Memórias de vidro

41 Iniciara a percussão dessa opera da morte.


Nessa noite havia o compromisso de me encontrar com Sarah. Esperava-me em frente à minha casa. Desci e a encontrei. Usava um vestido similar ao que vira na noite anterior, mas era preto com detalhes em azul escuro. O cabelo estava preso em um coque e enfeitado com uma azaleia vermelha. Estava maquiada e o rubor dos seus lábios destacavam sua beleza. Aproximei-me e alceei meu braço a fim que ela encaixasse. Assim fez, encaixou-se e começamos a caminhar.

— Por que esperou todo esse tempo para me ver? Poderia tê-lo feito logo que minha existência se espalhou nessa sociedade vampírica.

— Esperei o momento certo. — Sorriu.

— Momento certo?

— Sim. Esperei até tornar-se maduro o suficiente. Sei que se o fizesse antes, irias atrás do Drácula no mesmo momento.

— Entendo. Então tens muitas informações sobre ele, creio.

— Algumas, mas não sabemos onde está, provavelmente teremos que arrancar informações. Poderemos encontrá-lo lá, ou apenas pistas que nos levem a ele. Visto que essa noite não será romântica, discutamos essas ideias.

— Como desejar.

Sentamos em um banco sobre a calçada.

— Fui informada que o teu grupo pretende invadir o túnel que liga Morryes à Progmas. E pretendem fazer um cerco ao redor da vila.

— Tens um bom serviço de espionagem. Soube também que meus superiores descobriram o meu envolvimento com os Schattenkriegers?

— Não soube, o que fizeram? — Perguntou preocupada.

— Nada, sabem que sou confiável.

— Posso ver a tatuagem? — Pediu segurando minha mão direita.

Retirei a luva e deixei que visse.

— Está diferente, agora és um General de divisão?

— Como sabes?

— Lutamos contra eles antes mesmo da criação desse grupo. Esse sistema de patentes e símbolos era usado por um dos grupos que formou o Black Night. Essa lua nova que escurece a noite, foi daí que veio o nome após a unificação dos grupos caçadores.

— Esqueço-me que tem mais de mil anos. — Sorri. — Deve haver presenciado até mesmo a criação desses grupos.

— Alguns, outros são mais velhos.

— Agora que disse algo a respeito da tua idade. Perdoe-me a indelicadeza, mas como se tornou uma vampira?

— Não me lembro ao certo, acho que nasci assim. Ao menos é o que fiz a respeito dos outros casos de Evas. Não sei se reparou, mas sou uma vampira nobre, e, mesmo assim posso transformar os outros ou dar à luz a um filho.

— Entendo. Qual é o teu dom?

— O mesmo que o do nosso inimigo. Sou imune ao sangue de lobo, todos os Adãos e Evas são imunes a isso.

— Incrível, realmente fabuloso. Tens inúmeras vantagens. ­­

— Não tantas quanto ti. Podes andar sob a luz solar. Já eu, apenas alguns minutos. Vives ao dia e à noite. Pode não parecer, mas também és protegido da morte.

— Realmente, duas boas vantagens. Sou o único que possui esse dom?

— Que sabemos, sim. Pretendes deixar esse dom desaparecer?

— Vampiros não foram criados para viver sob a luz solar. — Ri sutilmente. — Somos seres fadados a viver nas sombras.

— Realmente. Bem... Vamos caminhar mais? Aceitas?

— Claro, vamos. Onde queres ir?

— Sem rumo.

— Como quiser.

Levantamos e começamos a caminhar novamente, estava encaixada no meu braço como antes. Andávamos devagar, sentindo o sibilar da brisa e admirando a paisagem das ruas noturnas iluminadas pelas luzes amareladas dos postes.

— Como foi esse tempo? Haver adormecido. — Perguntou ela.

