Memórias de vidro

29 Já não sei mais o que dizer, afinal, é um monologo.


— Tu não me reconhecerias, nem mesmo sei o que sou e qual é a velocidade da exponencial que perco minha humanidade. Mas o que ainda me torna humano são as minhas lembranças de ti, minha amada Cecília. Amo-te e não deixarei de te amar, bem que adoraria que, como os lobos, tua alma me acompanhasse, quiçá assim pudesse senti-la, mas também não sinto os lobos que me acompanham, os dois filhotes e a mãe loba. Confesso-te que não sou mais um bom homem, tirei vidas, e algumas pessoas já faleceram por consequência dos meus atos, até mesmo ti. Mas as memórias que tenho de ti são as correntes da minha humanidade, porém, Branca é o que mantem meus pés no chão. Sinto que quando ela se for, perderei minha sanidade, por favor, ajude-me a não o fizer. Eu sei que não me escutas e que falo com um corpo morto e inerte, mas desejo vingar-me do meu malfeitor, o homem que malquisto. Desejo vingar-me logo a fim de poder adormecer eternamente ao seu lado. Deixei de acreditar em céu e inferno, pois sei que jamais nos encontraríamos se eles existissem. Há um ano que estás longe, há um ano que estou fadado à vingança. Gostaria de não poder lembrar do momento que suspiraras pela última vez, mas tantas vezes vejo-te repetidamente deixando-me sem ao menos dizer uma palavra. Já não sei mais o que dizer, afinal, é um monologo. Lembro-me dos nossos momentos e ainda lembro de quando te vi a primeira vez, tão reservada e bela, nossa valsa nesse jardim, em frente ao banco que estou sentado nesse momento. Tu prometeste a mim tantas coisas e eu te prometi outras de volta, mas sabemos que não será possível cumprir essas promessas. Veja, minha amada Cecília, já não digo coisas concretas, até quando mendigarei monólogos? Talvez até enlouquecer, não sei até quando meu luto se estenderá, porém, sou imortal, e, meu luto pode desaparecer apenas com a minha morte. Lembro-me que gostavas de rosas, então trouxe uma linda rosa vermelha para fazer-te companhia. Já que a rosa azul que tenho em um vidro repleto de formol não sai do meu quarto. Vejo-a todas as noites e todos os dias, e, lembro de ti, do vestido azul que te vi pela última vez. Recordo-me da saudade que sinto. Mas o que devo fazer? Calar-me e esperar a eternidade passar? Suicidar-me e acabar tudo aqui? Seria cômodo, não acha? Livrar-se tão covardemente de tudo. Mas o que eu deveria fazer além da vingança? Apesar de não ter descoberto importantes informações, o que devo fazer a fim de acalmar esse arfar que quase rompe meu peito? Como parar as lagrimas que derramo, senão por vingança?... Minha amada Cecília, sei que descumpro teus desejos, mas saiba que não deixarei impune quem te tirou de mim.

Levantei-me, fitei o túmulo por alguns segundos mais e dei as costas. A rosa destacava a beleza do jardim que aos poucos tornava-se plúmbeo. Entrei em minha casa e segui ao meu quarto, admirei a rosa azul e lembrei-me dela novamente. — Devo ir. — Pensei. Havia um encontro de líderes que deveria ir, então levantei-me e segui à rua.

A neblina nas ruas estava densa e o breu pálido trazia-me paz. As ruas estavam desertas, caminhei calmamente na calçada até encontrar-me em um cruzamento, não havia carros vindo. Mas quando pisei na rua pude sentir em meu peito um forte golpe e logo depois pude ouvir um grande ruído. Nem mesmo pude avistar a luz ou o rosto do atirador, o rifle era de grande calibre, fora um ferimento além do que eu suportaria, estatelei-me ao chão e fechei os olhos. Avistei a miragem de Cecília e desmaiei. — O que diria quando a encontrasse? – Pensei.

Ao abrir os olhos e sorri consolado, ainda estava vivo, e, via a turva neblina esconder o céu. Meu sangue começou a preencher as frestas dos paralelepípedos da rua e escorriam até o bueiro. Infelizmente o projetil acertara meu coração, estava perdendo muito sangue, em conseguinte, não me movia. Entretanto, não me vi desesperado ou abatido. Nem mesmo feliz, apesar do sorriso. Não lembro ao certo, mas fora por ironia. Senti minhas pernas dormirem e depois os braços, meu nariz e minhas orelhas ficaram geladas, senti-me fraco. Certamente morreria se o projetil fosse com sangue de lobo, mas apenas era chumbo que acertara meu coração. Compreendi que deveria fechar os olhos e esperar a neblina dissipar-se e alguém levar-me ao hospital.

Mas logo senti-me sendo arrastado por duas pessoas que agarravam meus ombros e puxavam-me, estava inebriado e entorpecido, não pude reconhecer os homens que me agarravam. Jogaram-me dentro de um caminhão e partiram. Não me recordo claramente do que ocorrera nesse caminhão, balançava devido aos paralelepípedos das ruas. Não reconheci nem mesmo suas falas, faltava-me sangue, senti frio e minha respiração pesada. Tentei não desmaiar, porém, o caminhão parou e eu fora arrastado novamente para fora e depois pelo chão levaram-me a algum lugar, o chão era duro e informe, levemente úmido.

Amarraram uma corda nos meus pés, senti haver um peso a mais, certamente, era um peso de aço. Logo senti a água, e, logo engoli-la até meus pulmões se encherem.

Era um azul pálido e triste, mas belo e singelo. Fechei os olhos lentamente e apreciei a ondulação andes de ser aprisionado na escuridão.