Memórias de vidro
26 Recordo-me apenas de mordê-la e sentir o gosto adocicado de maçã,
Final de março de 1921. Era uma noite escura, apenas os postes forneciam luz às ruas. Eu caminhava calmamente entre as vielas e becos. Estava sentindo a abstinência, sabia que poderia viver sem beber sangue durante dois meses, mas dependendo da rotina não passaria de três semanas. Essa era uma noite que eu deveria andar só, sem a companhia da Carmelia. Eu não gostaria que visse tal ato.
O breu da noite que cobria a lua era denso e opaco. As sombras tornavam-se mais suspeitas. Apoiei-me na mureta da ponte Vlinckouger. Lembrei-me da primeira vez que vira um Werckinberrevich. Descarreguei tantos projeteis, porém, nenhum surgira efeito, recordo-me do quão assustador e aterrorizando fora vê-lo resistir e lutar, hoje sei o motivo de haver desmaiado. Fora um integrante do pelotão de patrulha do Black Night. Um humano qualquer não deveria presenciar tal situação. Eu fora induzido ao sono após ser golpeado na nuca. Devo confessar que quando lembro de Wladimir, envenenando-se com o sangue de lobo, sorrio, e, lembro-me bem o incêndio que o cremara. Olhei meu reflexo deformado refletido pela superfície do rio e respirei profundamente. Afastei-me da mureta e pus-me a procurar.
Sentei-me em um bando na calçada, relaxei o corpo e fechei os olhos.
— Não deveria caminhar sozinho a essas horas, pode ser perigoso. — Sugeriu a voz familiar de uma mulher.
— Estou a esperar algum perigo. Preciso restabelecer-me.
— Não podemos ajudá-lo dessa vez, após a descoberta, os caçadores acabam por eliminar os vampiros.
— Bem fazem, sofro com tal, mas incentivo-os.
Abri os olhos e vi Sofia. Sentou-se no meu lado. — Como tem passado?
— Bem, considerando as situações, e tu?
— Idem, vida pacata.
— O que fazes à essa hora? Andando só em ruas tão perigosas?
— Assuntos particulares, digamos, assuntos de mulher.
— Entendo. — Sorri.
— Ficarás quanto tempo mais sentado?
— Até parecer fraco e um Werckinberrevich atacar-me. Não aceito essa ideia ainda, eu apreciava o gosto de seu sangue, mas quando era ocasional. Detesto essa periodicidade imposta.
— O senhor descobriu o motivo de tal necessidade?
— Não, digo-te a verdade, não me passou pela cabeça isso.
Sofia sorriu e levantou-se. — Desejo-te sorte na busca à refeição.
— Não diga com essas palavras.
— Ora Ora! Não menti. Bem. Vou-me embora, quando convir conversaremos mais. — Deu as costas e continuou seu caminho.
Eu sabia que ninguém me procuraria, decidi procurar. Levantei e pus-me a caminhar. A dor na cabeça intensificara. Perdi a força nas pernas, fazendo-me ajoelhar, apoiei-me com as mãos, sentia a dor aumentar exponencialmente. Logo meu nariz começara a sangrar. Engasguei-me com sangue e vi-o escorrer, não da minha boa, mas sim do meu pescoço. Eu fora ferido por um projetil que penetrara minha nuca e saíra pela tragueia. Aos poucos perdi a força nos braços, senti meu coração bater rapidamente. Meus braços tremiam enquanto eu sentia meu pescoço perfurado pelo projetil que o varara e a quantidade de sangue meu estatelando-se ao chão.
Avistei à minha frente dois sapatos de couro negro, também vi uma calça de flanela. Ao erguer minha cabeça, pude reconhecer um homem, Walther Frederico. O acompanhante de Logan quando apresentou a proposta da M&M pouco antes do meu casamento. Pude ver seu rosto, entretanto, não por muito tempo, fui golpeado e desmaiei.
