Memórias de vidro

43 O sol iluminava esses pequenos grãos que pairavam perdidamente.


— Tens certeza? — Perguntou Sarah.

— Lembro-me de haver encontrado um homem em uma cabana naquela localidade há algum tempo. A descrição coincidia perfeitamente. Em uma outra visita. Um cuidador de cavalos relatou o desaparecimento e assassinato de alguns animais. Confesso que não imagino a utilidade deles. Talvez os cacem, ou até mesmo beba o sangue desses animais. Acredito que possas fazê-lo também, Sarah.

— Realmente, posso beber sangue animal, mas não acho que essas deduções sejam validas.

— Também podes ficar alguns minutos a mais sob a luz solar?

— Posso, aproximadamente vinte minutos.

— Lembro-me de que ele aparentava ter quarenta anos, mas disse que conheceu o antigo Duque de Morryes quando jovens. No momento não reparei esse erro de temporariedade, pois o antigo Duque tinha sessenta e sete quando faleceu.

— O que faremos? — Perguntou Thomas. — Se estiveres correto, conseguiremos pegá-lo. Não podemos mandar as unidades até lá sem saber a real localização. Tu assinaste a ordem de defensa nacional, todas as estradas estão guardadas pelo exército. Por sorte há as batalhas separatistas com Lognorth, isso pode desviar a atenção de algumas unidades.

— Realmente, é arriscado, nem mesmo eu posso confiar tal hipótese. Enviarei um esquadrão disfarçado de bandidos.

— Como saberemos o resultado? — Perguntou Sarah.

— A torre mais alta do palácio, possibilita uma ampla visão. Posso ordenar que o soldado sinalize com um fogo de artificio. Se encontrarem Werckinberrevichs, poderão usar o fodo, é possível avista-lo da torre.

— É simples, mas parece bom. — Disse Sarah. — Íamos a vários lugares essa noite, então sugiro nos prepararmos como planejado. Se constatado haver inimigos naquela região, enviaremos todas as unidades imediatamente após a ordem.

— Concordo. – Corroborou Thomas. — Façamos isso.

— Acabamos aqui, creio. – Falei.

— Certamente. – Disse Sarah. – Encontrar-nos-emos à noite.

Após a reunião, dirigi-me à saída do bar, mas antes de sair, voltei-me a eles e perguntei.

— Quanto ao lobo, o que farão? Soube que já está em condições de lutar, coincidentemente, essa noite é lua cheia.

— Levá-lo-emos, mas usaremos tal ferramenta em último caso, não pretendo causar a morte dos meus subordinados apenas para soltar essa fera, não vale o sacrifício.

— Entendo. – Dei as costas e sai.

Era um dia belo, levemente nublado, o sol tímido escondia-se atrás das nuvens e fazia-me admirar uma opaca e leve neblina. Caminhei até a minha casa. Estava atônita e silenciosa. Nessa mesma manhã, pouco antes da reunião, ordenei que todos os criados se dirigissem a Panz. Quanto à Carmelia, ela fora à casa de campo observar a movimentação. Eu estava sozinho em frente àquela grande casa. Mudei-me para ela há pouco mais de dois anos. Há dois anos conhecera Cecília, minha prima. Eu não queria me casar com ela, não me lembrava dela, não sabia se era gentil e inteligente, ou o antônimo disso. Amei-a depois de olhá-la nos olhos enquanto dançávamos no jardim, olhos celestes, olhos hipnotizantes. Mesmo hoje meu peito dói ao lembrar do torpor que afligia meus joelhos ao fitar aqueles belos olhos azuis, e, sobretudo, como ela me olhava, meu coração despedaçou-se como vidro, um olhar que destacava seu sorriso fino e rosado, seu rosto enrubescido. Lembro-me do nosso primeiro beijo, quando ela não dissera nada, apenas sorrira. Senti-me tão extasiado ao admirá-la naquele parque, naquele jardim secreto. Um lugar que se tornou tão especial.

Caminhei no corredor, recordei-me de quando Daniela me acordara naquela fatídica noite. O corredor em chamas, os tiros que tomei, o corpo da Elizabeth estatelado sobre a cama, inerte e sem vida. As últimas palavras da Daniela, foram palavras apaixonadas, tão sinceras. Eu havia esquecido isso, havia esquecido tudo, ceguei-me pela vingança, e nela, mergulhei.

A poeira bordejava no ar e a luz fraca do sol iluminava esses pequenos grãos que pairavam perdidamente. Continuei caminhando até os fundos e entrei na cozinha. Era movimentada, sempre preparavam a comida, mas agora estava só. As panelas lustradas e o chão limpo. A movimentação dos criados dava ritmo à casa, uma percussão constante que agora fazia falta. Caminhei até o jardim. Estava como quando eu fora ali a primeira vez, as folhas de outono descansavam sobre o pequeno lago artificial. Sentei-me no banco em frente ao túmulo da Cecília, olhei o céu, suspirei profundamente.

— Disse que não viria aqui novamente até conseguir minha vingança, mas desejo apenas dizer-te adeus, nunca nos encontraremos novamente, minha amada esposa, minha amada mulher. Nunca nos veremos.... Essas palavras pesam muito. Mas parece que finalmente entendi. – Senti uma lagrima correr pelo meu rosto, mas deixei que seguisse seu curso atende fosse. — Eu te amo... eu te amo.

A rosa que eu havia deixado em frente ao seu túmulo apresentava pétalas mortas ao redor do caule, mas não me dera conta de que essa roseira viveu e já apresentava uma bela rosa vermelha acompanhada de alguns botões, os quais talvez não veria abrir.

Voltei a lembrar dos melhores momentos que vivi com ela, e, como todas as vezes, recordava de sua morte, mas pela primeira vez não senti raiva, não senti nada mais que tristeza e solidão. Senti meu peito se esvaziar e não se preencher com o ar que inflava meus pulmões, um nó na minha garganta e uma vontade enlouquecedora de gritar, de finalmente dizer como me sentia, pois, matar não me fazia isso, não me fazia cair aos prantos e desabar.

