Memórias de vidro
40 A morte azul seria o que, além de um demônio?
— Soube que despertou há três meses. — Disse a mulher dos olhos vermelhos sentada em um banco no jardim de uma grande casa.
A lua estava tímida e não se apresentava totalmente, mas iluminava as flores e as árvores.
— Poderia saber o motivo de haver poupado minha vida? Como devo chamar-te, senhorita?
— Chame-me de Sarah.
— Sarah? Bem.... Diga-me, peço-te, o motivo de eu ser útil, alegaste que seria por conta da minha influência política, mas a tua casa está em outro nível na esfera jurídica. Então, como eu seria útil?
— Um capricho, apenas.
A luz prata da tímida lua iluminava esse rubor nos seus olhos e nos fios de cabelo. Fazia brilhar sua pele branca e pura. Era uma bela visão, é difícil admitir que essa mulher era mais bela que a Cecília. Aparentava ter trinta anos, tinha um corpo esbelto, moldado nos padrões gregos. Estava vestida com um vestido de camponesa germânica, mas era negro com detalhes em bordô.
— Um capricho? O que queres dizer?
— Exatamente o que falei. — Sorriu olhando o céu. Estendeu a mão e apontou às estrelas. — Veja só como brilham.
— Realmente.
— Sabes, Edmund. A imortalidade é tediosa. Depois de fazer tudo que desejamos, não há mais nada para nos entretermos. Por conta disso, frequentemente, seres imortais agarram causas ridículas como a que tenho, ou seja, eu idolatrar teu corpo semelhante ao meu amado já há muito tempo morto. É inevitável, diria até, o destino pelo tedio imortal. – Suspirou. — Vamos caminhar. — Levantou e arqueou seu braço a fim que eu encaixasse.
Assim fiz. Caminhamos e saímos do jardim, entramos em um bosque que havia ao lado. A trilha era de pedra e estendia-se por vários metros.
Ao fim desse caminho, havia um belo campo de margaridas brancas, era o mesmo campo onde dormia Daniela quando a vi pela primeira vez. As pétalas refletiam a luz prata da lua. Esse fulgor corria até quase se perder de vista. Sarah entrara nesse belo território florido.
Sentei-me e pus-me a observar. Tratava-se de uma linda visão de um mar prateado. Ser possível andar sobre seria uma ideia apenas vista em literaturas românticas, mas era real. E nesse mar prateado dançava Sarah, como uma mulher diferente da qual conheci no julgamento. Parecia deliciar-se em meio as flores. Dançava ballet, uma coreografia improvisada que fazia as pétalas voarem ao servirem de palco aos giros e piruetas.
Após alguns minutos ela deitou e respirou profundamente ao meu lado.
— Não sou como nos conhecemos, ao menos não normalmente.
— De fato, estás diferente. Mas, diga-me o motivo dos teus caprichos.
— Sabes de uma coisa, quando se vive muito, acabamos conhecendo muitas pessoas, algumas das quais o semblante não recordo, e outras que vem à mente todos os dias.
— Queres dizer que sou parecido com alguém estimado?
— Parecido seria um eufemismo. — Sorriu.
Ela levantou levemente a mão e uma borboleta azul pousou em seu dedo, bateu as asas até permanecer inerte e depois de alguns segundos voou. Essas asas fulgentes refletiam o azul cintilante e bordejavam em meio a escuridão do céu até perder de vista.
Novamente voltei-me às flores brancas contrastadas com o rubor belo que ali deleitava-se. Deliciando-se sobre esse mar prateado, ela rolava de um lado ao outro e respirava profundamente para sentir o oloroso aroma da flora.
— Diga-me. Essa paisagem não é bela? — Perguntou ela.
— Realmente, belíssima.
— Eu sei o motivo de buscar vingança, ouvi dizer que era uma mulher encantadora, Cecília. Tão linda quanto a mais bela das mulheres. Mas fora assassinada pelo nosso inimigo em comum. Estou certa?
— Estás, onde desejas chegar?
— Se encontrasse uma mulher idêntica a ela após trezentos anos. O que faria?
— Entendo, bem... Faria o que fizeste comigo. Fá-la-ia minha companheira. Se possível adoraria ouvir a história vivida entre ti e esse rapaz de quem não sei o nome.
— Chamava-se Heitor. Algum dia contarei a respeito.
— Assim espero. A propósito, disseste que possui outra postura diante de testemunhas, por que o faz?