— Não mentirei, sendo assim não reduzirei meu sentimento, quão menos martirizar-me-ei com algo assim. Digo-te que foram longos meses sozinho, agonizando em uma solitária. Sem poder mexer um dedo, sem sentir nada, pois os sentidos nos enganam no mundo dos sonhos. Mas depois de acordar, apenas recordei de várias memórias, era recorrente a visão da minha amada esposa morrendo. Perdi a noção de tempo, nove meses pareceram nove eternidades. A loucura assolava-me, mas mantive-me sóbrio, graças ao meu desejo de vingança.

— Entendo. Não consigo imaginar a agonia e o tédio.

A noite estava calma, o vento fraco e pacifico. Também não havia movimento nas ruas. Não encontramos nenhum vampiro ou caçador perambulando pelos becos e vielas.

— O que aquela moça, a Carmelia, é para ti? — Perguntou.

— Uma subordinada, uma ferramenta, ou ainda, uma peça do meu jogo.

— Tenho pena dela. Ela parece te amar muito.

— E ama-me mesmo, mas como disseste há pouco, estou mais inteligente, não sou mais tão negligente quanto antes, desde quando despertei. Mas não sou muito diferente disso, se comparado a ti, já que sou teu boneco, alguém que traz memórias bonitas, mas desse incrível homem cuja a história fora-me contada, guarde apenas a semelhança física. De fato, sou gentil com meus entes queridos, mas apenas isso. Apenas trago a nostalgia a ti.

— Estás sugerindo que eu possa me apaixonar por ti? — Riu. — Só porque três mulheres te amaram? Tens ideia de quantos homens ajoelharam-se aos meus pés apenas para confessarem seu amor? É pretensão acreditar que te amaria só por parecer meu antigo amante.

— Não creio que aconteceria. — Ri de volta. — Apenas não desejo que se torne muito próxima. Pois, se o fizer, e vir a morrer, ficarei profundamente triste.

— Crês mesmo que morrerei antes de ti?

— Isso alivia um bom peso, mesmo assim sei que morrerei antes, que a senhorita verá Heitor sucumbir e dar seu último suspiro novamente.

— Provocas-me?

— Podes ser a mais forte das mulheres, mas não se esqueça de que és uma. Ainda mais, uma mulher amante, que não esqueceu seu verdadeiro e único amor, por mais que eu seja um boneco, sei que derramará lagrimas quando presenciar o meu corpo inerte e sem vida.

— Por que estás falando isso?

— Alertar-te do que pode ocorrer.

— Se morreres, poderei contemplar meu amado Heitor em um profundo sono. Já que teu corpo nunca apodrecerá.

— De fato. Então espero morrer e ser sepultado nas profundezas do oceano, assim como meu estimado pai. Desejo-o apenas para não ser um troféu da vitória contra os Werckinberrevichs e do teu amor.

— Entendo, então recusa-se a ser meu?

— Depois de morto, sim.

— E vivo?

— Que escolha tenho? Infelizmente sinto-me relaxado ao teu lado, mas apenas isso.

— Sabes que posso usar desse benefício.

— Não terei remorso em apontar uma arma a ti.

— Então o faça agora, mas lembre-se, sou imune ao sangue de lobo.

— Há outras formas de assassinar um vampiro, poderia beber teu sangue e inserir uma quantia do meu. Mas talvez isso não fosse capaz de matar-te. De qualquer modo. — Segurei sua mão e beijei. Fitei seus olhos vermelhos e disse. — Seria um pecado assassinar alguém com tamanha beleza. Não sou o homem que fui.

Desviou o olhar e voltou seu rosto ao céu. Mesmo tentando, não conseguiu esconder um fino sorriso.

Na manhã seguinte havia uma reunião com o chefe do suporte médico. Esperava-me no meu gabinete. Entrei e cumprimentei-o.

— Sem delongas. — Pedi. — Terei outra reunião depois.

— Isso agiliza o negócio.

Sentei-me em um sofá e ele no noutro.

