Memórias de vidro
31 Preciso de ti. És meu bem mais precioso.
Era três e quarente e nove da tarde do dia dois março de 1922. Isso fora o relatado no meu laudo médico quando despertei.
— O senhor recuperou-se rapidamente. — Disse o médico. — O transplante sanguíneo forneceu-te um milagre.
— Obrigado.
— O senhor irá retornar a Morryes, senhor Edmund?
— Sim, retornarei e encontrarei o criminoso.
— Finjo que nunca escutara isso.
— Faz bem. Vou-me agora. Despeço-me de ti, agradeço a hospedagem, a propósito, diga ao pescador que lhe recompensarei a ele e a ti.
Sai da sala de consultas do médico e dirigi-me à saída. Lá havia um taxi que me levaria a Morryes. Entrei e ordenei-lhe a partida. Certamente eu havia desmaiado no caminhão, o caminho era maior do que havia recordado. Durante a viagem não deixei de pensar no pescador que me salvara. Conheci algum tempo depois. Um homem simples que pesca peixes e vendem em um mercado em uma vila.
Após duas horas, cheguei em Morryes, ordenei que me levasse a minha casa. Estava como sempre fora, apesar de ter ficado onze meses ausente.
Bati na porta e a governanta atendeu. Seu rosto delineou uma expressão boquiaberta, seus olhos arregalaram-se e quase sofrera de um ataque cardíaco. Entrou gritando.
— Venham, venham, nosso senhor retornou. — Não sei reproduzir a euforia que lhe consumira nesse momento.
Sentei-me no sofá e pus-me a esperar a recepção. Primeira a vir fora Carmelia. Lagrimas saltavam dos seus olhos, seus lábios estavam trêmulos.
— És tu mesmo? Não és um fantasma? — Soluçava e não disfarçava seu rosto. — És tu mesmo, achei que houvessem te matado. Estava desiludida.
— Agradeço tua preocupação. Pois bem, estou vivo.
— Há tantas coisas que quero contar. — Abraçou-me desesperadamente, um abraço tão forte e quente, tão vivo e apaixonado.
Levantei-me e segui ao meu aposento, trajei-me adequadamente e retornei à sala. Carmelia ainda esperava sentada no sofá.
— Apronte-se, vamos sair, quero saber de tudo que mudou. — Disse-lhe sorrindo.
— Logo volto.
Sentei-me novamente e esperei-a. Retornou após alguns minutos. Vestia um belo vestido vitoriano vermelho com rendas pretas. Seu cabelo foi escovado e sua maquiagem estava suave e bela. Saímos e entramos no carro.
— Comecemos pelo meu posto de Duque.
Por mais eufórica e feliz que estivesse, Carmelia adotou uma postura seria. — Está sob o meu comando, com o auxílio da Branca. Quanto a fábrica, o vice-diretor assumiu o poder. No grupo não houveram mudanças, a não ser a surpresa do teu desaparecimento, posso perguntar-te a causa?
— Aparentemente foi uma execução. Acertaram-me e lançaram-me ao rio.
— Fora um Werckinberrevich?
— Não, mesmo sob a neblina densa eles podem submeter-se a tal condição por alguns minutos se for mestiço e menos ainda se for puro. Os homens eram bem humanos e fortes, o atirador bem treinado e o lago cuja o meu sepulcro se dera era escuro.
— Desculpe.
— Por?
— Fazer-te recordar desses momentos. — Abaixou a cabeça.
— Não deixarei de lembrar, até encontrar o culpado, não se culpe por isso. — Acariciei seu rosto com calma enquanto olhava-a seus olhos.
Não escondeu seu rosto enrubescendo e seus olhos brilhando.
— O que Branca fez a respeito?
— Moveu, secretamente, todo o corpo de inteligência, mas o rei interviu depois de um mês, era custoso manter a busca, alegou ele.
— Não o culpo, de fato, é caro.
— Mas ela não parou, continuou a buscar informações até mesmo nos prisioneiros dos Black Nightque haviam na prisão. Tentou depois procurar informações com Thomas e Logan, mas também não obteve nada.
Chamei a atenção do motorista. — Leve-me ao bar lua cheia.
— Como quiser, senhor.
Voltei-me à Carmelia e fitei seus olhos novamente, mostravam-me a felicidade. O fulgor casto e puro dos seus olhos destacava sua pele branca e aveludada. Chegamos ao bar, descemos do carro e nos dirigimos à porta. Bati e chamei pela Sofia. Não demorou a abrir. Era ela, sua reação fora oposta de Carmelia, apesar de compartilharem a surpresa, Sofia não esboçara reação, o choque consumiu-a. Abriu a porta lentamente e entramos.
— És tu mesmo?
— Sim exato, Carmelia perguntou a mesma coisa. — Sorri.
— Sente-se. — pediu. — Por onde esteve?
— No fundo de um rio.
— Como?
— Atiraram-me no fundo de um rio a fim de fazer-me desaparecer, mas antes fora alvejado e ferido por um projétil.
— O que?
— Engraçado sobreviver a isso, mesmo eu que já sobrevivi a outras situações mortais, mas nunca ficara quase um ano submerso em um rio.
— Acha que foi um vampiro?
— Não, por alguns motivos, tenho certeza que não. Mas quando descobrir, fá-lo-ei pagar.
— Entendo.
— De qualquer forma, apresentei-me a vós primeiro, à Carmelia e à Sofia. Diga ao Thomas que mandei lembranças e que, se possível, avise o grupo, apenas os oficiais do grupo. Retornarei à minha casa e mandarei que chamem a Branca. Perdoe-me não ficar mais, mesmo depois de tanto tempo.
— A propósito. Como foi ficar em coma? Sonhara?
— Talvez, mas recordo-me de poder pensar livremente em muitos momentos. Era tedioso, odiosamente tedioso.
— Imagino. Sinto pena de ti. — Disse Sofia sorrindo.
— Não preciso de pena, obrigado. — Beijei-lhe a mão. — Vou-me agora, muito em breve ver-nos-emos.
Dei as costas e sai do bar. Entrei no carro e parti. Ao meu lado estava Carmelia, encolhida e com o olhar distante. Segurei a sua mão e olhei-a.
Não demorou até chegarmos. Segui diretamente ao meu gabinete e pus-me a escrever. Redigi uma carta e entreguei ao motorista, ordenei-lhe entregá-la diretamente à Branca.
Aproximadamente após duas horar ouvi batidas na porta, um criado recebeu o convidado e acomodou-se na sala. Logo depois entrei no cômodo, felizmente era Branca, caminhei calmamente até passar por ela. Seu semblante mostrou-se como de Sofia, chocada. Sentei-me no sofá à frente e fiquei em silencio. Mesmo em choque pude ver uma lagrima correr pelo seu rosto.
Após alguns esclarecimentos iniciei a conversa que me interessava.
— Diga-me, Branca. Como a fábrica está sento gestada?
— Normalmente, apesar de com sua suposta morte o contrato que assinei contendo tua condição fora anulado.
— Entendo, então não posso mais assumir a direção da fábrica?
— Infelizmente não. Com o contrato anulado o vise assumiu seu posto com as condições por ele mantidas, seria ele o novo diretor com o mesmo poder que o teu.
— Então parece que nem precisarei investigar esse caso. — Sorri.
— Aparentemente, porém, não há provas contra ele.
— Não são necessárias, após quase todo esse tempo pensando, decidi manter-me nas sombras por hora.
— Parece bom.
— Mantenha Carmelia como minha representante. E finja que não voltei
— Perfeitamente.
— Sou vivo apenas para os criados, o grupo e ti, a propósito, o grupo está se movimentando como?
— Normalmente, achou que sua morte os afetaria? — Sorriu.
— Vejo que se voltou a si. — Sorri-lhe de volta. — De qualquer maneira, quero fazer um pedido.
— O que seria?
— Não morra.
— O que? Por que isso?
— És a única que me mantém humano.
— Queres que seja imortal?
— Pare de bobagens, quero que segure as rédeas da minha vingança, que será desordenada.
— Não diga isso, Edmund, concordo com a vingança, mas seja razoável.
— Razoável? Minha esposa fora assassinada, minha amante deu a vida para me salvar, sou atirado em um rio e permaneço nele durante um ano, queres que seja razoável?
— Quero. Compreendo o que sentes, mas não faças loucuras atoa.
— Nesses onze meses que estive desaparecido, acredito que adormeci apenas dois, os demais recordei-me de memórias e depois refleti sobre o quão a sério estou levando meus planos. Sabe, Branca, não sou mais o bom menino que conhecera e educou, minha querida mãe, passei nove meses no escuro, sem poder abrir os olhos, preso como em uma solitária, esperando o tempo passar sem poder movem um musculo.
— Agora quem deve calar-se é tu. — Levantou-se e caminhou em minha direção. Deu-me um tapa no rosto e abraçou-me com força.
— Há algum tempo que não me abraçava desse modo.
— Eu não criei um homem para precisar disso, mas vi que falhei. Da próxima vem que eu te apontar uma arma, estará municiada com projéteis letais para ti e acertarei teu coração novamente.
Sorri sem dizer nada.
— Duvidas que o faço?
— Já provei da tua coragem, não se lembra?
— Lembro-me com certeza, mas não desejo ter que fazê-lo novamente.
— Entendo, então permito-te que apenas tu e Carmelia apontem uma arma a mim e disparem.
— Fale isso aos inimigos.
— A eles? Nem mesmo eles saberão que vivo.
— Entendo. Mas pretende retornar a público novamente?
— Sim, porém, apenas quando conseguir o cargo de diretor novamente, até lá agirei como minha espécie age.
— Assassinarás humanos?
— Não precisarei desse meio, acredito.