Ao abrir os olhos deparei-me com uma grande e redonda lâmpada voltada a mim. Lembro-me pouco do local, ainda sob efeito de remédios recordo apenas da lâmpada.
Não posso dizer que tudo que escrevo seja de fato real.
— Meu caro senhor, lembras de mim?
O torpor afligia meu juízo, não lhe respondi, nunca fora drogado ou induzido ao entorpecimento. Minha visão ainda estava turva.
— Não respondes? Que falta de cortesia. Quero ser apenas diplomático, não desejo usar a força.
— O que fez comigo?
— Ainda está sob efeito dos medicamentos? Por favor, não sejas tão fraco.
Mesmo tutelado sob a opacidade da visão avistei o sujeito deslocar a lâmpada, assim iluminando seu rosto, recordo-me de uma cicatriz no queixo, nada mais. Sentia náuseas, tontura e embrulhos estomacais.
— Entendo o motivo que não haver se recuperado, abstinência, aposto que nunca bebera sangue humano.
Apesar de tentar, não conseguia respondê-lo. Talvez estivesse respondendo-o com gemidos e outros sons miseráveis.
— Far-te-ei bebê-lo. Até há uma voluntaria.
Havia alguém ao meu lado, olhei-a, mas não reconheci, ainda não via bem. Senti empurrarem minha cadeira e levaram-me perto a mulher. Recordo-me apenas de mordê-la e sentir o gosto adocicado de maçã, porém, era mais suave, o sangue era mais denso.
— Pare. — Disse a mulher, reconheci a voz e parei imediatamente. Não queria feri-la.
— Por que paraste, meu caro Edmund?
Recebi um golpe no rosto, cai juntamente com a cadeira qual estava amarrado.
— Sabes bem o motivo de não te matarmos até hoje, meu caro Edmund, entraste de cabeça no jogo do meu senhor. — Pausou a fala por alguns instantes, limpou as mãos que estavam manchadas com o meu sangue e o da mulher, gargalhou sem preocupações e prosseguiu. — Veja só, Edmund. Meu senhor, é um homem que adora brincar, mas não pense que as brincadeiras dele podem ser boas a seus brinquedos. Digamos que é ao contrário. Como era o nome mesmo? Era uma bela mulher, Angélica.... Acho que era esse o nome. Sim, esse mesmo, Angélica, fora um bom brinquedo ao meu senhor.... Sabe qual é um dos motivos que rio ao acompanhar teus movimentos? Desde que sua esposa fora assassinada passaram-se onze meses, fará um ano, e, o que tu achaste sobre meu senhor? — Gargalhou novamente. — Nada! Não sabes nada, mas o jogo estava ficando sem graça com um vampiro virgem. Qual é a grassa de não aproveitares o dom da imortalidade ou assassinar humanos? Todavia, meu caro Edmund, dou-te uma pista, ele tem cabelos negros. A propósito, lembrei-me agora, deves estar perguntando-se como eu, humano, sou espião a serviço dos Werckinberrevich, bem, não sou mais humano, agora sou imortal. Logo após terminar meus serviços, fui transformado. E pensar que não imaginava ser possível a imortalidade, isso é fantástico, mas não posso alimentar-me de sangue vampírico, isso faz-me envelhecer, queres saber quantas pessoas eliminei? Bebi todo o sangue que seus corações foram capazes de bombear para fora do corpo. Mas como dizi...
Desmaiei novamente.
Era manhã quando acordei. Abri os olhos, o céu estava claro. Minha cabeça ainda doía. Tentei levantar, mas não pudera, estava sem forças.
— Descanse. – Pediu Sofia.
Minha cabeça descansava sobre seu colo. Pude sentir seu pulso fraco, suas roupas encharcadas de sangue.
— Perdoe-me, por favor. — Proferi. — Eu não pretendia.
— Perdendo a postura? — Sorriu. — Não és assim.
Eu sabia que seu ferimento era grave, mas não conseguia levantar-me para ajudá-la.