— Edmund, ou melhor, General de divisão Morryes. — Sorriu. — Já fora iniciada a produção de morfina, precisaremos de uma boa quantia.

— Certamente, faça uma nota da quantidade, desviarei o medicamento.

— Era apenas isso que desejava saber. Também gostaria de articular sobre outros temas, contudo, pessoais.

— Depende, diga.

— Por que não agiu assim antes de desaparecer? Poderia haver vingado tua esposa há muito tempo.

— A maturidade, meu caro, a maturidade. Antes não sabia como mergulhar em meu desejo, já hoje, não sei como sair.

— Desde quando ainda andava com Daniela, observávamos o senhor. Os psicólogos notaram a diferenças na personalidade. Os superiores ainda questionam sua lealdade, ou até mesmo sua sanidade. Soubemos que assassinas alguns, poupa outros. Não sabemos o que se passa na tua cabeça.

— Como disse, não esperem lealdade de mim, apenas aceitem-me. Sou arbitrário, como é do conhecimento do grupo, humanos também serão, e são mortos por mim. Os que devem ser assassinados, serão. Deteste-me, odeie-me, mas não entre no meu caminho.

— É uma ameaça?

— Não, apenas um conselho. Sou o comandante da operação que iniciará a obliteração dos Werckinberrevichs. Sou o homem que joga com as peças pretas. Meu inimigo iniciou o jogo ao move sua primeira peça, então devo jogar até ele estar em xeque.

— E desejas fazer o mate?

— Exato.

— E se não o encontrar nessa expedição?

— Continuarei procurando, afinal, sou imortal.

— Tornou-se um monstro, é o que vejo.

— Meu caro.... Monstro é eufemismo.

— Entendo. — Levantou-se. — Ver-nos-emos novamente.

A outra reunião fora com Logan, apresentou os primeiros projetei e avaliou os resultados no campo de disparos. Haviam três armas prontas. Com isso os artesãos conseguiram analisar as peças e trabalharam arduamente até o termino do armamento.

Era meio dia de 31 de maio de 1922 quando parti de Morryes em direção à casa no campo. Era entre Morryes e Progmas. Ordenei às tropas que seguissem seu caminho e se prontificassem. Inicialmente eu iria à linha de frente no túnel em Morryes, mas fora decidido que seguiria direto à Progmas.

Duas horas depois de sair, cheguei na casa de campo. Ordenei que um carro estacionasse dentro da garagem e fechasse a porta, isso manteria o local escuro.

Entrei na casa e me deparei com Carmelia. Ao me ver sorriu e me abraçou apertadamente.

— Estava com saudades. — Disse ela.

— Eu também. — Beijei-a. — Venha, vamos à garagem. Sairemos imediatamente.

Entramos no carro. Era adaptado para realizar o transporte dela. Mesmo não havendo janelas, possuía um sistema de circulação de ar bem eficiente. Os dois bancos traseiros eram isolados nesse espaço, o contado com o motorista era feito por um tubo de cobre. A iluminação era propiciada por uma lâmpada. Estávamos sentados. O silencio predominava a atmosfera até ela perguntar.

— Em que serei útil?

— Dois fatores. O primeiro, não posso enxergar à noite, então alguns alvos deverão ser localizados por ti. O segundo fato é a facilidade que tens ao adquirir respostas.

— Entendo, mudando o assunto. Como foi esses últimos dias?

— Foram bem, e os teus?

— Nada de mais, apenas fiquei averiguando documentos e mais documentos.

— Ao menos os próximos dias dar-se-ão agitados.

— Assim espero, morri de tedio. — Sorriu.

Logo partimos. Estávamos aproximadamente dois quilômetros atrás do comboio. Éramos acompanhados por duas escoltas fortemente armada. Após quase duas horas desembarcamos em uma garagem da casa onde seria meu gabinete. Fora preparado para receber Carmelia. Não haviam janelas abertas, mas a iluminação era forte. Sentei-me na poltrona e depositei o rifle sobre a mesa. Ao lado havia uma caixa de munição. Empunhei um cartucho e observei-o. Apresentei-o à Carmelia.