— Assim espero, até quando não possuir o que precisa e agir como um lobo faminto.
— Lobo é? — Escorei-me confortavelmente no sofá. — "Os lobos são os cães dos anjos.", essa é a lenda.
— Entendi, não te farei mudar de ideia, faça o que bem entender. Saiba que te amo, mas farei o possível para segurar-te, se for preciso, até prender-te.
— Espero que não esqueçamos das nossas relações, o que dissestes quando fomos ao restaurante japonês.
— Aquele não é tu, como disse, estás diferente.
— Apenas liberte-se e faça com que seus desejos aconteçam, vingue-se, vingue-se do seu agressor, do rei. Desse homem cuja a beleza disfarça a covardia, o homem que levanta a mão à esposa.
— Como sabes?
— É óbvio. Se pretende continuar com essa rotina humilhante de açoites, não te impedirei, assim como não impedes minha vingança. Entretanto, se quiseres vingar-se, estarei com esse gabinete aberto e elaboraremos um plano.
— Pretende matar o rei? — Perguntou perplexa.
— Pretendo executar o teu desejo.
— Esse não é o meu desejo.
— Diga isso ao espelho cuja o reflexo mostra teu corpo violado.
Deu-me outro tapa, levantou-se e disse. — Não te reconheço, Edmund. — Deu as costas e saiu da sala. Logo ouvi o som da porta, em seguida o carro, e, depois veio o silêncio.
Relaxei meu corpo e pus-me a ler o jornal, realmente nada mudara, as notícias veiculadas eram de crimes, assassinatos, assuntos da nobreza e outras inutilidades. Era noite de lua cheia. As ruas estavam desertas, os postes competiam a luminosidade com a lua. O vento estava frio.
Na manhã seguinte despertei. A luz era clara e passava pelas cortinas, como maléfico que quase sempre era o sol que me acertava nos olhos com a luz matutina. Levantei-me e segui ao banheiro, banhei-me e vesti-me. Fui ao meu gabinete, sentei-me na poltrona e pus-me a ler alguns documentos.
Não demorou e a porta abriu-se, era a governanta, olhou-me surpresa.
— O senhor, acordado? Antes de chamar-te?
— Há dias assim, não é mesmo? — Sorri.
— Certamente, A sim! Gostaria de confirmar a ordem da senhorita Carmelia.
— O que seria?
— Devemos fingir que não vives? Que estás morto? Poderíamos, eu e o resto da criadagem, saber o motivo?
— Politica, e planos. Sabeis-vos do que se tratam, e não mudaram, quão menos dissiparam-se. Ao contrário, estão tão polidos quando o brinco que estás usando.
— O senhor está mudado, nunca notara algo tão vil quanto isso.
— Então também reparara em mim, estou lisonjeado, minha cara governanta. A propósito. Quando Carmelia despertar, diga-lhe para vir aqui.
— Como desejar, senhor.
Concentrei-me em separar os documentos posteriores e anteriores ao meu desaparecimento até a chegada dela. Após quase uma hora ela entrou no gabinete, não estava vestida formalmente, usava um vestido simples de cachemira branca e trajava um sapato vermelho com salto de sapato.
— Desculpe vestir-me assim, mas assim visto-me quando cá estou, quando não preciso de formalidade. Desculpe, por força do abito descuidei-me da vestimenta. Trocar-me-ei agora mesmo. — Deu as costas e caminhou à porta.
— Espere, vista-se como quiser, tens que estar confortável a fim de continuar com o bom trabalho que estás a fazer. Estava olhando os documentos, devo admitir que tua organização é infinitamente maior que a minha e a do antigo Duque. — Sorri. — Sente-se e espere eu organizar os documentos anteriores ao meu desaparecimento.
Assim fez, sentou-se no sofá e olhou-me atentamente. Mesmo não a olhando diretamente, pude notar o sorriso fraco delineado em seu rosto, fraco por tentar disfarçá-lo. Mas falhara, pois, notei.
Após separado os documentos, levantei e sentei-me ao seu lado. Depositei o calhamaço de papeis sobre o console e iniciei o interrogatório.
— Devo adiantar-te que serão apenas perguntas demasiadas chatas. — Sorri. — Comecemos com o tópico das finanças da casa.
— Estão estáveis, com a patente dos projeteis houvera um grande salto nas economias da casa, no natal pude presentear cada criado com algum presente.
— Parece bom, eles gostaram?
— Dei, à governanta, um par de brincos, os quais ela usa todos os dias. Aos rapazes, dei roupas de noite e às mulheres alguns apetrechos de beleza. Não sei se aprova algo como, mas estávamos abatidos por sua suposta morte.
— Achei uma atitude muito digna, faremos todos os anos, e o que comprastes para ti?
— Algumas ferramentas para o laboratório. — Disse esboçando um belo sorriso.
— Isso poderia ter comprado alegando pesquisa, não compraste roupas ou joias?
— Não, na verdade não sai muito mais que o necessário de casa.
— Poderia saber o motivo?
— Herdei uma boa fortuna e um bom título. Duquesa-Marquesa de Morryes. No início saia normalmente, mas sem ti para espantar os cortejos dos rapazes, eu fora vítima de inúmeros. Hoje vou à universidade com um criado e ele espera-me lá. Saio apenas quando sou obrigada.
— Por que não aceitou nenhum cortejo?
— Tu sabes a quem pertence meu coração. — Proclamou levemente irritada.
Sorri calmamente e fitei-a ruborizar por notar o que acabara de dizer.
— Então a patente do projétil rende-nos muito dinheiro.
— Se eu e meu pai soubéssemos, teríamos criado antes. Talvez estaria vivo.
Essas palavras cravaram-se em meu coração, eu fora o culpado pela morte do seu pai.
— Mas não te conheceria. – Continuou ela sorrindo.
Não encontrei palavrar a fim de respondê-la, voltei o olhar aos papeis. Mas ela olhava-me sorrindo, pois até mesmo eu não pude esconder o meu leve e fraco sorriso.
— Quanto aos funcionários, algum demitiu-se?
— Não, no início estavam relutantes em ficar, mas agradei-os e fiz-lhes mudar de ideia.
— Entendo. E os presentes de natal consolidaram a decisão.
— Aprendi a iludir com o melhor, não é mesmo? — Disse sorrindo com o canto da boca. Aquele sorriso que sabe haver acertado o alvo.
— Talvez. — Peguei sua sedosa e aveludada mão, beijei e voltei os meus olhos aos olhos dela e fitei-a sem piscar ou desviar o olhar.
Após alguns segundos ela soltou a sua mão da minha e pôs-se em uma postura ereta.
— A imprensa está impedida de vir aqui, consegui uma ordem judicial com um juiz participante do grupo. Aparentemente estás livre de ser descoberto. O que farás a respeito do mandante do assassinato?
— Vingar-me-ei, mas sei perfeitamente quem o fez.
— O senhor Dias?
— Exato, por esse motivo não posso fazê-lo logo. Esperarei uma melhor oportunidade.
— Compreendi. Se tu o assassinasses agora, poderia fazer-te aparecer nos jornais, certamente seria acusado de homicídio. Então assassiná-lo-á como, sem coincidir com a tua emersão súbita?
— São muitos os meios. — Sorri.
— Veneno?
— Não. Quero sentir a morte dele nas minhas mãos. Mas, veja, minha querida Carmelia. Tenho outros planos também. Mesmo que tu me representes, ajudar-te-ei com os documentos, ainda mais pelo fato de não poder constar minha assinatura ou cargo, principalmente gráfico.
— Então tornei-me quase uma redatora? Mudando o assunto. Lembrei-me agora. Nesses meses nosso poder de fogo aumentos graças aos novos projéteis, porém, as defesas dos inimigos também melhoraram. Apesar de eliminar um Werckinberrevich, o projetil não penetra uma fina blindagem de três milímetros há cinquenta metros.
— A pronta do projetil é móvel, fora construída a fim de penetrar em carne. E como resolveram tal problema?
— Os caçadores usam duas armas, um padrão da sua função, com projéteis normais, e carregam uma pistola, o disparo de misericórdia.
— Entendo, apesar de haver esse empecilho, não parece demasiado urgente. O centro de pesquisa tem projetos em andamento sobre um novo projétil?
— Sim, mas a dificuldade é criar um projétil barato e de fácil construção.
— Dedicarei uma parte do meu tempo em prol desse objetivo. Verificarei a eficácia das defesas do inimigo essa noite, vens comigo?
— Aonde fores. Mas saiba que não é tão simples eliminá-los como já fora, o número de indivíduos está aumentando exponencialmente. Se formos caçar, será preciso uma esquadra com cinco pessoas.
— Entendo, precisamos de três.
— Espere. — Interrompeu-me. — É lua cheia. Talvez devêssemos esperar até a lua mudar.
— Por conta do lobo?
— Sim, seria perigoso se nos encontrasse.
— Poderíamos usar os casacos com prata.
— Eles pesam aproximadamente quinze quilos, eu não posso carregar tal peso por muito tempo. – Estatelou os olhos e esboçou uma expressão desacreditada.
— Então use projeteis de prata, sei que o grupo o fabrica, e que talvez tenhamos guardado em algum lugar no nosso arsenal. Quando eu fora atacado pelo lobo, providenciei alguns projéteis de prata, temia que invadisse minha casa.
Seu olhar mostrou-se relutante. Segurei suas mãos e continuei.
— Não nos separaremos, já que trajarei o casaco, se nos deparamos com ele, servirei de isca enquanto preparas-te para atirar.
— Não posso deixar-te ser uma isca, se fosse contra um vampiro qualquer até aceitaria, mas qualquer coisa que envolva sangue de lobo é perigosa.
