Memórias de vidro

32 Eu havia prometido devolver o seu amor.


— Não creio. — Exclamara o senhor Scoot. — És tu mesmo? Não estás morto? — Caminhou em minha direção e apalpou meu rosto.

— Sou eu mesmo. — Sorri. — Há quanto tempo.

Cumprimentou-me, cumprimentei sua mulher e sentamos nos sofás. Pedi alguns petiscos antes do jantar.

— Estou muito contente em te ver, senhor Scoot.

— Digo-te o mesmo. — Olhou Carmelia. — Como estás bela, uma mulher feita. Quantos anos tem agora?

— Farei 19 anos em junho.

— E tu Edmund?

— 22 em agosto

— Já és um homem? Ao menos em idade, o que falta a ti? Fazer um filho, plantar uma árvore ou escrever um livro?

— Nada dessas coisas fiz, sinto dizer.

— Não tenho filhos, então estamos no mesmo barco. — Sorriu. — Perdoe-me a falta de formalidade, mas ainda não acredito que é tu mesmo.

— Peço-te que não revele a ninguém.

— Juro que eu e minha mulher não contaremos, viemos a essa casa apenas para negociar com a Carmelia, e que a reunião seria demasiada extensa.

— Assim espero. conte-nos as novidades. — Pedi.

— Viajaremos à América, aos Estados Unidos. — Era a comemoração de bodas de ouro do casal. — Iremos a Washington e depois Nova Iorque.

— Estou contente, parece ser uma viagem divertida. — Disse sua esposa.

— De faro, imagino o mesmo. — Corroborou Carmelia.

— E tu. — Scoot dirigiu-se a mim. — O que contas?

— Nada de relevante, adormeci por meses. Tomado por sonhos e alucinações. Acredito que Carmelia seja a única a contar novidades.

— Gostaria, mas não sai muito de casa, e trabalhei muito.

— Entendo perfeitamente — Corroborou Scoot. — Governo dois distritos, é realmente exaustivo.

Um criado anunciou o jantar. Levantamos e seguimos à mesa. Entramos e continuamos a conversar.

— Perdoem-me, na comida pode faltar sal, infelizmente minha pressão não suporta nem mesmo o mínimo de consumo. Se quiserem mais sal, poderão usar os saleiros.

— Imagine. — Disse a senhora Scoot. — Nessa idade é prejudicial o consumo excessivo. Meu marido também sofre de pressão alta.

— De fato. — Concordou ele. — Isso não deixará o jantar menos saboroso.

— Estou aliviado. — Sorri.

Na mesa, havia algumas garrafas com vinho, uísque, cerveja e algumas outras bebidas. Dois grandes frangos assados e recheados com outras carnes. Uma lagosta e alguns camarões. Saladas de diversos vegetais e cores. Sucos de laranja e melancia.

— É uma mesa magnifica, comem assim todos os dias? — Perguntou Scoot.

— Não. — Respondeu Carmelia. — Normalmente comemos algo que não sobre. Para que não joguemos fora.

— Entendo. Diferente do antigo Duque. Gastava muito com banquetes diários.

— Fora Carmelia que mudou esse modo, na minha ausência, apesar de eu não exigir a mesma quantia de antigo Duque, sobrava um bom tanto de comida. Carmelia reformou nossa mesa. — Sorri.

— Quando morava com meu pai não passávamos fome normalmente, mas havia dias que não podíamos comprar nada para comer, é realmente revoltante ver pessoas mais pobres do que eu passarem fome enquanto outros jogam comida no lixo.

— É uma visão nobre. — Disse Scoot. — Mas estou faminto, fora uma viagem cansativa.

— Comam à vontade. — Proclamei.

Após o jantar, dirigimo-nos ao gabinete. Sentei-me na poltrona atrás da mesa, Carmelia sentou-se em um dos sofás e o casal no outro.

— Agora partamos ao assunto de fato sério. — Pedi.

— O que seria?

Peguei alguns papeis e distribui-os aos três.

— Trata-se de uma previsão.

— Sobre uma revolta? — Perguntou Scoot.

— Exato, sei que o senhor comanda um regimento de rebeldes.

— Como sabes?

— Aprendi com Branca a ser inteligente, e, administrar um bom serviço de inteligência.

— O que deseja saber?

— Saber? Sei do que preciso, mas acredito que o senhor não saiba de algo.

— O que seria?

— O assassinato do rei.

— O que? — Exclamou. — O que disse?

— O que escutaste. Planejo a morte do rei.

— Então está do nosso lado?

— Desculpe, mas não estou. Participo de uma organização diferente a tua, mas que ao final dessa noite terá conhecimento.

— Diga-me o que sabe sobre a morte dele?