— Esse é o projeto do qual havia trabalhado, Henrique concretizou isso, certamente conseguiremos agir satisfatoriamente.

— Deixe-me ver isso. — Levantou-se curiosa e pegou o cartucho. — Isso é de um cantão.

— Não, é dessa arma à sua frente. Meu rifle.

— Incrível, qual é o calibre?

— .556. Atuarei como atirador.

— Por isso desejas que eu localize os alvos.

— Exato.

— Posso atirar com ela?

— Depende, treinastes disparos enquanto eu estive fora?

— Algumas vezes. Por que? Não poderia?

— O recuo da arma é forte, provavelmente o teu ombro não suporte. Mas se quebrar, pode se regenerar.

— Deixe-me atirar. — Sorriu.

— Infelizmente não podemos disparar, delataria nossa situação. Durante a expedição, poderá atirar.

— Qual será nossa posição?

— A torre da igreja no topo do morro.

— Um lugar privilegiado. — Sorriu.

— É provável que façamos prisioneiros. É nessa parte que entras, minha cara Carmelia. Não creio que meu homem esteja em Progmas, mas acredito que possamos descobrir sua localização. A única pessoa que eu tinha conhecimento que sabia sobre o paradeiro dele era Angélica, infelizmente ela se suicidou.

— Então não terás a tua vingança tão logo.

— Aí que se enganas, Carmelia. Depois dessa expedição, pretendo buscar reforços com os Schattenkriegers. Preciso dos Black Night para abrir o caminho e conseguir informações que o outro grupo não possui. Estou certo de que ela durará algumas semanas.

— Muitas pessoas morrerão. – Disse ela.

— São sacrifícios.

— Entristece-me em ver que moves todas essas pessoas a fim de realizar a tua vingança.

— Tudo isso acabará muito em breve, minha pequena Carmelia

Ela não escondeu seu olhar triste e atônito. Fitava a lâmpada enquanto devaneava. Nunca saberei o que se passou em sua cabeça nesses minutos, mas não parecia algo que transmitia felicidade.

Levantei-me e me dirigi ao bar, peguei duas taças e uma garrafa de vinho, servi e ofereci a ela.

— Beba um pouco.

— E ser um bêbado como ti? — Sorriu carinhosamente enquanto pegava a taça.

— O que farás depois?

— Já disse, acompanhar-te-ei até onde fores.

— Não desejo isso.

— Como assim?

— Desejo que vivas e ame um homem que realmente te ame de volta.

— Não quero te deixar. — Segurou minhas mãos.

— Lembre-se, minha querida, estou apenas te usando como uma ferramenta. Sabes disso.

— Lembras? — Beijou-me a boca. — Sou uma masoquista. — Sorriu.

— Vamos preparar nosso armamento. – Mudei o assunto.

Continuei municiando os carregadores do rifle .556, depois os rifles menores, as Luguers. Todas com projéteis com sangue de lobo. Acoplei a mira telescópica no rifle. Ajudei Carmelia a preparar seu equipamento.

O crepúsculo urgia e fazia o céu tornar-se rubro. O lilás mesclado com laranja era envolto por vermelho, e o azul claro, aos poucos, dava lugar à escuridão. A lua não tardou em surgir de modo exuberante. A sua luz prateada refletia fulgente o campo. Era lua cheia. Mas o brilho da lua fora imediatamente disperso por uma explosão ao redor da vila. Grandes labaredas levantaram-se e os prédios ao redor desmoronaram. Uma grande e densa nuvem de poeira ergueu-se e cobriu tudo. Mesmo a minha visibilidade fora prejudicada no topo de uma torre.