— Eu era pior, sou a líder dessa casa. Devo ordená-la e guiá-la, mas adotando um comportamento dócil, é impossível; ainda mais com 1000 anos. A época que assumi o poder era muito diferente da que vivemos, eu não deveria adotar uma postura frágil. Mas acabei assumindo a personalidade quase por completo, até conhecer Heitor. Ele me fez lembrar quem era antes de tornar-me um monstro.
— Um monstro?
— Vistes como falei contigo, mas nem tudo daquilo é mentira. Mesmo sendo rígida e maléfica na frente dos outros. Houve um período que deixei minha identidade má sobrepor-se à boa por completo. Tornei-me um monstro, assim como o que estás se tornando.
— Dizes isso mesmo sem me conhecer?
— A morte azul seria o que, além de um demônio? Um homem que veste uma máscara e assassina até mesmo mulheres sem piedade ou clemência.
— De fato. Mas obtive bons resultados em três meses, tal qual não obtive em um ano. Minha vingança está prestes a ser concluída.
— O que pretendes fazer depois?
— Suicídio.
— Então ver-me-ei longe desse rosto novamente, lembrarei do meu Heitor morrendo e perdê-lo-ei duas vezes. Isso me entristece. Não gostaria de viver comigo?
— Não viverei depois de concluir meu objetivo, sei em qual proporção eu ajo. Sei que não poderia viver uma longa vida sabendo dos meus crimes. Mas não me importo de receber seus favores em troca de fazer-te recordar do teu amado Heitor. Diria até que deverias aproveitar esse pouco momento e recriar memórias que viveu com esse homem.
— Assim farei. Em troca da tua disposição, darei informações, mas não faças essa linda noite parecer uma negociação. Peço-te isso.
— Como desejar.
Deitei minha cabeça sobre seus seios e pude sentir seu coração bater aceleradamente. O arfar que tanto suspirava era abafado por uma tentativa de controle, mas não conseguia esconder a euforia de reviver seu antigo amor. Mesmo sabendo que aquilo não passava de uma ilusão, uma necessidade de recordar o passado; de amar uma imagem, pois, para ela, eu não passava de um objeto, não mais que um boneco. Eu sabia que não poderia manipulá-la, sabia que poderia aproximar-me dela e entrar apenas na esfera de companheirismo mútuo, uma mera troca de favores. Mas admito sorrir ao imaginar o romance vivido por Sarah e Heitor, que realmente, foi mais digno de um livro do que essas memórias que estou escrevendo.
Ela não me amava, apenas venerava minha imagem, eu não recusei a entrada no seu grupo por puras ameaças, mas quando a vi em sua forma dócil e amante, decidi fazê-la bem. Decidi ajudá-la a se recordar do seu antigo amor, pois sei que adoraria ver Cecília novamente. Imploraria à mulher que me fizesse feliz apenas com sua companhia. Apenas venerá-la. Meu eu sem sentimentos ainda sentiu esse clamor nos olhos da Sarah, fiz-me seu boneco por vontade própria. Por ela ser como eu. Mas esse pequeno agrado não me fazia ser bom, quão menos bestial. Sou a morte azul, assim como as pétalas da milha rosa azul, não morrerei até que me seja permitido, o formol é minha vingança e o esquife o limite do meu desejo.
Essa bela e encantadora noite acabou e o dia seguinte voltei-me a minhas atividades. Um novo plano de expedição no túnel fora desenvolvido. Fora-me instruído espalhar grupos de trinta a cinquenta caçadores em algumas regiões. Assim poderíamos conter o avanço inimigo em território fora de Morryes.
Pouco depois descobri que havia um grande cerco que impedia os Werckinberrevichs de sair de Morryes. Mas temíamos a ruptura desse cerco com a investida, já que não possuíamos o conhecimento dos tuneis. Mas haviam informantes que relatavam a movimentação em vários outros lugares. Nosso temor tornou-se mais visível ao receber um relatório afirmando a presença de suspeitos com alguns assassinatos característicos foram catalogados.
Estávamos na sala de reuniões da M&M. Eu e os superiores. Sobre a mesa descansava um grande mapa de Burtchendill e outro de Morryes.
— Senhor Edmund. — Disse o chefe de logística. — Soubemos sobre algumas rondas que fizeste, porém, o conselho decidiu ouvir, nesse momento, as tuas explicações referentes a incorporação de ti em um grupo de Werckinberrevichs. A princípio deduzimos traição, mas não haviam suspeitas anteriores. Conte-nos tudo, talvez saia dessa sala ainda vivo.