— Primeiramente, como perguntaste, não faço isso pelo teu grupo, ou por tua causa. Faço-o por motivo mais particular.

— E quem acredita ser o assassino?

— Infelizmente isso não posso dizer.

— Serás tu?

— Por Deus, não. Seria facilmente descoberto. — Sorri. — Mas a pessoa que o fará não será descoberta.

— Quando ocorrerá o evento?

— Isso dependerá do teu grupo.

— O que quer dizer? Queres minha ajuda?

— Exato.

— Se for um bom plano, ajudar-te-ei.

— Como há na folha, é o plano, parece simples, e é. Por conta disso não haverá falhas.

— Parece bom. A propósito, como descobrira os planos do rei?

— Bons ouvidos.

— Certamente é algo que trará desordem.

— O poder que sofremos por séculos para obter não pode ruir por um mero rei. Ele não pode concentrar todo o poder nas suas mãos. Um rei que nunca entrou em uma guerra, que nunca teve sua cabeça quase guilhotinada ou o peito quase perfurado por chumbo, esse não merece meu respeito, ainda mais se comparado ao seu pai. O rei mais corajoso, e, com quem tive a oportunidade de lutar contra dos ingleses e germânicos durante a guerra da unificação. Não aceitarei um rei que se manteve no anonimato por décadas.

— Entendo o que deves sentir, senhor Scoot. E por conta disso, vejo necessária nossa aliança.

— Mas és o único nobre que apoia a causam não tens medo de perder o poder?

— Não, pois possuo outros poderes, alguns retirados momentaneamente, mas que conseguirei novamente.

— Não teme que algum criado ouça a conversa?

— São de total confiança, sabem de outros segredos mais devastadores.

— Como mantei a confiança deles?

— Isso quem o faz é a Carmelia.

— Acredito ser uma boa senhora. — Sorriu.

— De fato. — Concordou ele. E voltou-se a mim. — Mas quanto esse plano que escreveste nesse papel, o que pretendes depois? Queres algum cargo na política?

— Chegamos a um dos pontos que gostaria. Sim, desejo-o, mas não por esse motivo ajudo-te.

— E qual cargo pretende?

— Com uma nova constituição, desejo escrevê-la, algumas leis apenas. Das quais o senhor entenderá quando eu te contar o meu segredo.

— Então conte-me esse segredo.

— Acredito melhor que te mostre.

— Como?

— Saquei uma das pistolas que estavam veladas no meu coldre de peito municiada com cartuchos normais.

Scoot e sua esposa chocaram-se ao ver que eu possuía armas tão bem veladas. — O que significa isso? — Perguntou.

— Justamente o que o senhor vê, sempre estou armado. Assim como Carmelia, mas não tenha medo, nenhuma dessas armas será apontada ao senhor.

Engatilhei-a e pedi ao Grão-Duque que a segurasse. Retirei meu casaco, meu coldre, um colete de seda e minha camiseta preta. Mostrando assim, meu tronco nu.

— Atire em mim. — Pedi.

— O que? — Perguntou estarrecido. — Não atirarei em ti.

— Atire, minha própria mãe o fez, não nas mesmas circunstâncias, mas o fez.

— Não posso.

— Pegue a arma dele Carmelia. Quase esqueci. — Chamei o criado mais próximo e anunciei o disparo, pedi que avisasse os demais e trouxesse as pinças e curativos. — Carmelia, atire.

Ela pegou a arma e apontou a mim. — Não gosto dessa ideia, e se for o projetil especial?

— Não é, se for, não me vingarei e tu ocupará meu cargo, todos acreditam que eu esteja morto.

Apontou a arma ao meu peito e atirou. Fora realmente doloroso, não lembrava o quanto doía. Curvei-me por alguns segundos e voltei-me à postura ereta.

— Atire novamente. — Senti mais dois projeteis colidindo com meu peito.

Acredito que todos na casa puderam ouvir o grito da senhora Scoot. Sherlock avançou às mãos da Carmelia, fazendo com que a arma caísse ao chão.

— O que estás fazendo? — Bradou ele. — Estás louca?

— Deixe-a. — Exclamei enquanto ainda tinha força. Sempre que era alvejado lembrava de como Wladimir, o assassino da Cecília, conseguia resistir a tantos disparos sem ao menos cair de joelhos. — Estou bem, largue-a. — Levantei-me e escorei-me na mesa. Logo um criado trouxe as pinças e uma bandeja de metal. Entregou-a à Carmelia, que logo aproximou-se.

— Isso faz-me lembrar da primeira vez que te vi, todas as vezes que tenho que usar essas pinças. — Disse sorrindo singelamente. — É como se eu sentisse o que senti naquele momento. — Iniciou o procedimento.