— Entenda, minha cara Carmelia, tu entrastes nesse mundo, quero dizer, arrastei-te até ele, perdoe-me por fazê-la viver assim, mas não posso acomodar-me e fingir viver uma vida pacata contigo ao meu lado. Ainda mais uma vida imortal, a qual tu morrerias e eu sepultaria teu corpo.
Seus olhos lubrificaram-se e uma lagrima escorreu pelo seu rosto. Soltou minhas mãos e virou o rosto. — Não diga coisas tão insensatas. — Proclamou.
Acariciei seu rosto e voltei-o a mim, enxuguei suas lagrimas e olhei-a nos olhos. — Não é insensatez, é a verdade. Aceite, verei a tua morte e enterrar-te-ei, pois, sou imortal.
— Então o que farei é tornar-me como tu, imortal. — Sorriu carinhosamente segurando minhas mãos que estava acariciando seu rosto. — Não me importo de abandonar minha humanidade a fim de seguir-te.
— Se soubesses como é não morrer quando o deseja, saberias o quão bela é a vida.
— Mas não me importo, só não quero que vás a procura de inimigos essa noite.
— Vejamos até à noite. — Sorri apertando levemente sua mão. — A propósito. Sinto que desviamos dos nossos assuntos.
— Parece que sim, mas tenho que te deixar, aprontar-me-ei para a reunião à tarde.
— Com quem seria?
— Publicidade do teatro. A empresa do senhor Hantz apresentará seu projeto de propaganda.
— Sinto falta de negociar. — Disse sorrindo.
— Adoro fazê-lo, apesar de que em alguns momentos fico sem saber o que fazer.
— Entendo perfeitamente, além dos blefes a serem usados.
— Exatamente. — Olhou o relógio de bolço e disse. — Devo aprontar-me, logo que chegar encontrar-te-ei. — Levantou-se e dirigiu-se a porta.
— Boa reunião. — Desejei.
— Obrigada. — Saiu e fechou a porta.
O silêncio retornou ao gabinete. Relaxei-me no sofá, suspirei e pus-me a refletir. Se Daniela, a última herdeira da família real, falecera, por que Drácula não deixará de agir nesse pequeno país? Não haveria mais motivos para ficar. Talvez queira ganhar território, Burtchendill nunca fora, em sua história, o lar de tantos vampiros. Talvez ele houvesse perdido seu território e não encontrado outro. Mas para quem poderia ter perdido seu território? Humanos? Werckinberrevichs? Mas fora do país existem vampiros na mesma proporção que aqui? Perguntei-me inúmeras outras perguntas, mas quem seria o meu malfeitor?
À noite terminara de ler todos os documentos. Calculei e planejei o projétil. Mas a lua já começara a ascender ao topo do céu. A luz incandescia prata e iluminava as ruas, talvez mais que os próprios postes. Levantei-me da poltrona e dirigi-me ao meu aposento. Troquei-me de roupa, vesti uma calça de lona, camisa de flanela e uma bota de couro negro. Vesti o coldre e velei minhas pistolas, uma com projeteis normais e a outro com projeteis especiais.
Desci ao porão e abri o armário, onde quadrávamos as armas e munição, peguei uma caixa de metal polido. Abri-a e constatei haver munição de prata, impressionei-me, pois não havia averiguado o material. Não era apenas o projétil de prata, o estojo e a espoleta também eram. Talvez houvesse pó de prata com a pólvora. Isso realmente diminui o poder de fogo e penetração do projétil, mas garantia que a pólvora expelida levasse junto de si o pó de prata ao ar. Era como um sistema de defesa, uma bela obra de arte. Infelizmente havia apenas no calibre do rifle que a Daniela usava. Peguei alguns cartuchos e guardei-os em meu bolço. Peguei o rifle e enrolei-o em um tecido, carreguei todos os carregadores das pistolas, vesti o casaco com prata e sai do porão. Dirigi-me à porta e ordenei um carro.
Após alguns minutos, chegou. Entrei e ordenei-lhe a partida. — Leve-me ao ferreiro. — Partimos.
Depois de trinta minutos desembarquei em frente à loja. Bati três vezes e a porta se abriu. Fora recebido por um senhor de aproximadamente sessenta anos, apesar de estatura baixa, era forte e apresentava músculos como os de um deus grego. Seu rosto era quase escondido por uma grande e volumosa barba, mas o cabelo era bem penteado, apesar de ser coberto por um pano negro.
— Vejo que o senhor não é um nobre qualquer. — Disse sorrindo. — Sente-se e diga o que quer.
Desembrulhei a arma e depositei sobre a mesa. — Corte-a. Retire a coronha, mas mantenha o cabo. Corte o cano e a madeira com aproximadamente vinte centímetros a partir do final do estojo. Mas antes que me diga para repetir, diga-me o preço e o pagarei. Apenas diga-me que faz em uma hora.
— O que está pedindo é quase impossível.
— Faça ser possível. — Proclamei.
— Impossível para um ferreiro comum, felizmente o senhor viera ao lugar certo, posso fazer em quarente minutos.
— Perfeito, faça-o então.
Empunhou o rifle e olhou-o atentamente. — Tens certeza que queres destrui-lo? É uma peça artesanal que, em alguns anos, valerá milhares. Quanto queres por essa arma?
— Infelizmente não está à venda, além disso, o calibre é novo e a munição especial.
— É uma pena, senhor. Mas diga-me, por qual motivo cortar essa arma?
— A fim de usa-la em combate de curta distância.
— Como usa-se pistolas?
— Exato.
— Mas não seria mais cômodo e prático usar pistolas?
Abri meu casado e mostrei as duas pistolas no coldre e ou carregadores cheios. — Não preciso de mais pistolas.
— És um assassino? Um bandido?
— Não, bandido jamais serei, mas assassino, bem, por hora não.
— A sim, entendi. Vingança? — Perguntou.
— Exato.
— Olhe, filho, isso não levará à lugar algum, fiz a minha e não me fez bem.
— E quem fora a vítima? A vingada.
— Minha esposa, assassinada e estuprada por um bandido.
— Minha esposa também fora assassinada, felizmente, não com o mesmo tratamento da tua, meus pêsames.
— Meus pêsames a ti também, mas está a quanto tempo atrás do assassino?
— Do assassino já me vinguei, corro atrás do mandante.
— Há quanto tempo?
— Dois anos.
— Então, nada do que eu diga far-te-á mudar de ideia.
— Certamente.
— Falando nisso, o senhor não seria o Duque-Marquês de Morryes?
— Sim, eu mesmo.
— Bem, ao que parece não morrera.
— Descuido meu esquecer-me da minha mascara, aproveitarei o pedido para que forje uma.
— E como seria ela?
— Deixe-me desenhar enquanto o senhor trabalha.
Avistei uma caneta e um papel sobre a bancada de ferramentas. Peguei-os e pus-me a rabiscar esboços. Após alguns minutos, quando a arma estava pronta entreguei-lhe o papel.
— Será uma bela peça, ao que parece, qual metal usara para fazer os detalhes?
— Prata, a propósito, o senhor tem materiais que possam colorir essa máscara?
— Qual cor?
— Azul celeste.
— Posso fazer a camada de aço e banha-la com um metal mais fraco, mas será azul, como a tonalidade que queres é difícil, porém, chegarei o mais próximo.
— Assim espero.
— Estou perguntando-me algo.
— O que seria?
— Eu não te vi, não é mesmo?
— Adiantaste uma etapa da despedida, parece que não aprecia cortejos. — Sorri.
— Ninguém acreditaria se contasse.
— Contasse o que?
— Que um maníaco me pediu a feitura de um parafuso.
— Deve ser, de fato, estupido... Já que terminaste o trabalho, mande uma carta sigilosa, lerei e enviarei o valor desse parafuso e do que encomendei.
— Como quiser, meu senhor.
Peguei a arma, continuava o mesmo rifle, as mesmas funções, mas era curto e sem coronha, ficara mais leve e fácil de escondê-lo. A alça e a massa foram reguladas, a massa fora deslocada até onde o cano fora cortado. Empunhei-a e segurei com a mão direita. Mirei à parede e apertei o gatilho, estava desmuniciada.
— Belo trabalho.
— Obrigado, mantive um pedaço da coronha para proporcionar-te uma boa empunhadura.
— Realmente boa. Vou-me agora, A propósito, não saia da tua casa em noites de lua cheia, as noites nessas luas são mortais.
O senhor apenas sorriu e abriu a porta, despedimo-nos e sai. Na outra visita descobri que seu nome era Bran Prier, um renomado ferreiro de Morckiaschen. Dono de uma das mais famosas obras metalúrgicas já construídas nesse distrito. Entre outras obras havia projetos de navios, armas brancas e mosquetes, quando eram usados.
A rua estava deserta, em noites como essa os Black Nightfaziam o possível para retirar as pessoas das ruas, afinal, havia uma fera incontrolável vagando pelos becos e assassinando tudo que se mexe.
Caminhava calmamente, olhava as ruas menores a fim de avistar alguém, mas os paralelepípedos refletiam as luzes das ruas desertas, talvez nem mesmo vampiros saíssem para caçar em noites de lua cheia. Caminhei por uma hora até avistar o primeiro Werckinberrevich. Estava sentado em um banco. Usava um casaco, por baixo escondia uma placa de metal, talvez a usasse em todos os membros, mas não havia sentido em todos usarem essa armadura, como lutariam ou correriam? Mais tarde descobri que eram grupos que caçavam, um ou dois trajavam armaduras a fim de servirem de isca para que os aliados fugissem. Surpreendeu-me o fato, pois há honra em alguns. Caminhei na direção do sujeito.
