dizer que haja um bom fim por trás, justamente por ser um fim egoísta. Todas essas vidas inflam meu ego. Antes que respondas, minha vingança está próxima do final.
— Recordou-se de alguma informação relacionada ao magnata?
— Como sabes, sou membro do Black Night, entretanto, recentemente, fui, involuntariamente, incorporado a um outro grupo, os Schattenkrieger.
— Quem são esses?
— Os vampiros que viviam em Burtchendill antes do domínio dos Werckinberrevichs. Trabalham a fim de reconquistar o poder, para isso precisam destruir o meu inimigo. Dar-me-ão informações valiosas em troca do meu serviço.
— Entendo. Não te julgarei, mas estejas preparado quando os Black Night descobrirem.
— Realmente, isso me faz tremer, mas não havia escolha, eu deveria entrar, ou seria assassinado. Pretendo morrer apenas depois de me vingar. — Bebi outra doze da mistura.
— Não questionarei. Bebamos, bebamos muito.
Não voltamos ao assunto. Bebemos até nos embriagarmos. Depois disso, recordo-me apenas de despertar na cama do quarto de hóspedes na manhã seguinte.
Era um dia claro e vivo, o campo era verde e vasto. Levantei-me e dirigi-me ao banheiro, lavei o rosto e dirigi-me ao gabinete do senhor Panz. Ele estava lendo um jornal e bebendo café.
— Parece que estás bem. — Proclamei.
— Mas isso apenas por fora, meu fígado provavelmente me odeia. — Gargalhou. — Não me recordo de nada depois da nossa conversa.
— Entendo. Bem... Vamos?
— Com prazer, íamos ontem, mas estávamos tão embriagados, seria perigoso sair naquele estado.
— Realmente.
Levantou-se e caminhamos até a porta.
— Minha bagagem está pronta, está no carro.
— Pode pedir que busquem a minha.
Depois de carregarmos o carro, partimos à estação. Fizemos ao contrário o mesmo caminho que eu fizera. Era quase meio dia quando cheguei na casa de campo. Entrei depois do senhor Panz e fechei a porta.
— Perdoe-nos, as janelas estão fechadas. A ventilação é feita por ventiladores e tubos que fazem a troca de ar. Podes abrir a janela do teu quarto, mas cuide para que Carmelia não entre.
— Está fresco, não se preocupe, também vejo bem com as luzes das lâmpadas.
— Carmelia usará óculos com lentes escuras, isso poderá fazê-la suportar a luz de uma boa iluminação. Creio que já deve estar usando o objeto.
— Realmente, ver à luz de velas é muito desconfortável. Ainda mais para ela que não se acostumou com seus olhos.
— De fato. Vamos ao gabinete.
Seguimos ao cômodo. Carmelia lia alguns documentos a respeito das delegações das funções a serem executadas a fim de manter a ordem no ducado.
Eu não deveria sair de Morryes por conta da possível revolta, mas decidi retroceder a decisão por não haver movimentação suspeita nos arredores. Se houvesse, a inteligência do reino e do Black Night notificar-me-iam. Certamente, em uma hora estaria atrás da mesa do centro de inteligência ordenando a resistência e obliteração dos rebeldes. Deveria retornar a Morryes constantemente a fim de adquirir informações.
— Olá, madame. — Cumprimentou Panz. — Como vais?
— Olá, bem, e o senhor?
— Minha cabeça dói muito. — Disse sentando-se no sofá.
— Pressão? — Perguntou.
— Bebedeira, minha cara.
— Entendo, Edmund te acompanhara nessa noite?
— Sim, mas ele não parece estar sofrendo.
— Vantagens de se ser vampiro, meu amigo. — Gargalhei. — Meu fígado não sofre danos e o álcool é eliminado rapidamente do meu sangue.
— Transforme-me o mais rápido possível. — Rimos por alguns segundos. — Há tempos que não sorrio assim. Meus criados sempre dizem para eu mudar minha expressão cabisbaixa.
— Entendo. — Respondi.
— A propósito. Onde estão teus criados?
— Não os temos nessa casa. Estou aprendendo a cozinhar. — Sorri.
— Não desejas mais mortes na tua casa?
— Não. Além disso, chamaríamos muita atenção se trouxéssemos criados.
— Mas os disparos das armas quando treinas chamas mais atenção ainda. — Interrompeu Carmelia sorrindo singelamente.
— Realmente. — Corroborou Panz. — Não precisam mentir. Desejam privacidade, não é mesmo. — Disse com um olhar malicioso.
— Não diga bobagens — Disse Carmelia voltando a ler depois de beber um gole de café.
— Vamos aos assuntos. — Proclamei. — Senhor Panz. Desejo algo de ti, uma ajuda importante.
— Diga-me, diga-me.
— Preciso que ignore os Black Night que entrarão no teu Baronado. Decidi espalhá-los a fim de cobrir um grande espaço. Todos os membros estarão sob meu comando, então se tentarem fazer atividades das quais estão acostumados, em relação a comportamentos fora da lei. Tenha certeza de me avisar, após alguns dias esses meliantes serão punidos. Mas não se preocupe, serão aproximadamente 20 caçadores, então eles não têm relação com a máfia do grupo. Digo-te que faria de qualquer maneira, porém, não dormiria bem em saber que te enganaria.
— Desde que não machuquem ninguém, ou provoquem brigas, faça-o. Desejo nosso homem morto, faça-o acontecer. Apenas mande todas as informações de cada sujeito, vê-los-ei pessoalmente quando chegarem.
— Perfeito. — Proclamei.
— Quanto tempo ficarás? Perguntou Carmelia?
— Aproximadamente dois dias. Queres tanto que eu vá embora? — Sorriu.
— Imagine. Fique o quanto desejar, devemos saber para imaginar o que servir no almoço.
— Sou um ex-soldado, como qualquer coisa mastigável.
O resto da semana passou de maneira pacata, senhor Panz já haviaretornado.
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