Após alguns minutos de angustia e dor pude ouvir o som do terceiro projetil estatelando-se na bandeja. Limpou o sangue e em alguns segundos os ferimentos apresentavam apenas pequenas cicatrizes.

— Como é possível? — Perguntou Sherlock extasiado.

— Sou um vampiro, ou o nome que mais agrada-te. — Respondi-lhe. — Por esse motivo desejo criar leis. Mas contar-te-ei sobre o grupo, na verdade acredito haver integrantes do meu grupo no teu. Isso justifica minhas falas se isso chegar aos ouvidos de um superior. — Apontei para o meu próprio corpo. — Não morrerei com isso, mas não negarei a dor.

Ainda estavam extasiados, não conseguiam falar. Ele caminhou em minha direção e apalpou os locais que fora alvejado. — Como é possível? — Indagou. — Não pode ser real.

— É real. — Afirmei.

— Desculpe, não consigo digerir isso. Via-os apenas nos contos de fadas.

— Demorem o tempo que necessitarem. — Sorri. — Sou imortal. Há quase dois anos tornei-me tal.

— Mas todos podem andar sobre a luz do dia? — Perguntou ele.

— Não, apenas eu.

— Tens sorte. — Sorriu.

Contei-lhe sobre como fora transformado, quem me transformou. Contei-lhe sobre a vingança e o que busco. Seu olhar, após a conversa, mostrou-se terno e gentil, assim como os olhos de um pai. Não prolongamos a conversa após contar meu segredo. Era tarde e todos estávamos cansados, eles pela idade, eu pela falta de sangue.

O dia amanheceu claramente, a luz matutina passava pela fresta da cortina e encontrava-se com meus olhos. Despertei e não voltei a dormir. Após alguns minutos deitado, devaneando, levantei e aprontei-me. Saí do quarto e dirigi-me à sala de chá, mas no início da escada havia um criado.

— Bom dia, meu senhor, desculpe, mas terás que ficar no andar superior?

— O que houve?

— O representante de uma empresa de telefonia surgiu, acredito que marcaram horário há algum tempo com Carmelia e ela, devido a sua intensa rotina, esquecera.

— O Grão-Duque está com ela?

— Sim. Fora um momento oportuno encontrar o regente de dois distritos. Estão negociando a criação de uma rede telefônica atualizada. Acredito que seja ligeiramente aprovada.

— Concordo. Mas gostaria de poder ouvir.

— Infelizmente ele veio acompanhado de seguranças, estão guardando a porta do gabinete.

— Guardando a porta, em minha casa? Sinto-me ofendido.

— Quando fora interrogado por tal comportamento, dissera que temia que alguém o atacasse, já ouvira que essa casa é alvo de alguns atentados.

— Entendo, não os culpo. Resta-nos esperar.

— Carmelia recomendou-me a pedir ao senhor que esperasse no próprio quarto, ela disse também que acreditou que o senhor dormiria até mais tarde por conta da perda de sangue.

— Realmente não há muito o que fazer aqui em cima. Só não morrerei de tedio por que sou imortal. — Rimos.

— Queres que traga o desjejum?

— Adoraria, obrigado.

Retornei ao meu quarto, não demorou, alimentei-me e novamente deitei sobre a cama e fechei os olhos. Mas por sorte acabei por cochilar. Despertei uma hora depois. Sai do quarto e desci a escada, a reunião já havia terminado, o casal Scoot e Carmelia ainda discutiam o assunto.

Sherlock empunhou seu relógio de bolço e viu a hora. — Perdoem-nos, devemos ir, há alguns documentos a serem vistos antes da viagem. — Levantou-se. —Nossa bagagem já está toda no carro.

Levantei-me e parei a sua frente. — Fora uma proveitosa visita, espero que possamos encontrar-nos novamente. — Apertei sua mão.

— Certamente, meu caro. Adeus moça bela. — Beijou a mão da Carmelia.

— Estou lisonjeada, adeus. — Voltou-se à Senhora Scoot. — Adeus madame.

— Adeus, minha querida. — Cumprimentou-a e depois a mim.

Saíram do gabinete e logo ouvimos o som da ignição do carro. Relaxei-me no sofá e suspirei profundamente.

— Fora uma noite divertida. — Falei.

— Realmente. — Sorriu com o canto da boca.

— O que temos na agenda hoje?

— Nada, simplesmente nada.

— Não esquecestes de outra reunião? — Sorri.

— Não. Creio que estudarei um pouco.

— Mandarei uma carta a um ferreiro, desejo recebê-lo, a ele e um alfaiate. O ferreiro já me conhece e o alfaiate será um do grupo.

— O que pretende com isso?

— Aparentemente, nada que tu não farás com prazer. — Levantei-me e sentei-me na poltrona atrás da mesa.

A primeira carta dizia.

"Se minha encomenda está pronta, traga-a."

