Memórias de vidro

27 Ajoelhei-me em frente a Thomas e a Sofia.


A sala era redonda e pequena, no centro descansava uma cadeira, ao redor jazia uma mesa que cercava a cadeira, atrás dela havia quatro ou cinco assentos, não recordo. Logo à frente sentara o juiz do meu julgamento, aos lados, detetives e ao lado do juiz, um escrivão. Nunca imaginara que o grupo albergaria algo como seu próprio meio de poder penal. O juiz era o Coronel Louise Plume, um antigo soldado francês que foi incorporado ao grupo depois de não retornar à França após a guerra. Condecorado como Coronel por suas façanhas realizadas em prol do grupo, sendo feitas em poucos anos. Seu rosto ainda guardava os traços da guerra olhos firmes e frios, rugas profundas de expressão, era visível seu porte ainda forte sob o terno. Era, de fato, um homem respeitável. Não me recordo dos demais presentes, ainda não estava em condições lucidas suficientes, ainda me faltava sangue demasiadamente para manter-me lucido.

— Sabes que não te tratarei menos que os já assentados nessa cadeira.

— Compreendo perfeitamente.

— Vejo que não abaixas tua cabeça, soubemos o que fizeste.

— Idem.

— Zombas de mim, Edmund?

— Jamais.

— Sabes bem o que fizeste, de fato o oposto ao acordado deu-se, não atacarias humanos, prometeste.

— Não negarei tal acusação, todavia sob efeitos de medicamentos e indução ao ato.

— Não te inocentará o ato.

— Aceitarei a devida sansão cabível, levando em conta as circunstâncias.

— De fato devemos-te favores, entretanto, o descaso instalar-se-á se lembrarmos de tais.

— Certamente.

Um dos guardas interrompera o julgamento, dirigiu-se ao lado do juiz e sussurrou-lhe palavras ao ouvido. Saiu da sala e então o juiz tomou a palavra

— Adiaremos o julgamento, siga com seus afazeres

Levantei-me, dei as costas, e quando caminhava, vi Thomas ao lado da porta, ele não fora convocado ao julgamento. Ao passar por ele cumprimentei-o acenando com a cabeça e disse-lhe. — Vá a minha casa. Tu e tua filha. — Continuei meu caminho. Não havia, pelo que me lembro, mais do que cinco pessoas no julgamento. O juiz, eu, um escrivão e dois detetives. Segui o corredor até chegar a uma porta que levava a uma corretora de seguros. Um gabinete comum, ao menos o que gostaria que parecesse mesmo conhecendo o grupo, não conseguia imaginar a renda que ele obtinha, certamente que vinham do trabalho ilegal, mas era uma quantia quase incabível em uma conta.

Já era tarde, final da tarde, o céu mostrava-se limpo, mas apresentava um belo céu laranja. As ruas estavam movimentadas. Certamente a abertura comercial de Burtchendill ao mundo expandiu o fluxo mercadológico nas capitais, com isso eu arrecadava mais impostos e o próprio rei o fazia também. Mas não me pus a admirar as pessoas, não havia tempo para tal. Entrei no primeiro taxi que viera e ordenei-lhe que seguisse à minha casa. Quando cheguei, ordenei aos criados que preparassem o jantar.

Após algumas horas Thomas chegara. Fui recebê-lo pessoalmente. Trajava um fino terno, Sofia usava um belo vestido de noite vermelho.

— Entrem. — Pedi-lhes ao abrir a porta.

Caminhamos até a sala de chá, Carmelia já aguardava apreciando a bebida, estava vestida casualmente, nem mesmo eu esperava um figurino como o deles.

— Perdoem-me a simplicidade de nossas vestes, não acreditávamos que viriam com tal formalidade, afinal, por mais peripécias decorridas há pouco, não negaria que somos próximos.

— Não creiais que estamos menos próximos, mas não deveríamos jantar com o Duque-Marquês trajados como a plebe. — Respondeu Thomas. — Mas estou demasiadamente desapontado, não nego.

— E nem deve evitá-lo, compreendo meu erro e aceitarei a punição do conselho e também a tua.

— Não o farei, não possuo tal direito.

— Algo me incomoda, desculpe-me. Vou trocar-me de roupas, peço que aguarde, sintam-se em casa e bebam o chá, há, por sua vez, o álcool está na prateleira.

— Não o faça. — Pediu Thomas.

— Venha Carmelia, vá ao teu quarto e apronte-se adequadamente.

Deixamos os convidados à deriva e eu segui ao meu quarto, abri o guarda-roupas e pus-me a escolher meu melhor terno. Despi-me e logo trajei-me de acordo. Desci à sala novamente, Carmelia ainda não retornara.

— Não era necessário. — Proclamou Sofia.

— Não seria de acordo recebê-los de maneira desleixada. Vestimo-nos de acordo, entretanto, deixemos as formalidades de lado e aproveitemos o jantar.

A noite dava-se estrelada e iluminara as ruas, a lua escondera-se e não se mostrava prata, era lua nova. O vento sibilava e entrava pelas frestas abertas da janela. Sobre o console descansavam as louças e o bule com chá de maçã. Sentei-me na poltrona à frente dos convidados, relaxei meu corpo e servi-me um pouco de chá.

— Primeiramente desejo desculpar-me adequadamente. — Aposentei a xicara sobre o console e ajoelhei-me em frente a Thomas e a Sofia.

— Não é necessário. — Disse ela.

— Não mesmo. — Corroborou Thomas.

