Memórias de vidro
42 O dourar do sol iluminava Morryes destruída.
Retornei à base dos Schattenkriegers e segui rapidamente à sala da Sarah. Voltei a analisar os documentos da batalha.
— Sarah, peça a alguém que traga os documentos das primeiras e últimas batalhas dessa época.
— Como queira. — Pegou o telefone e discou o número. — Tragam-me os documentos das primeiras e últimas batalhas contra o Vlad III
— Analisarei as posições que ele tomara, com isso poderemos descobrir a localização da sua antiga base. Não creio que seja muito diferente da que utilizara antes, talvez por os túneis serem novos, algo mude, mas, por hora, averiguaremos suas antigas ações.
Os mapas apresentavam os antigos territórios de Burtchendill antes da unificação, onde Morckiaschen era o reino todo. As bases eram dispostas ao Norte, próximo à Progmas, ao Oeste, próximo a Collins. Os cenários das batalhas dispuseram-se em Morryes. Essas batalhas foram anunciadas sendo ligadas à guerra da unificação.
— Creio que sua base era em Morryes. — Proclamei. — Algum monumento histórico fora destruído durante a guerra?
— O teatro.... — Disse Sarah. — Ele foi construído sobre os restos de um monumento que sediava o antigo palácio. Talvez haja alguma ligação entre esses lugares.
— É o que desconfio. Mas não haveria possibilidade de sediar sua antiga base lá, já que o poder real tutelava aquele lugar, todavia, o subúrbio seria uma boa possibilidade de aumentar o poder rapidamente. Oferecer vida eterna e riquezas, seria algo além do que a plebe poderia sonhar.
— Realmente, minha casa usufruiu dessa ferramenta no início do plano de domínio de Burtchendill. É uma tática simples, porém, eficaz. Então partiremos do pressuposto de que sua localização fora o subúrbio. — Pausou a fala por alguns segundos. — Lembro-me de que as armas que utilizavam eram simples e obsoletos mosquetes. Significa que ele saiu do seu antigo reinado com uma quantia não muito abastada.
— Se me bem lembro, a Transilvânia vivia em inúmeras guerras de poder, soube que o seu filho tomou o poder. Certamente Vlad fugiu antes de ser executado.
— Quanto ao corpo dele que os turcos conseguiram no século XV?
— Talvez haja feito como fizera contigo. Usado alguém para ser morto em seu lugar.
— Então isso mostra que ele era humano. — Proclamei.
— Realmente, é uma boa hipótese.
— O que achas, Carmelia? — Perguntei.
— Creio ser possível. Quando estudei história, soube que seu pai era parecido com ele, por conta disso o Vald II adquiriu o título de imortal.
— Eram parecidos? — Perguntei.
— Sim, talvez o corpo que acreditamos ser do Vlad III fora o do seu pai.
— Isso explica muita coisa. — Continuou Sarah. — Mas quem me traiu?
— Isso é impossível afirmar em um senário de constantes guerras, o traidor poder haver morrido em campo.
— Realmente.
As ações das batalhas entre os vampiros foram, em sua maioria, nas vilas menores, contudo, outras ocorreram em Morryes, elas foram anunciadas como lutas de gangues rivais. Quando Vlad III fora, supostamente, morto, os Werckinberrevichs já possuíam 80% do poder sobre os territórios. Tanto o Black Night, quando o Schattenkrieger, sabiam que os Werckinberrevichs não perderiam muito poder depois da morte do seu líder, mas não imaginaram que ele não morrera realmente.
— Vá ao Marechal do Black Night e anuncie minha ida até seu gabinete. — Disse Sarah a um mensageiro. — Teremos que unir forças para determinar a localização do Vlad e derrotá-lo.
— Tens certeza? — Perguntei.
— Tenho. Sozinhos não poderemos derrotá-los. E eles sozinhos também não. Meu erro foi não haver aceitado a aliança pouco depois de assassinarmos o suposto Vlad, poderíamos obliterar aquele grupo. Depois de mais de 150 anos surgiu outra oportunidade de fazê-lo, não podemos ignorar isso.
— Entendo.
— Isso será mais fácil com o elo que liga o Schattenkrieger e o Black Night.
— Eu?
— Sim, és um bom amigo do Marechal, és também meu particular, realmente, jamais haveria outro momento tão oportuno.
— Concordo.
Passou-se vinte minutos e o telefone tocou. Sarah atendeu e trocou algumas palavras. Desligou e disse.
— Vamos. Ele está nos esperando em seu gabinete.