Ao final da tarde me preparei para partir. As armas grandes e munições foram guardadas em uma mala, peguei duas facas com sangue de lobo e outra com sal diluído em um pouco de água benta. Trajei um casaco com prata e saí. Caminhei até o palácio e segui à torre mais alta.

Quando anoiteceu, empulhei um grande binóculo e dirigi-me à fazenda do ducado. Esperei por duas horas até ver o Fogo de artificio subindo ao céu e explodindo exuberantemente nas alturas. Sem demora engatilhei o rifle e disparei em uma caixa com pólvora na mureta do terraço de um prédio a 800 metros do palácio. Logo que o som ensurdecedor da explosão se dera, pude ouvir os carros e caminhões partindo em alta velocidade. Cinco minutos depois um guarda anunciou um carro e então segui-o até o portão.

— Onde estás indo? – Perguntou o Marechal do exército real. — O que foi essa explosão.

Voltei-me a ele e disse. — Meu caro Marechal. – Caminhei em sua direção. — Não mova as tropas, nem mesmo um dedo, permita que o Black Night passe pelas barreiras até a minha fazenda.

— O que estás dizendo?

— Exatamente o que escutou, meu caro Marechal.

— Por que daria uma ordem dessas? Somos inimigos deles. – Disse estarrecido.

— Então veja. – Retirei a luva da mão direita e tornei visível a tatuagem. — Vês? Sou um membro desse grupo.

— O que estás dizendo? És mesmo um deles?

— Sou, e mais do que isso, sou uma das mais altas patentes dessa organização.

— Maldito, como ousa nos enganar. – Sacou um revólver e disparou, acertando-me o peito, mas não cai. A dor de alguns projéteis no meu corpo já era suportável. Saquei minha pistola rapidamente e disparei, acertei seu revólver. Ele se viu em desvantagem, mas não se abalou, manteve uma postura seria, tal qual esperava dele. Velei minha arma e me aproximei.

— Meu caro Marechal, admiro o modo com que fazes o poder, realmente. Tudo o que venho fazendo é para um bem maior. – Pus a mão sobre seu ombro. — Não posso pedir que me ajude, certamente não o faria sem saber de nada. Então dar-te-ei uma prova de que os meus atos são nobres. Acreditas em vampiros? Meu amigo.

— O que é isso? Não diga besteiras. – Respondeu fortemente.

Saquei um canivete e fiz um corte no meu braço. — Vejas, Marechal, veja com os próprios olhos. – Logo a ferida começou a fechar e cicatrizar.

— O que é isso? — Perguntou.

— Sou um vampiro, é contra isso que luto. Meu grupo está seguindo ao covil do líder de uma grande casa dessa espécie, então não nos impeça. Se fazer o que peço, certamente passarás a ser o cargo mais alto em Morryes, e assim, poderás assumir o poder.

— Queres dizer que morrerás lá?

— Talvez.

— Entendo, não te perdoo por nos enganar, mas acredito em ti. Até porque, tomaste o tiro e nem mesmo fraquejou.

— Provavelmente sejas inserido no grupo, agora que sabes da verdade, não recuse isso. Apenas não ordene a obstrução do meu caminho. Prometa-me.

— Prometo.

Apertei sua mão, bati continência, dei as costas e segui ao carro.

— Espere. – Disse ele antes de eu embarcar. — Leve-me contigo, desejo ver isso.

— Posso saber o motivo?

— Sou um Marechal, não posso deixar de participar de uma batalha tão importante ao meu país.

— Venha. – Eu sabia que era um bom soldado.

Entramos no carro e partimos rapidamente. Iniciei o diálogo de instrução.

— Pegue essa arma. – Dei-lhe uma pistola Colt 1911. — Está municiada com projéteis capazes de eliminar os vampiros, aqui estão os carregadores municiados.

— O que tem nessa mala?

— Minhas armas. – Retirei o rifle .556 da mala e retirei seu carregador.

— O que é isso? – Perguntou surpreso.

— É minha arma. – Inseri um cartucho no carregador. — Agora está completamente municiada.

— Isso é um rifle de mão?

— Sim, fora com ele que acertei a caixa com explosivos que ouvira há pouco.

— De tão distante? – Delineou um semblante mais surpreso do que antes.

— Treinei muito para disparar daquele modo.

— Entendo, entendo. Isso me lembra das batalhas de resistência da última das guerras.

— Verás novamente um senário como aquele.

Nossa conversa se estendeu até os detalhes sobre os vampiros e o grupo. Ao chegarmos em minha saca do campo, desembarcamos e entramos. Carmelia já estava pronta, não ficamos muito mais e entramos no carro. O sol já se punha, a luz cheia tomava o céu de modo majestoso e as estrelas granuladas espalhavam-se em meio a escuridão.

Os sons dos tiros eram audíveis. Seguimos até uma barraca que sediava o centro de rádio e comando. Lá estava Thomas e Sarah.

— O que esse homem faz aqui? — Perguntou Thomas.

— Ele assumirá meu lugar depois de tudo isso, juntamente com outros fatores, acreditei ser melhor contar-lhe a verdade.

— De qualquer forma. — Dirigiu-se ao Marechal. — Sou o comandante dos Black Night, o poder absoluto.

— É um prazer, mesmo que há pouco seria odiável. — Sorriu. — Bem.... Como sabes sou Francisco Fieri, o Marechal do exército real de Burtchendill.

— O prazer é meu. — Respondeu. — Onde lutarei?

Surpreendeu-me tal fala. O Marechal não deveria sair de trás da sua mesa, ele tinha coragem para lutar. Ou melhor, ele ansiava por isso.

— Depende. Ofereço-te a infantaria ou a retaguarda. — Afirmei.

— Desde que me tornei um oficial fui impedido de ir à linha de frente. Entrei no exército para lutar. Irei na infantaria.

— Como desejares. — Respondi. — Deem-no armas. Faça-o comandar uma unidade.

— Não sou Marechal atoa. — Sorriu como uma criança que acaba de ganhar um presente. — Comandarei uma esquadra, diga-me apenas contra quem lutarei, em que direção devo agir.

— Primeiramente, acalme-se. — Pedi. — Apresentar-te-emos aos subordinados. — Voltei-me a Thomas e Sarah. — O que acham?

