Memórias de vidro

33 Se eu dissesse que a amava, certamente lagrimas cairiam em meu rosto.


Era uma noite do início de março de 1922. Fazia frio. O vapor pairava no ar logo que eu espirava pelos pulmões. Minha patrulha tinha como objetivo, nessa noite, conseguir informações sobre Walther. As ruas estavam pouco mais movimentadas, talvez a morte de Sinbalad haja abalado a moral deles. Avistei um homem desaparecer sob o breu de um beco. Seduzido pela curiosidade, segui-o. Estava acendendo um cigarro. Mas percebi que se tratava de um Werckinberrevich. Trajava um grosso casaco fechado e um chapel. Quando me notou, virou-se e perguntou.

— Por que não tiras essa máscara?

— Infelizmente eu fora transfonado em vampiro após uma queimadura no rosto, prefiro que não a mostre, pela minha honra, pois com ela escondo esse rosto morfético e quase bestial. Gostaria de perguntar algumas coisas, estou assim há uma semana.

— O que gostaria de perguntar? — Tragou profundamente o cigarro.

— É possível que eu conserte meu rosto? Ouvi dizer que o senhor Walther pode saber, mas não o conheço.

— Nunca ouvi falar de algo assim, tenho uma cicatriz na perna, mesmo depois de tornar-me um vampiro, não curou, pesquisei pelas bocas dos veteranos. Disseram-me que não é possível alterar uma sequela antes de tornar-se vampiro.

Ajoelhei-me fingindo estar abatido.

— Não posso acreditar, terei que viver com essa mascara por toda a eternidade? Diga-me que com novos meios médicos e tecnológicos posso curar-me desse mal amedrontador que é essa bestialidade estampada no meu rosto. Soube que ele é um homem de contatos, que poderia ajudar-me se eu o fosse leal. — Cai aos prantos. — Vejas, nem lagrimas saem desses olhos nojentos e repulsivos. Falo contigo, mas a saliva não goteja dessa máscara, pois, há algodão e ele absorve o liquido.

— Realmente, um estado deplorável, tenho pena de ti pobre criatura. Infelizmente não posso dizer a localização desse homem.

— Então não podes ajudar esse medíocre ser?

— Posso dar-te duas escolhas.

— Quais seriam?

— Podes escolheres viver com esse rosto, ou poderei matar-te para que morra com dignidade.

— Dignidade.... É uma boa palavra, mas não define e nem sussurra minha existência. Quão mais depois que eu morra.

— Então o que escolhe?

— Matar-me-ia sem qualquer motivo?

— Se queres morrer, isso é um motivo.

— Quero que me diga como encontrar-me com Walther.

— Por que a insistência com esse desejo?

— Com esse rosto entalhado em minha cabeça saberia a causa da minha insistência.

— Então mostre-me esse rosto doente e medonho do qual falas.

— Mostrar-te-ei, mas seu coração parará diante de tanta vergonha.

— Repugno-o antes mesmo que te ver. — Gargalhou.

Retirei a máscara lentamente com a cabeça baixa, levei a mão ao casaco e empunhei veladamente minha pistola. Levantei a cabeça e apontei-lhe a arma.

— Entendi. — Tragou novamente o cigarro. — Tens um belo rosto, admito. Por que queres saber do Walther?

— Desejo conversar com ele.

— Por que não anuncia? Ele atenderia o senhor.

— Gostaria de uma audiência à sós com ele, de preferência em uma cela da qual ele fosse prisioneiro e eu seu carrasco interrogador.

— Quais são teus planos?

— Vingança.

— Quem ele assassinou?

— Ele é um peão a fim de chegar ao mandante.

— Quem querido perderas?

— Minha esposa.

— Dou-te razão, mas eu não tive a ver com esse assassinado, então, se por gentileza, o senhor não apontasse essa arma a mim, eu adoraria conversar mais.

— Faço-o se dizeres onde encontra-se meu alvo.

— Encontrá-lo-á se pedires.

— Mas se pedir não será de meu agrado, diga-me onde posso capturá-lo? À luz do dia e ao zênite escaldante. Se desejasse encontrá-lo com escolta, de nada valeria.

— Sinto muito, mas não o farei. Sou honrado, ao contrário de ti que usa uma máscara e finge-se de morfético.

— Admita, fora uma boa mentira, pude ver a repulsa nos teus olhos.

— De fato. — Sorriu. — Choquei-me ao ver seu belo rosto, eu estava pronto a acabar com a tua existência pérfida.

— Acabaria como? O senhor possui os projéteis nos Black Night?

— Infelizmente não, mas far-te-ia mastigar essa pílula que tenho em minha boca.

— Entendo, parece que ela será útil a outra pessoa. Va em frente.

— Não queres assassinar-me? — Seu rosto delineou surpresa.

— Ontem mesmo um companheiro seu, dois na verdade, o jovem virgem, não o conheci. Mas Sinbalad, esse conheci. Realmente era um bom homem, no sentido físico. Um negro forte e grande, de fato, transpirava força e quem o encarava logo tremulava. Mas eu arranquei dele um semblante de dor, que mesmo mínimo, era satisfatório. Realmente... Ele estava com o rosto mais desconfigurado do que o que eu idealizara ao senhor há pouco.

— Foras tu então, parabéns, eu mesmo não lidaria com ele.

— Mas faltava-lhe perspicácia, ele era forte, rápido e enxergava à noite. Mas seu fim fora não contar os disparos que dera.

— Realmente, é um pecado não os contar. — Sorriu.

— Confesso que se eu não houvesse planejado o momento de atacá-lo, não estaria conversando com o senhor.

— Estou extasiado pela solenidade, presenciar o homem que matara o Sinbalad, merece meu respeito.

— Infelizmente ele não falou nada.

— Era africano, seu povo mantinha-se calado nessas situações.

— Então morrera com honra, merece meu respeito. Mas voltemos ao assunto, não tente prolongar a sua vida mais que o necessário. A não ser que me conte o que desejo, se o fizer, deixar-te-ei viver.

— Boa piada, se deixasse-me viver, eu iria diretamente a ele e contaria, e assim que eu te contasse, essa arma dispararia. Rapaz, eu já lutei em inúmeras guerras, sou vivo, mas a morte está ao meu lado, apenas contando as horas extras que eu passo em vida.

— Se não fossemos inimigos, poderíamos ter sido amigos. — Sorri.

— Talvez, gostei de ti, apreciaria ainda mais que abaixasse a arma e pudéssemos conversar.

— Achas que és o Odisseu? Achastes que levar-me-ia na conversa?

— Não custa tentar.

— Tens últimas palavras?

— Um pequeno relato, poderia?

— Como desejar.

— "Se não me engano, fora na guerra da França contra a Inglaterra. Um soldado acuou-me em um beco e perguntara as últimas palavras. Respondi-lhe as que vieram em minha mente. Mas quando estava prestes a ser morto avistei a cabeça do meu malfeitor caindo ao chão. Eu fora salvo no último momento. Olhei aquela cabeça ainda guardando um sorriso superior, peguei-a e sorri-lhe de volta. Uma visão encantadora."

— Acreditei que seria mais longo.

— Parece que não preciso detalhá-lo para saberes o que digo.

— Então eu não devo deixá-lo vivo, na verdade é o contrário. Parece que te subestimei.

— Se não atirar, retiro-me e deixo-o caçar outro, estou sem proteção, não esperávamos ver caçadores hoje, logo após uma morte tão importante. Mas acredito que ajas por conta, andas sozinho, aparentemente. És um insubordinado?

— Esse grupo fornece favores e eu retribuo, apenas uma convivência de suportes.

— Entendo.

— Posso saber quantos miram as armas a mim?

— Dois apenas, não costumo sair com muitos companheiros, dificulta a comunicação. — Tragou o cigarro até o final, jogou-o no chão e pisou em cima.

— Admito, o senhor tem classe, apagar o cigarro.

— Como disse, vivi em guerras, algumas delas em savanas, se eu não apagasse o cigarro, todos morreríamos.

— Gostaria de fazer uma reflexão, posso? — Pedi.

— Va em frente.

— O que o senhor, um homem de lutas e batalhas, pensas sobre o comportamento dos Werckinberrevichs e dos soldados do Black Night?

— Bobagens, assim como as guerras.

— Entendo. Então por que lutas?