Levantamos e seguimos à garagem. Estava amanhecendo, um crepúsculo belo, o horizonte tingia-se de rubro e o dourar do sol iluminava Morryes destruída. Com os vidros quebrados das janelas, tijolos jogados sobre as calçadas, algumas paredes destruídas, não como em Progmas ficara, mas havia vestígios de uma guerra. Todavia, ela não finalizara ainda, mesmo que os inimigos noturnos houvessem recuado devido à hora, ainda faltava os inimigos humanos, o exército. Cruzamos algumas ruas que sediavam tal palco. Humanos assassinando humanos por ordem minha, por um capricho meu. Os paralelepípedos das ruas formavam possas e canaletas. Há muito não admirava a paisagem de modo poético e singelo. Esse crepúsculo de esperança fez meus olhos brilharem, afinal, era hora de concretizar meu desejo, alcançar a paz, e, por fim, poder morrer.
Desembarquei em uma garagem próxima ao bar lua cheia, anunciei a chegada e entramos. Sarah e Carmelia desembarcaram e seguimos por um corredor até o bar.
— O que achas, senhor bêbado? — Perguntou Thomas atrás do balcão.
— Um belo gabinete, agrada meu gosto. — Sorri.
— De fato. — Gargalhou. — O que desejam?
— Uma dose de uísque. — Pedi.
— Como desejar. O que desejam, senhoritas?
— Vinho seco. — Pediu Carmelia.
— Rum. — Disse Sarah.
— Rum? — Repetiu Thomas. — Boa, gostei disso.
Serviu as bebidas e nos acompanhou com uma dose de cachaça brasileira. Escorou-se no balcão e bebeu em um so gole, após uma leve careta disse.
— Se desejam ser fortes, bebam isso. — Sorriu. — Sinceramente, não esperei que fosses tão bela, minha cara Sarah, tens olhos lindos.
— Obrigada, tens uma aparência bem madura, bela e máscula.
— Estou lisonjeado. Soube que não mandou nenhum subordinado às ruas essa noite.
— Sou privilegiada.
— Entendo. Estou curioso.
— Pois não?
— Quantos anos tens? Qual a tua raça?
— Pouco mais de 1000 Anos. Se queres saber se sou a Eva, sou uma delas.
— Surpreendente. — Arregalou os olhos. — Nunca pensei que vereia duas em tão pouco tempo.
— Duas? — Sarah se espantou mais ainda. — Impossível. Há não ser que a haja conhecido em outro país.
— Não posso afirmar, mas sabes como alguém se torna uma Eva?
— Isso até mesmo eu ignoro. Como acredita ser?
— Por mais ingênuo e sem sentido que pareça. É aleatório.
— Como constatou?
— Minha mulher se tornou uma.
— O que queres dizer? — Derrubou o copo vazio sobre o balcão. — A tua mulher?
— Isso quer dizer que Sofia é uma... — Antes que eu pudesse terminar ele interrompeu minha fala e disse.
— Não, minha querida Sofia é humana. Minha esposa era humana até dois meses depois de conceber minha linda filha ao mundo. Mas isso não diz nada sobre como se tornou uma Eva. Mas espera, chegarei lá. — Continuou. — Eu e Maria... — Uma lagrima surgiu e escorreu em seu rosto. — Perdoem-me, como veem, ainda sofro pela perda da minha esposa. Enfim, depois de se tornar uma Eva, perdeu a memória e fora assassinada. Provavelmente não lembras de antes, Sarah, depois de se transformar, perdera a memória também. Minha esposa fora transformada por um vampiro comum, um reprodutor, com isso, percebi a aleatoriedade.
— Entendo. — Disse Sarah. — Isso explica muita coisa. Talvez o Vlad haja se tornado um Adão.
— Vlad? — Perguntou Thomas.
— É o homem que busco. — Respondi. — O Drácula, o meu malquisto.
— O que disse? Ele não foi morto?
— Acreditamos que não. — Respondeu Sarah. — Creio ser seu pai, Vlad II o morto.
— Faz sentidos, eles eram parecidos. Como chegaram a essa conclusão?
— Algumas ligações de suas feições, hobbies e pseudônimo.
— Entendo. Bem.... E a sua senhoria, Sarah, cá estás para formar uma aliança?
— Sim.
— Estamos em situações deploráveis. Ambos devemos contar com ajuda para destruir um inimigo em comum. Mas o que ganhamos com isso?
— Um inimigo a menos.
— Não propõe algum comportamento diferente aos membros da tua casa?
— O que queres dizer?
— Seria sonho não precisarmos mais lutar, não é mesmo?
— Não posso permitir que minha casa morra. Seria ideal um mundo de convivência mútua. Mas todos sabemos que essa utopia, é, meramente, uma ilusão.
— Realmente. Então será uma aliança apenas para obliterar umas das forças dessa guerra?
— Sim.
— Quantos soldados disponibilizarás?
— 1200, São imortais, podem se regenerar. É um bom número.