— Pegue meus soldados. — Disse ela. — Como disse, não és Marechal atoa, certamente conseguirá avançar com os meus soldados.

— Concordo. — Corroborou Thomas.

— Levá-lo-ei aos soldados da Sarah. — Afirmei.

— Como quiseres. — Consentiu Thomas.

Voltei-me ao Marechal. — Vamos buscar as armas antes. Depois de conhecer os subordinados, voltaremos a fim de planejar o ataque.

Saímos da barraca e seguimos ao lado onde estavam os Schattenkriegers esperando para lutar. Estavam sentados conversando. Dirigi-me ao Adrian e cumprimentei-o.

— Reúna um bom grupo. Um grupo obediente a um comandante estratégico. — Pedi.

— Quem será comandante?

— O Marechal do exército real.

— O que? — Perguntou surpreso. — Por ele está aqui?

— Algumas circunstâncias se deram.

— Deixemos isso de lado. Deixe-o escolher tipos de soldados.

Chamei-o ao meu lado. — Quais são as classes de soldado que queres?

— Dois atiradores, treze fuzileiros, cinco suportes, quatro com fogo de supressão, um granadeiro, um municiador e dois médicos.

— Vinte e oito? — Perguntou Adrian. — Não achas pouco?

— Quero lutar, não ficar dando ordens. — Gargalhou. — Vinte e oito são mais que o suficiente.

— Como desejar. Podes escolher os soldados.

Quando montou a esquadra, retornamos à barrada de comando.

— Foi decidido? — Perguntou Sarah.

— Sim, são bons homens. Vinte e oito soldados.

— Não achas pouco? — Perguntou Thomas.

— Está bom, muito bom — Respondeu.

— Leve um atirador dos meus, ele possui o novo rifle de grosso calibre, poderá eliminar alvos atrás de paredes e blindagens leves. — Disse Thomas.

— Estou lisonjeado. Aceitarei a proposta, deixá-los-ei com os outros dois atiradores que escolhi.

Thomas se dirigiu ao operador de rádio e disse. — Convoque todos os comandantes em repouso. Iniciaremos a estratégia de invasão.

Após cinco minutos vários homens surgiram e sentaram-se nas cadeiras.

— Hoje é o dia que erradicaremos um inimigo. — Proclamou Thomas. — Somos fortes para isso. Éssa é a maior ofensiva que a história da guerra entre humanos e vampiros já ocasionara sobre o solo de Burtchendill. Essa aliança perdurará até conseguirmos eliminar os Werckinberrevichs. Vamos trabalhar juntos para esse fim. Iniciaremos agora o plano de expedição e invasão.

Iniciou o seminário.

— Como fomos atualizados há pouco, há uma pequena casa no centro do nosso cerco. Talvez ela dê acesso ao túnel principal, mas sabemos que há inimigos naquela localidade. Estamos lutando para nos aproximar dessa cabana. O flanco Oeste está avançando dois metros por minuto, o direito estagnou o avanço, enviaremos um grupo de apoio de supressão até eles. Quando ao Norte e ao Sul, estão perdendo um metro por minuto. Enviem quatro grupos a cada ponto. A unidade de artilharia explosiva de morteiros atacará o centro. As unidades de infantaria seguirão pelos flancos e enforcarão o cerco. Com isso as tropas vampíricas entrarão.

— Há quantos metros estamos do objetivo? — Perguntou o Marechal.

— 1350 metros.

— Quanto as atuais baixas. Qual é o número? — Perguntou um comandante da infantaria.

— 20% da tropa humana enviada.

— Isso é absurdo.

— Errado. — Interrompeu o Thomas. — A cada soldado abatido, ele leva consigo aproximadamente nove inimigos. Qualquer atualização no plano, enviaremos mensagens. — Ergueu o braço direito e bateu continência — Vamos obliterá-los. — Bradou.

Todos gritaram ferozmente e partiram às suas posições. Voltamos a ficar sós na barraca.

— Descansarei um pouco. Quando o cerco for rompido, partirei imediatamente. — Proclamei.

— A propósito. — Disse Marechal. — Onde está Carmelia?

— Interrogando os prisioneiros.

— Entendi.

O Marechal saiu e caminhou até seus subordinados. Thomas levantou e caminhou em minha direção. Sentou-se no meu lado e espirou profundamente e se aconchegou de modo a ficar confortável. — Se não houvesse assumido o teu erro no julgamento por haver bebido sangue humano. – Disse ele. — Certamente estaria apodrecendo na masmorra. — Sorriu. —E depois, se não houvesse pedido perdão à Sofia, haver-te-ia assassinado.

— Sei disso, afinal, um pai é um pai.

— Mas não pense que não gosto de ti. Na verdade, até te admiro. Apesar de desejar matar-te às vezes. Tu conseguiste fazer tal feito tão rapidamente. Unir vampiros e humanos, mesmo que por pouco tempo, em uma missão comum. É uma pena que desejes morrer depois que tudo isso terminar. Ao menos deixe uma herança.

— Herança? Qual?

— Um diário, um livro de memórias. Imortalize esses momentos que viveras. Por mais que sofrera tanto, imortalize esse sofrimento e legitime tua existência. Já és imortal, mas abdicas de tal singularidade. Uma imortalidade privilegiada por poderes e ainda viver entre as pessoas.

— Nem mesmo eu posso ficar muito tempo sob a luz solar. — Intrometeu-se Sarah. — Não deverias desistir desse dom, ao menos, se desejar morrer, passe-o a alguém.

— Minha cara Sarah. — Voltei-me a ela. — Como já disse. Os vampiros pertencem à noite. são criaturas amaldiçoadas por Deus e fadadas a vagar pela escuridão. Esse dom é uma anomalia da espécie, um erro. Se sou o único no mundo que possui esse dom, então terei prazer em carregá-lo comigo até o fim da minha existência.

Levantei-me e segui em sua direção, segurei seu rosto levemente e disse. — Sei que no fundo não suportarias perder teu amado Heitor novamente. Mas também assumas que não deseja a morte do Edmund. — Sorri e beijei seu rosto.

— Não abuses da minha simpatia. — Afastou o rosto.

— Abuso sim, e sei que preferes assim. — Acariciei seu rosto.