— Sempre fazemos amigos e eles são assassinados pelos inimigos, isso faz-me lutar, mas não os culpo, meus inimigos também perdem amigos. A guerra é isso. Também credito razão aos meus inimigos, eles defendem sua espécie, a presa, e nós lutamos para caçá-los, os predadores. Talvez essa seja a única batalha da qual eu vejo sentido em lutar. Pois não há possibilidade de convivência mutua. — Abaixou os braços e sentou-se em uma caixa ao lado. — Vejas, meu caro... Como chamas?

— Chame-me como quiser. E tu?

— Sou apenas um caçador. Não sabemos os nomes um do outro, isso não legitima meu assassinato sobre ti. — Sorriu. — Vejas meu caro morfético. Os vampiros não veem injustiças nessa guerra, pois, não são eles que dão o sangue para que vivam, os verdadeiros prejudicados são os humanos. Embora isso seja uma questão complexa. Se nós não nos alimentarmos, morreremos, em contrapartida, se os humanos não lutarem, eles morrerão. Ao contrário das guerras entre humanos, a guerra noturna na qual somos soldados atualmente, essa fundamenta-se na sobrevivência, e a entre humanos fundamenta-se no poder, pois, eles não precisariam matar-se atoa. Mas as mortes que ocasionamos à noite são necessárias. Se não a um, sim ao outro.

— Realmente seriamos bons amigos se não fossemos inimigos. — Sorri.

— Mas sabe o porquê de eu deixá-lo viver? Além de haver gostado de ti?

— Diga-me, por gentileza.

— Um subordinado meu fora poupado por ti há algumas noites, ele pediu que intercedesse por ti, infelizmente jurou que não me contaria o motivo, pois prometera a ti.

— Diga-lhe que agradeço.

— Como quiser. Retirar-me-ei, logo amanhecerá. Sugiro que volte para casa rapaz. Falta-te tato para averiguar se há viabilidade em abordar alguém. Mas confesso que há muito tempo não encontro alguém como o senhor.

— Fora um elogio?

— Depende, se o senhor considerar elogio, então será. Mas realmente, gostei de ti. Talvez haja visto em ti o oposto em Walther, sinto certa inveja, ele fora transformado há um ano e meio ou algo assim e já ocupa um bom cargo no clã. E eu, como dei pistas, sou velho, mais de 400 anos. Deveria agradecer a algum deus pela sorte que tens, não te conheço, mas omitirei essa busca por tal personagem.

— Estou profundamente agradecido.

Caminhou em minha direção. Na próxima vez seremos inimigos. — Dissera sorrindo enquanto passava por mim. Continuou caminhando dobrou a rua e desapareceu.

Vesti a máscara novamente e refleti sobre meus métodos. — Não alterei minhas abordagens ou meios de jogar esse jogo, continuo o mesmo rapaz ingênuo e descuidado. Do que adianta a frieza se não há cautela? — Pensei.

Sai do beco e pus-me a caminhar pelas ruas novamente. Não demorou até encontrar um humano sendo atacado por um Werckinberrevich, aproximei-me e vi que a pessoa já definhava e sucumbira. Ao notar-me o predador levantou-se e caminhou em minha direção.

— Estou satisfeito. — Proclamou.

Mas essas foram as últimas palavras que esse pobre assassino proferira. Acertei-lhe o olho esquerdo, fazendo-o cair no mesmo instante e logo a poça negra já começara a surgir. Dei as costas e continuei minha caminhada.

A noite não era tão clara, o vento sibilava pacificamente entre as vielas. Os paralelepípedos molhados das ruas refletiam a luz dos postes e tornava as ruas sem movimento, desertas e tristes. Caminhei por alguns minutos até cansar-me. Decidi voltar para casa.

Carmelia estava no gabinete analisando algumas contas fiscais da casa.

— Voltei. — Anunciei.

— Estava te esperando. Veja essas lacunas, esses valores errados nos documentos.

— Impossível. — Peguei os papeis e analisei-os. — São do antigo Duque.

— Por que motivo ele permitiria essas notas? Estariam roubando-o?

— Talvez, mas quem fazia a contabilidade nessa época?

— Infelizmente não há assinatura.

— Então não há nada a ser feito. — Respondi. — Deixe como está. Talvez tenha gasto o dinheiro em locais inapropriados.

— Como?

— Bares, bordeis, cassinos. Se pegares as minhas notas, verás que há lacunas também, são oriundas de algumas viagens, mas a maioria de bares.

— Tens fama de alcoólatra, isso não é bom. Dizem que morrera de cirrose.

— Cirrose? – Gargalhei. — Ainda bem que meu fígado é imortal... Bem... Essas lacunas podem ser das amantes que ele mantinha.

— Ele tinha amantes?

— Sim, sempre traíra Elizabeth.

— Passei a tarde tentando desvendar esse mistério. E o que é, apenas dinheiro gasto com amantes, ele não poderia publicar os gastos.

— Exato. Assim como não posso publicar alguns gastos, tais como, as armas e munição.

— Isso passou-me pela cabeça ao ver seus gastos. Bem, parece que está resolvido, perdi uma tarde e uma noite trabalhando em algo que a resposta durara apenas dez segundos. — Levantou-se e espreguiçou-se. — Estou exausta. Quero acordar ao meio dia. A propósito, como fora o passeio?

— Confesso-te que quase morri. Por sorte o subordinado do homem que rendi devia-me um favor.

— Então fora surpreendido?

— Sim, não sei o que devo fazer, não conseguiria sair vivo se houvesse disparado contra ele. Certamente ele morreria, mas arrastar-me-ia cova adentro

— Pare de ingressar em riscos desnecessários, aposto que surpreendera sem planejar uma palavra. Tu conseguiste a façanha de assassinar aquele homem ontem devido ao comportamento sensato e calculista, certamente se fosse eufórico e descuidado, estaria no mausoléu ao lado da Cecilia agora.

— Tens razão, isso é o que me falta. Eu contei até mesmo os disparos da arma, não posso dar-me ao luxo de chacinar qualquer vampiro em minha frente.

— Matou alguém hoje?

— Sim, ele acabara de beber todo o sangue passável da vítima.

— O conforto nessa espécie de morte é o fato de não haver mais dor que a mordida, aos poucos os sentidos dissipam-se e a sonolência faz a pessoa desmaiar. Mas ninguém prefere morrer, quão mais sabendo que seria apenas para alimentar a vida eterna do outro.

— O homem que deixou-me escapar disse-me ideias concretas sobre a sociedade fundamentada em caça e morte que vivemos à noite. Mas estava tão focado em eliminá-los que não parei para pensar no motivo de matarem-se.

— Aonde queres chegar com isso?

— Talvez devêssemos mudar a abordagem. Realmente, meu método é falho. A maioria dos Werckinberrevichs são fiéis à casa, eles preferem morrer ao contar algo.

— O que pretende?

— Algo mais intenso.

— Tortura?

— Talvez.

— Não se rebaixe a esse nível. Antes de caçar vampiros, casse o senhor Dias. Teus planos podem ser bem arquitetados, mas não vi movimentação deles.

— Acalme-se, minha querida Carmelia. Tudo em seu tempo.

Levantei-me. — Retornarei ao meu quarto, pedirei à criadagem que não me acorde. Antes de dormir, reverei meus planos sobre a vingança contra Dias.

Disquei o número da M&M. Logan atendera.

— Ainda estás aí? — Perguntei.

— Horas extras, muito trabalho pendente. O que deseja?

— Duas armas clonadas.

— O que?

— Isso que ouvistes, duas armas clonadas.

— A quem queres matar?

— Não posso dizer.

— Quanto a documentação, o que fará?

— Outro favor que te peço. Deixe-me redigi-la.

Ele riu e disse. — Lembro-me de quando perguntou sobre como controlaríamos as vendas na nossa primeira reunião. Mas hoje queres burlar esse sistema.

— As pessoas mudam. Passarei aí amanhã.

— Está bem. Vincularei as armas como protótipos. Pegarei duas que estão na esteira de serem marcadas e ordenarei repetir o número por acidente.

— Sabes bem como ser bandido. Obrigado.

— Só não me envolva nisso. — Desligou.

Segui ao meu quarto, retirei a máscara, despi-me e deitei. Não demorei a adormecer.

Despertei à tarde, o relógio batia quatro horas. Levantei-me e vesti-me com um terno negro. Desci à sala de chá, Carmelia já havia levantado, bebia café enquanto lia o jornal.

— Não estás no gabinete? — Perguntei.

— Quem de fora vê, pensa que sou viciada em trabalho.

— E é. — sorri.