— Designarei 2500 dos meus. Quanto ao armamento? Essa aliança não cobre custos, então, terás que lutar com armas especiais.
— Devo comprá-las de ti?
— Não pense que, por sermos inimigos, não sou bom. Farei ao preço de custo apenas o armamento para a aliança. Sei que tens um bom cofre, Mesmo com a tua casa sendo pequena.
— Agradeço por isso.
— Traga teu serviço de inteligência imediatamente, discutiremos os planos. — Pediu Thomas. — Formalizaremos essa aliança.
— Está bem. — Corroborou. Levantou-se e pegou o telefone, discou o número e pôs-se a esperar atenderem. Não demorou até ela falar. — Venha, Adrian. Imediatamente. — Desligou.
— Chamará apenas ele? — Perguntou Thomas.
— É o único em quem confio.
— Entendo.
Após quarenta minutos, Adrian entrou, estava acompanhado por dois soldados do Black Night.
— Deixem-no. — Ordenou Thomas.
Sentou-se ao saldo da Sarah e perguntou-lhe o que se passava.
— Escreverei o documento. — Proclamou Thomas.
— Como quiser. — Corroborou Sarah.
Pegou uma máquina de datilografar e iniciou a escritura. Conforme escrevia, ditava para que todos ouvissem os termos. Não demorou mais do que dez minutos até estar finalizado. Todos os presentes assinaram todas as copias e voltamos a discutir sobre os planos. Nossa reunião se estendeu até o entardecer.
— Finalmente, um plano digno. — Exclamou Sarah. — Estou exausta e faminta.
— Faminta? — Perguntou Thomas. — Não pretendes atacar ninguém, não é mesmo?
— Os vampiros também comem alimentos normais, sem sal, mas comem. Não nos alimentamos apenas de sangue humano.
Thomas riu e consentiu com a resposta. — Preparem-se.
Saímos do bar e nos dirigimos à garagem. Lá Sarah pegou minha mão e perguntou. — Não ficarás comigo essa noite?
— Não, prometi à Carmelia que passaria a noite com ela.
— Entendo. — Estatelou os olhos ao chão e delineou um semblante desanimado.
Acariciei seu rosto, olhei seus olhos carmesins e disse. — Espere tudo isso acabar, prometo-me termos uma noite antes de eu partir.
— Prometera-me. Lembre-se de cumprir essa promessa.
— Como desejar, madame. — Beijei sua mão. — Espero-te amanhã.
— Boa noite. — Sorriu e partiu com Adrian em um carro.
— O que faremos agora? — Perguntou Carmelia.
— Hoje. Serei teu.
Despertei ao meio dia do outro dia. Carmelia ainda dormia ao meu lado. Já era hora de agir. Levantei-me, acendi as luzes, trajei meu uniforme, municiei as armas e acordei Carmelia.
— Apronte-se, prepare o laboratório. Trarei a prisioneira aqui.
Ela sorriu e se espreguiçou suspirando preguiçosamente, retirou as cobertas de cima de si.
— Está bem. — Disse ela. — Dê-me mais cinco minutos.
— Não mais que isso. — Dei as costas e sai do quarto.
Dirigi-me à sala de chá, sentei-me no sofá e bebi chá enquanto lia uma coluna aleatória sobre o atentado na noite anterior. Morryes viu-se em um estado de guerra. Enquanto eu lia o artigo e refletia sobre, os soldados continuavam avançando nos tuneis de Progmas e Morryes. Enviamos um pelotão a Collins a fim de buscar possíveis tuneis, mas descrente que haveria algo naquela região. Nunca houvera qualquer movimento suspeito entre gangues ou bandidos. Desembarquei em frente ao bar e entrei. Segui diretamente aos tuneis e encontrei um soldado. Ordenei-lhe que me guiasse à prisioneira. Depois de dois quilômetros encontrei-lhe em uma sela. Havia um guarda ao lado da porta, aproximei-me e perguntei-lhe.
— Como está a prisioneira?
— Não esboça reação, está deitada há algumas horas. Não para de gemer e se rolar de um lado para o outro.
— Deram-lhe sangue humano?
— Sim, até que não desejasse mais beber.
— Entendo. Deixem-me falar com ela.
— Como quiser.
Abriu a sela e eu entrei. Sentei-me em uma cadeira e pus-me a observar aquela criatura que não se portava mais como uma humana. Era como um animal assustado, como o guarda dissera, ela gemia e balançava ligeiramente de um lado ao outro. Pude ver detalhadamente seu rosto pálido. Seus olhos fundos delineavam desespero, lagrimas não paravam de surgir dos seus olhos. Mordia os lábios até sangrarem e roía as unhas até a carne.
— Qual é o teu nome? — Perguntei, mas em vão, ignorou-me e continuou seu ritual de loucura. Voltei-me ao guarda e ao soldado que me acompanhara e ordenei que a levassem ao meu carro.