— Ele é um demônio. — Disse o operador de rádio.

— O que houve? — Perguntei.

— O Marechal, já rompeu as defesas inimigas. O que é isso? Em apenas dez minutos. Como conseguiu?

— O que disse? Corri ao lado do operador. — Retire os fones, deixe-nos ouvir a ligação.

O operador de rádio do grupo do Marechal era o atirador humano. — Não é possível alguém se mover assim. — Disse o atirador. — Conseguimos atravessar as defesas inimigas, agora esse homem está, sozinho, abrindo caminho para passarmos. O que é isso? Está usando uma Rapier. Quantos anos ele tem? Por Deus. — Continuou. — Atualizarei quando estivermos em outra posição, vamos andar. — Desligou.

— Incrível. — Afirmei. — Não é à toa que sua alcunha era O demônio de Little Royal. Não achei que estivesse em forma ainda. — Gargalhei. — Estou feliz. Ele me empolgou. Irei lutar. — Afirmei. — Acompanhá-lo-ei.

— Estás louco? — Perguntou Sarah.

— Continuem o bom trabalho. — Dei as costas, vesti a máscara e sai da barraca. Embarquei em uma motocicleta e ordenei que o piloto seguisse onde o cerco fora rompido.

Após cinco minutos chegamos. Desembarquei, corri em direção ao grupo e aproximei-me dos atiradores.

— Onde está o Marechal?

— Naquela direção. O que faz aqui, senhor?

— Obrigado. — Não lhe respondi à pergunta. Corri em direção ao homem.

Quando estava próximo aos outros na linha de frente do cerco, era possível ver seus movimentos rápidos e definitivos. Pairava de um lado ao outro como se estivesse dançando, mas esse ballet refletia o brilho da lâmina da sua espada, fazia o sangue bordejar e ser iluminado pela luz prata da lua. Era uma coreografia leve e aveludada, como se estivesse patinando sobre uma lagoa congelada. Os gemidos dos vampiros abatidos eram como aplausos.

Eu sabia que ele não conseguiria assassiná-los com uma lâmina convencional. Mas os ferimentos eram realmente profundos, precisariam de muitos minutos para se regenerarem.

— Marechal. — Bradei.

— O que houve? Edmund. — Perguntou.

— Não conseguirás assassiná-los com essa lâmina. — Saquei uma das minhas facas e arremessei em sua direção. — Finalize-os com isso.

— Duas lâminas? Perfeito. — Sorriu.

— Posso acompanhar-te nessa dança?

— Claro!

Iniciamos a coreografia. Saquei a outra faca e começamos a lutar.

Podia ver o sorriso de excitação delineado em seu rosto. Os Werckinberrevichs caiam no chão e debatiam-se por conta do sangue de lobo, e então sessavam seus suspiros. Em um momento, mesmo rápido, pudemos descansar e trocar algumas palavras.

— És um bom soldado. — Disse o Marechal. — Não imaginei que possuía tanto talento.

— Estou lisonjeado, mas não chego perto de ti.

— Fui conhecido como O demônio de Little Royal, bons tempos, mas a idade fez-me enferrujar.

— Estás enferrujado? Não gostaria de ser teu inimigo hoje, quão mais nos teus bons tempo.

— Obrigado. — Sorriu. — A propósito, boa faca, corta esplendidamente.

— Agradeça ao futuro engenheiro de armas da M&M. Um rapaz e tanto

— Posso imaginar. — Embainhou a espada e arremedou-a a mim.

— O que é isso? — Perguntei.

— Fique com ela, essa foi minha grande companheira, use-a nessa batalha, morra com ela se for preciso. Precisarei apenas dessa faca.

— Obrigado. — Arremessei minha outra faca em sua direção. — Então faça um bom trabalho.

— Obrigado, garoto.

Prendi a bainha da espada no meu cinto. Saquei minhas duas Luguers P08. — Sou esgrimista desde criança, mas gosto mesmo é dessas duas. — Sorri.

— Bom gosto, é germânica, boa arma. Já fui alvejado por dois projéteis dessa arma. Seus inimigos mal sabem o que os espera. — Gargalhou. — Veja, enviaram reforços, vamos continuar a dança.

O primeiro se aproximou. Dei-lhe um tiro no pescoço. O segundo deu-me um golpe no estomago, mas devolvi-lhe outro no queixo. Joguei-o em direção do Marechal, que com um reflexo afiado, virou-se e cortou a garganta do inimigo.

— Queres brincar? — Perguntou ele.

— Adoraria.

Aproximei-me de outro e agarrei-o por trás. Serviu-me de escudo por alguns segundos, até seu corpo estar pesado por conta do grande número de projeteis alojados. Arremessei-o ao Marechal e ele o matou.

— Fui alvejado na coxa. — Bradou o Marechal.

— Consegue lutar?

— O que é duzentas gramas a mais na perna? — Gargalhou.

— Isso é bom.

Chutou um inimigo em minha direção. Sem demora disparei e acertei-lhe a nuca.

Continuamos a lutar até a última horda terminar. Em mim, havia aproximadamente doze projeteis. Recuamos até o grupo e sentamos em um tronco caído.

— Rapaz, lutas muito bem. — Disse ele. — Se lutássemos um contra o outro, certamente seria uma luta lindíssima. Fui acertado três vezes. E tu?

— Doze, ao menos que contabilizei. Estou exausto.

— Doze? — Surpreendeu-se. — Que homem. E eu reclamando com três, preciso fechar a boca e continuar. — Gargalhou.

— Assim que retirar eles. — Chamei um médico.

— Não podem fazer isso, olhem o estado que estão. — Disse o médico. — Quem está mais ferido?

— O Marechal. — Afirmei.

— Eu? Estou em perfeita forma — Socou a própria perna.

— Retire os projeteis dele. — Pedi.

— E receber morfina? Retire o chumbo, mas não me de morfina, desejo lutar mais. Estive sonhando com um momento assim há muito tempo.

— Faça como desejar. — Respondi. — Apenas retirem logo. Isso é extremamente desagradável.

— Está bem. — Disse o médico retirando as pinças e compressas.

Iniciou o procedimento de retirada no Marechal. Após dez minutos todos foram retirados.