— Vais aonde?

— À M&M, tenho uma encomenda a pegar hoje. Queres ir comigo?

— Quero, sairá agora?

— Sim.

Levantou e seguiu à porta. — Chamarei o motorista. — Disse ela.

Segui à porta e esperei o carro. Demorou cinco minutos, Carmelia já estava a bordo. Entrei e ordenei ao motorista que partisse.

Quando passamos pelo centro, notamos uma intensa movimentação policial. Não durou até nosso carro ser parado. O policial caminhava em nossa direção, parou ao lado da janela do motorista e perguntou-lhe se havia sabido de um duplo homicídio em um beco, uma das vítimas tinha um dos olhos feridos por um projétil.

— Fora uma noite perturbadora, houveram outros casos, cerca de 20 assassinatos só ontem à noite.

— Perdoe-me, senhor policial. – O motorista retirou um cartão do bolço de deu ao guarda. — Sinto dizer que sou afligido pela pressa, e, minha senhora, a Duquesa-Marquesa também sente essa aflição, da qual não sei detalhá-lo. Apreciaria a livre passagem em meio a esse cerco policial, pois as negociações frustradas podem ocasionar culpados, dos quais não seremos nós, eu e minha senhora. O senhor entende?

Devolveu o cartão e sorriu cordialmente. — Compreendo, meu caro motorista e minha bela senhora. — Afastou-se do carro e sinalizou que poderíamos passar.

Avançamos entre os policiais, por sorte ele não me viu. Após passar o tumulto, chegamos na fábrica. Passamos pelos portões e seguimos ao estacionamento. Eu e Carmelia desembarcamos, seguimos e seguimos diretamente ao campo de tiro. Lá encontrei-me com Morgana.

— Vim buscar a encomenda.

— Está no armário, espere um minuto. — Trouxe uma maleta com as armas. — O que pretende fazer com essas armas clonadas?

— Em breve saberá.

— Cuidado, lembre-se do que conversamos.

— Lembro-me perfeitamente. Voltarei à minha casa. Obrigado pelo pedido.

— Não há de que.

Dei as costas e sai do local. Retornamos ao carro e partimos.

— Levem-me ao ferreiro.

— Como quiser. — Respondeu o motorista.

Ao chegar, Carmelia desembarcou e dirigiu-se a porta do estabelecimento. Bateu algumas vezes e logo a porta se abriu. Ela e Prier trocaram algumas palavras. Entraram e a porta manteve-se aberta, sai do carro e entrei no estabelecimento.

— Ao que devo a honra? — Perguntou ele.

— Depositei o rifle sobre a mesa.

— Outra arma, tu es um traficante?

— Não. Desejo que retire o cano desse rifle.

Pegou suas ferramentas e iniciou o procedimento. — Posso saber o motivo? — Perguntou enquanto girava alguns parafusos.

— Apenas siga as ordens que darei. Será um bom preço.

— O que farei?

— Carmelia. — Chamei-a. — Tranque a porta. Eu enviarei um bilhete ao senhor dizendo que vá ao palácio, anuncie-se como um joalheiro indo consertar os colares da Branca. Os homens tentarão revistar tua bagagem, diga que é particular e ordem da rainha que não vasculhem ela confirmara a história e permitirão sua entrada. Tu seguirás diretamente ao quarte dela e trocará o cano da arma dela com a dessa arma.

— Por que farei isso?

— Descobrirá alguns dias depois. Ela te chamará depois de uma ou duas semanas após o ocorrido. O senhor tem uma ordem direta dela e passara pelos guardas. Depois de entrar no quarto, trocara os canos novamente e levará o cano retirado à minha casa.

— O que planejas? — Perguntou ele novamente.

— Verá, será um bom preço, meu caro Prier.

— Quando ocorrerá?

— Não sei ao certo, receberei um sinal.

— Poderei ficar com essa arma?

— Sim, deixá-la-ia aqui mesmo, mas raspe as numerações e desmonte-a a fim de utilizar as peças em outras armas. Mas em hipótese alguma, mantenha os números de registro dessa arma igual ao do cano.

— Então estas metido em algo sério.

— Sim, e preciso da tua colaboração.

— Se for realmente um bom preço, ajudar-te-ei. — Sorriu.

— Assim espero. Mandarei a ordem, guarde essa peça de modo que ninguém a veja.

— Como queiras.

— Tenho outro compromisso, despeço-me agora.

— Até aproxima ordem. — Cumprimentou-me.

Demos as costas e saímos. Entramos ao carro e partimos.

— Usarás os rebeldes?

— Sim, como no plano escrito ao senhor Scoot.

— Mas não lhe contou essa parte, a que usará a rainha.

— Percebeu? Tentei ser sutil.

— E fora, mas percebi. Falará com ela agora?

— Não, primeiramente enviarei uma carta ao senhor Scoot.

— Pedira um sinal para agir?

— Exato. Mas ele já começara a mover o grupo. Certamente ele e seus colaboradores, em maioria, empresários, iniciarão um pequeno tumulto durante algum tempo.

— Sabes quando iniciará os primeiros atos?

— Infelizmente não.

— Sabe o que será?

— Provavelmente vandalismo. Apedrejar casas de nobres e depredar patrimônios públicos.

— Nossa casa será alvo?

— Não poderemos ser suspeitos, mas se tivermos sorte, não receberemos pedradas.

— Realmente, se apenas nossa casa não fosse atingida, haveria suspeitas. Depois haverá outros movimentos?

— Infelizmente alguns rebeldes serão presos, outros mortos. Isso ocasionará revoltas mais serias.

— Isso é triste.

— Embora tornar-se-ia pior se deixássemos o poder nas mãos do rei.

— Realmente. Mas saibas que não fico feliz... E depois? O que farão esses homens. Lutarão pelo poder.

— Será parlamentarismo. A população votará.

— Então perderás o poder?

— Politico sim, econômico não, mas a política é facilmente manipulável, poderei controlar indiretamente. Ou entrar nela publicamente.

— Estás certo. Mas isso não se instalará rapidamente. Branca absorverá o poder.

— De fato, entretanto, não ficará como rainha. Ela não quer isso.

— Concordarei, nunca a conheci a fundo, ela parece ser forte e dominadora. Podem ter medo de ela tentar subir ao poder. A propósito, ela não será suspeita se o rei morrer?

— Talvez, mas outro ocupará seu lugar de suspeito.

— Forjarás o crime?

— E ainda dúvidas? Mas já sabe a quem a culpa será creditada.

— Entendo. Sem objeções, tens o direito de fazê-lo.

Não trocamos muitas palavrar depois. Quando cheguei em casa, dirigi-me ao gabinete, inseri uma folha na máquina datilógrafa e pus-me a redigir uma linha.

"Espero um sinal no momento oportuno."

Entreguei a um criado e pedi que ele levara ao mensageiro. Peguei o papel e uma caneta, escrevi. "Espero-te aqui o mais rápido possível." Ordenei ao criado que levasse diretamente à Branca.

— Resta-me apenas esperar. — Proferi.

— Conversará sobre o que com ela?

— Infelizmente uma parte da conversa é particular. As partes publicas poderás ouvir e opinar.

— Conversas entre pais e filho são secretar aos demais.

— Nunca perguntei sobre o que tu e teu pai conversavam. Aparentemente davam-se bem.

— Dávamos sim, era um bom amigo também. — Sorriu alegremente.

— Conte-me mais, estou curioso, além disso, sou consumido pelo tédio.

Sorriu alegremente e pôs-se a falar. — Lembro-me de um momento de quando estávamos pescando. Mas isso não deve interessá-lo, pois, nunca perguntara sobre nossa relação. Compreendo que fora por tua culpa que meu estimado pai morrera, mas tenho belas lembranças dele, e, como já disse, não estaria aqui.

— Conte-me mais, temos que esperar Branca.

— Então começarei. – Sentou-se confortavelmente. — "Estávamos em um barco, não me recordo da vila, mas havia um lago com vários peixes, era uma boa época para pesca. Havíamos pegado alguns. Fiquei orgulhosa por fisgar uma carpa maior que a dele." Adivinhe o que ele fez.

— Não sei.

— "Jogou-me no rio. Gargalhava incessantemente, até o momento que perdera o equilíbrio e caíra também." Fora um bom dia. Houveram outras vezes que me pregava peças.

— Realmente era um bom homem, atendeu-me sem perguntar. Ainda tenho aquele casaco. — Sorri.