— Com licença, meu senhor, poderia indicar-me a direção das obras do novo teatro?
— Por aquela direção. — Apontou ao norte da cidade. — Vejo que não és humano. Está uma bela noite, não?
— Sim está, uma bela e fulgente lua.
— Tenho medo do lobo nessas noites.
— E quanto aos caçadores, não tem medo?
— Agora que possuímos essas armaduras meu receio diminuiu, porém, ainda o frio na espinha ocorre-me quando os vejo. Confesso que todos ficamos abalados com a descoberta da nova arma deles, ouvi dizer que fora um nobre que a inventou.
— De fato, fora mesmo, mas diga-me, meu caro cidadão. O senhor é um vampiro há quanto tempo?
— Há aproximadamente um ano, mas seria uma história demasiada chata e romântica para essa ocasião.
— Adoraria escutá-la. — Sentei-me. — A noite é tediosa e ouvir uma boa história será prazeroso.
— Não estou fazendo nada também, então contarei.
Posicionou-se e pôs-se a falar.
"Era uma bela manhã no sítio dos meus país. Levantei-me um pouco mais tarde que o normal, fora uma premiação por conseguir uma boa colheita, poderia dormir até mais tarde por uma semana. Mas apesar o céu estava bonito e o pasto verde, senti-me consumido pelo tédio, rolava de um lado ao outro na grama e acabava por suspirar e perguntar-me o que fazer.
Mas algo me chamou a atenção, uma linda mulher, cabelos negros como ébano, sua pele refletia o sol de modo tão ofuscante que parecia um anjo. Um corpo artístico, moldado nos padrões da mais alta classe. Admirei-a de longe. Assim seguiu o reto da semana, ia até onde poderia observa-la, e assim ficava por horas, imaginando um utópico futuro ao lado dela, deitados nos campos de flores, mergulhando em um lago, contando histórias, dizendo os melhores sonhos que já sonhamos, andar a cavalo. Mas essas ideias ficavam apenas no campo da teoria.
Essa semana terminou, e, as escapadas para vê-la também, mas infelizmente ela mudara-se, deixou o campo em busca de uma boa universidade. Conformei-me, mas nunca a esquecera. Até alguns anos depois ela reaparecer em uma noite, estava sentada em uma pedra na margem de um lago. Ao vê-la, paralisei-me e admirei-a caída em seus devaneios.
A luz lunar deixava sua pele mais branca e fazia-a brilhar como a água refletindo a luz. Mas nesse momento fora interrompido por uma passada minha, que descuido o meu, pisei em uma folha. Logo que escutou voltou-se a mim esboçou cara de assustada.
— Quem está aí? — Perguntou ela.
Caminhei lentamente. — Não se preocupe, não farei mal a ti. — Sai das sombras.
Estávamos sob a luz. Mas essa mulher era muito mais bela de perto. Seus olhos encontraram-se com os meus e nesse momento o mundo parou, o vento passava lentamente e a noite tornou-se mais bela. Longos segundos fizeram-se em silêncio até eu perguntar. — Quem és tu? — Mas não respondeu, apenas ignorou-me e pôs-se a cair em seus devaneios novamente. Admirei-a até o momento que ela se levantou, fitou-me uma última vez e começou a caminhar de volta a sua casa.
Assim sucedeu-se durante dias, apenas admirava-a em silencio.
Mas em uma noite ela não me ignorou, desceu da pedra e caminhou em minha direção sem dizer uma palavra. Cai sobre a grama e ela ficou de joelhos em cima de mim. Aqueles olhos negros mostravam-se cerrados, olhavam-me de cima, como um predador olha sua presa. Aproximou seu rosto do meu e beijou-me o pescoço. Mas logo senti uma intensa dor e senti-me fraco. Quando estava quase inconsciente ela soltou-me, pude ver seu belo rosto, mas enrubescido pelo meu sangue. Não resisti muito mais e acabei por adormecer.
Despertei na manhã seguinte no mesmo lugar onde adormecera. Levantei ainda fraco, mas forte o suficiente para andar.
Quando retornei para minha casa, meus pais estavam preocupados, mas assustaram-se ao ver o sangue nas minhas vestes, fui tratado e depois interrogado, eu não queria dizer quem fora, estava perdidamente apaixonado por ela.
— Fora um lobo. — Afirmei. — Lutei contra um à noite, mas hei de vingar-me.
— Não saia por aí à noite, sabes que é perigoso. — Disse meu pai.
— Dê-me uma arma e sairei a procura do animal.
— Amanhã, meu filho. Amanhã.
Estava muito fraco para sair, dirigi-me ao meu quarto, deitei na cama e adormeci. Acordei algumas horar depois, mas mantive-me deitado. À noite levantei-me e alertei meus pais que sairia em busca do lobo. Peguei uma espingarda e algumas munições, mas isso não passava de uma desculpa. Percorri o mesmo trajeto que sempre fazia para encontrá-la.
A noite era escura, mas pude vê-la. Estava pensativa, como de costume. Aproximei-me e chamei-a, mas não sabia seu nome, nunca houvera perguntado.
— Como se chama? — Perguntei.
Olhou-me assustada, avistou a arma em minhas mãos, mas manteve-se a postura de sempre.
— Sou Jéssica. E tu, como se chama?
— Sou Bruno. — Larguei a arma e caminhei em sua direção. Peguei-lhe a mão e beijei.
— Sabe o que fiz, não sabe?
— Sei, e fará novamente, se permitir que te ame.
Fez uma expressão confusa. — Não tem medo de mim?
— Não nego tê-lo, mas amo-te mais do que temo. Dê-me um beijo e serei teu.
Ali passamos o resto da noite, até o momento que era hora dela voltar. Fora a melhor noite que vivera. Amei-a como uma mulher e ela amou-me como um homem. O romance continuou como deves imaginar, meu caro amigo. Mas até um momento, quando eu fora diagnosticado com um mal assassino, uma doença, vi-me entre a morte.
Foi quando ela disse que poderia transformar-me em um vampiro. Transformou-me em um e vimo-nos perdidos, sem ter aonde ir, fora então que fomos convidados a entrar a casa Werckinberrevich, lá conseguimos um quarto onde poderíamos dormir juntos e nos amarmos como um homem e uma mulher. Desde então sou um vampiro."
Terminou a história.
— Infelizmente o preço que os outros pagam pela minha sobrevivência é alto, a saúde ou até mesmo a vida de alguém, mas amo-a mais que tudo.
— Qual é a frequência que bebe sangue humano?
— Quando não mato a vítima, necessito em uma semana, quando assassino, um mês e meio. E o senhor? Há quanto tempo és um vampiro?
— Sou um vampiro há pouco mais de um ano, a maior parte do tempo fiquei adormecido. Mas, meu caro Bruno, com um comentário teu, percebi agora que de fato não sou um Werckinberrevich, sou apenas um vampiro. — Continuei. — Então esse nome representa uma casa. — Indaguei-me. — Sabes quem é o líder?
— Não, senhor, ele não se mostra a nós. Mas se tu não és um membro da nossa casa, és da qual? Na verdade, não sabia da existência de outras.
— Idem, ignorava também. Mas, meu caro Bruno, das pessoas que matou ou feriu em busca do sangue, entre elas haviam crianças?
— Por Deus, não.
— O que procuras quando necessita?
— Minha mulher faz-me não morder outra mulher, com isso resta-me apenas homens.
— Entendo. Quantos pais de família matastes?
— Não posso dizer-te certamente.
— Minha última pergunta a alguém mais experiente.
— Pois não?
— Tu esperas a abstinência assolar-te a consciência? Ou no primeiro momento de sede procuras um homem do qual o sangue tomará?
— Não esconderei, não espero a abstinência, quando sinto sede, caço, e, bebo. Mas qual é o motivo de perguntar-te tudo isso?
— Apesar de nobre, sou novo nesse lugar, por esse motivo gostaria de saber como vivem os que cá residem. Ouvi dizer que há um grupo de caçadores de vampiros, o Black Night. Como são?
— Em sua maioria, confesso, bons soldados, eximiamente treinados. Enfrentá-los é difícil, apavorava-me a ideia dos projéteis ainda mais. Mas temos que lutar, não digo que os admiro, até por que, alguns amigos que fiz foram mortos por eles, apesar de reconhecer seus talentos e a maestria que combatem, detesto-os. Mas o estopim pelo ódio que lhes tenho, é o fato de haverem quase assassinado minha mulher, ela já fora culpada de inúmeros crimes, pois, apesar de bela e apaixonada, ela é fria, talvez a única pessoa a qual ela não tomaria a vida, é a mim, isso, talvez, por eu já tê-la dado a ela. Mas mesmo com crimes, a defenderei. Ela fora julgada pelos soldados da patrulha, chamamos os membros do Black Nightcomo "Vagantes da noite". Mas ela fora sentenciada, não pela acusação dos crimes, mas por pura e simplesmente por ser vampira. Assassinei todos os soldados da patrulha e salvei-a.
— Eliminou-os todos? Parece uma mentira.
— Mas não fora na corarem, estava municiado com um rifle que havia pegado de um outro soldado deles, então atirei entre as sombras em uma boa distância. Apesar de atirarem contra a luz que ascendia na ponta do cano da minha arma, não me acertaram. Com isso matei-os e pude salvar minha mulher.
— Entendo. Fora um herói então.
— Aos olhos dos companheiros sim, mas aos olhos dos inimigos, fora mais um assassino. Não tenho remorso de matar um soldado desse grupo.
— Mesmo que um aparecesse na sua frente?
— Matá-lo-ia, por eles não sinto remorso.
— Sente por quem então? Por não salvar algum amigo?