Não demorou. Logo depois e a poeira baixar, iniciara a percussão dessa opera da morte.

Escorei o rifle maior sobre a beirada e empunhei o menor, alvejei um inimigo e disparei. Não posso dizer onde acertei. A noite era escura e não permitia tal averiguação.

Burtchendill foi repleta de batalhas noturnas, desde os primeiros documentos. Sempre acreditei, quando ainda não sabia da verdade, que eram lutar na guerra da colonização e da unificação, mas elas pouco ocorreram à noite. Durante a primeira grande guerra houveram tentativas de invasão por parte do império alemão e dos ingleses, mas conseguimos defender as posições. Os soldados sempre foram treinados, sempre estavam enfrentando os grupos de caçadores.

— Edmund, atrás da casa marrom. – Disse Carmelia.

— Entendido. — Disparei. Acertei-lhe.

Peguei o rádio e contatei a base de comando.

— Dê-me o relatório.

— Estamos massacrando-os em piedade.

— Isso é estranho, deveria haver resistência. Como andam as coisas em Morryes?

— Até a última atualização, a invasão ao túnel foi como planejada.

— Entendido.

Desliguei e retornei ao posto. Depois de algumas dezenas de disparos, empunhei o rifle maior. Esse possibilitava constatar o local que o projetil acertara. O primeiro disparo atingiu o crânio de um inimigo, após o tiro, nada restou acima do seu pescoço, seu corpo caiu flácido e inerte.

Havia passado aproximadamente quarenta minutos até o rádio tocar.

— General de divisão Morryes. Nosso plano vazou. As tropas do exército estão lutando contra os Werckinberrevichs. Nossos homens não suportaram a avanço inimigo. Eles sabiam que Morryes ficaria instável. Solicitamos reforços o mais rápido possível.

— Entendido. Esperem três horas.

— Tentaremos fazê-lo. — Desligou.

— Maldição, raios. — Bradei. — Nossos planos foram descobertos.

— O que queres dizer?

— Alguém nos traiu. — Chamei os comandantes do solo pelo rádio.

— O que desejas, comandante?

— Reúna 60% da tropa e envie imediatamente à Morryes. O plano vazou.

— Entendido. — Desligou.

Alguns minutos depois uma parte da ofensiva parou e recuou. Locomoveram-se até os veículos e partiram. Os demais mantiveram o fogo.

— O que faremos? — Perguntou Carmelia. — Devemos retornar a Morryes?

— Não, é isso que eles desejam. Devemos continuar com a investida. Nossos soldados que permaneceram em Morryes poderão lutar até as tropas chegarem. Mesmo lutando contra o exército.

— E se fores chamado para tomar uma posição?

— Assim que ligarem, darei as ordens. Minha casa de campo fica próxima à Progmas, então posso dizer que vi uma movimentação suspeita próximo a minha casa. Direi que decidi investigar.

— Isso é péssimo.

— É a desculpa mais efetiva.

Após alguns minutos nossos homens ganharam quase todo o terreno. Peguei o rádio e ordenei a invasão aos tuneis. Imediatamente a movimentação se intensificou e aos poucos os soldados foram desaparecendo entre os becos e as casas.

— A invasão foi bem-sucedida. — Disse o informante pelo rádio. — Avançaremos até a segunda ordem ou até onde pudermos.

— Façam isso. Ficarei em minha posição e cobrirei a superfície. Repita a minha ordem a todos os soldados. Façam prisioneiros apenas os comandantes inimigos. Os demais, elimine-os.

— Entendido. — Desligou.

— Vamos observar por algum tempo, Carmelia.

— Está bem.

— O que vês daí? — Perguntei.

— Nada. Acreditei que houvesse possibilidade de eles tentarem fazer um ataque em pinça, mas nada suspeito se deu.

— Entendo.

Trinta minutos se passaram até obter um novo contado do rádio.

— Comandante, venha imediatamente, há algo que precisas ver.