— Tem ele ainda? Era seu melhor casaco, usava em festas. Quando disseste que o casaco que usava aquele dia valia um ano do nosso aluguel, não acreditei, constatei-o quando comecei a morar nessa casa.

— Eu fiquei grato ao teu pai, certamente haveria dado aquele apartamento a vós, mas como dissera, não podia.

— Eu entendo.

— Confesso que me surpreendi pela coragem de pedir dinheiro. — Sorri.

— Ele me reprendeu muito depois que saíste.

Ela ria, mas aos poucos seus olhos lubrificaram-se e seu sorriso tremulara, uma lagrima escorreu pelo seu singelo rosto.

Abracei-a e afaguei-a tentando acalmá-la.

— Obrigado. — Voltou a sorrir.

Contou-me algumas outras histórias dela com o pai. Era um homem muito mais infantil do que parecera, apesar de sério e haver lutado na guerra, era um pai amável.

Ao final da tarde Branca surgira. Sentou-se no sofá, pedi que Carmelia esperasse no lado de fora do gabinete.

— Como estás. Edmund?

— Bem e tu?

— Bem. — Seus olhos estavam fundos, abraçados por olheiras, mesmo maquiada não pode esconder seu rosto cansado.

— Há quantos dias não dormes? — Perguntei. — Não há necessidade de fazer-se forte e onipotente.

— Não durmo há alguns dias.

— Desde a nossa conversa?

— Parece tanto assim?

— Posso ajudar-te a resolver essas noites de insônia.

— Como?

— Tu sabes como.

— Não entendo.

— Entendes sim, no fundo sabes como livrar-se desse fantasma do passado.

— O que queres dizer?

Seu estado era debilitado, sua mente brilhante não absorvia diálogos desse nível. Fugia-me da cabeça que, apesar de forte e inabalável, ela era uma mulher frágil e sensível. Quando a vi forçar o sorriso para que, em um último esforço, pudesse manter sua pose. Lembrei-me de quando via-a brigar com meu pai e depois segui à sala e logo músicas tristes em compassos largos e com notas nas extremidades de agudas e graves pairavam pela casa. Era como ela dizia seus sentimentos, o piano era sua voz.

Lembrei-me de quanto ela tocara depois de retornar do funeral do Edward.

Adormeci após retornar a minha casa. Mas acordei ao som de uma melodia atônita. Senti-me hipnotizado e levantei-me. Caminhei em direção à encantadora música.

Todas as cortinas estavam abertas, a luz pálida iluminava a sala. O piano de calda era negro e o verniz refletia a luz, fazendo-o tão fulgente quanto o brilho de prata. A pianista tocava com maestria e leveza e seus dedos deslizavam sobre o marfim. A pele dessa mulher era lívida e mais intensa essa brancura mostrava-se à exposição à luz que iluminava o local. Enquanto tocava, lagrimas escorriam pelo seu rosto e pingavam sobre as teclas. Não importava a essa mulher se as lagrimas manchariam o marfim, ou se machucaria seus dedos teclar incorretamente. Ela preocupava-se apenas em dizer o que sentia. Seus movimentos de hora e hora tornavam-se arrastados e lentos. O torpor dessa melodia encantava-me a cada nota. E fora essa imagem que eu esquecera de Branca. Esse momento que assisti à própria Euterpe poetizando essa dor e sofrimento. Fora essa mulher que eu substituíra pela poderosa e majestosa mulher que tenho como mãe. Mas ao vê-la debilitada, recordei-me que era humana, e que sentia magoas e tristezas, que talvez chore todas as noites ao chamar seu amado marido e não o ter. Era essa mulher que vi definhando em minha frente.

— Sabes o que deve fazer a fim de poder viver. – Sussurrei no seu ouvido. — Sabes que o estado no qual se encontra, é primeiramente, torpe e desnecessário, não aprecio essa visão. Uma mulher como tu, ser vencida por um mero homem. Aonde encontra-se teu orgulho? A viúva de meu pai desonra-o ao acatar a um monstro. Onde fora tua dignidade? Compreendo que se trata do rei, teu malquisto, mas tu és a rainha, não tem menos direitos que ele em relação ao casamento. Assassine-o... Assassine-o. E veja-se feliz como fora antes de casar-se com ele. Tu prometeste casar-se, mas não estendera a promessa além disso. Ou seja, já cumprira a promessa. Não definhe. Não se permita rebaixar a uma mulher indigna da tua história e da tua força. Assassine-o... Assassine-o... Não permita que ele levante a mão a ti, teu corpo marcado apresenta a dor. É isso que desejas? Acredito que não. Pois sei que meu pai nunca ousou pensar em dar-te um tapa, sei que isso tu respeitavas nele. Edward respeitava o teu espaço e a tua liberdade. Não esqueças o esforço dele. Lembre-se. Lembre-se da natureza selvagem que teu olhar majestoso...

Não pude continuar a falar, ela fechou os olhos e adormeceu. Aproximei-me se seu ouvido e sussurrei algumas palavras. Levantei-me e pedi que Carmelia entrasse.

— Ela adormeceu? — Perguntou Carmelia.

— Sim, deixe-a aqui por hora.

Saímos do gabinete e seguimos à sala de chá. Servi-me um copo de uísque e bebi-o em um gole.

— Ela está no seu limite. — Peguei uma caneta e pus-me a escrever.

"Há mudanças nos planos. Inicie logo que receber essa carta, faça-o que aconteça hoje. Deixe a sutileza e ponha-se a caminho de uma reunião que será marcada essa noite mesmo. Se não o fizeres, será o fim da nossa oportunidade." Entreguei a carta a um criado. — Leve. — Ordenei.

— O que pretendes? — Perguntou Carmelia.

— Temo que adiantar o plano o mais rápido possível.

— Por quê?

— Temo não conseguir conter o assassino, que sua sanidade retorne.

— E como o fará?

— Tentarei fazer com que haja uma reunião importante no palácio hoje à noite. Não esperei que isso falhasse meus planos.

— Um empecilho torpe. Escreveu ao Scoot?

— Sim, pedirei uma manifestação que mova toda a polícia e faça-nos reunir a fim de discutir a segurança.

Passaram-se duas horas, minha cabeça já doía pensando em planos e soluções. Escutei um gemido no gabinete e retornei. Branca havia despertado, atordoada.

— Dormistes bem? — Perguntei.

— Sim, desculpe por adormecer enquanto falava.

— Não há problema, mas agora farei uma pergunta, quero que responda imediatamente

— O que seria?

— Tu querer assassinar o rei?

Essa pergunta delineou um semblante reflexivo em Branca, porém, havia surpresa e indecisão, seus olhos brilhavam e sua boca tremulava.

— Responda-me.

— Que... Quero. — Respondeu acuada e com uma voz quase surda.

— Queres ou não? Eu não ouvi.

— Quero.

— Diga-me o motivo.

— Tu sabes bem o motivo. — Caiu aos prantos.

— Então direi como terás que fazer.

— Planejastes isso? — Parecia perplexa.

— Não posso ver minha mãe sendo tratada como tal.

— Mas por que eu devo matá-lo, não seria melhor um bandido?

— Diga-me o que sentir quando apertar o gatilho e ver teu malfeitor estatelando-se ao chão. Basta puxar o gatilho e tudo estará terminado. Faça-o e sinta a satisfação que eu sentirei ao vingar-me de meu homem. Pois essa satisfação que sentirei será maior da que senti ao fazer o sujeito, que fincara o punhal no abdome da Cecília, morrer. Então vingue-se, ele não sente remorso por ti e continuará a usá-la.

— Eu sei disso. — Bradou. — Pare de induzir-me a isso. Não podes me manipular, não a mim.

— Não te manipulo, faço-te querer ser livre como uma bela ave de rapina que voa sobre os pinheiros cobertos pela neve ou desertos de abundante areia.

— ... Como farei? Não serei suspeita?

— Não, se seguir meu plano, não.

— Conte-me.

— Vá com o meu carro e ordene ao motorista levar-te ao ferreiro Prier. Lá pegue um objeto que eu deixei aos seus cuidados. Sigam, os dois, ao palácio e anuncie esse homem como um joalheiro que tu chamaras a fim de concertar algumas joias quebradas.

— E se o rei ficar no quarto.

— Ele não ficará, nem ti o farás. Pois serás chamada pelo serviço de inteligência. Então esse ferreiro ficara responsável pelas joias, mas ele pegará o fuzil que tu tens na parede e trocara os canos. Colocará um com calibre diferente e com outra numeração.