Assim o fizeram, quando pegaram a prisioneira, ela se debateu vorazmente, porém, estava fraca, não conseguira se soltar.
— Não quero, não quero, me mate, me mate. — Gritava desesperadamente. — Não me levem para o quarto.
— Quarto? — Perguntei-lhe. — Que quarto.
— O quarto.... O... Quarto. — Pausou a fala por um segundo. — O quanto, não quero, por favor, piedade, piedade. — Caíra aos prantos e jogava-se ao chão.
— Durma. — Retirei uma seringa com uma dose de morfina. Apliquei-lhe a substância. Poucos segundos depois ela adormeceu. — Levem-na. — Ordenei.
Acompanhei-os até o carro. Depositaram a mulher no banco de trás, entrei e sentei-me ao seu lado. Pedi ao motorista retornar à minha casa.
Levamos o corpo ao laboratório e o aposentamos sobre a maca.
— Deseja algo mais? Senhor. — Perguntou o motorista.
— Chame Carmelia.
— Como desejar. — Deu as costas e saiu.
Voltei-me à pobre mulher, ainda dormia profundamente. Talvez, até mesmo seus sonhos o torturassem, pois, mesmo dormindo profundamente, debatia-se fracamente. Enquanto Carmelia não vinha, pus-me a organizar o local. Levei uma bancada mais perto à mesa, depositei sobre ela uma maleta repleta de ferramentas. Alicates, bisturis, cerra cirúrgica, algumas seringas, tesouras, pinças e outros materiais que não me recordo bem. Apontei as lâmpadas a ela e depois sentei-me em uma cadeira para esperar Carmelia.
— Desculpe-me, estava comendo. — Disse logo ao entrar.
— Está bem. Vamos começar com um interrogatório assim que ela despertar. Enquanto isso, prepare os materiais.
Após trinta minutos ela despertou. Seu olhar perdido por ainda estar entorpecido escorregava de um lado ao outro buscando saber o que acontecia. Debateu-se, porém, sem sorte, estava amarrada à maca.
— Alguém. — Bradou. — Ajudem-me.
Aproximei-me e disse-lhe. — Não se preocupe, não te farei mal.
— Piedade. Por favor. Piedade. — Salivava incessantemente, tossia ao se afogar com a saliva. E repetia quase sem respirar esses pedidos de clemencia.
— Acalme-se, estás amarrada para não fugir. — Afaguei-a calmamente. — Acalme-se.... Acalme-se. — Repeti até sua respiração se regularizar. — Isso mesmo, respire, não te farei mal. Se relaxar, soltar-te-ei.
— Pro.... Promete? — Disse ainda ofegante.
— Por Deus, claro! — Desafivelei os cintos de couro que a prendiam e sinalizei à Carmelia para que ela fechasse a maleta com os estrumemos de tortura.
— Sente alguma dor? — Perguntei.
— Meu peito dói.
— Entendo. Lembras do teu nome?
— Não.
— Lembras o que aconteceu pouco antes de te encontrarem?
Fora o que imaginei, ao fazê-la se recordar da tortura que sofrera, seu rosto delineou o mesmo semblante anterior.
— Acalme-se. Esqueça isso.
Seu desespero parecia maior ao que presenciei em Angélica. Eu sabia que não poderia arrancas respostas dela. Mesmo em tal estado, ela obedeceria cegamente às ordens do Drácula. Eu deveria assassiná-la. Era o que estava prestes a fazer, quando estava prestes a sacar minha pistola, ela disse.
— În centru.
Quando me voltei a ela, vi-a empunhando a faca que Henrique fizera. Sem mesmo eu perguntar algo ela fincou a faca em seu peito e estatelou-se sobre a maca, mas do modo que caíra, acabou indo ao chão. Derrubara vidros e algumas ferramentas de pesquisa laboratorial.
— Pobre coitada. — Disse Carmelia.
— Entendo. — Afirmei fitando o cadáver. — Ela disse onde está o Vlad.
— O que queres dizer?
— Essa mulher. Ela disse, "În centru". Vamos ao gabinete.
Seguimos rapidamente ao local. Abri a gaveta da mesa e retirei um mapa de Burtchendill. Marquei Collins, Morryes e Progmas. Tracei linhas que convergiam próximo à fazenda do ducado.
— Dê-me um dicionário de romeno. — Pedi.
— Temos isso? – Perguntou Carmelia.
— O antigo Duque era amante das línguas latinas e estudante do indo-europeu. Na prateleira, ao lado da janela, há vários livros sobre várias línguas, procure um dicionário romeno.
Traduzi a expressão, significava "No centro". Voltei a analisar os mapas.
— No centro dos locais das antigas batalhas. – Afirmei.
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