A segunda dizia.

"Alfaiate, venha à casa da Duquesa-Marquesa Carmelia, imediatamente.

PS. Traga materiais resistentes."

Chamei um criado e pedi que levasse as cartas aos entregadores.

— Pronto, precisarei esperar apenas.

— O que planejas?

— Quando terminar, verás, minha querida Carmelia.

Era aproximadamente seis horar da tarde quando a campainha tocou. No gabinete entrou um homem alto e magro, aparentava ter 50 anos. Tinha um grande bigode que lhe cobria a boca. Trajava um belo terno preto.

— O que desejas, senhor Major Morryes? — Perguntou.

— Faça um uniforme com o melhor couro e lona que o senhor puder.

— Qual seria a cor?

— Negra como ébano.

— Lembrei-me das suas medidas franzinas, trouxe uma peça quase finalizada, falta alguns ajustes apenas, isso fará com que a calça esteja pronta hoje.

— Quanto ao casaco?

— Tenho um pronto, diga-me apenas os detalhes que deseja.

— Perfeitamente, não é à toa que mantem esse título de melhor alfaiate dos Black Nighte ainda mais, de Morryes.

— Fico lisonjeado com tamanhos elogios, mas mesmo com essa idade avançada, falta-me muito.

Despi-me e fiquei apenas com as roupas de baixo, vesti a calça inacabada e ajustei-a em meu quadril. Em alguns minutos as agulhas surgiram, espetadas e mais espetadas. Depois de mais algum tempo a calça estava quase finalizada, os ajustes finais seriam feitos sem meu corpo. Trajei o casaco, era confortável e pesado, estendia-se quase até o chão, seu forro era de algodão até o final das costas e abaixo era de lona.

— Ele tem placas de prata? — Perguntei.

— Tem prata, mas não são placas. É uma espécie de malha feito inteiramente com o material ligado com estanho e alumínio, isso proporciona maior flexibilidade.

— Surpreendente.

— Porém, não oferece blindagem contra alguns projéteis que os Werckinberrevichs usam. Mas o que eles usam não te matarão, não é mesmo? — Sorriu.

— O casaco está bom assim. Termine os detalhes da calça. Lembrei-me agora, o senhor tem luvas pretas?

— De flanela apenas.

— Dê-me.

À noite já trajara toda a roupa. Apresentei-me à Carmelia.

— Estás belo. — Disse ela. — Realmente belo.

— Ilude-me. — Sorri.

— O que pretende fazer com essa vestimenta?

— Caçar.

Olhou-me, pude ver tristeza nos seus olhos.

— Compreendes meu desejo. Além disso, quero fazê-lo antes da abstinência.

— Compreendo, mas ainda dói saber que estás sujeito a morrer.

— Minha cara, não tenhas medo, pois nem mesmo os projeteis meus podem penetrar nesse tecido.

— Não mintas a fim de confortar-me, sei perfeitamente que prata não é tão resistente quanto aço, e que a espessura desse tecido de prata não passa de papel para esses projeteis. — Uma lagrima percorreu seu rosto. — Tu mentes tanto para mim.

Nesse momento a governanta anunciou um novo convidado.

— Deixe-o entrar. — Ordenei.

Era Bran Prier, o ferreiro que cortara meu rifle. Trazia consigo uma grande maleta de couro. Depositou-a sobre o console e dirigiu-se a mim

— Há quanto tempo, senhor Edmund. Quem é a bela moça?

— Sou Carmelia, muito prazer.

— O prazer é meu. — Disse sorrindo. Voltou-se a mim e continuou — Tua encomenda está pronta, combinará com essa vestimenta. — Abriu a mala, nela havia ferramentas de precisão para tornear e desenhar no metal. No centro havia um objeto embrulhado em um tecido de malha. — A tua encomenda. — Pegou o objeto abraçado pelo pano e desdobrou-o.— Aqui está, a máscara.

Era uma bela peça. O azul quase como idealizara, cobria ao redor dos olhos e o nariz por uma máscara presa a uma sub-máscara que cobria a parte superior da cabeça, a fim de esconder meu cabeço, a máscara era presa à nuca por alguns cintos. O interior dela era levemente almofadado, confortável. Os detalhes e desenhos eram pretos e foscos.

— É uma belíssima obra. — Proclamei.

— Estou lisonjeado, meu senhor.

— Cobre o quanto quiseres, Carmelia fará a ordem ao banco, emita a nota e retire o dinheiro. Mas na nota escreva que fizera um reparo em uma das joias da Carmelia.

— Como quiser. Antes peço coloque a máscara. Desejo vê-la em ti.

Assim o fiz. Proporcionava uma ampla visão, um encaixe anatômico e as cintas que prendiam eram reguláveis. Realmente um belo trabalho. Não era pesada como acreditara ser e não interferia nos movimentos, mantinha-se firme.