— E quando usarei?

— Quando reunidos os líderes. Tu acertarás o rei.

— Mas como sairei o serviço de inteligência?

— Apenas vá, tente mostrar-se cansada e passe o poder ao subordinado, desculpe-se e retorne ao quarto com ajuda de uma criada. Ao ver a tua aparência quando chegastes, imagino como estavas no palácio, todos acreditariam, até mesmo o rei. Quando a reunião começar vá à torre mais acessível e dispare.

— Se eu for à uma torre, eles poderão deduzi a localização do disparo, com isso perguntariam quem fora ao local, eu seria descoberta.

— Poderemos fazer esses guardas não te reconhecerem.

— Como?

— Poderei me infiltrar no palácio.

— Estás louco? Seria descoberto.

— Talvez, mas abriria caminho a ti.

— Esqueça, não vá ao palácio, acharei um jeito.

— Faça o que desejar.

— Pensei em algo, poderei remover a guarda desse itinerário.

— Realmente, será oportuno. Faça-o. Provavelmente encontres a Carmelia no caminho, finja que não viu nada e continue.

— E como o ferreiro sairá do palácio?

— Ele ficara cuidando das joias, eram muitas que precisava de um bom trabalho, dirija um longo e detalhado trabalho, ele não sairá do teu quarto. Ele sairá contigo, quando tu vires à minha casa pedir que eu te console por perder o estimado marido. Nessa visita Prier vem à minha casa e sai pelos fundos. Enquanto conversamos, tu contas os detalhes do processo.

— É um bom plano, mas quem será acusado?

— Não posso dizer.

— Entendo, como fará a reunião acontecer?

— Uma revolta violenta. Os líderes terão que se encontrara fim de discutir as soluções. Volte agora e busque o ferreiro, siga o plano.

— Que hora agirei?

— Provavelmente à noite.

Levantou-se, cumprimentou-me, chamou o motorista e partiu. Chamei Carmelia a fim de discutir o novo plano.

— Sairás ao encontro de líderes, e depois sairás da sala com Dias, levá-lo-á a uma torre, da qual saberá em algum tempo, portavelmente tu e Dias cruzarão com uma pessoa nesse caminho, ignorem, não a chame ou deixe Dias chamá-la. Leve-o ao topo da torre. Mandarei um subordinado mantê-lo quieto e presenciar o disparo. Um pouco antes retorne à reunião sem ele e diga que se separou dele por ele haver pedido, disse que haviam coisas a fazer. Logo após o disparo finja entrar em pânico e desmaiar. Levar-te-ão à enfermaria, após alguns minutos desperte e saia do palácio, venha diretamente a aqui.

— Como queira. Adeus. — Saiu logo em seguida.

Esperei até o final da tarde, liguei o rádio e como esperado, as notícias chegaram. Algumas gangues iniciaram disputas territoriais intensas.

— Senhores, senhores, o que é isso? Hoje de manhã não havia movimentação suspeita. Algo assim tão de repente? — Indagou o locutor do rádio. — A polícia recomenda que ninguém saia de suas casas, trabalhos ou estabelecimento do qual ocupa. Repito, não saião de onde estão.

Desliguei o raio e dirigi-me ao piso superior, parei em frente a janela e avistei o movimento policial. Alguns carros de bombeiros dirigiam-se aos locais.

— Não imaginei que estariam prontos, quão mais nessa proporção. Infelizmente devo esperar em casa, isso é frustrante.

Peguei o telefone e liguei ao Grão-Duque. Ele atendeu.

— Fale. — Disse ele.

— Sou eu. Não esperei que fosse possível.

— Há! Como vai? Recebi tua carta.

— Estou vendo. — Sorri. — Podes ouvir o som dos bombeiros? Não imaginei que conseguiria algo assim em poucas horas.

— Realmente, estávamos prontos para agir a qualquer momento. Diga-me, esse plano funcionará?

— Se meu assassino acertar alvo, sim.

— Terás apenas uma oportunidade.

— A pessoa dispara certeiramente, tão bem quanto um mercenário.

— Assim espero, lembre-se, usei topo o meu poder nessa investida, estou confiando em ti e em teu atirador.

— Fique descansado... Realmente, é uma visão magnifica.

— É triste que inocentes sejam sacrificados por desejos nossos.

— De fato, entretanto, sofreriam mais se não o fizéssemos.

— Concordo. Amanhã conversaremos mais, adeus.

— Adeus. — Desliguei o telefone.

Continuei a assistir o caos.

Mas não via muito além das sirenes e fumaça. Aos poucos a movimentação dirigia-se ao norte. As tropas policiais marchavam com fuzis em mãos.

— Certamente os Werckinberrevichs não sairão de suas casas hoje. – Pensei.

O telefone tocou. — Estarei na torre norte, sobre a capela. Mandarei um mensageiro encontrar a Carmelia e dar-lhe um bilhete dizendo meu ponto.

— Entendido.

Desligou. Depositei o telefone no gancho e pus-me à frente da janela novamente.

Felizmente a revolta não chegara muito perto da minha casa. Era noite quando Carmelia retornou, quando já não havia tumulto. O silencio era abatido apenas por apitos e sirenes.

Sentamos no sofá e então iniciei o interrogatório.

— Diga-me, o que acontecera lá?

— Contar-te-ei tudo, peça água, por favor, estou tão nervosa que não posso mais levantar-me daqui.

Levantei-me e pus-me a chamar um criado. Pedi-lhe água e que mandasse o motorista buscar Branca e o ferreiro, caso já houvessem saído, instrui-o a dar meia volta. Entreguei a água à Carmelia e esperei ela relaxar e parar de tremer.

— Desculpe-me. Contar-te-ei como fora o acontecimento.

— Por favor. — Segurei suas mãos.

Pôs-se a contar.

"Estávamos reunidos, os chefes de defesa, de polícia, ministro da saúde, Dias e eu. Estávamos sentados, não esperávamos que o rei aparecesse em pessoa, mas apareceu. Sentou-se e perguntou.

— O que está acontecendo?

— Uma revolta inesperada, excelência. — Respondeu o ministro de defesa.

— Sei que é uma revolta. Mas como isso ocorreu?

— Não sabemos, não haviam indícios ou movimentações.

— Como não sabiam? Isso parece forte demais para não saberem de nada. — Socou a mesa. — O que eles querem?

— Não sabemos, nenhum carrega placas, talvez não se trate de uma revolta, mas sim de uma intensa luta de gangues.

— Por que solicitaram minha presença? Isso pode ser resolvido com os poderes que tens.

— Infelizmente está fora do controle, precisamos de uma decisão real. Não podemos exterminá-los. Isso geraria uma revolta verdadeira.

O rei acalmou-se e voltou a sentar-se.

— O que precisam de mim?

— Uma ordem de extermínio, se o senhor assinar uma ordem de criação de lei, poderemos proclamar anarquia como deserção ao serviço da cidadania ou desonra à pátria, com isso poderemos acionar o exército.

— Então façam a ordem. — Proclamou.

Um escrivão foi chamado.

— O que planejam para manter a ordem?

— Enviei tropas de policiais para conter os meliantes.

— Quanto tempo prevê até o cerco?

— No ritmo que estamos, dois dias ininterruptos.

— O que é isso? Uma guerra civil? — Voltou seu olhar ao Dias. — Mande todas as unidades medicas ajudar os policiais.

— Já mandei. Até mesmo um grupo de cirurgião de combate.

— Eles estão bem armados?

— Como se fosse para a guerra.

— Quais são as gangues?

— A casa das armas, os Black Night, os Irmãos de chapéu e outras menores.

— Mas como fariam algo assim sem movimentarem-se antes? E nossos infiltrados?

— Não sabem também. Disseram que fora de um momento ao outro.

— O serviço de inteligência não fora capaz de notar esse plano?

Levantei-me e desculpei-me. — Perdoem-me, não suporto isso, beberei algo, quando melhorar, retornarei. — Curvei-me.

Quando sai do quarto um empregado grande e forte, entrou e pediu que Dias o seguisse. Levantou e saiu logo atrás de mim. Fingi-me canada e perder as forças nas pernas.

— O que houve? Senhora. — Perguntou o empregado.

— Não estou bem, ajude-me, por gentileza.

Dias viu-se em um momento que não poderia faltar a ajuda e acompanhou o criado. Ajudaram-me a andar.

— Adoraria ir ao local onde a rainha está.

