Memórias de vidro

28 Em quem pensas quando atira, Edmund?


— Devo confessar que as obras estão uma semana atrasadas. — Proclamei.

— É visível. — Concluiu Dias. — Mas estão dentro do previsto.

— Certamente, pois bem, discutamos então as propostas, tenho compromissos e dispenso os cortejos. — Pedi. — Escolhi dois candidatos a fim de preencher a vaga de vise diretor da fábrica, Branca e Dias. Far-vos-ei uma votação a fim de que escolham.

— O cargo fica com Dias, tenho muitos afazeres, não suportaria outro.

— Entendo, concluímos então a primeira etapa da reunião. Dias. — Voltei-me a ele. — Ocuparás o cargo, contudo, apresentar-te-ei os projetos de gerencia em outra ocasião.

— Perfeitamente. — Corroborou.

— As obas, felizmente, não estão atrasadas no setor ferroviário. — Disse o chefe da ADC. — Quando aos trechos inacessíveis, contratarei a construtora do senhor Isaac Horse.

— Por qual motivo contratará uma construtora? Já o fazes. — Perguntou o chefe de logística.

— Meu setor não abriga ruas e asfalto, minha construtora trabalha apenas com edifícios e casas. O senhor Isaac está em processo de monopolização, senhores, não esperávamos que viesse com tanto dinheiro e comprasse as empresas que administravam as ruas de Burtchendill.

— Compreendi. — Calou-se o chefe da logística.

— Confiemos na palavra do chefe da ADC. — Pediu Dias. — E quanto aos materiais? São realmente caros, e quase em sua totalidade, são raros.

— Terminemos a estrutura física do local, logo em seguida verificaremos a disponibilidade dos orçamentistas, a propósito, gostaria de ouvir a palavra que o rei pronunciara sobre os custos poupados.

— Apenas sorriu. — Disse Branca delineando um semblante desinteressado. — Apenas sorriu e continuou seu trabalho.

— Entendo, deduzo algo que gostaria de dizer-te. — Alertei-a.

— Como queira, eu adoraria saber o motivo de ter vindo, pois não tenho papel algum nesse projeto

— De qualquer modo, voltemos aos planos. — Pediu Dias. — Vejamos já os números de funcionários operadores nas fabricas e de distribuição.

— Acataremos o mesmo modo dos correios na logística, mas quanto a produção, pesquisarei as fábricas modernas e montarei um modelo. Sugiro que os senhores façam o mesmo, para que no próximo encontro, quando as obras estiverem na metade, discutamos isso. Quando a lei e a constituição, deixem-nas comigo e Branca.

— Com os senhores? — Indagou Dias. — Isso não seria algo coletivo?

— O senhor pode sugerir algo, mas infelizmente é um ministro da saúde, qual equivale ao cargo de Conde. Não tens poder para promulgar leis, apenas sugeri-las.

Seus olhos abriram-se diante da afronta que recebera, mas manteve-se quieto e firme. — Como queira.

— Quando aos veículos, deixemos isso aos encargos do chefe de logística.

— Pediria se não me desse. — Corroborou sorrindo.

— Branca, elabore as leis e marquemos um dia a fim de discutirmos.

— Como queira. — Consentiu. — Mas já disse que estou demasiada ocupada, posso não ser de muita ajuda.

— Serás sim.

— A publicação da propaganda estará pronta quando? — Perguntou o chefe da ADC.

— Ainda não foram cogitadas as datas, acredito que não tão logo.

— Entendo.

— Cavalheiros, lembrei-me de outro compromisso. Devo abandoná-los. — Disse Dias levantando de sua cadeira.

— Não nos abandona, acabamos aqui, até o próximo momento, senhores, cortejei-os.

— Vamos ao parque, Branca? — Perguntei.

— Vamos.

Dei-lhe o braço e partimos. O céu estava claro e mostrava-se sem nuvens, fazia calor e uma brisa calma sibilava entre as ruas e as vielas estreitas dos arredores. O parque não ficava muito longe, caminhamos alguns minutos até chegar. O sol fazia a grama brilhar e as flores apresentarem suas cores fulgentes. Era um dos raros dias de sol em Morryes. Sentei-me no chão e Branca sentou-se ao meu lado. Ambos deitamos sem preocupações.

— Entendo por que motivo posso sair despreocupada do palácio, sempre tive a sensação de ser observada.

— E estás há muito tempo. Não por ordem minha, mas alheias a meus poderes.