Minha vestimenta consistia-se de um par de botas, uma calça de lona grossa, uma camisa negra de flanela, um colete preto de cetim, duas luvas de flanela negra, o casaco recém adquirido, a máscara e uma capa de seda com um grande e pesado gorro.

— Devo admitir, falta-te a foice apenas, pois, estás como a morte. — Gargalhou Prier. — O que farás com esse uniforme?

— Infelizmente não podes saber, se gostar da tua segurança. O que farei será uma nova onda de assassinatos. Então finjas que não sabes nada, ou será acusado de cumplicidade.

Seus olhos estreitaram-se, fuzilando-me. — Rapaz, com quem acha que estás falando? O maior ferreiro do distrito e um antigo Coronel da guerra da unificação.

Devolvi-lhe o mesmo olhar e respondi-lhe. — Com quem falo ou ignoro é alheio aos meus interesses. Guerra por guerra, a diferença é que a tua fora pública e em um campo de batalha. A sua frente havia pessoas que morriam facilmente. A guerra na qual luto, nessa deve-se ter mais cuidado, pois nem sempre os inimigos morrem.

Seu olhar retornara ao que era antes. — Gostei de ti. Parece realmente um soldado. Reconheço-te, e, guardarei teu segredo.

— Estou muito feliz, apreciaria mais serviços teus. A propósito. — Chamei um criado e pedi-lhe que fosse ao porão e trouxesse a sacola com armas.

Não demorou até chegar, carregada por dois criados. Depositaram-na sobre um dos sofás.

— Escolha uma como cortesia, todas são artesanais, fabricadas por uma boa equipe da M&M.

Seus olhos iluminaram-se, contrastava com seu olhar cerrado que apresentara outrora. Pegou um rifle semelhante ao que eu levara para o corte.

— Posso ficar com essa? — Perguntou ele.

— É tua.

Seus olhos lubrificaram-se.

— Desculpe, não podemos conversar mais. — Proclamei. — Espero que entenda. Mandarei um carro levar-te até a tua casa.

— Não se preocupe, fora uma noite proveitosa, até ganhei um belo presente. Estou profundamente agradecido. Apesar das ameaças.

— Ameaças? Por favor, foram apenas conselhos.

— Esse velho já aconselhou tantas pessoas na guerra, reconheço conselhos de longe. – Sorriu apertando minha mão. Beijou a mão da Carmelia e saiu.

Estava novamente eu e Carmelia apenas. Sentei-me em um pequeno espaço no sofá que estavam as armas. E suspirei olhando a máscara.

— Está planejando caçar, compreendo, mas por que a máscara?

— Não devo ser visto.

— Por quê?

— Eu disse inúmeras vezes que não mataria humanos, mas vejo que alguns fazem-se melhores mortos.

— Não o faça, Edmund. Não assassine humanos.

— Infelizmente fiz uma escolha, da qual resultou em injustiça. Não pretendo cometer esse erro novamente. Mas não se preocupe, não sairei às ruas assassinando como faz o lobo. Sou racional e sei distinguir o bom do mau.

— Ao menos posso ir contigo? Para curar suas feridas.

— Adoraria, mas sei que tu serias um alvo mais fácil que eu.

Levantei-me e sentei-me ao seu lado. Acariciei seu rosto.

— Não quero que manches tuas mãos com sangue, eu fora a causa da morte de tantas pessoas, não quero que sejas de ti também. Se eu for ferido, fugirei e tentarei retornar à minha casa.

— E se não conseguir retornar? Estatelar-se-á em uma viela ou rua? Encontrar-te-iam. Se eu for junto, poderei esconder-me quando necessário e salvar-te quando preciso.

Ela não desistiria até ouvir uma resposta.

— Vista-se com um traje de caça. Provavelmente Elizabeth possuía um, ela caçava animais com o antigo Duque.

Sem demora pôs-se a subir ao quarto da Elizabeth. Segui-a alguns paços atrás. E sem ela notar, tranquei-a no cômodo e deixei a chave na fechadura externa. Dei as costas e dirigi-me à porta. Eu não gostaria da ideia de Carmelia ver o que faço. Ela queria ser medica, desejava salvar vidas, não gostaria de vê-las sendo tiradas. Ao menos até descobrir o que realmente passava em sua cabeça.