— Entendo. Não negarei a incorporação ao grupo inimigo, contudo, não são Werckinberrevichs, são Schattenkrieger.
— O antigo grupo que lutou contra os caçadores antes da unificação do Black Night? — Perguntou o chefe do suporte médico.
— Exato, mas não o fiz por conta. Entrei no grupo por vontade das ameaças, e, como sabem, eu desejo minha vingança, então não me importo de ingressar em tal grupo, sendo eles, inimigos do nosso inimigo.
— Mas ambos são inimigos, mesmo que consigamos destruir os Werckinberrevichs, teremos que lutar contra esse outro.
— Entrei no teu grupo para realizar minha vingança, pouco me importo com o que vem depois.
O General de divisão socou a mesa e bradou. — Estás brincando conosco? Estás contra nós?
— Acalme-se, minha estada nos Schattenkriegers é apenas algo incomodo que me veio a calhar, já temos um inimigo em comum, com isso, consigo boas informações. Melhores em relação as que consegui com Walther. Descobri que em Progmas existe uma base inimiga. Aparentemente não apresenta suspeitas, mas essa base é subterrânea. Minhas fontes concluíram que essa base se liga a Morryes. Há a possibilidade de Morryes conectar-se com inúmeras outras áreas, ou seja, Walther passou-me uma informação que nos faria cair em uma emboscada. Confesso que desejo visitar a sua sela.
— Como conseguiu essas informações? — Perguntou o General de divisão. — São confiáveis?
— Por Deus, são. Poderemos organizar uma expedição à Progmas seguindo pelo túnel até lá. Não fiquem questionando minha lealdade, pois não a tem, já que posso assassinar caçadores.
— O que queres dizer?
— Meu caro chefe de logística. Estupradores devem morrer, alguns outros crimes orquestrados por caçadores também devem ser punidos. Não me importo se são humanos ou vampiros, pois não pouparei Schattenkriegers que mereçam morrer. Proclamei esse mesmo discurso perante os lideres deste grupo, então não pertenço a lado algum.
— Diz-se da aristocracia ainda? — Disse com sarcasmo.
— Não, sou apenas um monstro. Mas, assim como o Lobisomem, podem usar-me como arma. Não jurarei lealdade a nenhum lado, mas farei o que for preciso para realizar meu desejo.
— Não diga mais nada. — Concluiu o General de divisão. — Acreditamos em ti, não haveria lucro em nos trair. Nós havíamos decidido que o comando da operação seria teu, mas isso era antes de saber sobre teu envolvimento com os Schattenkriegers, porém, ainda acredito que serias o mais indicado, já que se mostrou impiedoso na sala do Walther, certamente faria nossas tropas atravessarem a terra de ninguém sem alguém te questionar. Infelizmente eles te obedecerão, se não pela maturidade, então pelo sucesso na última investida. Apoio a tua liderança sobre as tropas.
— Então promoveremos ele à patente de General de divisão? — Perguntou o chefe de suporte médico.
— Sim. — Respondeu o chefe de logística. — Eu voto a favor. Quanto aos senhores, o que acham?
— Faça o que desejar, ele ser parte do grupo ou não, não importa mais, agora que estamos a um passo da vitória. — Proclamou o General de divisão.
— Concordo. — Disse o chefe do suporte médico.
— Com isso as formalidades estão concluídas, vamos ao plano e à data de execução.
— Não esperaremos o Marechal Hoffem?
— Não será preciso, ele aparecerá em alguns minutos. As obras do teatro ainda atrasam a locomoção dos veículos, soube também que ocorrera um acidente próximo aonde ele estava, o trânsito está caótico. Formemos uma ideia base e montemos o plano. Quando ele chegar, apresentaremos.
Consentimos e prosseguimos.
— Como já fora dito, nossa invasão será feita pelo túnel, enviaremos um batalhão a Progmas, eles farão o cerco enquanto avançamos a área até encontrar a base de Morryes e de lá seguiremos os tuneis que levam às outras regiões. — Disse o chefe de logística.
— Talvez já hajam abandonado a base de Morryes, provavelmente obstruíram os tuneis, eu o faria se fosse eles. — Refutou o General de divisão.