— E tu tens poderes nesse grupo?

— Sou major, a hierarquia é quase como a do exército.

— Então eu seria uma Coronel se entrasse. — Sorriu alegremente enquanto suspirava. — Acreditei guardar um resquício de amor ao rei, mas nem mesmo lembro-me de como era quando o amava, Edward fez-me esquecer o rei totalmente.

— E estás com ele por conta da promessa que fizestes?

— Exato.

— Entendo. Parece que estás fadada a viver o resto da vida com alguém que não amas.

— Sensível da tua parte, faltou dizer-me que ainda saio espalhando, mas confesso que não gosto, a rebelião poderá fazer-me escapar desse casamento

— Andas bem informada.

Seu rosto empalideceu. — Parece que sim, afinal, sou o serviço de inteligência.

— Perfeitamente, não espero menos de ti.

— Como tua mãe, ainda acho bobagem a vingança, mas tu não podes inquietar-se quanto a transformação, embora, pareça que a minha opinião, que antes já não era útil, tornar-se mais ineficaz do que já fora. Não te culpo e não peço que pare. Mas sejas cauteloso

— Compreendo perfeitamente, mas até mesmo minha própria mãe atirou em mim. — Provoquei-a e sorri.

— Venceu-me nessa, admito. Mas não esqueçamos do que digo, pois terei que lutar contra ti, mesmo estando do teu lado, não posso trair o rei.

— Entendo, até mesmo sabes o que comi ontem, acredito.

— Não paras de provocar-me?

— Descontraiamos um tanto, nossas vidas andam muito tensas. Relaxe, sinta o vento e a brisa fresca, rara nessa época.

— Tens razão, guardemos as desavenças e rivalidade para depois. Há tempo que não aproveitamos um dia juntos.

— O que acha de irmos a um restaurante?

— Qual sugere?

— No grupo de fabricação de armas há um imigrante japonês que recomendou sushi, o que acha de comermos?

— Nunca experimentei, estou curiosa.

Levantamos e pedimos um taxi no ponto de taxi dentro do parque. O que o japonês disse era um restaurante, era uma pequena porta na fronteira do subúrbio com o centro. Passara muito tempo desde a última vez que fora à essa região, quando comprei minhas duas pistolas, ainda estava acompanhado da Daniela. Nada mudara, a não ser pelo fato de alguns sorrisos aparentes e conversas fiadas, era domingo, o rei promulgara uma lei que fazia o país não trabalhar aos domingos, exceto hospitais, farmácias, polícias e bombeiros. Era, certamente, uma forma de acomodar os trabalhadores, o rei temia, apesar de não o parecer fazer, uma revolução bolchevique em Burtchendill. Outro motivo dos sorrisos eram os empregos gerados pela M&M, tanto pelas obras de construção, quanto o funcionamento da fábrica, e, as obras do teatro, que, por sua vez, estavam na metade.

O restaurante japonês era pequeno, na fachada havia algo escrito com os kanjis do seu idioma. As portas eram de madeira e corriam horizontalmente. Entramos desdenhosos, não comíamos em lugares como esses. Havia um balcão de madeira, e, à sua frente haviam algumas banquetas enfileiradas. No canto do local havia uma mesa com algumas decorações, um gato de porcelana, alguns incensos e outros que não me recordo perfeitamente, lembro-me que o gato se chamava, Maneki neko o gato que convida. Sentamos nas banquetas e nos deparamos com inúmeros pratos com peixes crus e arroz branco.

— O que desejam? — Perguntou o cozinheiro logo após de pronunciar algumas palavras que não entendi.

— Recomendaram-me esse restaurante, o que sugere a alguém que nunca experimentara a culinária japonesa? — Perguntei.

— Vejamos. Prepararei algo leve. — Sacou uma Katana de aço polido, não possuía guarda, seu cabo era preto.

— Bela espada. Poderia vê-la? — Perguntei.

— Não surpreendeu? — Fora isso que os pequenos e puxados olhos do cozinheiro disseram. — Devem ser gangster. Se querem dinheiro, desculpe, não o tenho.

Peguei a espada e examinei-a superficialmente, eu não entendia sobre armas brancas, depois de iniciar meus treinos com armas de fogo, estudei os mecanismos delas. Devolvi-lhe a espada e esperei que iniciasse o preparo. Não recordo como fora feito, as habilidades do cozinheiro eram além do padrão culinário europeu, possuía agilidade e pressão, não demorou até o prato estar pronto. Hoje aprecio o sabor leve e fraco da comida japonesa, mas confesso que quando experimentei pela primeira vez, senti-me mal, não posso descrever outra sensação a se não outra ao enjoo e vontade de vomitar o que havia e o que já não havia comido.