A noite dava-se clara, os postes iluminavam bem as ruas, algumas lâmpadas dos postes foram substituídas por lâmpadas mais fortes. Caminhei calmamente pelas ruas até chegar no centro. O Norte era deserto durante à noite, não seria parado, mesmo trajado com um casado e uma máscara. O centro não era tão iluminado quanto o Norte, as lâmpadas foram traçadas apenas em lugares socioeconomicamente mais elevados. Mas podia-se ver as ruas, apesar de os becos apresentarem apenas a sombra e o breu. Dobrei algumas ruas, estava pouco mais movimentada, realmente, em noite de lua cheia os vampiros minimizam suas patrulhas, assim como os soldados de grupo. Não demorou até encontrar um grupo. Entrei em um beco até poder aproximar-me deles e mantive-me nas sombras.

Eram quatro homens, usavam casacos pretos a fim de cobrir as placas de metal que usavam, tratavam-se de Werckinberrevichs. Pus-me a escutá-los.

— És virgem ainda, nunca provara sangue humano. — Disse um deles. — É a tua primeira caçada.

Eu estava perto o suficiente para acertar a cabeça deles, a parte mais vulnerável, onde os Werckinberrevichs não usam proteção, mas mantive-me atento à conversa.

Eles continuaram conversando e incentivando o jovem a cometer os crimes instintivos dessa espécie. Até esse momento mantive-me escondido. Mas os assuntos das conversas entre eles tornaram-se perturbadores como: estupros, assassinatos por esporte, torturas e outras atrocidades. Mas um homem em especial causou-me espanto, era um negro alto e forte. A pouca luz fez com que seu rosto se apagasse entre o breu, era visível apenas seus dentes quando sorria ao afirmar os crimes que cometera e seus grades e redondos olhos. O jovem rapaz recém transformado entrou em choque com as histórias.

— Eu não preciso fazer o que o senhor faz, não é? — Perguntou ele com certa angustia.

— Se andar comigo, sim.

— E se eu não quiser matar por esporte ou torturar?

— Então serás meu próximo brinquedo.

O rapaz engoliu suas palavras e manteve-se calado.

— Logo a sua primeira vítima chegará. Estão trazendo-a.

— Capturaram alguém? — Perguntou ele.

— Sim, pedi que trouxessem a mulher mais bela do bairro. Seja grato. — Sorriu enquanto batia em seu ombro.

Esperaram alguns minutos até ouvirem passos. — Devem ser eles.

Realmente eram seus companheiros, mas seus corpos eram carregados por dois soldados do Black Night. Caminharam em direção do grupo e lançaram os corpos que carregavam ao chão

— Não é hoje que farão festa. — Proclamou um deles.

— Quem és tu? — Perguntou o grande negro.

— Sou um soldado comandante. Eu e meu companheiro. Vós sois?

— Sou o comandante do regimento, Sinbalad, esses são meus subordinados.

— Pequeno regimento. — Satirizou o soldado. — O corpo de exército possui quantos? 500 pessoas? — Gargalhou. — Esse garoto com vossas senhorias é um novato? Ainda não bebeu sangue humano.

— Como sabe?

— Esse dois me contaram.

— Torturastes eles? — Talvez merecessem, aprenderam a não serem pegos.

O soldado deu um passo à frente. — O que diria de um jogo?

— Jogo? Prossiga.

— Se o restante dos seus homens não conseguirem nos derrotar, eliminamos esse garoto. Bem, se perdermos, morreremos.

— Feito.

Logo ordenou os outros dois aliados lutarem com seus adversários, porém, antes que pudessem reagir, seus corpos caiam ao chão, ambos com o crânio perfurado.

— Isso era um jogo. O que está fazendo? — Perguntou o Sinbalad.

— Não dissemos que esperaríamos sacarem as armas. — Sorriu o soldado.

— Malditos. — Jogou o rapaz para trás. — Fique aí. — Ordenou.

Lançou-se contra os dois. Eles prepararam-se para disparar, mas a arma do soldado comandante não disparou. O vampiro era rápido e o outo soldado não conseguia acertá-lo. Quando quase conseguiu destravar a arma, o comandante fora acertado no estomago por um poderoso e majestoso soco. Não resistiu e desmaiou. O outro não contou os disparos e quando fora recarregar a arma, fora golpeado no rosto. Sinbalad sacou uma pistola e disparou três vezes no rosto já deformado do soldado.

— Maldito. — Bradou.

Voltou-se ao outro, que recobrara aos poucos a consciência. Pegou-o pelo casaco e segurou-o contra a parede e ergueu-o meio metro do chão.

— Sou um Werckinberrevich nobre, posso ver perfeitamente à noite, melhor que vês ao dia, acha que seria morto facilmente?

— Admita. — Disse o comandante vertendo sangue de sua boca. — Estás vivo por minha arma haver falhado. — Sorriu.

Sem dizer uma palavra ele esticou o braço direito enquanto segurava o homem com o esquerdo. O relevo das veias no seu braço musculoso e suado refletia a luz fraca que passava pelo breu do beco. Desferiu um último golpe no peito do homem. Fora claramente audível o som do Externo se quebrando e esmagando o músculo cardíaco. Ouvi logo depois o corpo sendo largado e depois três disparos.