— Não, como disse, bebo o sangue de homens, mas como perguntastes, alguns deles são pais de família, isso me incomoda muito, pois imagino meu país sendo assassinado, isso me destruiria em mil pedaços.
Levantei-me, alonguei as pernas e voltei-me ao homem.
— Se um vampiro, dizendo-se perdido e noviço nesse local, escutasse tua história e posteriormente anunciasse ser membro dos Black Night. Oque faria?
— Estás louco, acredito que eles não aceitariam, quão mais um vampiro teria a vontade de entrar.
— Meu caro Bruno, não parece impossível, pois cá vês um exemplar dessa magnifica obra antagônica do destino. Meu nome é Edmund de Morryes, sou o Duque-Marquês de Morryes.
Seu semblante delineou-se surpreso. — Então estou diante do próprio que supostamente desapareceu, um inimigo declarado da nossa casa. Permita-me saber o motivo de aliar-se a eles.
— Seu líder assassinou minha amada mulher, assassinou depois minha segunda mulher, a qual consolou-me e tornou-se minha amante, juntamente com ela, assassinou minha estimada sogra. Minha vingança, meu caro Bruno, é legitimada.
— Realmente, não te culpo, são quase os mesmos motivos que tenho repudia pelos teus companheiros. Matar-me-á depois dessa amistosa conversa que tivemos?
— De início, antes de saber que há uma mulher a tua espera, matar-te-ia, mas mudei de ideia.
— Estou profundamente agradecido. Afinal, não possuo armas que possam ferir-te.
— De fato, contudo, peço-te uma coisa.
— O que quiseres.
— Ame essa mulher, ame-a muito, mas saiba que quando ela morrer, pois ela morrerá, certifique-se de que tua vingança seja tão planejada quanto o suicídio.
— Assim farei, mas diga-me, não teme ser descoberto pelo líder? Que eu leve a informação de que estás vivo.
— Não me importo, descobririam a qualquer momento, mas apreciaria se não o fizesse.
— Como voto de gratidão que tenho por ti, prometo-te que não contarei a ninguém, nem mesmo à minha esposa, o que se passara nessa noite.
— Serei grato de volta. — Sorri.
— Creio que tenhas outros afazeres, assim como eu, mas infelizmente meus companheiros estão prestes a chegar, ver-nos-emos, mas logo como inimigos, e, mesmo como inimigos manterei minha palavra. — Estendeu a mão.
— Recolha-se, meu amigo, pois a chance de não sobrevier é grande, o lobo pode te encontrar. — Cumprimentamo-nos, dei as costas e continuei minha caminhada.
Senti-me um tanto revigorado pela conversa que acabara de ter, realmente não conseguiria assassiná-lo depois de ouvir sua história. Não o culpo por matar pais de família ou quem quer que seja, eu também terei que fazê-lo, mas controlar-me-ei a fim de não assassinar humanos, compreendo a angustia que ele sente, pois a evitei por um bom tempo, infelizmente eu fora induzido a esse comportamento.
— Mesmo sendo bela, não passa de uma Werckinberrevich. — Disse um deles, aparentemente o comandante da esquadra. — Mas vamos brincar um pouco.
Confirmou a notícia com os amigos e voltou-se novamente à mulher. Segurou-a pelos braços e algemou-a em um cano conectado à parede. Admito, era uma mulher encantadora, longo e ondulado cabelo dourado, corpo tão belo e desenhado quando uma estátua da renascença. Vestia um vestido longo com um corte lateral que mostrava sua perna direita, era uma roupa para fugas e lutas, se necessárias. Ela não escondia o desespero e lagrimar vertiam dos seus olhos. Anunciei-me então, apontando a pistola a ela.
— O que os senhores estão fazendo? — Perguntei.
— Quem és tu? — Perguntara o comandante. — De qualquer forma, queres se juntar a nós? Mas ficará atrás da fila.
— Não, obrigado.
— Então o que farás? Observará usarmos essa mulher?
— Parece ingênuo da minha parte, não imaginei que fizesse isso com os Werckinberrevichs, por mais bela que fosse a criatura.
— O que estás dizendo? És muito inocente, isso é o que alguns homens fazem quando encontram uma boa mulher, como essa.
Ela olhava-me pedindo súplica, piedade.
— Deixem-me conversar com ela por um instante. — Pedi.
— Vá em frente, mas não demore.
Voltei-me a ela, ajoelhei-me a sua frente e iniciei a conversa.
— Não se preocupe, não farei mal a ti. — Proclamei. — Mas não falo pelos demais. — Continuei. — Antes de qualquer coisa, quero que diga que tipo de humanos já assassinou.
— Nenhum, alimento-me de sangue vampírico, apesar de envelhecer, não quero assassinar humanos.
— Por qual motivo?
— Eu fui transformada em vampira, mas não por minha vontade, não sou assassina, eu juro. — Seus olhos mostravam a sinceridade nas suas palavrar. — Mas não deve acreditar em mim.
— Acredito, sei perfeitamente como se sente, minha cara. Poderia saber seu nome?
— Simone. — Respondeu ainda aos prantos.
— Simone, é um bom nome. Diga-me outra coisa.
Aproximei-me de seu ouvido e sussurrei-lhe. — O que preferes? Pois sabe que morrerás, não por meu desejo, mas pelo desses senhores. Então diga-me, preferes ser estuprada antes de morreres? Ou queres que eu te assassine antes?
Afastei-me e vi seu rosto em choque, aterrorizada. — Matar-me-ão depois que me usarem? — Perguntou surdamente.
O comandante sorriu com o canto da boca confirmando a resposta. As lágrimas retornaram. Chamei sua a tenção.
— Acabei de conhecer um Werckinberrevich, conversamos por alguns minutos, sabes o que fiz com ele?
Com a voz mais surda respondeu. — Matou-o.
— De fato, aproximei-me com essa intenção, mas era carismático, mesmo bebendo sangue de humanos, contou-me sua história e debatemos alguns assuntos. Mas não o matei, pelo contrário, eu tinha a vida dele nas mãos, mas deixei-o vivo.
Um sorriso de esperança surgiu no rosto da mulher. — Então salve-me.
— Fá-lo-ia se não houvessem testemunhas, infelizmente não posso salvar-te, mas dou-te a escolha. — Levantei-me e mantive a postura a sua frente. — Preferes morrer pelas minhas mãos? Saiba que será uma morte rápida e que seu corpo não será violado.
Debateu-se por alguns segundos tentando soltar-se das algemas. Mas deparou-se com a impossibilidade dessa escolha.
— Posso ao menos dizer minhas últimas palavras? — Sua voz saíra quase inaudível.
Saquei a pistola e apontei a ela.
— O que está fazendo? — Perguntou o comandante dirigindo a mim.
Saquei a outra pistola e apontei-lhe a arma. — Não se mexam. Se o fizerem, podem morrer, eu não quero assassinar humanos. — Deu alguns passos para atrás. — Diga as palavras, minha cara Simone.
— Não tenho família, mas amo um homem, meu marido, diga-lhe, quando o encontrar, que eu o amava. É um homem belo, cabelo loiro e cacheado, como de um anjo, olhos azuis e pele branca, seu nome é Gaspar. Quando o encontrar, se o encontrar algum dia, diga que eu o amava. Pois fugi dos seus braços quando me tornei uma vampira.
— Assim farei, se o encontrar, direi suas palavras e direi como falecera.
Fechou os olhos e levantou a cabeça, suspirou longa e pesadamente, tentou sorrir, mas não conseguira. Uma última lagrima escorrera pelo seu rosto. E então, do beco escuro e úmido surgira um clarão de luz e o som ecoara pelas ruas. Depois o silêncio sepulcral retornara ao local.
A esquadra fora embora logo que atirei. Eu, por outro lado, fiquei alguns minutos olhando esse corpo inerte e sem vida. O sangue escorria pelo orifício na sua testa, seu cabelo dourado, aos poucos, fora manchando-se de preto e o sangue negro formava uma grande e rasa possa ao redor desse corpo flácido e morto. Dei as costas e continuei meu caminho. Os uivos aumentavam a intensidade e a frequência que ocorriam. Mesmo estando preparado para fugir de suas garras, estava receoso, decidi voltar à minha casa.
O vento sibilava e orquestrava uma espécie de réquiem. Apreciei a música sem olhar para trás. E pus-me a refletir sobre o comportamento dos Werckinberrevichs e dos soldados do Black Night. Certamente ambos estão errados. Mas a mulher que eu acabara de assassinar era boa o bastante para viver com seu amado, assim como Carmelia aceita-me
Quando retornei à minha casa, Carmelia esperava-me na sala. Ao ver que chegara, correu em minha direção, parou a minha frente e deu-me um tapa. Abraçou-me logo em seguida.
— O que estavas fazendo, dissestes que não sairia.
— Disse que pensaria, mas não prometera nada. — Abracei-a de volta.
— Encontrou-se com o lobo?
— Não, estou feliz por isso. — Retirei a nova arma do bolço do casaco. — Até preparei uma arma contra ele. — Sorri.
— Insensato. — Bradou ela. — Não saia mais em noites de lua cheia.
— Sentemos. Conte-me como fora a negociação.
— Hantz não estava presente, mas sabemos o motivo, um procurador ocupou seu lugar. Decidíamos sobre a publicidade do teatro, os cartazes. Fora citado uma visita que tu fizeste ao gabinete do Hantz há algum tempo, mas os cartazes não estavam prontos.
— E como eram?
— Belos. Inaugurarão o teatro com a apresentação de uma peça teatral da universidade de Morckiaschen. O cartaz apresenta uma ilustração de um casal sentado em um tablado, era semelhante ao lago que fomos. — Sorriu.
— Tu nem pareces mais com a menina que vira pela primeira vez, e quão mais a segunda vez. Era quieta e formal, falava de modo polido. — Sorri.