— Estou miserável. Não serei útil, deixe-me aqui e procure ajuda para ti, teus ferimentos são graves, eu melhorarei apenas esperando aqui.
— Queres redimir-se pelo que fizera? Não será com tal comportamento.
— Se quisesse redimir-me contigo haveria falado. De qualquer maneira eu gostaria de fazer algo por ti, mas eu compreendo meus limites, és humana, mortal, não conseguirá sobreviver se ignorar o que digo.
— Espera que te deixe aqui, analisando seus ferimentos, posso constatar que não regenerarão em menos de quatro horas. Mas se queres tanto que te deixe na sarjeta, à deriva, deixo-te então.
— Veja só, estas perdendo a postura também? Vá e cure-se, bebi muito sangue teu, além de que perdera mais depois. Confessarei o ato a teu pai o acontecimento de eu feri-la.
Sofia deitou minha cabeça no chão, levantou com dificuldade, apoiando-se na parede. Não pude acompanhá-la com os olhos pois minha cabeça não mexia. Após alguns segundos escutei ela caindo, não ouvi ruído algum depois.
— Sofia. — Chamei-a. — Sofia, estás acordada?
Bradei pedidos de ajuda sem cessar até um guarda policial nos encontrar. Seguiu em direção a Sofia e conferiu-lhe os batimentos cardíacos. Quando parou ao meu lado não pode esconder seu semblante.
— Ajude-a, ela precisa mais do que eu. Rápido, leve-a ao hospital, aguentarei que o faça.
— Como pode falar assim? — Seu semblante delineado apavorado deixava-me inquieto.
— Vá logo. — Ordenei. — Ordeno que vá, sou nobre, não podes desrespeitar-me.
Assustado o policial pegou Sofia no colo, deu as costas e começou a correr. O céu ainda era claro, mas as nuvens chuvosas se aproximaram.
— Ficarei aqui enquanto chove? — Pensei.
— Não se preocupe, não ficará aí por horas recuperando-se do esquartejamento. — Disse Logan em pé ao meu lado.
— Esquartejamento?
— Ela teve o trabalho de arrumar-te? Agradeça-a muito depois, se não precisasse ir ao público diria até viável ceder-te um título de nobreza.
— O Walther Frederico era um deles.
— Eu sei, mas não sabia onde era seu paradeiro. Talvez agora saiba. — Levou a mão ao seu bolço, retirou um lenço e cobriu a parte inferior do rosto escondendo a ponta do nariz e a boca. — Devo dizer que estou impressionado com tua resistência. Sofia está sendo levada pelo policial ao hospital, não acredito que passe de anemia. Mas íamos recolhê-la e tratá-la na base. Thomas ordenou a patrulha ao notar que sua filha não retornara e que o caminho não era longo. Quando cheguei o policial saia do beco. Interditarei esse local a fim de investigação, perguntarei agora mesmo, parece lucido e pronto a responder.
— Pergunte.
— Lembras de algo?
— Apenas de algumas palavras, estava entorpecido.
— Entendo, relate-as no interrogatório oficial. Falando nisso, fora a primeira vez que bebera sangue humano?
— Sim, infelizmente não posso parar, periodicamente devo beber.
— Sinceramente espero que o conselho não te julgue culpado, afinal, confiávamos em ti por não beber sangue humano.
— E assim continuaria, se eu pudesse não beber. Discutiremos isso no interrogatório oficial, de imediato preciso falar com Thomas, preciso desculpar-me.
— Sabes bem que poderá ser esquartejado novamente, não sabe? — Riu sutilmente.
— Falhei em não usufruir do sangue humano, ou seja, falhei em uma das minhas missões. Também quase assassinei uma pessoa que preso, outro fracasso em meus ideais. Acredito que ser esquartejado novamente far-me-ia refletir meus atos impróprios.
— Apesar de tudo, conheço-te há algum tempo, não posso esconder meu desapontamento e frustração, mas não te culpo, estava preso em situação desesperadora.
Fechei os olhos e adormeci novamente.
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