— Agora o senhor. — Voltou-se a mim. — Indique o local que fora atingido se este já houver fechado.

— Certamente.

— Por que tens que avisar? — Perguntou o Marechal.

— Para que abram o furo novamente. Se Carmelia estivesse aqui, morreria de ciúmes por outra pessoa estar fazendo esse procedimento. — Sorri.

— Não sei se é bom ou ruim ter ferimentos que se fechem sós. — Disse o Marechal. — Tens sorte que esse médico é um vampiro, já sabe como agir em tal situação.

Após trinta minutos o médico retirou o ultimo projetil. — Está feito. — Disse. — Espere dez minutos até as feridas se fecharem novamente. Havia treze projeteis.

— Contei errado? — Falei.

— Não seria o meu? — Perguntou o Marechal.

— Maldito. — Gargalhei apertando sua mão.

A emoção da luta ainda permanecia ativa, eu desejava lutar mais. Levantei-me e averiguei a munição, ainda haviam seis carregadores cheios.

— Desculpe. O sangue esfriou. — Disse o Marechal. — Deverei outra luta. Agora nem mesmo movo-me direito. Isso é vergonhoso.

— Anotarei minhas memórias, certamente essa luta estará nela, então serás imortalizado. – Afirmei confiante.

— Obrigado. Gostaria de lutar ao teu lado outra vez.

— Talvez. — Afirmei. — Volte à base e descanse, se conseguires lutar depois de recuperado, não tenha medo.

— Medo? Por favor. — Ergueu o punho fechado. — Medo é uma palavra que consta no dicionário dos fracos.

Eu e o médico rimos. — Desejo que cuide das coisas depois que eu sair. — Pedi. — Mas dessa vez não atire em mim.

— Como desejar. — Respondeu.

Voltei-me ao médico. — Chame dois fuzileiros.

Partiu sem questionar.

— É vergonhoso eu ser o comandante supremo do exército e não conhecer esse segredo.

— Realmente, mas não poderíamos contar, creio que não acreditarias. Além disso, para enganar os inimigos, deves enganar os amigos.

— Bem maduro da tua parte.

— Aprendi com minha mãe. — Sorri.

Retirou um cigarro da carteira. — Aceita?

— Não, obrigado.

— Faz bem, fumar é prejudicial à saúde. — Pausou a fala por alguns segundos. — Os vampiros não morrem por fumar, não é mesmo?

— Não sei. Creio que nossa regeneração é mais forque que o cigarro.

— Transforme-me, por favor. – Gargalhou e mudou o assunto. — Tua mãe era uma mulher esplêndida, não posso dizer que sejas pior que ela. Mas Branca via alguns detalhes que não vimos outras veres, realmente ela te ensinou bem. Estou curioso quanto ao teu pai.

— Ele faleceu no naufrágio do Titanic.

— Entendo, mas como era?

— Um homem e tanto, muito inteligente. Sempre disse que foi conquistado pela Branca por um cruzar de pernas e um sorriso sedutor. Mas foi muito mais que isso, infelizmente não posso contar. Meu pai era um homem que adorava ler, tinha uma grande biblioteca em casa. Fora uma perca valorosa.

— És mesmo filho de duas pessoas maravilhosas.

— Meu caro Marechal, acabamos de lutar bravamente, não desejo derramar lagrimas por lembranças e manchar esse feito.

— Entendo. Certamente. Diga-me, por que desejas eliminar aquela casa?

— Não é a casa toda, desejo apenas um homem.

— Um homem? Suponho que seja quem assassinou Branca.

— Branca, Elizabeth, Daniela e Cecília, minha amada esposa.

— Então fizestes isso apenas para vingar-se?

— Todas as grandes batalhas desde março, são frutos dessa busca.

— Não criticarei teu método, cometi as mesmas decisões que ti. Quando temos poder não vemos os subordinados como pessoas. Vemos como ferramentas.

— Como os peões no tabuleiro.

— Como Agamenon administrava seu exército. — Afirmou.

— Melhor comparação que vi. — Rimos.

— Sabe, meu jovem. Se viveres, serás um bom governante. Mesmo que haja prometido cometer suicídio, ao menos fora isso que ouvi dizer. Por que não adia esses planos e vives a kleos.

— Depois de me vingar, não suportarei as vozes na minha cabeça, as vozes dos fantasmas das pessoas que sacrifiquei.

— Sei como se sente, mas acostuma-se logo. A propósito. Qual é o nome do homem que procuras?

— Vlad III.

— O que disse? — Desferiu algumas tosses.

— Seu pseudônimo era Drácula.

— Entendi a referência, que pseudônimo pobre. Mas realmente, é o que mais se adequava a ele.

— De fato. — Levantei-me. — Assumirei o comando do teu grupo.

— Faça isso, já não posso lutar.

— Pensei que fosses mais forte. — Sorri.

— Calado, é tudo culpa do sangue, ele esfriou.

— Edmund.... Edmund. — Carmelia surgiu entre as folhagens. — Onde estás?

— Aqui! — Bradei.

— Estou aliviada, por que saíras correndo em direção à linha de frente?

— Sou feliz lutando, assim como és feliz torturando.

Apenas consentiu e perguntou se estava ferido.

— Não. — Respondi-lhe. — Vamos prosseguir.

Dois fuzileiros chegaram. Ordenei-lhes que levasse o Marechal até a base e tratassem dos seus ferimentos.

— Descansarei um pouco. — Disse ele. — Talvez eu ainda dê as caras nessa batalha. — Gargalhou. — Que luta bela, que luta maravilhosa. Uma das mais prazerosas que já fiz.

— Estou lisonjeado. — Respondi. — A propósito, por que nunca fora à linha de frente nas batalhas civis em Morryes?

— Como disse, um oficial não pode lutar, não podia deixar meu posto, mesmo que quisesse. Mas essa batalha a qual vivi hoje, não é oficial, então não sou o Marechal, nela sou apenas o demônio de Little Royal. — Sorriu.

— Por conta disso sempre tomara uma postura seria e rígida? Ao menos na frente dos outros.