— Estou a caminho.

Voltei-me à Carmelia e disse. — Pegue tua maleta e vamos entrar no túnel.

Descemos da torre e seguimos ao local onde um soldado me esperaria. Encontramo-nos e seguimos o caminho. Era uma velha casa de madeira de pino. Havia apenas alguns sofás, uma televisão e algumas camas. Sobre uma das camas descansava uma caixa com alguns punhais, idênticos ao que tirara a vida da Cecília. Havia cigarros e charutos ao lado. Alguns jornais e armas. Seguimos aos fundos. Havia um alçapão de aço. Abrimos e entramos. Realmente, era um túnel. Bem iluminado por lâmpadas, largo e espaçoso. Certamente muito utilizado.

Continuamos a caminhar por alguns minutos até chegarmos à frente de uma porta de ferro que estava aberta.

— Antes de entrar, sugiro que preparem o estomago. — Disse o soldado.

— O que tem atrás da porta? — Perguntei.

— Algo horrível. — Respondeu.

Não posso descrever como algo muito diferente do que o laboratório da Carmelia se transformou. Mas lá haviam dezenas de corpos empilhados. Alguns ainda estavam presos em seus aparatos de tortura. Outros até mesmo empalados. Os soldados iluminavam com as lanternas aquele espetáculo mórbido. O cheiro do sangue venoso era fétido e nauseabundo. Aproximei-me de um corpo empalado e observei-o. Não era humana, tratava-se de uma Werckinberrevich. Seu sangue era negro e ela ainda respirava pesadamente, não possuía mais forças para gritar, pois fora empalada verticalmente. Ela apenas podia respirar, não gemia ou gritava. A estaca saíra pela sua boca. Mas ela era a única viva. Os demais eram humanos ou já haviam sido executados.

— É queima de arquivo. — Disse o subcomandante. — Esse é o único vivo. É horrível, não acha?

— Realmente. — Respondi. — Pior, muito pior do que eu já fizera. — Em qual direção seguiram os fugitivos?

— Pelo túnel da direita.

— Entendo. Essa mulher, vamos retirá-la dessa estaca. Será a prisioneira principal, tratem seus ferimentos e deem sangue humano para beber. Ela sabe de muitas coisas.

— Como desejar. — Chamou outros soldados e ordenou a retirada do corpo.

Era possível ver o sangue na escada e ver ela deformando a superfície do corpo dela. Ainda possuía inúmeras cicatrizes espalhadas pelo corpo.

— Agora sei pelo que Angélica passou. Por isso apresentava aquele corpo violado. — Sentei-me em um banco que ali havia e pus-me a refletir. — Eu sei quem fora o autor desse crime. — Proclamei. — Como não pensei nisso antes?

— O que queres dizer? — Perguntou Carmelia.

— Espere confirmar a hipótese. Vamos. — Dei as ordens de investigar a fundo os tuneis e levar a prisioneira em segurança a Morryes.

Saímos do túnel e seguimos aos caminhões, entramos e partimos.

— Por que estamos retornando a Morryes? — Perguntou Carmelia.

— Talvez haja descoberto a identidade do meu inimigo.

— O que quer dizer?

— Espere eu confirmar, precisamos ir até a Sarah.

Após a viagem, dirigimo-nos à base dos Schattenkriegers. Seguimos ao gabinete da Sarah. Ela estava lendo um romance. Assustou-se com nossa abrupta entrada.

— O que fazes aqui? — Perguntou.

— Qual é o nome do nosso inimigo?

— Se o soubesse, já haveria dito.

— Encontramos uma pilha de corpos e inúmeros instrumentos de tortura, os que mais haviam, eram as estacas de empalamento e os próprios empalados.

— O que acredita ter haver com o Drácula?

— Ligue esse nome ao fato e a nacionalidade desse homem.

— Romeno, torturador.