— Sobras de mim?
— Não, mas dei brechas para seres como és.
— E não reclamo, mas escute-me. Um acionista russo investiu uma boa quantia nessa inauguração, doou algumas obras de arte ao museu. Então apenas resta-nos as obras terminarem. A propósito. Depois de amanhã haverá outra reunião do conselho de saúde de Morckiaschen, questões sobre a fábrica. Mas assumas o poder da fábrica novamente o quanto antes.
— Pretendo não demorar muito, espere as condições do meu plano.
— Então conte-me.
— Sairei durante as noites recolhendo informação, agora que tenho tempo livre. Logo após isso, iniciarei a busca pela residência do Dias.
— Sequestrá-lo-á?
— Exato, desejo interrogá-lo. Mudando o assunto. Como estão os estudos? Imagino como está difícil.
— Tranquei a matrícula. Não consegui acompanhar. Espero que não fique triste ou brabo.
— Não estou, na verdade compreendo, por que disseram que ainda fazia quando voltei?
— Desculpe. Mas não menti sofre os cortejos. Sendo verdadeira, desisti da medicina, dedicar-me-ei a trabalhar na política, usarei a medicina quando pesquisar a biologia dos vampiros.
— Entendo. Vejo que a política te cai bem, pois, os documentos que escrevera são, admito, melhores que os meus. — Sorri.
Aceitou o elogio, ela sabia que era verdade. — Mas não me desfarei do laboratório. Lembrei-me também que iniciei uma pesquisa sobre cristalizar o sangue de lobo para inseri-los nos projéteis.
— Parece uma boa ideia, continue estudando e apresente-me a pesquisa.
— Está bem. — Seu rosto enrubescera, ela encolheu-se e perguntou. — Posso fazer um pedido?
— Pode.
— Poderia descansar minha cabeça no seu colo por alguns instantes?
Sentei-me na extremidade do sofá e gesticulei para que descansasse como queria. Deitou-se e aconchegou-se no meu colo, fechou os olhos e em alguns segundos adormeceu. Fiquei olhando-a dormir enquanto afagava-a e segurava suas mãos. Mas após algum tempo também adormeci.
Despertei preguiçosamente na manhã seguinte.
Carmelia já havia acordado, estava sentada na poltrona lendo alguns papéis. Vestia-se com um leve vestido, como dissera que gostava. Bebia café quando terminava um parágrafo ou uma folha.
— Não sabia que gostavas de café.
— Olá, adoro, prefiro café à chá. Recebi uma carta do Grão-Duque, deseja uma reunião comigo, estou lento tua carta.
— Marcará quando?
— Enviarei as datas disponíveis por carta, ele responderá com uma data que ambos estejamos livres.
— Por que não liga para ele?
— Um problema com os cabos telefônicos interrompeu a comunicação. Em um ou dois dias voltará ao normal.
— Entendo. Quando soube que eu havia desaparecido, o que ele disse?
— Não disse nada, por estar triste. Ele gostava de ti como um filho, não preciso nem detalhar o seu sofrimento.
— Então peça que venha a nossa casa, mostrar-me-ei a ele.
— Tens certeza?
— Chame-o, gosto dele como um pai.
— Está bem. O que fará agora?
— Aproveitarei o dia a fim de pesquisar um novo projetil. Precisas de ajuda com algo?
— Por hora não, mas quando precisar, pedir-te-ei ajuda.
Caminhei até o seu lado, peguei sua mão e beijei. — A propósito, bom dia. — Sorri.
Quase deixara sua caneca com café cair sobre os documentos. — O que estás fazendo?
— Cumprimentando-te.
Dirigi-me à porta e sai da sala. Segui ao laboratório e procurei as pesquisas.
Apesar de ajudar Carmelia com os documentos, ela fazia quase tudo sozinha, minha estada era tediosa, então buscava afazeres diversos.
O laboratório estava pouco usado desde a última vez que visitara. Sobre a mesa havia um calhamaço de folhas. Era a pesquisa. Folhei os papeis e li-os.
O projeto consistia-se em adicionar formol no sangue e encapsulá-los em vidro. Forjar um projetil côncavo e inserir a capsula na ponta do projétil. Certamente era um projeto eficiente, talvez isso não pudesse penetrar na armadura dos Werckinberrevichs, mas talvez pudesse ricochetear e acertar-lhes a carne.
O porão da casa abrigava as armas e uma pequena oficina. Peguei os papeis e segui à oficina. Quando cheguei, descansei os papéis sobre uma bancada e pus-me a analisar como iniciaria o projeto. Peguei uma parte de cartuchos especiais, eles já possuíam projéteis côncavos, peguei alguns cartuchos normais. Analisei o orifício dos especiais e constatei haver necessidade de fazê-los mais longos. A camada de vidro, segundo o projeto, era um tanto espeça, isso limitaria muito a quantia de sangue a ser depositado no projetil. Mas vi-me limitado por conta da oficina, decidi levar alguns projeteis, uma amostra de sangue e um frasco de formol à M&M. Peguei uma maleta e guardei os materiais. Retornei ao meu gabinete, que era mais da Carmelia do que meu. Encontrei-a lá, ainda lendo e bebendo café. Depositei os projetos sobre a mesa dela e afirmei.
— São belas teorias, irei agora mesmo à M&M.
— Mas ainda é dia. Não pode sair.
— Tem razão, porém, irei com o carro e desembarcarei apenas lá, ou vou ao bar Lua Cheia e acesso os tuneis, algum deles lavar-me-ão à fábrica.
— Se o descobrirem, não arruinará teus planos?
— De fato, todo o plano que teci nesses nove meses no lago, se eu fosse descoberto uma parte seria destruída. Mas se me descobrirem poderei dizer "voltei" e tudo resolvido. Creio que não serei descoberto, ao menos não pela sociedade.
— Então vá, eu não tenho tempo para apresentar o projeto. Estou grata por fazê-lo.
— E os créditos serão todos teus, assim como a patente.
Não escondeu um sorriso de felicidade. — Não precisarei usar o teu dinheiro para comprar meus vestidos.
— Então todos os que eu comprar para ti serão presentes. — Sorri. — Mas adianto-te que se aprovado o projeto, terás que iniciar outro, que possa penetrar a blindagem.
— Esse faremos juntos.
— Como desejar. Bem, vou-me.
Sai do gabinete e chamei o carro, entrei e ordenei que me levassem à fábrica, mas que não parasse em lugar algum, apenas quando obrigatória a parada.
Após alguns minutos chegamos. O porteiro veio ao nosso encontro, felizmente ele era do grupo e reconheceu-me. Passamos pelos portões e seguimos à oficina artesanal, a qual visitara quando aprovei o primeiro protótipo. La estava Morgana. Vistoriando algumas armas.
— Morgana?
— Há quanto tempo, senhor. O que fazes aqui hoje?
— Apresentar um projeto à equipe.
— Sobre o que seria?
— Um novo projetil.
— Que possa passar pela armadura dos Werckinberrevichs?
— Não, mas pode ricochetear.
— Não quero que se anime, mas apresente o projeto, já tentamos de tudo, se não penetra a armadura, não é melhor que o primeiro projétil.
— Entendo. Posso estudar os protótipos construídos?
— Estão na sala de protótipos, fale com o cuidador, ele permitirá que analise as peças.
— Obrigado.
Dirigi-me à sala que me recomendou. Parei à frente de uma porta de madeira, bati e abri-a. Acreditei ser uma pequena sala repleta de entulhos, mas estava errado, era uma imensa sala com peças expostas como em um museu. Caminhei entre os corredores e avistei um velho senhor de, aparentemente, oitenta anos limpando com um pincel uma pequena peça.
— Com licença, senhor. — Chamei.
Não pareceu ouvir. Caminhei mais perto e chamei-o novamente. Mas não escutara também, aproximei-me e bradei ao seu lado.
— Desculpe, desculpe. — Retirou um pequeno aparelho auditivo em forma de chifre de cobre. — O que queres?
— Desejo ver alguns protótipos. — Pedi quase bradando.
— Qual peça?
— Os projéteis especiais.
— Os projetos do que? — Perguntou procurando um bom angulo para seu aparelho.
— Projétil, como esses. — Retirei um cartucho do bolço.
— Ha! Um projétil desse. Por que não disse antes? — Sinalizou com a mão a fim de que o seguisse.
Levou-me à uma vitrine com alguns modelos. — Podes toca-los apenas com luvas. — Deu-me um par de luvas de flanela. Vesti-as e peguei os protótipos.
Havia um projetil inteiramente de vidro, em seu interior havia uma boa quantia de sangue, talvez esse fora feito apenas a fim de exposição ou apesentar o sistema interno de outro projétil, aparentemente o que estava ao seu lado, inteiramente de chumbo, ao que parece, carregava o sangue no seu interior. Dizia-se que esse projétil poderia penetrar a armadura, porém, a chance de ele romper e liberar o sangue não era alta. Por conta disso não fora utilizado.
Havia um projétil de aço, era quase semelhante ao convencional, mas com cavidade que seguiam do final da parte cônica até quase o final do projetil, essas depressões continham o sangue e eram cobertas por uma placa de aço que encaixava milimetricamente na cavidade, as quais desencaixavam logo com a rotação ao sair do cano. Na fixa desse objeto discorria a atribuição de cumprir as funções, mas era extremamente custoso por ser trabalho 60% artesanal. Fora fixado em operações especiais com armas de longo alcance, mas a chance de eficácia, mesmo cumprindo o esperado, não passa de 70%. Meu projetil e esse último estão em uso. Atualmente. O meu equipa armas da infantaria. Enquanto o outro equipa rifles e carabinas. Seu criador fora um homem chamado Feliciano Gerald, um engenheiro dono de uma empresa de engenharia automotiva de Morckiaschen. Mas esse projeto fora desenvolvido em seu tempo livre, seu passatempo era ser inventor. Quando vi essas descrições em sua fixa, lembrei-me de quando era mais jovem, almejava ser escritor, mas poucas coisas escrevi, a única de fato que é digna, é esse pequeno livro de memórias.