— De fato, mas teremos que realizar esse reconhecimento, mas já preparados para o combate. — Disse o chefe de logística. — Também proponho um batalhão sob o solo das fronteiras, eles sabem que nosso grupo não possui uma força tão grande no resto do país. Já foram enviados pequenos grupos de caçadores a fim de cobrir possíveis lugares.
— Nosso homem é romeno, teremos que verificar os portos e embarcações, sobretudo as noturnas. certamente sairão do país e alocar-se-ão em território romeno. — Afirmei.
— Como sabes? — Perguntou o chefe de logística.
— Como disse, tenho informações, mas quanto a ser romeno, descobri há muito tempo, entretanto, soube também que o Drácula vive aqui, ouvi dizer que ele não pode retornar à Romênia.
— Drácula? É esse o nome? — Gargalhou o General de divisão. — É um pseudônimo demasiado sem graça. Sabes a sua real identidade?
— Infelizmente não Se soubesse, já haveria ido atrás. Só preciso do nome, apenas disso para encontrá-lo. Pesquisarei mais a fundo, talvez descubra. Retornando ao plano. Enviaremos homens aos portos. Farei com que nenhum navio saia em direção ao continente até a segunda ordem. Tenho um protótipo de projetil que poderá ser 100% eficaz em até 900 metros, contudo, custa quatro vezes mais.
— Quatro vezes mais? — Sussurraram os três juntos.
— Talvez possamos fabricá-los para o uso dos atiradores de elite. — Continuei. — A infantaria pode avançar com projeteis já usados, os meus, e a cobertura vir por meio de fogo definitivo.
— Disseste que tens um protótipo, apresente-nos. — Pediu o chefe de logística.
Dirigi-me ao telefone e disquei o número da minha casa. A governanta atendeu. Pedi-lhe que passasse a ligação ao Henrique, assim o fez. Pedi-lhe que trouxesse todos os projeteis fabricados e as armas que o disparavam.
— Dentro de uma hora cá estarão. — Afirmei. — Em troca de tamanha evolução armamentista, desejo algo.
— O que seria? — Perguntou o General de divisão.
— Desejo lutar na linha de frente.
— Esperava algo como isso. Faça como desejar, mas garanta a fluência das tropas.
— Contudo, apenas atuarei em dois momentos, no inicio, e no final. No inicio apenas farei o trabalho de um atirador. Pode não parecer, mas sou tão bom quanto os teus melhores atiradores. — Sorri. — A minha presença aumentará a moral dos soldados e fará com que se sintam mais seguros. Após a investida inicial, retornarei à sala de comando e agiremos todos por trás do exercito. Quando nos infiltrarmos em Progmas. Irei pessoalmente lutar.
— Quanto a vida dos civis?
— Devem ser evacuados no momento da invasão. Quem sair sob a luz solar, será guiado à área segura.
— Sugiro explodirmos os arredores da vila. Seus tuneis não são fundos, algumas dinamites seriam suficientes para armarmos uma armadinha, afugenta-los e invadir, ou esperar que eles saiam à noite.
— Realmente, é uma ideia efetiva. Façamos isso. — Concordei. — Quando iniciaremos?
— Se tudo ser como preveremos, em dois dias as dinamites explodirão. — Disse o General. — Nossos soldados já se movimentam em treinos e reconhecimento de mapas, mas devemos assinar a ordem depois do Marechal. Enquanto isso. Revisemos o plano. Montar o cerco em Progmas, implantar explosivos, seguir com um grande batalhão a fim de auxiliar a evacuação dos civis logo após a explosão. Se conseguirmos durante o dia, deveremos invadir as instalações. Se for à noite, deveremos esperar algum tempo até a invasão.
— Exato, refinaremos a ideia conforme seguirem as discussões. — Falei.
— A tua posição como atirador será de quantos metros atrás da infantaria?
— 400 metros. Mas não me infiltrarei no túnel, irei diretamente ao cerco em Progmas. Creio que serei mais efetivo lá. O ataque provavelmente será à noite, com o dia havendo apenas o preparo para a expedição. Acredito que eles tentarão responder ao ataque, mas nosso fogo pode baixar a moral do inimigo. Ordenarei que todos os postos espalhados por todo o país fiquem atentos às ordens. Liberarei mandatos de busca às casas abandonadas ou que estejam com as janelas fechadas durante o dia. Receberemos relatórios a cada trinta minutos.... Minha aparição na linha de frente de Progmas é a segunda. Iniciaremos a invasão ao túnel antes da operação. Mas o cerco deve ser feito de imediato.