— Então vamos ao mesmo lugar, pois esse empregado deu-me o mesmo local.

Levaram-me ao lugar. Fingi-me de vítima. Ao chegarmos fiquei em pé. Era uma sala escura, possuía uma janela, um bom ângulo voltado à sala onde os lideres estavam.

— Obrigado, senhores, sou muito grata. — Saquei uma pistola e apontei-a à cabeça de Dias.

O empregado agarrou e o amordaçou, amarrou suas mãos e puseram-no ao lado da janela. Logo outra pessoa entrou. Usava uma capa negra, trazia consigo um rifle.

— Parece que o senhor está bem, meu caro Dias. — Disse Branca. — Então esse será o acusado do crime?

— Sim. — Respondi.

— Entendo. Maldito Edmund, usou todos a fim de vingar-se de alguém como ele. Tu sabias?

— Sim. Mas não há volta.

— Volte à sala. Esperarei dez minutos após teu retorno.

— Boa sorte. — Desejei.

— Vá.

Sai da sala da torre e retornei à reunião.

— Onde está o senhor Dias? — Perguntou o rei.

— Logo que sai disse que tinha algo a fazer.

— E tu, o que fazes aqui? Não passa de uma nobre. — Disse a mim.

— Sou o Duquesa-Marquesa do ducado enfermo por esse anarquismo, não posso abandonar meu domínio. Sou fiel a ele, assim como fui fiel ao antigo regente.

— Aquele inútil? Por favor. Teu trabalho é muito melhor que o dele.

— Desejo corrigir os seus erros, desejo administrar essas terras com maestria e polidez, mas até o meu desejo concretizar-se, demorará, precisarei agir em situações assim.

— Que seja. Aonde está a ordem.

— Ainda sendo redigida, excelentíssimo.

— Apressem-se.

— Estará pronta à meia noite.

— Não permitirei passar disso.

O silencio tomou a sala e de repente houvera o som do vidro estilhaçando-se. Todos nós jogamo-nos ao chão. Quando constataram não haver um segundo disparo, levantamos e vimos o rei estatelado ao chão com seu crânio quase triturado pelo projetil. Foi uma morte indolor. Segui com o plano e fingi desmaiar. Os guardar entraram e viram o que aconteceu, chamaram reforços. Fui levada à enfermaria. Depois de despertar, levantei, sai do palácio. E cá estou."

— Estou muito nervosa.

— Acalme-se, acabou bem. — Sorri.

O telefone tocou. Levantei-me e atendi.

— Quem és tu? Perguntou a voz só outro lado da linha. Quem és tu que armou para mim?

— Sou eu, Edmund.

Não houvera nenhuma outra palavra por alguns segundos até ouvir a voz da Branca.

— Trouxemos ele em casa, implantaremos as armas, os canos já foram trocados. Logo chegarei aí. — Desligou o telefone.

Retornei ao gabinete.

— Quem era?

— Branca, implantarão a arma, redigirei uma denúncia amanhã.

— Entendo, realmente, tu és um maldito, tal como branca disse. — Disse Carmelia rindo.

— Talvez seja mesmo. — Sorri. — O que achou da experiencia?

— Emocionante.

— Faria novamente?

— Sim.

— Imaginei. Imagino como ficou o rei, quase sem cabeça. Se fosse à forma francesa, ele seria guilhotinado.

Quando Carmelia já estava calma, uma criada recebeu a convidada. Branca sentou-se no sofá, respirou profundamente e disse.

— Canalha, nauseabundo. Se queria tanto vingar-se do Dias, bastava tê-lo matado. Não haveriam inúmeros feridos.

— Não se preocupe, não o fiz sozinho, uni meus interesses aos interesses de terceiros. Fora um trabalho conjunto, um trabalho que demoraria meses. Quatro interesses: a queda do rei, vingar Dias e assassinar o rei por agredir minha estimada mãe e assassiná-lo por vingança. O que farás agora?

— Agora assumirei o trono.

— Antes que decida algo, falar-te-ei a verdade. Despusemos o rei pelo fato dele planejar onipotência. Saiba que eu aconselho a ser uma rainha liberal, capitalista, ou ceda o poder ao sistema democrático.

— Compreendo. Eu soube dos planos dele. Permanecerei no poder até construirmos a infraestrutura e sistema, talvez parlamentarista.

— O que dirá se Dias alegar que tu mataste o rei?

— Quase esquecia. — Dirigiu-se à mesa e abriu a gaveta, retirou um canivete e fez um corte no quadril. Logo caiu ao chão.

— Busque a maleta de primeiros socorros. — Pedi à Carmelia.

Levantou-se e saiu do gabinete.

— É uma boa mulher. — Disse Branca. — Mas pareces usá-la também, ela sabe disso?

— Sabe.

— Tenho pena dela.

— Tenha pena de si mesma, olhe como sangra. Por que fizeste isso?

— Se Dias alegar que eu participei do atentado, poderei dizer que ele tentou capturar-me e deu-me essa facada. Qual será a sansão dele?

— O que acha de tortura?

— Não é apropriado. Posso acusá-lo de atentado contra o rei, isso geraria o fuzilamento ou a prisão perpétua ao usar-me como refém.

— De preferencias em algo como o castelo de If. — Sorri. — Mas antes desejo trocar algumas palavras com ele.

— Como o fará? A guarda ao seu redor será grande.

— Não sei. A propósito, se tu disseres que fora capturada, isso seria melhor que uma carta anônima. Amanhã Carmelia anunciará a tua estada na minha casa, enquanto se recupera. Quando perguntarem o motivo de estar aqui, diga que depois de escapar da casa do Dias, correras a casa mais próxima de alguém que confia. Faça um bom curativo.

Carmelia retornou e iniciou o procedimento de primeiros socorros.

— Tu fizeste o corte muito fundo. Edmund, traga água quente e minha caixa com pinças.

Sai imediatamente do gabinete e dirigi-me ao laboratório. Bradei a ordem de esquentar a água ao primeiro criado que ouvisse. A caixa estava sobre a bancada do local. Peguei-a e retornei. Realmente, Branca se cortara profundamente, o sangue não havia mostrando-se muito por conta da roupa, mas quando Carmelia abriu o vestido, o sangue começara a escorrer. A água chegou logo depois. Despejei algumas agulhas na água fervente enquanto Carmelia continha o sangramento.

— Está parando. — Disse Carmelia aliviada. — Passe-me o soro fisiológico.

Limpou o ferimento e preparou a linha e a agulha. Iniciou a cose.

— Por que não pediu a mim que fizesse o corte? Eu sei usar uma faca. Haveria feito algo menos perigoso.

— Cortar-me-ia? Sem remorso?

— Cortar-te-ia sim, mas o remorso assolar-me-ia, com certeza. Diga-me. O que sentia quando apertou o gatilho?

— Confusa, meu dedo não se movia muito tem, mas quando disparei e vi ele estatelado, senti-me aliviada.

— Fora um bom disparo, acertou-lhe o crânio. Realmente, tens uma boa habilidade. O que achou de tirar a vida de alguém simplesmente ao puxar o gatilho? Uma pequena alavanca de aço, quando a acionada, alguém morre. O que achou disso?

— Não desejo responder-te essa pergunta.

— Entendo. Bem... Se quiseres repetir esse feito com os Werckinberrevichs, provavelmente será bem-vinda ao grupo.

— Pertenço ao serviço de inteligência.

— Não poderás mais pertencer ao serviço de inteligência, agora que assumirá o trono. O rei não ocupa essa função. Esquecestes?

— Esqueci.

— Esse cargo será ocupado por quem?

— Talvez pelo meu subordinado mais próximo.

— Entendo. Se quiseres eu no poder, aceitarei.

— Estás louco? Já bastou usar-me para matar o rei, não me usarás para conseguir mais poder.

— De qual espécie é o poder do serviço de inteligência? Apenas policial, mas tu não podes passar por cima do ministro de defesa. Como seria algo realmente poderoso ser chefe do serviço de inteligência se seria subordinado a alguém?

— Então deseja tornar-se ministro de defesa?

— Não posso fazê-lo, infelizmente não. Sem tirá-lo do poder, não.

— Tentará algo contra ele?

— Não, minha vingança contra Dias está realizada. Meu objetivo é um subordinado do meu malquisto. Mas se eu precisar de mais poder, não hesitarei em adquiri-lo.

— Essa vingança durará a eternidade? Cecília morrera há dois anos.