Terminei de analisar os projéteis. De fato, seria um desafio construir um bom material que forneça as especificações exigidas, a parte dos custos é o verdadeiro desafio.
Devolvi os exemplares aos respectivos lugares e voltei-me ao velho cuidador e cutuquei seu ombro. Ele se virou e pegou seu aparelho auditivo.
— O que deseja?
— Aonde guardam os projeteis do senhor Gerald?
— O que? — Perguntou aproximando-se.
— Os projéteis do senhor Gerald, onde guardam? — Aumentei o som da fala.
— Ha! Estão com a Morgana.
— Obrigado. — Cumprimentei-o e sai da sala.
Retornei ao lugar onde Morgana estava.
— Deixe-me experimentar os cartuchos do senhor Gerald.
— Qual finalidade?
— Testes.
— Posso fornecer apenas cinco disparos.
— Não precisarei mais do que isso.
Entregou-me um rifle já municiado.
— A capacidade de cartuchos é de sete, os dois primeiros são tradicionais, de chumbo os demais são especiais.
— Lembrei-me de algo aleatório sobre os projeteis, como chamam eles?
— O teu é chamado de Anti-WC 9mm, "Anti-Werckinberrevich Cone". E o do Gerald é chamado de Anti-WP "Anti-Werckinberrevich Perfurante".
— Belos nomes.
— Por conta de tu não os haver nomeado, os oficiais criaram o nome do teu e depois Gerald manteve o padrão, alterando apenas a classe do projétil.
— Entendo. Sem objeções.
Dirigi-me ao campo de tiro e sentei-me em uma cadeira, descansei o rifle sobre a mesa e pus-me a aprontar-me. Afrouxei o tecido no ombro direito, possibilitando assim uma boa empunhadura da coronha. Posicionei o rifle e mirei ao alvo. Possuía uma precisão acima dos rifles que já havia disparado. O sistema de ferrolho era mais simples, isso possibilitava uma boa cadencia de disparos. Acertei os dois primeiros tiros nas duas primeiras tentativas. O alvo do qual eu deveria acertar era a simulação de uma armadura, estava a mais de duzentos metros. Quando o projetil penetra a placa, atinge outra que emite um sinal elétrico e ascende uma lâmpada vermelha no painel.
Após disparar e acertar todos os tiros, notei que apenas três dos cinco disparos penetraram a blindagem.
— Realmente, logo quando conseguimos um passo à frente em relação aos inimigos, eles conseguem alcançar-nos. — Disse Morgana logo depois de tragar seu cigarro.
— Certamente, mas acredito que normalmente ganhamos deles pelo cansaço, ao menos, em noites que não usamos os casacos com prata.
— Isso ajusta as coisas. Bem... Realmente, estamos em uma incógnita, mas deixamos de nos preocupar com isso por hora, usamos os projéteis especiais com os que não usam armaduras, os demais usamos armas convencionais e eliminamos com seus cartuchos. Esse modo mostrou-se extremamente eficiente, não como quando iniciamos nossa vantagem, mas ainda progredimos muito.
— Concordo. A propósito. Com quem os vampiros conseguem armas?
— Provavelmente com A casa das armas, eles certamente alegam que são inimigos nossos e fecharam negócio.
— Investigarei.
— Não faria isso se fosse tu. Soube que não queres que descubram sobre a tua chegada.
— Investigarei, mas não me envolverei muito.
— Faça como quiser, não tens nada a perder.
— Posso mudar o assunto e fazer algumas perguntas pessoais a ti?
— Depende.
— O que faria se visse uma Werckinberrevich sendo estuprada ou prestes a ser por alguns soldados do grupo?
— Mataria esses porcos e deixaria a mulher viver.
— Entendo.
— Eu já fui estuprada por um homem, matei-o logo em seguida. Mas sei que provavelmente eu responderia por isso. Mas sei onde quer chegar. Tu escolheste a mulher?
— Sim.
— Não te culpo, sei que pensou nas consequências. Quais foram as últimas palavras?
— Que quando encontrasse o seu amado, dissesse-lhe o quanto ela o amava.
— Fez bem, ao menos morrera acreditando que algum dia esse homem saberia disso. — Tragou novamente o cigarro e disse. — Gosto de mulheres, esses homens são porcos nojentos.
Rimos e então respondi-lhe.
— Posso não ser como o que imagina ser um homem, mas não deixo de ser adjetivos ainda mais truculentos que os que acabara de dizer.
— Meu bem, saiba que não sou manipulável, não se dê ao trabalho de seduzir-me.
— Não se preocupe, nos meus planos tu entras apenas fornecendo munição e armas.
— Então estou dentro do teu plano. — Sorriu. — Ainda me lembro de como tu eras na primeira vez que te vi. Um homem buscando vingança sem saber nada sobre o nosso mundo, perdoe-me, mas é engraçado. Tinha nojo de entrar na oficina.
— Então fora isso que Logam havia falado a vós? Entendo o motivo de não me cumprimentarem. Quando estava pronto a entrar na oficina ele me barrou e precipitou-se a chamá-los. Pois ele notou minha desconfiança quando a atividade na época.
— Contamos piadas de ti por conta disso, desculpe. — Sorriu. — Mas algo que comentamos, fora o fato de teres descoberto nossa atiradora e descobrir que o alvo não era tu.
— Obrigado, tanto pelas piadas, quanto pelo elogio.
— Não há de quê. Mas antes de desaparecer já estavas mudado, a morte da Daniela mexeu contigo. Mas pelo que vejo nos teus olhos, está mais mudado.
— Isso é bom?
— Depende da finalidade que almejas agindo assim. Se buscas vingança pelas tuas duas mulheres que morreram, está bom, pois uma postura como a que tinha, seria prejudicial. Mas teus olhos mostram que está preparado para não sentir remorso de nada.
— Se não o sentisse, não perguntaria sobre a mulher que assassinei ontem.
— Não é nove meses no escuto que far-te-á mudar assim, não digo que não sofrera, eu já fora prisioneira e passara um mês assim, mas digo-te que só isso não te transformará, precisará tornar-se mais frio.
— Tu falas como uma veterana do exército.
— Eu era, até quebrar a perna e precisar afastar-me. Vi muitos homens como tu, entrarem no exército com os olhos brilhando e com nojo de jogarem-se na lama, e depois com olhos de assassino.
— Não imaginei que fosse uma mulher tão interessante.
— Não passo de uma fornecedora de munição e armas.
— És mesmo impenetrável.
— Não avisei? Sabes qual é o segredo para isso?
— O que seria?
— Acreditar que sempre estás certo, mesmo que estejas errado. — Sorriu.
— Entendo.
— Quando temos certeza, não abrimos lugar a incertezas, por mais tolas que sejam nossas verdades. Vejamos... O que seria a tua verdade?
— Bela pergunta, não sei. Talvez minha verdade seja "os fins justificam os meios" e a tua?
— Boa, boa. — Riu e acendeu outro cigarro. — A minha é, "Tudo que se mexe, pode deixar de se mexer".
— Nem mesmo isso saberei, realmente, impenetrável.
— Avisei-te.
Peguei o relógio e vi que deveria voltar para casa.
— Desculpe, minha cara Morgana, devo voltar, fora uma boa conversa.
Dei as costas e sai, entrei no carro e parti.
Quando voltei a minha casa, dirigi-me ao gabinete e sentei-me no sofá.
— Teremos que trabalhar em outro protótipo. Infelizmente não conseguiríamos, os outros pareciam eficientes, porém. Apenas um fora realmente.
— Bem, não podemos perder tempo. — Sorriu. — Já esperava que fosse rejeitado. — Tentou se confortar. Ela havia se animado com a ideia.
Aproximei-me dela e segurei sua mão, beijei-as e disse. — Não fiques triste, minha querida Carmelia. Vamos trabalhar juntos.
— Ajude-me com esses processos. — Apertou levemente minha mão.
Soltei-a calmamente e dirigi-me à poltrona à frente da mesa. E peguei os papéis. Havia processos de absolvição de alguns soldados do grupo que foram capturados pela polícia local.
— São tantos presidiários, parece que nossos soldados não estão conseguindo fugir. — Disse ela.
— Ouvi dizer, pela boca de um inimigo, que os nossos soldados são temidos. Mas talvez haja a participação da Branca nessas capturas. Acredito que isso se intensifique.
— Por qual motivo diz isso? — Fitou-me.
— Alguns desentendimentos com ela.
— Então corra pedires desculpas.
— Talvez deva fazê-lo, mas não agora, farei apenas depois de uma notícia importante.
— E qual seria essa notícia?
— A morte de alguém.
— De quem?
— De alguém importante.
— Não confias em mim?
— Pelo contrário, tu és a pessoa da qual mais tenho confiança.
— Então diga-me.
— Infelizmente as paredes podem ter ouvidos, e enquanto o nome manter-se no anonimato, não passará de um plebeu qualquer.
— Não contarás, não é mesmo?
— Confio em ti como confiava em Daniela, porém, não posso te dizer.
— Mas não me amas como amou-a.
— Cabe a ti despertar esse amor. Estou sujeito a recebê-lo.
Voltou os olhos aos papeis. — Continuemos nosso trabalho. Lembrei-me agora, provavelmente me encontre com empresário. Ele quer implantar uma filial de sua empresa em Morryes.