— Concordo. — Disse o General. — Quanto às ordens ao exercito real? Trabalharás para que eles não descubram?
— Infelizmente haverão lutas contra o exercito. O nosso plano se trata de atentado, visto pela retina que ignoram os fatos. Teremos que enviar homens para lutar contra o exercito. Então não poderei ignorar o ato. Posso receber uma falsa informação de que se trata de alguns bandidos, com isso posso enviar um pequeno numero de soldados. Mas eles seriam derrotados, então terei que mandar cada vez mais soldados. Teremos que contar com uma investida rápida até entrarmos na base inimiga.
— A fuga dos soldados sobre terra deve ser feita com trem? — Perguntou o chefe de logística.
— Creio que sim. — Respondeu o chefe de suporte médico. — Quando a missão estiver quase completa, enviaremos um trem. Infelizmente a fuga é a parte mais trágica, já que, quem ficar no campo, deverá enfrentar o exercito. Quem conseguir embarcar no trem será levado à próxima estação.
— Se o trem não chegar? — Perguntei. — Há a possibilidade de o serviço de inteligência descobrir e interceptar o veículo.
— Se não houver trem, faremos à moda antiga. — Gargalhou o General. — Embarcaremos nos mesmos veículos que viemos e fugiremos.
— Deveram roubar coisas também. — Afirmei. — Mas ordenarei que roubem os ricos apenas.
— És o Robin Hood? — Disse o General.
— Os civis não escolheram isso, e dos que podem reaver percas, esses são os nobres ou empresários.
— Então ainda guarda bondade desse coração?
— Talvez. Quiçá esteja buscando uma redenção. — Sorri.
A porta se abriu. Todos levantamos e esperamos o Marechal entrar. Eu não sabia nem mesmo o nome do Marechal até então. Mas lembrei-me que havia ouvido uma vez esse nome, Hoffem, antes de minha esposa morrer. Mesmo essa familiaridade, essa aproximação que tinha sem saber, imediatamente lembrei-me de quando meu julgamento sobe haver bebido o sangue de Sofia foi adiado e arquivado. Foi uma simples e pura ordem de alguém que me esperava na porta. Sempre desconfiei da sua participação no grupo, pois dizia que não era membro, mas sempre estava presente.
— Thomas? — Deixei escapar esse nome de modo escandaloso.
— Nunca contei a ti? — Sorriu.
— Mas dissestes que não fazia parte do grupo.
— E não faço parte, eu sou ele. Tua inteligência deixou a desejar. No momento do teu julgamento já deveria deduzir que eu detinha algum poder.
— Por que um bar? Se és tão poderoso, por que ser dono de um bar?
— Puro e simples prazer. Também recolhi os homens durante as luas cheias, como já havia explicado. Mas não tempos tempo de conversar sobre assuntos aleatórios. O que foi decidido?
Explicamos-lhe todos os pormenores do plano. Fizemos algumas alterações pouco relevante. A única pendência era a apresentação dos projeteis. Mas pouco depois de revisarmos o plano Henrique foi anunciado no portão. Ordenamos-lhe que seguisse diretamente ao campo de disparos.
Seguimos todos ao local. Quando chegamos, dirigi-me à Morgana. Estava avaliando o armamento com cautela e curiosidade.
— É um belo material. — Disse ao me ver. — Mas não achas que é muito grande?
— O suficiente para um bom desempenho. — Sorri. — Apresentarei primeiramente essa arma. Fora desenhada por mim e fabricada pelo Henrique, um rifle semiautomático de longa distância. Como havia dito, possui uma efetividade de 100% há quase um quilometro do alvo. Mas isso se dá pelo calibre da arma. Ela conta com um calibre .556" por 6". O sistema é semiautomático, porém, pode ser configurado para disparos mais precisos e distantes, por conta da possibilidade de selecionar o modo de ação por ferrolho. Conta também com uma mira telescópica acoplada. Essa arma suprirá o fogo de grande parte dos atiradores de elite. Creio ser possível a fabricação de trinta rifles semelhantes durante o preparo da operação. Os cartuchos devem ser fabricados pela equipe de armamento artesanal, já que exige detalhes elaborados, os quais não podem ser feitos em tão pouco tempo. Possuo aproximadamente 800 unidades prontas, isso equivale a 26 ou 27 cartuchos por soldado, esse número deve dar, no mínimo, 90 cartuchos por soldado.