— Mas minha vingança era estagnada, sem determinação, no primeiro ano, mas desde que despertei de meu sono, não descansarei até realizar meu desejo.

— Não opinarei mais sobre teus planos. Afinal, atirei em ti uma vez.

— De fato. Lembro-me bem, mas lembro-me também de nosso último passeio antes de meu coma.

— Fora divertido, deveríamos sair novamente, sair como mãe e filho. – Gemeu um pouco por conta do ferimento.

— Marcaremos um dia. — Dirigi a palavra às duas. — Descansem, fora um longo dia. Amanhã os policias provavelmente aparecerão, anuncie-se vítima de Dias. Quando ocorrer o julgamento, entrarei com duas testemunhas que me resgataram do rio. E anunciar-me-ei publicamente. Faça o possível para que o julgamento aconteça amanhã.

— Não será suspeito apareceres logo quando ele será preso?

— Seria se não levasse testemunhas. Mandarei buscar os dois sujeitos imediatamente.

— Está tudo preparado, realmente, estás superando-me. — Sorriu. — Admito. Estás completamente diferente daquele rapaz que era quando chegamos em Morryes.

— Obrigado. Mas descansem. O teu quarto está vago.

— Estou exausta. — Concordou.

— Vou ao meu quarto. — Disse Carmelia.

Dirigi-me a porta. — Boa noite. Os criados estão às tuas ordens, peças o que desejares e sinta-se em casa. Boa noite, Branca, Carmelia. — Sai do gabinete e dirigi-me ao quarto. Admirei a vista por alguns minutos e adormeci.

Despertei às três horas da madrugada. As ruas estavam calmas, se comparadas ao atentado, mas estavam movimentadas, ambulâncias, bombeiros e policiais corriam de um lado ao outro. Algumas casas foram incendiadas. Pairava sobre Morryes fumaça e fuligem, no ar as cinzas bordejavam e tornavam plúmbeo o céu.

E alguns minutos depois de admirar a paisagem, pude ouvi uma bela melodia tocada no piano. Sai do quarto e dirigi-me à sala principal. Novamente avistei aquela mulher que há muito não via. Debruçava-se sobre as teclas enquanto seus dedos escorregavam sobre o marfim. Mas essa música não era tão solitária quanto as que ouvira. Era suave e livre. Acompanhava a limitação do seu ferimento. Era uma melodia lenta, porém, mesmo lenta era feliz.

— Lembra-me de quando Edward falecera.

— Não toco desde então.

Sentei-me em uma poltrona.

— Diga-me. — Pediu ela. — Por que usas a Carmelia?

— Não diga coisas tão brutais. Retribuo seu amor enquanto ela realiza meus pedidos.

— Vejo-o perdendo teus sentimentos em uma exponencial absurda.

— Talvez, porém, ainda mantenho meus pés no chão. Aos menores descuidos vi que quase morrera. Estou pronto para tomar mais cuidado.

— Não há sentido nessa conversa, volte a dormir, deixe-me continuar a cocar minhas melodias.

Dei as costas e caminhei em direção à escada. Quando saia da sala Branca disse.

— Peço-te que não me use mais.

— Não usarei, fique descansada. — Continuei meu caminho.

Como previsto, os oficiais esperavam-nos na sala principal. Eu, Branca e Carmelia nos encontrávamos no gabinete. Pedimos que entrassem. Era o chefe de polícia e um advogado. Sentaram-se no sofá em frente às duas e eu sentei-me atrás da minha mesa. Ao entrar na sala não esconderam a surpresa de verem-me ali.

— Soube que havia morrido. — Indagou o chefe de polícia.

— Fiquei algum tempo em uma vila, ninguém me reconhecera, e fiquei em coma durante todo esse tempo. Que infelicidade, planejava apresentar-me ao público amanhã, já recuperado e atualizado sobre os eventos de Morryes. Soube o que acontecera com o rei, que tragédia. Soube o que ocorrera com minha mãe também.

— Realmente, uma tremenda infelicidade. Viemos interrogar Branca e Carmelia.

— Faça-o.

— Fomos informados de que as duas tem relação com o assassinato de rei.

— Não pode ser, meu senhor. — Refutou Carmelia. — Sai apenas a fim de respirar e retornei logo em seguida. O senhor Dias tinha algo a fazer, voltei sozinha à reunião.

— Eu lembro desse momento. Ele não retornou à reunião, na verdade ele fora à delegacia essa manhã. Acusou-as de cumplicidade.

— Cumplicidade? — Branca aumentou o tom de sua voz. — Eu fora feita refém, olhe a marca que ele proferira em meu corpo. — Mostrou as ataduras. — Posso mostrar-vos o ferimento.

— Por que razão estás aqui?

— Logo que consegui escapar, vim ao lugar que mais confio, a casa dessa mulher, aonde tive a imensa felicidade de ver meu filho vivo.

— O que lembra sobre ontem?

— Dias levou-me a sua casa. Eu não estava muito bem de saúde, isso agravou minha falta de resistência. Mas vi que ele segurava uma arma. Fui consumida pelo desespero ao notar a arma e o som que escutara momentos antes. Eu me debatia no carro até o momento que levei essa facada. Para resistir ao ferimento tive que me silenciar. Quando cheguei na sala de sua casa, avistei ele guardando essa arma em um alçapão ao canto do local, abaixo do piano. Quando vi que eu teria o mesmo destino do meu marido, fiz um último esforço e consegui golpeá-lo na virilha, ele perdeu as forças, dando-me oportunidade de fugir. Por sorte a residência do meu filho era mais próxima. Eu conheço esse caminho, mesmo ferida consegui vir.

— Não esperava menos de uma mulher como a senhora.

— Obrigada.

— A senhora tem certeza que fora o ministro dos médicos, o senhor Dias que atentara contra o rei?

— Tenho, basta procurar a arma escondida abaixo do piano, como falei.

— Faremos isso. — Levantou-se. — Se encontrarmos a arma, certamente não haverá julgamento. Mas estejas preparada.

— Espero não precisar locomover-me por longos períodos, pode ser perigoso e estressante. Isso abriria meu ferimento.

— Não poderei perder tempo e esperar que ele se livre da arma. Com licença. Foi um prazer ver-te novamente, Edmund, estou realmente surpreso.

— Não posso provar, então considere uma especulação, mas atribuo minha suposta morte ao Dias também.

— Confesso, é suspeito, logo que ele assumira como vice-diretor, tu desapareceras e fora dado como morto. No mesmo dia assumiu o comando. Certamente isso agravará a penalidade dele.

— Eu gostaria de conversar com ele, se houver julgamento, solicito presença. Tenho duas testemunhas.

— Prefira não precisar acioná-los.

— Espero.

— Bom dia, senhor, senhoras. — Cumprimentou com o chapéu e saíram os dois.

Voltei-me às duas. — Não creio que seja julgado, ao encontrarem a arma, mandarão à prisão. Eles não poderão apresentar o assassino ao público. A não ser por execução.

— Deixando isso de lado. — Disse Branca. — Como planejas se apresentar às autoridades? Disseste que planejava apresentar-se amanhã ao público. Como provara que realmente estava a fazer isso?

— Não sei se vistes que sobre minha mesa há alguns cartões de empresas de festa. Isso sugere que, mesmo que estando há uma semana nessa casa, eu planejava fazer uma festa. Se perguntarem por que a demora, responderei que os primeiros dias foram a reabilitação e o restante a análise da documentação feita pela Carmelia. Tu sabes que esse processo, se acumulado, demora.

— Bem pensado, não investigarão o teu retorno, o corpo policial deve focar apenas em Dias.

— Ao menos ele não sairá à noite caçar e quase ser morto. — Disse Carmelia.

— Concordo. — Corroborou Branca.

— De qualquer maneira, hoje sairei das sombras, poderei assumir meu lugar como Duque-Marquês, e, acima de tudo, poderei voltar a visitar os bares de Morryes.

Uma criada anunciou dois novos visitantes, autorizei a entrada. Era Thomas e Sofia. Levantei-me e cumprimentei-os.

— Sentem-se. — Pedi.

Assim fizeram após cumprimentar Branca e Carmelia.

— O senhor americano que vi há algum tempo, fora nessa casa ainda. — Lembrou Branca.

— Sinto muito, menti. Sou natural desse país.

— Não te culpo, deves ser companheiro do Edmund, não podes deixar de disfarçar-se.

— Então sabes de tudo?

— Sei, até mesmo disparei contra ele.