— Se ao menos fizessem-me cócegas. — Riu.

Sai das sombras empunhando o rifle cortado, segurava-o com a mão direita e a pistola com a esquerda. Saí das sombras e posicionei-me às costas dele.

— Sinbalad, és africano?

— És companheiro desses homens?

— Não os conheço.

— Sou africano.

— Quantos anos tem?

— 327, e o senhor?

— 21.

— És um menino ainda.

— Para quem trabalha?

— Um interrogatório sem ver o rosto do interrogador? Isso é covarde.

— Não considero essa observação de quem vê perfeitamente à noite. — Vire-se.

Enquanto virava, sacou a pistola e alvejou-me no peito. Consegui manter a postura e continuar apontando-lhe a arma. Tentou disparar novamente, porém, estava descarregada.

— O senhor deveria contar os disparos.

— Parece que não te derrotarei facilmente. — Disse largando a arma. — O que há por baixo da máscara? Um rosto desconfigurado?

— Sou eu quem faz as perguntas. — Acertei-lhe o braço direito com o projetil do rifle. — Para quem trabalhas?

Não houve resposta.

— Para quem trabalhas? — Não houvera resposta novamente. Disparei no outro braço. Dessa vez não escondeu a dor, seus dentes rangeram e seu olhar delineava ódio.

— Para quem trabalhas?

Manteve-se quieto enquanto mexia levemente a boca. Apontei a arma ao seu maxilar e disparei. Dilacerara quase que completamente. O sangue jorrava do ferimento.

— Infelizmente não poderás falar.

Ele agonizava estatelado sobre o chão úmido, debatia-se e contorcia-se como um peixe recém pescado.

— Devo confessar, é uma bela visão, um homem que teria tudo para me matar, estar nas minhas mãos. Mas seja grato, acabarei com teu sofrimento. — Mirei-lhe a arma e disparei.

O rapaz escondera-se atrás de uma lata de lixo. Caminhei com passadas calmas e compassadas até parar ao seu lado. Estava tremendo encolhido, e lagrimas saltavam dos seus olhos, chorava surdamente.

— Olá, senhor. Levante-se, gostaria de fazer-te algumas perguntas. — Não conseguiu mexer nem os olhos.

— Não me mate! Por favor. — Implorou.

— Isso dar-se-á dependendo do teu comportamento.

Aos poucos fora mexendo as pernas, depois os braços, mas não conseguiu se levantar, encostou-se na parede, o arfar quase quebrava seu peito.

— Soube que és um vampiro virgem. Diga-me, por que se tornou um Werckinberrevich? Fora por vontade ou forçado?

— Vontade.

— Porquê?

— Eu queria viver jovem e belo para sempre.

Não escondi o sorrido, ele não escondeu sua expressão ao ver de qual tipo era meu sorriso, um sorriso de desdém e superioridade.

— Então vives apenas para isso, e manteria sua vida com vidas humanas. Matarias sem remorso?

Manteve-se calado.

— Para quem trabalhas?

— Para o senhor Sinbalad.

— E quem era seu oficial?

— Walther. — Não conseguiu pronunciar mais qualquer palavra

— Para alguém que vives apenas para a beleza, não há espaço nesse mundo. Contente-se em morrer

Encostei a pistola em sua testa.

— As últimas palavras. — Pedi.

Não respondeu, estava em choque. Mas quando estava prestes a apertar o gatilho escutei chamarem-me.

— Pare, Edmund. — Bradou Carmelia ofegante. — O que estás fazendo? — Caminhou em minha direção. — Poupe-o, ele não tem culpa de querer se tornar um deles.

— Por um motivo tão vil quando a beleza, ele assassinará inúmeras pessoas por essa causa.

— E se eu me transformasse em uma Werckinberrevich para viver eternamente ao teu lado, matar-me-ia?

Essa pergunta retirou-me o folego, não sabia responder adequadamente.

— Estando ao meu lado, não me importo que sejas humana ou não, desde que não dê motivos para mirar essa pistola a ti.

— Apontá-la-ia a mim? — Seus olhos lubrificaram-se e seus lábios tremularam.

— Venha cá. Não te matarei. — Abracei-a por alguns segundos e soltei-a lentamente, segurei sua mão, saquei a pistola com a mão livre e atirei no crânio do rapaz. Carmelia abraçou-me fortemente enquanto chorava. — Acredito que não queira me acompanhar a partir de hoje. Afinal, sou um monstro. Por esse motivo te tranquei no quarto.

— Eu sei o que tu fazes nessas noites, não ou ingênua, seus olhos tornaram-se frios há muito tempo, mas apenas eu vi esse detalhe. Esse garoto merecia uma chance.