— Meus velhos amigos morreram. Apenas eles poderiam ver minha personalidade e ainda creditar confiança. Esses outros chefes não confiariam em mim se apresentasse-lhes minha personalidade. Não seguiriam um louco. Mas meus amados amigos, aqueles que lutaram em tantas batalhas ao meu lado; eles me seguiam cegamente, executavam minhas ordens se questionar. Sabiam que minhas decisões eram certas. Não questionavam até mesmo o sacrifício que tinham de fazer.

— É incrível, adoraria ter esse poder. — Falei.

— Bons tempos. — Sacou as duas facas e estendeu-a. — Leve-as também, minha espada não te ajudarás. Essas facas sim.

— Está bem. — Peguei-as. Voltei-me aos fuzileiros e ordenei que o levassem à base.

— Boa sorte, garoto. — Despediu-se.

— Obrigado.

Após ele ser retirado, chamei o municiador e o médico.

— Deem a ordem de avançar. — Proclamei.

— Sim, senhor. -Partiu o médico.

— O atirador humano chamou reforços, ao rompermos a defesa inimiga. Solicitou uma investida em massa. — Disse o municiador.

— Isso é bom. Envie a ordem ao resto do grupo, abriremos caminho. A propósito. Tens munição para a minha Luguer?

— Estou com munição padrão das armas que utilizamos.

— Entendo. Obrigado.

Deu as costas e partiu. Em poucos minutos era possível ver o som dos disparos se intensificando. Quando avistei um fuzileiro, segui em sua direção e ordenei-lhe que continuasse na ponta e levasse os demais. Recuei até onde os atiradores estavam. Aproximei-me do que possuía o rádio e contatei a base.

— Sei que os reforços estão vindo. Estou atualizando a situação. Restam 1000 metros até a cabana. Enviem os morteiros, eles abrirão uma maior área de fogo.

— Não podemos, o último ataque com morteiros desnivelou o terreno. Acabamos demolindo os tuneis e isso dificultou a progressão no território leste do cerco. Não conseguimos enforcá-lo.

— Isso é péssimo. Nos túneis há inimigos?

— Sim, mas soltamos o lobo lá.

— Sugeriria isso. Quantos homens mandou?

— 250.

— Está bem. Marechal retornou?

— Sim, está sendo tratado. Como fora a luta?

— Bela, diria até, uma obra de arte.

— Entendo. Algo mais?

— Não. — Desliguei.

A batalha de movimento durou duas horas, mas conseguimos avançar quase 700 metros.

Sentia-me realizado, apesar de já estar cansado. Meu desejo estava prestes a se realizar, após tanto tempo buscando meu homem. E ali estava, diante dos meus olhos. Aquela cabana onde eu e Cecilia havíamos visitado, era do meu futuro malquisto. Como fui tolo em nunca ligar o nome do Drácula ao homem que inspirou tal personagem? Desde que descobri, era como um mal que poderia ser evitado desde a morte da Daniela.

Eu não guardava duvidas, os retratos que vi do Vlad eram idênticos à fisionomia de Tom. Logo em seguida perguntei-me a relação que ele tinha com o antigo Duque.

As granadas mantinham a percussão e os rifles orquestravam como a voz de um grupo de violonistas. Pairavam rapidamente os projeteis incandescentes. Ouvia gemidos de morte e gritos de luto por todos os lados. Berros de vingança e juras de ódio.

Quando a lua tomou o topo do céu, já estávamos há cem metros da cabana. Mirei à casa com a mira telescópica e pus-me a observar. Havia uma movimentação suspeitamente violenta dentro, como se estivesse havendo uma luta. As janelas sendo quebradas por fortes pancadas vinda de dentro.

Após dois minutos um homem surgiu. Cabelos negros até os ombros. Vestia uma calça de lona preta, um colete de seda negra e uma camisa de cetim bordo, botas de cavalgada e luvas negras. Na mão direita havia sua Rapier, a outra não carregava a cabeça do lobo, a cabeça do Hantz. Que aos poucos retornou à forma humana. Seu cabelo prateado ainda brilhava, mas seus olhos não apresentavam nada mais que a morte.

Soltou a cabeça do lobo e continuou a caminhar em direção ao campo. De repente começou a acelerar e quando vi estava correndo. Entrou na floresta e fui surpreendido, suas habilidades eram equivalentes às do Marechal. Dançava levemente enquanto cortava seus inimigos.

Eu não sabia qual atitude tomar, estava extasiado por encontrá-lo. Sem pensar mirei e disparei. Infelizmente não acertei. Mas quando o projétil passou ao lado de sua cabeça, Vlad parou e voltou-se a mim. Seus olhos estavam semicerrados, apresentava um sorriso frio, porém, certificava prazer naquilo que fazia. Começou a correm em minha direção.

Disparei duas vezes, mas não conseguia acertá-lo, era rápido e escondia-se atrás das árvores. Não havia tempo para engatilhar outra vez. Soltei o rifle e saquei a espada. Mas ele desacelerou e voltou a caminhar enquanto limpava a lâmina da espada.

Meu coração quase trincara o externo. Senti meu corpo esfriar, minhas pernas começaram a tremular.

— Há quanto tempo. — Disse ele. — Lembras de mim? O Tom.

Não consegui responder-lhe, a voz não saia da minha boca.

— Estás com medo? — Parou de caminhar a dez metros de mim.

Senti-me extasiado, consumido por uma mescla de felicidade e ódio. Não era por medo que não me movia, era por pura e simplesmente surpresa. Tudo que eu deveria ter feito era ter descoberto seu nome verdadeiro. Sempre soube que isso faria com que o encontrasse, mas não esperei que seria tão logo depois de descobri-lo. Sinceramente, não acreditei que ele estivesse naquela cabana. Estava preparado para simplesmente encontrar um bilhete dizendo-me adeus, que houvesse partido. Mas o deu-se o contrário, era ele mesmo, estava diante dos meus olhos.

— Vamos, responda-me. Antes de iniciarmos a luta, conversaremos brevemente.

Ansiava em lutar, mas eu sabia que deveria ser cauteloso. Estava entre a loucura e a sanidade, mas não me deixei levar, perderia se o fizesse. Reuni todas as forças apenas para conseguir dialogar.

— Por que a matou? – Perguntei objetivamente.