— Do que seria a empresa? — Perguntei.
— Enlatados. "Os enlatadeiros". Disseram que já receberam sua visita para negociar.
— Aprove, já negociamos, se eles construíram as estradas, então aceite.
— Construíram, logo que nos encontramos, deram os pêsames pela sua morte e contou-me tudo sobre a reunião.
— Entendo, eles querem criar uma filial, mas será uma estalagem?
— Sim, isso, diz ele, economizaria com navios fretados.
— Faz bem. Realmente são caros. Ele deseja exportar à Holanda, França, Noruega e alguns outros ao redor, se não me engano.
— Disse-me que as estradas estavam quase prontas.
— Então aprove. Poderemos inserir pedágios nessa estrada, ela não será exclusiva de veículos de carga, haverá particulares.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Perfeitamente. Além de ligar o Norte do pais ao centro. Mas algo ainda me incomoda. O que o rei pretende ao permitir tantas obras e tantas empresas.
— Se conversar com o senhor Scoot, saberás.
— Diga-me agora.
— O reino não está economicamente estável, ele quer fazer as empresas construírem infraestruturas e fali-las, comprar por preço baixo e estatizar todas.
— Ele é Bolchevique?
— Não, deseja apenas o poder. Já que, apesar de ser rei, não pode fazer tudo o que quer. Possuindo todas as empresas, poderá aumentar seu poder inimaginavelmente. Apesar de não poder ordenar um exército destruir uma cidade ou vila. Ele poderá aumentar os impostos no local ou diminuir o fornecimento de alimento.
— Esse plano é simples demais, parece piada.
— É por esse motivo que ele está sendo bem executado, ninguém imaginaria que a mente mais brilhante do país faria algo dessa estirpe, com essa simplicidade.
— Faz sentido.
— Outro fator importante é o que perguntaste, se era bolchevique. Ele não é, na verdade evita isso, pois, perderia o poder, ele está capitalizando o país a fim de dizer o contrário, que não quer o comunismo.
— Quando estatizar as empresar, começará uma grande revolta.
— Exato, e alguns rebeldes desejam acabar com a monarquia antes disso acontecer. Mesmo não sendo bolchevique. Eles não querem acabar com uma monarquia real e instalar uma ditatorial, como querem os bolcheviques, esses rebeldes querem instalar o parlamentarismo.
— Mas como combaterão o rei? Como o assassinarão? Guerrilha?
— Incrivelmente, acredito haver providenciado a morte de rei. Gostaria de contar ao Grão-Duque essa fabulosa notícia.
— Então és um rebelde também?
— Não, desejo a morte dele por um motivo muito mais pessoal.
— O quem seria?
— Respondi-te à pergunta sobre quem importante morrerá, mas essa não posso te contar.
— Imagino que não devo saber.
— A propósito. Mandastes a carta ao senhor Scoot?
— Mandei enquanto estavas na fábrica.
— Mencionou meu nome?
— Não, temi que a carta fosse interceptada, referi-me a ti com o trecho "Quem consideras como um filho e ele considera-te como um pai, está esperando-te." Acredito que ele entenderá.
— Certamente. Resta-nos esperar a resposta.
Encontramos um documento que exigiu nossa atenção, isso resultou em um profundo silêncio e uma tarde de intenso trabalho.
Quando era final da tarde terminamos de verificar os documentos e eu localizei-me com os de meu tempo fora. Saímos do gabinete e seguimos à sala de chá, sentamos nas cadeiras e pedimos algumas bebidas.
Servi-me de absinto e Carmelia vodca. Bebemos aos poucos enquanto descansávamos. Fora um dia exaustivo.
— Talvez não saia essa noite. Estou exausto. — Confessei.
— Faz bem. — Concordou. — Logo após o jantar irei ao meu quarto e dormirei, não acredito que conseguimos terminar essas pendências.
— Que tu conseguiste terminar, pois não fui de muita ajuda.
— O senhor e o antigo Duque deixaram tantos documentos, todos esses meses estive trabalhando nesse ritmo. Parece um sonho terminar isso. — Sorriu.
— Realmente, perdoe-nos. — Bebi o resto da bebida. — Fico feliz em te ter junto a mim.
— Até quando iludir-me-á?
— Até quando fizeres parar de ser ilusão, já disse. — Levantei-me. — Vou ao meu aposento. — Dei as costas. — Boa-noite. — Sai e segui diretamente ao quarto. Não resisti muito, estava realmente exausto.
Acordei às sete horas da manhã seguinte. Levantei-me e aprontei-me, vesti uma calça, uma camisa de seda e um sapato. Fazia calor, não precisava me apresentar ao público. Segui ao gabinete. Estava vazio. Carmelia ainda dormia. Logo depois dirigi-me à oficina. Abri a maleta que levara à M&M e retirei os objetos.
— Certamente terei que o fazer sozinho.
Peguei um cartucho e retirei o projétil. Pincelei-o a fim de retirar a pólvora sobressalente do estojo, cortei um cilindro de ferro, encaixava quase perfeitamente dentro do estojo, cortei um centímetro e introduzi-o no estojo, depois encaixei o projetil novamente. Peguei a peça e prendi em um torno mecânico e liguei-o. Empunhei uma lima e lixei a ponta do projétil em alta rotação. Após a ponta reta, usei uma broca de 6mm e aos poucos fizera um orifício de 5mm de profundidade. Gotejei duas gotas de sangue e selei-lo com uma fina placa de aço, inseri a pólvora novamente.
— Esse projetil será testado hoje. — Falei comigo mesmo.
Guardei-o na maleta novamente e retornei ao gabinete. Carmelia estava sentada lendo jornal. Depositei a maleta sobre a mesa e abri-a.
— O que é isso? — Perguntou.
— Um projetil que acabei de fazer.
Ela pegou-o nas mãos e analisou-o por alguns segundos.
— É exatamente como o teu, mas sem a ponta. — Sorriu. — Não é hoje que conseguirá progredir.
— Desisto. Continuará assim. — Devolvi-lhe o sorriso. — O que farás agora?
— Nada, estou lendo o normal.
Uma criada entrou no gabinete e anunciou. — Senhor, senhora, há uma carta a vós.
— Dê-me. — Pedi.
Carmelia abriu a carta e leu.
"Dessas datas livres, felizmente disponho de amanhã à noite, se possível apreciaria receber eu e minha mulher como hospedes pela noite."
— Amanhã à noite? Fora mais cedo do que imaginei. — Disse ela.
— Não há problema, será melhor o quanto antes.
— O que farás essa noite?
— Sairei. Gostaria de fazer algo?
— Lembrei-me que não queres ser visto. — Pareceu cabisbaixa.
— Poderemos ir a um local mais reservado, talvez façamos algo como um piquenique noturno.
Seus olhos se iluminaram e seu rosto ruborizou sem demora. Levantei-me e caminhai até a porta. — Espere-me na sala de chá às oito horas.
As horas passaram relativamente rápido, mesmo não havendo trabalho a ser feito, todo o resto do dia pus-me a admirar a rosa azul adormecida em seu esquife repleto de formol. Suas pétalas nunca perdiam a cor, esse azul nunca saíra das minhas lembranças.
Era sete e meia quando desci à sala de chá. Carmelia ainda não terminara de aprontar-se. Sentei-me em uma poltrona e esperei-a. Depois de alguns minutos esperando-a, uma criada entrou e depositou a cesta sobre a mesa, nela havia sanduiches, alguns doces, geleia, pão e suco de laranja engarrafado numa garrafa selada por rolha.
— Dê os cumprimentos aos responsáveis pela bela cesta. — Agradeci sorrindo.
— Foram todos os da cozinha, senhor. Todos queremos ver Carmelia feliz, isso parecia alegrá-la muito.
— Entendo. Fora um belo trabalho. — Sentei-me novamente e continuei esperando.
Após alguns minutos, ela desceu. Estava deslumbrante, apesar de vestir-se simplesmente. Um vestido de cachemira preta, um plúmbeo cachecol de lã. Usava uma bota de couro negro e usava uma boina vermelha sobre seu cabelo penteado e amarrado em um coque. Usava também pequenos brincos de prata.
Levantei-me e beijei-lhe a mão. — Estás bela.
— Ilude-me, essa simplicidade não seria digna de tal elogio.
— E é essa simplicidade que te torna bela.
Peguei a cesta e seguimos à porta, entramos no carro e partimos. A lua não era cheia, não o suficiente para fazer o Hantz tornar-se um lobisomem. Não poderíamos seguir a um local cuja o acesso fosse permitido a todos.
Seguimos pela estrada de terra até uma clareira sobre um grande morro, do qual era possível ver todo o ducado. Estendemos uma grande toalha e eu depositei a cesta no centro. Além da cesta havia pegado uma garrafa de vinho.
— Retornarei daqui duas horas, senhor, senhora.
— Perfeitamente. — Corroborei.
— Vai esperar ou retornar para casa? — Perguntou Carmelia.
— Esperar-vos-ei aos pés do morro.
— Então leve um sanduíche. — Pediu ela.
— Estou agradecido, mas não posso.
— Aceite, ficarás com fome. — Insistiu.
— Obrigado. — Agradeceu, pegou um sanduíche e saiu.
Deitei-me sobre a toalha e suspirei profundamente, lembrei-me dessa familiaridade com momentos assim. Carmelia sentou-se no outro lado da cesta.
— Por que fazes isso comigo? — Perguntou ela após relaxarmos.
— Faço o que?
— Que te ame mais, mesmo não sendo reciproco. Por que continuas a querer conquistar-me? Diga-me o motivo.
— Preciso de ti. És meu bem mais precioso.
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