— Ele perdeu a chance da vida quanto buscava tal desejo. — Perdi as forças, estatelei-me escorado na parede e retirei a máscara. — O ferimento está fechando com o projétil dento. Fui acertado no coração, o sangue está esvaindo-se rapidamente e o bombeamento é irregular.

— Trouxe os primeiros socorros, eu sabia que te encontraria em tal situação. — Sorriu. — Avisei que não conseguiria chegar em casa.

Iniciou o procedimento da retirada do projetil.

— Está difícil de encontrar, seu coração não para de bater, isso dificulta a manobra.

— Queres que eu morra para livrar-me desse projetil?

— Fora no mesmo local do qual fora ferido antes de adormecer. Interessante.

Após longos minutos, encontrar um projétil em tais circunstâncias era uma tarefa demasiadamente difícil, mas fora encontrado e retirado.

— Obrigado. — Falei. — Realmente és preciosa.

— E imaginar que tu venceste aquele grande homem, e perde para um projétil. — Gargalhou. — É engraçado.

— Vejas como sou medíocre, ria, mas conseguirei minha vingança.

— Edmund. Por qual motivo queres vingar-se?

— Por que meu inimigo matara as pessoas mais preciosas que tive.

— Por que não desiste disso e vive uma vida pacata?

— Talvez depois de vingar-me, poderemos viver juntos. — Aproximei-me de seu ouvido e sussurrei. — Por toda a eternidade.

Seu rosto ruborizou e seus olhos brilharam. — Então prometa-me.

— Prometo-te, que se nos sobrevivermos a essa busca, viverei contigo. Se fores fiel ao que digo e ao que peço — Beijei sua mão.

— Serei. — Disse alegre.

— Quando eu pedir para que fiques em casa, fique.

— Talvez. Não te abandonarei.

Seu sorriso mostrou-se belo e singelo, sincero e romântico. Ela acariciou meu rosto com as mãos sujas com meu sangue e fitou-me carinhosamente, aproximou-se e beijou-me. Fora um beijo tímido e medroso, ela já fora rejeitada por mim uma vez. Os seus lábios transmitiam paixão e a voracidade contida pelo momento.

— Vamos voltar, um carro nos espera na rua.

Levantei-me e escorei-me sobre seu ombro. Caminhamos até o carro e entramos. Carmelia ordenara que seguisse à minha casa.

Quando chegamos, dirigi-me diretamente ao banheiro, abri o registro do chuveiro e esperei a água esquentar. Quando estava suficientemente quente, entrei no banho. Deixei que a água corrente limpasse meu corpo, livrando-me do sangue. Limpei-me devidamente e sai do banho. Vesti uma roupa leve e desci ao gabinete. Estava levemente sem forças. Perdera muito sangue desde que acordara.

— Quando descobri que tu bebeste o sangue da Sofia, senti-me com inveja. — Disse Carmelia entrando no gabinete. Sentou-se no sofá. — Sente-se aqui. — Apontou para sentar-me ao seu lado.

Levantei-me e sentei. Ela usava um conjunto de algodão, calça rosa-claro e a camiseta branca, o desenho largo do decote apresentava seu trapézio e seu pescoço fino e branco. Ela sabia que eu precisava de sangue, seduzia-me propositalmente. Acreditei que não precisaria por dois meses, mas minha rotina com hemorragias reduziu esse tempo. Exatamente como eu fizera com Daniela ela fizera comigo, pegou uma faca afiada e passou levemente sobre seu trapézio, fez-se assim uma linha vermelha sobre o veludo branco. Uma linha tênue, era o que eu via. Aproximei-me mais e beijei seu fino corte. Mordi sua macia carne, senti o gosto do seu adocicado e suave sangue, era quente como um bom vinho no verão.

Apreciei esse sabor por alguns momentos, até sentir que seu corpo perder ao mínimo de cor. Olhei-a novamente, minha boca estava levemente ensanguentada.Ela segurou meu queixo e beijou-me, mas dessa vez com mais coragem até o momento que ela perdera a timidez, abraçou meu pescoço e apertou-me mais junto de si. Deixara aos poucos seus ombros aparecerem. O tecido branco de sua camiseta, aos poucos tingia-sede vermelho. Beijei seu pescoço, apertava-me mais e mais. Eu sentia que ela era consumida pela felicidade, mesmo com a dor da minha mordida ela não parecia notar. Abraçava-me e beijava-me como se sua pressão sanguínea estivesse regular. Eu havia prometido devolver o seu amor. Mesmo que não seja de fato reciproco. Ela acompanhar-me-ia com fidelidade. E após essa noite, esse contrato fora selado, dei-lhe meu amor e recebi sua vida.