— Por quê? Bem.... Por desejar ver-te sofrer. Não gostei de ti. Na verdade, gostei de levar o desespero a ti, embora haja alguns outros motivos por trás. Quem sabe se posso revelá-los? Talvez, se me derrotares.

Montei a guarda e me preparei.

— Onde estão os cortejos? — Perguntou ele se posicionando.

— Não preciso te cortejar. — Dei um passo curto à frente. — És a criatura da qual vivo para assassinar.

— Confesso que estou surpreso por haver me achado. — Passou à frente mais timidamente. — Realmente, não imaginei que me localizaria em tão pouco tempo. Posso saber como descobriu?

— Alguns fatos se deram. Apenas isso. — Passei ao lado direito e forcei a empunhadura da espada.

— Olhe só, vejo que isso em seu bolço é o punhal que assassinou Cecília. — Sorriu. — Então guardou o souvenir com carinho. — Gargalhou e enrijeceu a postura. — É uma história clichê, desejas matar-me com a mesma arma que matou tua mulher? É tão romântico. Mas saiba que não morrerei com isso, nem com tuas pistolas, nem com essa espada.

— Sei que não posso te matar com isso, seria romântico, mas se ajudar-me na vitória, serei feliz. Sei também que não morres com sangue de lobo, mas também não possuis uma arma que possa me matar.

— Então valsaremos até o último resquício de energia? Parece artístico. Uma obra prima da beleza da guerra.

Preparei-me para dar o primeiro passo. Nesse momento gritei o mais alto que pude ao exercício aliado. — Obliterem-nos. — E parti.

Nossa luta iniciou com minha investida diretamente em seu peito, mas ele esquivou e golpeou a minha máscara, que fez sua lâmina escorregar, e com isso, cortou a gola do meu casaco. Montou guarda novamente. Ele agia na defensiva e contra-atacava. Investi outra vez. Ao toque das lâminas das nossas espadas o som de uma grande explosão de morteiro ocorrera ao nosso lado. Fomos arremessados há alguns metros. Levantei-me. Não ouvia nada mais que um alto e agudo som, estava levemente tonto, entorpecido pelo choque da explosão. Lembro-me vagamente de ver Vlad se levantando. Corri em sua direção e cortei-lhe as costas antes que pudesse pegar a espada. Afastei-me por conta de um golpe e voltei a me preparar.

— Fora um bom golpe. — Disse ele. — Mas vejas, não há marca alguma. Sou um Adão, achas que podes assassinar-me?

— Cale-se. — Interrompi-o. — Componha-se.

— Como ela pode se apaixonar por alguém como ti. — Precipitou-se rapidamente em minha direção e desferiu um golpe em minha máscara. — Quero que sofras, sofras muito. — Desferiu rápidos e repetidos golpes.

Afastei-me e remontei guarda. Enquanto esperava as feridas superficiais curarem. Disse.

— O que queres dizer? O que tens haver entre eu e ela?

— Cale-se. Apenas abra a boca para gritar e agonizar.

Corri em sua direção e trocamos golpes por alguns minutos até ambos estarmos respirando pesadamente.

— Por que a matou? — Perguntei. — Sei que és um sádico que adora torturar pessoas, mas responda-me, motivo.

— Ela era minha.

Nesse momento ele caiu ao ser atingido no braço por um projétil. Voltei-me à posição do atirador. O rifle estava caído ao lado da Carmelia.

— Realmente. Essa arma é forte. Deslocou meu ombro. Ajoelhou-se. — Está doendo muito. Como podes suportar isso? – Caminhou com dificuldade em minha direção.

— Colocarei teu ombro no lugar. Assim fiz, segurei-a pelo ombro e em um movimento rápido pude ouvir o estralo e sentir na palma da minha mão o osso sendo deslocado em sua posição correta. — Agora espere se curar.

Voltei-me ao Drácula. Debatia-se e rolava sem seu braço esquerdo.

— Carmelia – Afirmei. — Atire nas pernas dele todas a munição que tens.

— Está bem. — Sacou uma pistola e descarregou-a, ejetou o carregador e sacou outro. Inseriu-o e engatilhou. Novamente descarregou o carregador. — Acabou. — Concluiu.

Mesmo tendo agonizado, mesmo sabendo que poderia ele estar indefeso, preferi não me aproximar, poderia ser uma armadilha. Ele se levantou com os ferimentos da perna já curados. Tossiu sangue algumas fezes e retornou a postura ereta de antes. Empunhou a espada e montou guarda novamente.

— Pensas que poder me derrotar só por haver perdido um braço? – Sorriu e precipitou-se em minha direção. Seus movimentos estavam mais lentos. Faltava-lhe sengue, seu equilíbrio fora comprometido e seus pés não o obedeciam-no perfeitamente. Facilmente pude esquivar, mas ele seguiu em direção à Carmelia, mas ela não conseguiu, estava desarmada e ainda sem agilidade por conta do ombro. Vlad embainhou a espada e segurou Carmelia pelo pescoço. Direcionou-a a mim e disse.

— Não matarás a tua companheira, não é mesmo?

Tive que conter meus movimentos. Embainhei minha espada e saquei uma pistola. Calmamente retirei o carregador dela e inseri um com projeteis de prata.

— Duvidas? – Perguntei.

— És capaz de ser tão bestial quanto eu? Basta um disparo e ela morrerá, além da minha espada poder perfurar seu coração. Seria outra perda valorosa, não é mesmo?

— Há algo que não sabes sobre ela. – Mirei e disparei. Acertei Carmelia pelas costas, contudo, o projétil varou-a e se alojou no ombro direito do Vlad. Imediatamente ele a soltou e se afastou. Disparei até a munição acabar e me aproximei da Carmelia. Ajudei-a a levantar e caminhar até a uma arvore próxima. Ela nunca havia levado um tiro, não conseguia nem mesmo andar.

— Espere aqui. Por sorte o projétil não está no teu corpo. – Voltei-me ao meu malquisto e caminhei em sua direção.

