Memórias de vidro
30 Pois não há um dia em que veja o céu plúmbeo e não me recorde dela.
— Há algum tempo que não corremos com cavalos. O que acha de irmos?
— Quero, pai. Vejamos, o que podemos apostar?
— Quem será o culpado pelos machucados de hoje. Quem perder assumirá a culpa. — Sugeriu Edward.
— Fechado.
Montamos nos cavalos e trotamos até um campo de soja, estava sem plantações por não estar na época do plantio. Recordo-me do céu claro e azul, o vento sibilava e tocava-me com uma brisa refrescante. No campo havia uma estrada de terra e um casebre de madeira há dois quilômetros da vereda da qual estávamos. Posicionamo-nos para a partida. Edward pegou uma moeda e disse.
— Quando ela cair ao chão, começaremos.
Jogou a moeda há alguns metros de distância e em uma altura razoável. Aguardei euforicamente enquanto a moeda percorria a parábola. Quando caiu no chão arrancamos. O vento fizera-me perder o chapéu. A poeira da qual eu era vítima vinha dos passos rápidos do cavalo do meu pai cuja a montaria era boa. Vi ele distanciar-se mais e mais e eu vê-lo menos por conta da poeira. Sem notar um grão de terra entrara no meu olho direito e consequentemente levei as mãos ao rosto, mas não havia soltado a sela. Desmontei do cavalo, não do modo tradicional, com ele parado, mas sim de modo que ele corria. Estatelei-me ao chão e rolei por alguns metros até parar. Sentia todo meu corpo doer.
Apesar de estar preocupado, veio de encontro e disse.
— Já cansou? Branca corre melhor que ti.
— Ajude-me. — Pedi.
Deu-me a mão e puxou-me, ajudou-me a ficar em pé. Saímos da estrada e sentamos na grama.
— Por falar na Branca, que mulher, conquistadora, belo sorriso e um cruzar de pernas sedutor.
Nessa época eu não sabia a história de amor, ele sempre falava coisas de sorrisos e cruzares de pernas que o seduziram, até hoje não entendo o motivo, mas recordo-me de meu pai como um bom homem, divertido e alegre, Branca não deixará isso escapar no seu diário, mas era o contrário ao rei, que por sua vez era sério e reservado. Contudo o triangulo amoroso terminara com a escolha do Edward, felizmente.
— Machucou-se muito? — Perguntou ele enquanto admirávamos a paisagem.
— Não muito, foram arranhões e alguns hematomas, mas acredito que tu ficarás pior depois.
— Quando Branca perguntar o que se passara contigo, sim, saiba que deixo meu testamento e nomeio-te como herdeiro. — Sorriu.
Sempre que lembro dos momentos que vivera com meu pai abro um sorriso, por mais que esteja em um momento triste. Era um bom homem, realmente. Ainda hoje culpo-me por não haver intervindo sua viagem, seu desejo de bordejar pelo atlântico seria prazeroso apenas sob a estadia do Titanic. Depois disso, retornamos para casa. Fomos recebidos por Branca, ao ver os meus ferimentos e minha roupa rascada, voltou os olhos ao Edward e fuzilou-o com seus olhos frios e fortes.
Uma criada levou-me ao banheiro e medicou os ferimentos.
Era um ótimo pai e um bom amigo. Realmente, sinto saudade.
Mas essas memórias tornaram-se opacas e eu fora tomado novamente pela escuridão.
Não sei por quanto tempo durara essa escuridão, mas estendeu-se como uma eternidade. Até quando Cecília voltou às minhas lembranças e preenchera esse lugar.
Era um dia calmo e acinzentado, as nuvens preparavam-se para chover. Estávamos sentados no sofá do meu gabinete. Admirava ela dormindo em meu colo. A luz aveludava seu rosto branco como mármore. Seu vestido Preto contrastava com sua pele e destacava seu cabelo, tão negro quanto ébano. Dormia levemente, singela, parecia sonhar com as canções destinadas à Euterpe. De vezes em vezes ela sorria e aconchegava-se no meu colo. Afaguei-a tranquilamente enquanto sentia esse frio agradável, que fazia ela arrepiar-se. Acariciei seu pescoço e sorri ao notar a reação. — Ed. — Disse ela dormindo.
Uma criada entrara e quando ia falar algo. Sinalizei que se silenciasse. Ela olhou-me e sorriu. Ainda não éramos casados. No início estava relutante, porém, quase toda a relutância esvaiu-se ao vê-la a primeira vez, e, quando valsamos no jardim talvez fora esse o momento que me apaixonei; não, talvez aí dera a chance, pois apaixonei-me mesmo no nosso primeiro beijo. Provavelmente ela descobrira o quanto já a amava quando leu uma carta que eu escrevera, não a alguém, mas a algum lugar. Jogá-la-ia em um lago, era o que desejava. Nessa carta havia algumas linhas que abrira seu sorriso e deu-me um beijo apaixonado.