— Perdoe-me. — Pedi enquanto bebia saquê. — Não sou acostumado com preparos assim.

— Não problema, tu não é o único que fez isso, digo que logo quando abri o restaurante, quase fechei por acreditar que minha culinária era indigna. Sempre que os alguém vinha aqui quase vomitavam comida, mas fui alertado que eu não era o problema. Bem.... Mas a mulher do teu lado parece gostado.

— Realmente. — Corroborou Branca. — Apesar da aparência do local, tua comida é boa.

Não pude deixar de notar a mão do cozinheiro fechar-se sobre a coronha da Katana embainhada. — Perdoe-me a humildade do meu estabelecimento que conquistei com esforço.

— Gostei de ti, meu caro japonês. — Disse Branca. — Não tens medo de enfrentar a rainha do país o qual te abriga, parece muito corajoso, admito.

O rosto do homem empalideceu, e sua mão escorregou da espada e deixou-se relaxar, até mesmo seus olhos pequenos abriram-se e uma gota de suor escorreu pela testa. Porém, surpreendi-me diante a postura firme dele, sua cultura não permitiria pedir fraquezas.

— Dê-me outro prato. — Disse ela sorrindo. — Adorei a comida. Não.... Dê-me outra obra culinária. O sushi é bom, mas não comerei muito, experimentarei um pouco de tudo.

— Sugiro o salmão com shoyo.

Durante alguns minutos fiquei a admirar Branca sorrindo. Nunca vira um sorriso como esse nela, era como uma criança aprendendo algo, havia quase dois anos que eu e Branca brigávamos e não éramos mais como mãe e filho. Mas não durara mais que alguns minutos, retirei o relógio do bolço e anunciei que deveria ir a um compromisso.

— Vá então, Edmund. — Disse Branca. — Mas não esqueças que somos inimigos, ao menos por hora.

— Entendo. Acompanhe-me, levo-te ao palácio.

— Não há necessidade, obrigado, continuarei aqui e aproveitarei o momento a sós com esse senhor, e, o interrogarei.

— Acredita que haja ligação entre ele e o grupo?

— Sim, afinal, não posso deixar de trabalhar, dei-me ao luxo de folgar por que gostei do nosso passeio. Diga-me, Edmund. Acreditas em mim?

— Por que não acreditaria, por sermos inimigos?

— Somos inimigos perante a lei, mas eu deixaria o rei e entraria no grupo, afinal, sou tua mãe.

— Não te reconheço, perdoe-me, mas essa mudança comportamental, o que ocorrera entre tu e o rei? Posso adiar o compromisso.

— Venha, vamos beber então, mas jure que não contará a ninguém o que contarei.

— Preocupa-me, juro-te pelo meu sangue que não apodrece.

Sentei-me no lugar que estava e pus-me a ouvi-la.

Quando me contou o que se passara em seu passado e seu presente com o rei, compreendi que o passado fora belo, mas o presente era monótono e carrasco.

— Parece que precisas relaxar, vamos à M&M disparar com algumas armas.

— Sabes que não gosto, além disso não gosto de lembrar que disparei em ti.

— Esqueça isso, apenas te provoco lembrando-te, A propósito, estás com a pistola?

— Sim, com a munição especial.

— Perfeito, realmente a tua segurança é forte, não fora vítima de atentados.

— Tenho sorte apenas. Mudei de ideia, temo que o país colapse e minha segurança seja afetada. Vamos à fábrica.

Saímos do restaurante e buscamos um taxi, pedimos que nos levasse à M&M. Ao chegar passamos pela portaria e seguimos ao gabinete do Logan.

— Desculpem-me pela demora, ao que devo a honra da visita pessoal da rainha? — Disse curvando-se e beijando a mão.

— Viemos testar algumas armas. — Disse-lhe.

— Sem avisar? Estava em uma reunião.

— Deixe-nos ir ao estande e volte a tua reunião. — Sugeri.

— Então logo que encerrarem a reunião encontrar-vos-ei no estande.

Seguimos ao campo, na manutenção das armas estava Morgana, chefe da montagem e supervisora dos testes, limpava e lustrava as armas em exposição. Caminhamos até onde estava e a cumprimentamos.