— É insano. – Disse Thomas. – Mas creio ser possível, se essa arma for realmente eficaz, iniciaremos hoje mesmo, mas antes vamos aos testes. Arme-a e demonstre sua efetividade.
Empunhei a arma e segui à bancada, municiei o carregador e engatilhei. Disparei a uma distância de 200 metros. Passara perfeitamente a chapa que simulava a armadura dos Werckinberrevichs. Logo após disparei à 400 metros, novamente efetiva. Infelizmente o campo não se estendia muito além disso, ordenei a implantação de silhuetas de aço com 6 mm de espessura na mesma distância. Acertei-lhe todos os disparos. Como esperado, penetraram a blindagem. Depositei o rifle sobre a mesa e voltei-me aos ali presentes.
— Esse é o poder dessa arma. – Proclamei. — Certamente oferecerá um bom fogo.
— Realmente. – Corroborou Thomas. — Não percamos tempo, iniciaremos a produção imediatamente.
— Deixe Henrique no comando desse projeto, ele conhece cada milímetro dessa arma e dos cartuchos. Faça-lo diretor e movimente toda a equipe de produção a ele. – Pedi.
— Entendo o que estás tentando fazer. Bem... Façam como deseja o senhor Edmund. – Ordenou Thomas. — Esse rapaz assumirá a diretoria desse projeto. — Voltou-se à Morgana e disse. — Leve-o até a oficina e apresente-o à equipe. Relate o avanço bélico que obtivemos.
Os dois saíram do local com os materiais e protótipos.
— Senhores. – Disse Thomas. — Discutimos a função de cada líder, partam imediatamente às funções. Iniciaremos a operação em três dias, contudo, um dia antes as tropas cercarão Progmas. Andem, andem.
Deram as costas de saíram.
— Preparar-me-ei agora. – Afirmei.
— Espere. Notei que estás só, onde se encontra a Carmelia? Não a vi mais contigo.
— Está na casa de campo em uma Comuna próxima à fazenda do ducado.
— Entendo, transformou-a?
— Sim.
— Quanto ao rapaz, desejas que ele se torne um engenheiro? – Sorriu. — Na verdade acreditas que não viverá mais do que essa missão, então queres deixar uma carreira promissora ao rapaz. Gostas tanto deles assim?
— De fato, não acredito que retornarei vivo, mesmo que retorne, cumprirei minha promessa, esse jovem tem um futuro esplêndido, ensinem-lhe a arte da engenharia, peço-te isso. Não viram nem mesmo a faca que ele criou, peça o projeto, é uma boa arma de curta distância. De qualquer forma, não creio que desejas apenas falar disso.
— Considerarei teu pedido quanto ao jovem. Não te chamei para falarmos dele apenas. Soube o que fizestes nessas últimas semanas.
— Diz sobre minha incorporação nos Schattenkriegers?
— Não, refiro-me aos casos de tortura e estudos que fizeste a fim de transformar Carmelia. Sinceramente, tenho medo de ficar a sós contigo, já que faz essas atrocidades, mas em frente ao público, és cordial, um verdadeiro aristocrata. Devo temer essa personalidade binaria que apresentas?
— Não farei mal algum a ti e tua filha, meu amigo, sois pessoas queridas, assim como o Henrique, meus criados e Carmelia. Disse aos senhores antes de chegares que não pouparei, nem humanos, nem vampiros que mereçam morrer, então não espere de mim uma atitude lateral, meu amigo. Os vilões não são apenas os predadores.
— Faça como desejar, confio nos teus métodos, conseguiste uma grande vitória em um curto período de tempo, estamos prestes a conseguir outra. A respeito da tua incorporação, não me importo, rezo para que lutemos apenas contra os Schattenkriegers no futuro.
— Idem. Por que não disse que era o Marechal do Black Night?
— Gosto de não falar muito sobre. – Sorriu. — Devo retornar ao bar, o almoço deve estar quase terminado, Sofia me espera. – Apertou minha mão e deu as costas. Mas parou após alguns paços e disse. — Meu caro Edmund, se o senhor não fosse um amigo próximo, certamente teria o maior prazer em te matar. – Continuou a caminhar.
Eu tinha outros afazeres. Para concluir a mudança de parente, tive que ir ao tatuador e acrescentar os desenhos que apresentavam minha nova patente.
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