"Bem... Despeço-me da formalidade de dedicar essa carta, pois a quem seria ela senão a minha amada?
Mas minha querida Cecília, desde que te vera a primeira vez, senti meu peito esvaziar-se. Apesar de haver mantido a pose e a cordialidade contigo e Elizabeth, não me cabia saber que tu passarias a eternidade ao meu lado, mas sabe, ainda tinha medo de não ser algo que ambos aprovássemos, pois, amo-te desde nossa valsa, desde nosso beijo. Certamente peguei-te de surpresa, nem mesmo eu pretendia, mas tua beleza é feérica, nem mesmo Helena seria comparável a ti. Amo-te e amo-te como minha mulher, a quem verei acordar e adormecer, a quem verei nua em minha cama e a mulher que dará as mãos aos nossos filhos. É pretencioso imaginar um futuro assim, não é mesmo? Eu sei, mesmo que não demonstre reciprocidade, escrevo essa carta a ti, mas quem lê-la-á será o vento, ou a água de algum riacho, pois falta-me coragem de dizer o que escrevo..."
Felizmente não pude terminar a carta, ela mesma entrara no quarto a fim de chamar-me, mas encontrou-me escrevendo tais linhas. Amacei o papel e joguei-o no cesto de lixo. Sai na frente e acredito que ela pegara o papel sem eu ver. Sei que lera a carta, pois disse. — Não jogues palavras tão bonitas ao lixo, dê-as ao destinatário, que não será mais a água ou o vento. Pode ser eu mesma. — Sorriu.
Ela ainda dormia, a criada retirou-se andando com as pontas dos pés. Uma brisa fria entro pela janela e fizera com que Cecília delineasse uma preguiçosa careta mexendo o nariz. Mas o devaneio fora perfeito demais para ser feliz....
Tão perfeito que não fugira da realidade e mostrou-me outra vez Cecília definhando nos meus braços. Sua expressão de desespero e angustia, apenas agarrara meu casaco e estatelou-se em meus braços. O sangue que escorreu de sua boca, escorrera lentamente por seu fino pescoço e caminhava ao trapézio, o ferimento causado pelo punhal tingia o vestido azul com o mais rubro dos vermelhos.
Não sentia mais seus batimentos e não poderia mais acariciá-la e ouvi-la dizer meu nome enquanto dormia. Abracei-a e cai aos prantos no momento em que contatara sua morte. Abracei-a tão apertado, tão apaixonado. Sentia aos poucos ela esfriar e sua pele lívida como mármore tonalizar-se com um leve lilás-azulado. Sentia seu corpo inerte e mole. Bradei aos céus profundas blasfêmias. Pois não há um dia em que veja o céu plúmbeo e não me recorde dela. Ou quando desperto e ela não está ao meu lado.
Em seu funeral, quando seu caixão se baixava, a cada centímetro eu derramava mais e mais lagrimas. Quando finalmente tocara o solo, estatelei-me ao chão e chorei como um homem que perdeu seu bem mais precioso. Elizabeth desmaiara e fora levada ao hospital. Eu fiquei no mesmo lugar, proibi alguém me perturbar. A garoa que começara a cair fizera o trabalho dos amigos. Levantei-me caminhei pelas alamedas do cemitério, sentia a garoa leve e pacifica encharcar-me aos poucos. Cai de joelhos há alguns metros da cova dela e a querela com o destino possuiu-me soquei a terra gramada com todas as minhas forças, deitei na grama e acabei por adormecer por alguns minutos. Despertei no carro, ao lado da Daniela e da Lili, ela estavam com a cabeça baixa e ainda aos prantos.
Novamente fora consumido pela escuridão e voltei a minha prisão. Esse cárcere solitário do qual minha imortalidade ostentava, não se permitia morrer ou regenerar-me. Dei-me conta do quão pequeno era e o quão miserável estava. Havia um ano que Cecília fora assassinada e eu não fizera progresso em descobrir o mandante. Foram longos segundos, eram como horas lembrando de cada momento da morte dela, e logo a da Daniela, da culpa que tinha por isso. E imaginei-me assassinando o mandante.
Ouvia em alguns momentos o som opaco da chuva e o fluxo da água. Eternamente, fora uma pequena eternidade que eu vivera nesses onze meses.
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