Um criado entrou na sala e anunciou o jantar. Decidimos então encerrar a conversa e dirigirmo-nos à mesa.

— O que acham de irmos à inauguração da M&M logo depois de jantarmos? — Perguntou Sofia. — Creio que os assuntos importantes já hajam acabado.

— Perfeitamente. — Corroborei. — Mas devo-vos uma, tanto a ti, Sofia, quanto a ti, Thomas. — Continuei. — Ao jantarmos chamarei o carro.

Jantamos e como sugerido seguimos ao carro. Entramos, mas fora preciso outro carro, acompanhei Thomas enquanto Carmelia acompanhava Sofia em outro. A noite dava-se estrelada e levemente prateada. Ao chegarmos deparamo-nos com uma grande festa. Não imaginara que fosse como tal. Os convidados poderiam até mesmo disparar com algumas armas. O muro que cercava a fábrica possuía quatro metros de altura, o portão de aço bem guardado por duas guaritas. Passando por ele havia uma pequena alameda que se dividia em outras e levava aos destinos. A festa ocorria logo à frente do galpão de testes. Não mudava desde a primeira vez que testara uma arma. Dirigimo-nos próximos aos organizadores da festa e cumprimentemo-los, Logan e Hantz já estava lá e nos cumprimentaram de volta, não podíamos falar com eles, estavam demasiado ocupados.

— Ande comigo. – Pedi à Carmelia que encaixasse no meu braço.

Thomas fizera a mesma coisa com sua filha. Seguimos adiante até chegarmos aos estandes de tiro. Ao que parecia os nobres estavam relutantes em brincar com as armas, talvez fosse relutância de manchar a imagem. Isso facilitara a passagem e chegamos à mesa mais rápido.

— Acompanha-me? — Perguntei ao Thomas. — Carreguemos três cartuchos e vemos quem marcará mais pontos?

— Acompanho-te, mas sabes bem que sou treinado.

— Não importa, também treinei, mesmo que há muito tempo. Felizmente com a fábrica poderei vir mais vezes sem dar satisfações.

Carreguei o rifle similar ao que eu possuía e aprontei-me para disparar. Thomas escolhera a mesma arma.

— Qual distância? — Perguntou Thomas.

— O que acha de trezentos metros?

— Que seja então.

Posicionei-me despojadamente como é confortável e possível em disparos desportivos. Alinhei a alça e a massa de mira e mirei ao alvo a cerca de dez centímetros acima do alvo e dois à esquerda. Disparei. Apesar do modelo ser o mesmo do meu, esse era mais preciso, devido a isso errada o primeiro disparo. Thomas acertou e comentou. — Apesar da patente ser a mesma, melhoramos seu cano, o antigo cano de alma raiada possuía 200° o novo apresenta 270° de ângulo do raio. Um protótipo está sendo projetado e acreditamos fazê-lo com 370°.

— Entendo, desejo poder trocar o cano, mas continuemos então.

Alinhei a alça e a massa com a metade das medidas anteriores e apertei o gatilho. Acertara exatamente onde mirara, mas eu sabia que fora sorte, a precisão dessa arma, apesar de boa, não era muito boa se comparada com as que possuo hoje. Tentei o mesmo disparo a terceira vez, mas como a precisão dela a cem metros era três centímetros, a trezentos poderia ser aproximadamente de 8 a 10 centímetros. Com isso acertei quase fora da primeira esfera do centro. Thomas acertara todos os disparos

— Pois bem, perdi.

— Certamente, mas admito que fora um bom disparo, o segundo.

— Obrigado. Daniela acertaria facilmente.

— Ela fora uma boa mulher.

— Sim, fora.

— Devo dizer-te que os poderes do grupo estão desapontados contigo.

— Sobre minha quebra de palavra?

— Talvez, mas não te reconhecem como um firme membro, tu procuras a política e não fazes o papel de caçador.

— Então devo arriscar-me? Talvez estejam procurando livrarem-se de mim?

— Não acredito nisso, senhor. Creio ser algo que paira na esfera baixa do grupo, o senhor entrou há pouco e tens tal patente, major. Alguns caçadores estão revoltados e pedem que ao menos cumpra os deveres corretamente.

— Não os culpo, certamente eu não haveria errado o disparo se estivesse preparado para a batalha. O cargo que ocupo é adequado, infelizmente os comandantes dos Black Night subestimam-me demasiadamente. Ou sabem que eu não posso avançar além dessa patente. Imagine que irônico, um grupo que caça vampiros sento controlado por um. Compreendo essa preocupação, mas digo-te mais, eu não desejo estagnar-me no cargo de major. Sou o Duque-Marquês. Estou abaixo apenas do Grão-Duque, da rainha, minha mãe, e do rei.

— De fato, sei perfeitamente que entrastes no grupo apenas pela vingança, mas tenha paciência e faça como os oficiais mandam. Preferi dar-te a notícia ao que dessem por terceiros.

— Farei, mas adianto-te que eu viverei mais que tu e que os comandantes, esse grupo não poderá escapar-me das mãos.

— Isso não foge do meu conhecimento, apesar de que, sejamos sinceros, seria prazeroso adquirir mais informações sobre o tal Drácula.

— E querem um peão a fim de o fazê-lo.

— Ao que parece, sim, mas convenhamos, esse pseudônimo é muito deselegante.

— Realmente, parece uma piada. Apesar de tudo, os membros ao redor de mim são os que confio, tu estas nessa roda.

— Estou lisonjeado.