Mesmo ferido ele conseguiu se defender e fazer ofensivas tão bem quanto eu, mas era evidente sua deficiência. Eu sabia que não poderia ganhar dele com combate limpo, era preciso fazê-lo cansar e retirar os meios de ele usar todo o seu potencial. Trocamos golpes até a lua começar a baixar

Saquei o punhal que matara Cecília e cortei-lhe o rosto. Imediatamente tentei atacá-lo, porém, em um momento que pisquei os olhos vi-me perfurado no peito pela lâmina. Era como sua última investida antes do fim. Meu coração não batia, tossi sangue, minha visão ficou levemente opaca. Mas segurei sua mão e tentei cravar-lhe a espada, porém, ele desviou-se. Em um momento sem forças soltei a espada, entretanto, quando me recompus, saquei minha faca com sal e cortei-lhe a garganta. Imediatamente se afastou, sem nem mesmo retirar o objeto do meu peito. Novamente sem forças, retirei a espada e voltei a sentir meu coração bater.

A dor do musculo cardíaco se contraindo e dilatando com a ferida ainda aberta fazia-me quase delirar. Conformou-me a visão do Drácula estatelado se recuperando mais lentamente do que como fora com o primeiro golpe. Isso deu-me tempo de regenerar o meu ferimento no peito. Por mais rápida que fosse a regeneração dele, o ferimento que lhe causei provocara uma perda de sangue excessiva e o sal impedia a regeneração normal. Mas mesmo possuindo esse magnifica chance de derrotá-lo, não conseguia me mover, a dor era entorpecedora. Eu também perdera muito sangue, minha regeneração estava mais lenta.

— O que.... O que quisera dizer quando falou que ela era tua? — Perguntei com dificuldade.

Ele não respondeu, ainda não possuía condições de fazê-lo. Apenas agonizava e debatia-se de um lado ao outro. De repente outra explosão de morteiro ocorrera próximo, porém, apenas me ensurdecera e proporcionara uma rápida chuva de terra e pedras. Aos poucos, meu peito parou de doer, senti meus batimentos cardíacos regularizarem-se. Em uma exponencial lenta e fraca consegui levantar. Empunhei novamente a espada e me aproximei dele. Seu ferimento não se fechara. Eu havia preparado as facas justamente para enfrentá-lo. Sabia que sangue de lobo não causaria efeito, mas sal ainda afligia seu corpo. Fiz-lhe a montada e segurei seu braço, estendi-o e cravei uma faca em sua mão para prender tal membro ao solo. Retirei um pequeno cantil com água e despejei o liquido sobre seu ferimento. Aos poucos iniciou a cura.

— Diga-me o motivo. — Ordenei.

Os sons da guerra suavizaram-se, estava quase amanhecendo, todos os vampiros recuaram às posições seguras. Voltei-me ao Vlad e perguntei-lhe outra vez. Mas não respondeu, fitava-me seriamente, contudo, não pronunciava palavra alguma.

Retirei as pistolas do coldre e encostei-as em seu peito.

— Diga! — Ordenei. Mas não houve resposta.

Disparei uma vez. Além do som do disparo, fora audível o som do externo sendo quebrado pelo projétil.

— Diga. — Disparei novamente.

Continuei ordenando-lhe a palavra, mas nada dissera. Descarreguei as duas pistolas e seu peito já apresentava inúmeros buracos, entretanto, ele não respondeu. Soquei seu rosto por alguns minutos até minhas mãos sangrarem. Olhava-me cansadamente, seu nariz estava quebrado, suas sobrancelhas cortadas, já havia engolido alguns dentes e cuspido outros. Nem mesmo ele poderia suportar tal perda de sangue e mais tantos ferimentos. Sorria abertamente e gargalhava. Eu desejava saber o motivo do assassinato e enquanto ele se deliciava em não contar.

— Não dirás nada? — Finquei a espada em seu pescoço. — Como achas que morrerás? — Perguntei.

O silencio fez o vento sibilar. A poeira e a fumava bordejavam no ar. Senti a brisa morna da floresta passar e entrar em minha máscara.

Retirei-a e olhei o céu. A noite escura já não se apresentava totalmente como tal. Os primeiros raios solares surgiram. Aos poucos alguns soldados se aproximaram. O silencio ainda pairava. Os olhares curiosos e espantados estavam fixos em nós.

— Diga-me. — Pedi. — Diga-me o motivo.

Continuou sorrindo sem dizer nenhuma palavra. Passou-se alguns minutos e o sol já surgira. Restava apenas poucos minutos de vida àquela criatura. Algumas manchas negras surgiram na superfície da sua pele. Continuei recordando de tudo o que tivera que fazer até aquele momento. Os anos que passei à sua procura. Agora estava diante dos meus olhos, estava estatelado pronto para morrer.

— Queres mesmo saber? — Perguntou ele.

Minhas mãos começaram a tremer, meu coração acelerou e eu não cabia em meu arfar.

— La revedere — Disse.

Sua respiração começou a enfraquecer e seus batimentos cardíacos aumentaram o espaçamento. Sua pele apresentava mais manchas escuras, aos poucos seus olhos deixavam de apresentar aquele perturbador brilho, sua musculatura relaxou e logo depois sua respiração parou, e em seguida seu coração.

As lagrimas começaram a escorrer em meu rosto. Não tinha controle sobre esse sentimento. Cai aos prantos por um misto de felicidade e tristeza. Por vários minutos chorei incessantemente.

Levantei-me, finquei a minha espada no peito do Drácula.

Os soldados imediatamente bradaram vitória disparando ao céu e comemorando.

— Alguém traga combustível. — Pedi.

Retirei a espada, despejei o liquido sobre o corpo, recarreguei uma pistola, apontei e disparei. Logo as chamas se espalharam. Grandes labaredas que fizeram meus olhos brilharem. Senti-me aliviado, minhas pernas começaram a tremular. Perdi as forças e estatelei-me ao chão. Estava fraco, sem sangue, minha visão estava opaca e não se fazia mais funcional. Aos poucos fechei os olhos e adormeci.

— O que fazer agora? Remissão? ... Bem... Talvez, apenas talvez, Carmelia possa ter sua imortalidade ao meu lado de modo reciproco... – Pensei.

Notas finais
Esse pequeno diário escrevi até esse momento, pois, as memórias que vivenciei depois de despertar. Essas morrerão comigo.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!