— Cabelo negro e um pouco comprido. — Acrescentei. — Deves tê-lo conhecido. E... Quem fora a inspiração para o drácula no livro de Stoker?

— Vlad III? — Perguntou.

— Creio que sim, Sarah.

— Impossível. Como descobriu?

— Não posso dizer que seja ele, mas acredito que seja, pelas pistas colhidas. Diga-me, tem alguma informação referente a última aparição desse homem ao público?

— Eu acreditava que estivesse morto. Espere. — Pegou o telefone e discou um número. — Tragam-me todos os documentos referentes ao caso da batalha de unificação dos Black Night.

— Por que usaram esse nome? — Perguntei.

— Foi a maior batalha entre humanos e vampiros sediada nesse país. Ela causou a unificação daquele grupo e reduziu o poder do meu. Também foi a data da suposta morte do Vlad.

— Entendo. Queres ver qual foi a causa da morte?

— Sim, quero ver a movimentação que utilizaram. Era uma guerra de três forças.

— O exército real não agiu?

— Não, os dois grupos de caçadores eram comandados pela igreja e as crenças populares afirmavam a existência de vampiros, então esses grupos agiram autonomamente sem que a coroa intervisse.

— Entendo. Nesse exato momento Morryes está sendo atacada por eles. Quero saber o motivo de desejar o comando desse ducado.

— Não sei, talvez assumir o poder real.

— Soube que houve um magnata que negociou com empresários russos pouco antes da revolução bolchevique. Seria ele a haver patrocinado alguns custos da revolução?

— Talvez houvesse pensado que assumiria o trono pela força, depois da família real destruída. — Acrescentou.

— Certamente. Por esse motivo buscou Daniela, por esse motivo continuou a me perseguir, assassinou minha amada mãe. Por ela haver se tornado a rainha.

Um homem entrou na sala com uma grande mala, depositou-a sobre a mesa e saiu. Sarah abriu o objeto, havia uma grande quantia de papeis. Ela começou a procurar vorazmente o papel no qual havia a descrição da morte.

— Encontrei. — Bradou. — Vejamos.... Diz que a morte foi na fogueira.

— Talvez haja trocado de corpos. O cremado fora um impostor.

— Mas como fariam isso? A segurança era boa.

— Direi algo que minha mãe me disse. "Não há nada que o dinheiro não possa fazer."

— Realmente, então fora um traidor.

— Eu poderia ver os demais documentos?

— Fique à vontade.

Levantei-me e pus-me a analisá-los. Chamei Carmelia para que ajudasse.

— O que me intriga é o fato de não havermos desconfiado de sua existência. Já que essa casa não mudou de nome. De fato, perguntei-me muitas vezes o que aconteceria se ele estivesse vivo, mas sempre me lembrei, haviam testemunhas.

O telefone tocou e Sarah atendeu, voltou-se a mim e disse.

— É para ti.

— Para mim? Quem seria?

— O Marechal dos Black Night.

Peguei o telefone e pus-me a falar. — Thomas? Como sabes esse número?

— O telefone permite negociações entre inimigos. Por que abandonou a frente de Progmas?

— Vim aos Schattenkriegers a fim de confirmar algumas informações importantes, após a missão, reunirei o conselho e discutiremos minhas descobertas.

— Está bem, mas liguei apenas para avisar que o serviço de inteligência de Morryes te procura.

— Entendo. Obrigado.

— Não há de quê. — Desligou.

Depositei o telefone no gancho e voltei-me à Sarah.

— Preciso ir, peço que cuide da Carmelia. Ela é uma mulher interessante, certamente trocaram muitas experiências.

— Como quiser.

— Não poderei ir? — Perguntou Carmelia.

— Não. Se fores submetida à luz solar, morrerá, mesmo ainda sendo noite, não sei até quando a reunião durará.

— Está bem.

Sai da sala e fui guiado à saída em um beco escuro e úmido.