— Como vai, senhor. — Perguntou Morgana ainda limpando as armas.

— Bem, essa é Branca, minha mãe, viemos experimentar alguns projetos.

— Muito prazer, és uma bela mulher. — Cortejou ela.

— O prazer é meu, minha cara.

— Quais são os projetos na fila de testes?

— Não muitos, estamos tendo problemas com os projéteis que criou.

— Quais seriam?

— Alguns cartuchos não ejetam por conta do cartucho no carregador, estamos projetando armas próprias para esse projetil, e estamos projetando outros projeteis.

— Entendo, parece bom, as armas convencionais em uso poderemos vendê-las mais barato ao governo.

— É o que pensamos em fazer, tu ganharás muito dinheiro, não basta já ser um nobre, criou essa invenção e os grupos ao redor do mundo já o procuram, ainda não o falamos, mas terás parte no lucro.

— Assim espero. — Sorri. — Bem, vamos?

Morgana voltou-se a sua mesa e pegou um rifle.

— Essa é a M&M-LR1921.

— Não falta a nomenclatura de Morryes? — Perguntei.

— Seu nome todo é, Machine & Morryes Long Rifle 1921.

— Entendo, boa jogada.

Era uma bela arma, madeira negra como ébano e pintura preta, o cano era médio e seu sistema era de recarregamento por ferrolho, não fugia das limitações da época, mas algumas melhoras haviam destacado o modelo, a vereda pela qual o cartucho passa a fim de entrar ao cano fora remodelado, alongado, era frequente o cartucho emperrar em alguma peça devido o formato do projetil, fora analisado esse defeito, e, logo corrigido. A alça e massa eram reguláveis por parafusos laterais, além da regulagem vertical já aplicada em modelos anteriores. Engatilhei a arma e disparei sem munição, o gatilho era macio e pouca angulação a fim de liberar a percussão.

— Venho frequentemente relaxar. É melhor que estatelar-me na poltrona no meu gabinete e ler jornal. — Sorri. — Apesar de saber que venho.

— Deixe-me disparar. — Pediu Branca.

— Desculpe, madame, mas ainda não fora testada, não sabemos sobre a segurança no momento do disparo. — Intervira Morgana.

— Compreendo, então dê-me uma carabina.

— Perfeitamente.

Branca empunhou a arma e levou-a à mesa, logo Morgana depositou ao lado da arma alguns cartuchos. Branca sentou-se na cadeira e relaxou o corpo.

— O recuo dessa arma é muito maior que o efetivo da tua pistola, prepare-se bem. Aliás, parece-me que teu ombro esquerdo não anda muito bem, use o direito.

Ajudei-lhe a carregar a carabina. Ela engatilhou e disparou, mesmo mantendo uma postura dura habitual, não escondeu o desconforto do golpe desferido pelo recuo. Mas sua precisão era como a de Daniela, quase profissional. Mesmo havendo contado alguns momentos de sua relação com o rei, sabia que era apenas uma pequena fração do que ocorria.

— Fora um belo disparo, mãe.

— Obrigado, mas é destruidor o impacto do ombro.

— Imagine no seu alvo. — Rimos. — A minha precisão não é muito melhor que a tua.

— Justamente pelo motivo de não treinares regularmente.

— De fato, mas iniciarei os treinos, infelizmente devo iniciar patrulhar noturnas, não devo participar apenas politicamente.

— Ao menos não morres como os teus companheiros. — Disse com um certo conforto. — Eu já fizera o teste.

— Vejo que não tens remorso mais sobre isso, até fazes piada. — Rimos.

— Pois bem, dê-me outra chance de manter firme a arma. — Engatilhou e alvejou a silhueta de metal.

— Como quiser, tens todas as chances que desejar

Disparou inúmeras vezes, enquanto mirava a fim de disparar, em um rápido momento avistei uma marca avermelhada logo abaixo da nuca, a marca estava coberta pelo colarinho do vestido. Quando avistei a vermelhidão pude notar o sorriso delas ao mirar e cochichava algumas palavras que não pude entender ou ler os lábios. Mas em seus olhos fulgentem havia a felicidade.

— Em quem pensas quando atira, Edmund? — Perguntou ela.

— Em alguns que já matei, infelizmente não conheço o semblante do meu procurado, então o que resta é apelas aos que já vera. E tu?

— Em um certo alguém, mas isso não te digo.

— Espero não saber, apesar de já tem um suspeito.

— E quem acha que é?

— Um certo alguém.