Eu não pudera ver o senário da guerra que se alastrava sobre Morryes, estava em um carro totalmente isolado.

Logo que sai do beco, deparei-me com um Werckinberrevich disparando contra o exército. Vesti minha máscara, saquei minha Luger e disparei. Acertei-lhe a cabeça. Sem demora outro vampiro se aproximou para recolher o corpo do amigo, mas acertei-lhe o pescoço. Caminhei lentamente are me aproximar pelas costas de outro, esfaqueei-o as costas e segui silenciosamente nas sombras, atacando um por um. Disparei nos corpos atingidos pelos soldados. Aos poucos os soldados pararam de disparar e ficaram confusos. Não entendiam por que motivo os seus inimigos paravam de disparar.

— Sessar fogo. — Bradei. — Sou o Duque-Marquês de Morryes. Edmund de Morryes.

Obedeceram e pararam de disparar. Segui na direção do esquadrão.

— O senhor está bem? — Perguntou o comandante do esquadrão.

— Estou. Escoltem-me até o palácio.

— Entendido.

Haviam carros e vidros de inúmeras vitrines em chamas. Corpos estatelados por todos os lados. Os sons dos tiros não se sessavam. Continuamos correndo em direção ao palácio. Após dez minutos chegamos. Ordenei-lhes que retornasse aos seus postos e entrei. Dirigi-me rapidamente à sala de comando.

— Onde esteves? — Perguntou o Marechal.

— Em minha casa no campo. Vim às pressas assim que fui informado. Antes que critique minha ausência, saiba que estou trabalhando no meu gabinete naquela casa.

Aquietou-se e não respondeu. — Por mais que eu seja o Marechal, não posso assinar essa ordem de mandar todo o exército às ruas. Assine-a.

Li a ordem e assinei. — O exército agirá no estatuto em prol da defesa pública. Mas antes de publicar a ordem. Os civis, foram levados a algum lugar seguro?

— Alguns que estavam circulando nas ruas. Recomendamos que permanecessem em suas casas, o mais distante possível das janelas.

— Entendo. Avancem com o exército imediatamente.

Eu sabia que inúmeros soldados do Black Night e soldados do exército morreriam, mas mais Werckinberrevichs seriam abatidos. Com isso seria mais fácil de eliminá-los.

— O que faremos agora? — Perguntei.

— Avaliar a movimentação. — Respondeu o chefe do serviço de inteligência.

— Tenho um trabalho a fazer, deixarei o comando com o Marechal. — Afirmei.

— O que seria esse trabalho? — Perguntou o chefe do serviço de inteligência.

— De sigilo em esfera internacional. — Levantei-me — Cavalheiros, se me dão licença. — Dirigi-me à porta. — A propósito, a única ordem é. "Matem todos."

— Mas isso.... — Disse o Marechal. — Destruirá a moral do reino. Devemos fazer prisioneiros.

— Faça como preferir, estás no comando dessa operação. — Proclamei.

— Como desejar.

Sai da sala e pus-me a caminhar pelo palácio antes de retornar à base dos Schattenkriegers.

Foram alguns minutos de calma e solidão, poderia pensar tranquilamente e refletir sobre os acontecimentos.

Sentei-me em um banco em frente a uma janela do corredor do palácio.

A fulgente lua cheia resplandecia sua bela luz prata e fazia-me recordar dos olhos da Cecília, de quando nos beijamos pela primeira vez, quando estávamos contando nossos sonhos no jardim, quando prometi que a levaria visitar os túmulos dos lobos que enterrei. Sem demora, as lagrimas, que há muito não apareciam, deram as caras e jogaram-se dos meus olhos.

— Perdoe-me, minha amada Cecília, perdoe-me por tomar as decisões erradas. Perdoe-me por seguir esse caminho torpe. Perdoe-me por fazer com que nunca nos vejamos novamente.

A luz da luta era refletida pela gota que escorreu pelo meu rosto e estatelou-se ao chão.