— Que mãe cruel. — Disse Thomas sorrindo. — Não preciso dar a notícia, cruzei com dois policiais. Pergunto-me quem seria o assassino.

— Fora o Dias. O ministro dos médicos.

— Fora mesmo? Bem, não entremos nesse assunto. Vim dar-te as notícias.

— Recebi uma ordem de repassar essa advertência.

— Do grupo?

— Sim.

— Diga-me.

— Condenaram o teu comportamento a respeito de uma mulher que assassinou. Uma Werckinberrevich alvo de outro grupo.

— Os soldados detalharam o caso?

— Não. Disseram que roubou o alvo deles.

— Roubar alvos é proibido?

— Sim. Isso retira o mérito e diminui o desenvolvimento do grupo.

— Entendo. Estuprar mulheres realmente proporciona experiência ao grupo.

— O que queres dizer?

— Eu salvei aquela mulher de ser estuprada. Salvei assassinando-a e ouvindo suas últimas palavras.

— Não digo que estás errado, mas cuide com teus atos. Independente se for para o bem ou para o mal.

— Então na próxima vez não deixarei testemunhas

— Fingirei não ouvir isso, meu rapaz. Eu compreendo que queres se vingar, mas meça teus atos. Sejas prudente, pois deixaste de ser prudente no momento que me encontrou pela primeira vez e pediu informações sobre os casos que ocorreram logo quando chegara. Veja em que a tua curiosidade e imprudência resultou. A morte da tua esposa, depois da tua amante e tua sogra. Esse comportamento acarretará também a morte da tua mãe, da Carmelia e de outros que se envolvam contigo. Pense bem.

Realmente, meu comportamento descuidado, sedento por números altos de homicídios. Eu desejava eliminar a maior quantia de Werckinberrevichs até chegar em Walther. Mas após esse dia mudei minha estratégia. Não deveria concentrar-me em números, mas sim e escolher a vítima certa.

— Tenho notado teu comportamento diferente logo após beber o sangue da Sofia.

— Isso iniciou uma leve mudança, meu amigo, a verdadeira mudança deu-se graças ao coma, aos longos e tortuosos meses que fora preso em uma solitária. Restava-me apenas lembrar de momentos bons e muitos momentos ruim. Esses momentos ruins levaram-me a criar planos, meu caro Thomas, não sou o mesmo que vistes pela última vez antes do coma.

— Já ruiu o ideal de não assassinar humano, de quem bebe o sangue?

— Bebo o sangue da Carmelia.

— O que achas disso, minha querida? — Perguntou.

— Fora eu quem oferecera meu sangue. Se alguém for culpado, serei eu.

— Então não há objeções. — Desistiu de argumentar. — Mas saibas que não és melhor que o teu procurado, tuas mãos estão mais sujas que os próprios Werckinberrevichs.

— E tornar-se-ão mais sujar, se preciso for.

— Estás cego por vingança. – Bradou Thomas.

— Estou, pois, ela me manteve vivo. Eu amo Cecília, nunca deixarei de amá-la, mesmo que eu viva por toda a eternidade. Não me importo como são os meios que me levarão ao fim.

Deu-me um tapa no rosto e disse. — Eu gostava de ti, mas vejo que não vale mais a pena ter-te como alguém querido.

— Parem. – Bradou Sofia.

— Desculpe. – Pediu Thomas após respirar profundamente. — Mudando o assunto. Queria saber se não haveria relação entre vós e a morte do rei.

— Não se preocupe com essa casa. — Pedi.

— Sabes o motivo da grande disputa de territórios ontem?

— Infelizmente não, soube que haviam soldados do grupo, mas não soube o motivo. Houvera lutas contra outras gangues. Quem ganhou mais território?

— O nosso grupo. São soldados treinados, os membros de outras gangues não podem lutar como nosso grupo luta.

— Certamente.

— Fora tecido um cerco ao redor do centro, qualquer operação suspeita será considerada atentado, dando poder ao policial assassinar o suspeito.

— Inúmeros policiais morrerão nesse cerco. Os vampiros não cairão ao receberem projéteis de chumbo. E continuarão caçando.

— Infelizmente.

— O cerco não se dissipará enquanto houver possibilidade de violência. Todas as noites morrerão policiais, eles serão substituídos por outros, e o cerco durará até a segunda ordem.

— Realmente. Mas não podemos fazer nada. Uma vez que Branca não assumiu o trono, ela não poderá ordenar a liberação. — Observei.

— Posso adiantar o processo de coroação. — Proclamou ela.

— Infelizmente não. — Interrompi. — Se desejares o trono abertamente, certamente a tua declaração contra Dias perderá força, enquanto Dias ganhará força.

— Realmente. — Corroborou Thomas. — O único em poder de assumir uma posição de retomada de poder é o Edmund, pois pode arquitetar uma coincidência.

— Certamente, já expliquei ao interrogador sobre meu retorno e o motivo de eu não ter me mostrado ao público por uma semana.

— Então seu retorno, apesar de coincidir com o atentado, já fora encoberto. Mas a coroação da Branca não tem a mesma sorte.

— Desculpem-me, ainda não estou plenamente sóbria, estou entorpecida por esse turbilhão de acontecimentos. Voltarei ao palácio e receberei os pêsames de toda a corte. Será estressante. — Levantou-se e dirigiu-se ao telefone. Discou o número do palácio e pediu um carro. — Devo retornar ao palácio o quanto antes. Em entrevista anunciarei meu emocionante encontro com meu filho desaparecido logo quando me encontrava em um momento calamitoso, do qual acabara perder meu estimado marido. Estejas preparado, Edmund.

— Então meus planos para anunciar-me foram bagunçados.

— De qualquer modo, o que querias já fora feito, o restante poderá acontecer ao acaso.

— De fato. Eu pretendia manter-me nas sombras a fim e enfrentar meus inimigos, mas em vista dos acontecimentos, devo mudar a posição. Isso não impedirá minhas caçadas usando minha bela mascara azul.

— Saberei quem prender ao ouvir uma notícia sobre um assassino mascarado. Fico feliz em saber que não matarás humanos.

— Não assassinarei humanos que não mereçam esse fim.

— Então devo mandar-te prender.

— Confesso que, em algum momento, terei que usar um projetil como golpe de misericórdia à um amigo ou companheiro, mas não hesitarei em assassinar os soldados do grupo que provarem ser mais insignificantes que os Werckinberrevichs, todavia, evitarei apontar armas aos humanos, pois meu foco não é ser filantropo, entretanto, se encontrar-me em situação da qual eu deva fazê-lo, não pensarei em puxar o gatilho.

— Faça como desejar. Não cause tumulto, e não sejas morto.

— Pretendo seguir esse modo.

A governanta anunciou a chegada do carro. Branca despediu-se e saiu. Voltei meus olhos ao Thomas.

Fomos interrompidos pelo telefone.

— Bom trabalho. — Proclamou o senhor Scoot. — Conseguimos esse feito, gostaria de agradecer o teu assassino.

— Não posso dizer de quem se trata, mas passarei o elogio.

— Compreendo o sigilo. Os organizadores estão satisfeitos com o progresso.

— Antes que tomem uma decisão previa. Dei duas opções à Branca. Ela tornar-se uma rainha liberal ou assumir como rainha até ser viável um sistema parlamentar.

— Isso o tempo dirá, deixe que ela assuma, se vermos que seu caminho se aproxime do rei, tirará-la-emos do poder.

— Com razão, mas ela não será, acredite, ela não o fará.

— Defendê-la-ei na reunião.

— Obrigado.

Desligou o telefone. Voltei-me aos convidados.

— Thomas, sabias sobre o plano que o rei arquitetara?

— Em minha esfera social não sou conhecedor de tais segredos.

— Contar-te-ei os planos.

Contei-lhe em detalhes desde a autorização em massa das concessões e aumentos tributários. Era quase uma hora da tarde quando terminei o discurso. Convidei-os a almoçar conosco e dirigimo-nos à mesa. Após o almoço voltamos ao gabinete, sentei-me no sofá ao lado da Carmelia e Thomas e Sofia sentaram-se no sofá à frente.

— Bem. — Disse Thomas. — O grupo está insatisfeito com o teu comportamento.

— Se me querem fora, sairei.

— Eles não te expulsarão. Sabem que és importante.

— Eu sei, além disso, estou projetando outro projetil que, mesmo não sendo barato, pode alcançar a eficácia de 100%.

— Impressionante. Qual distancia deduz?

— Duzentos metros. Talvez a penetração diminua quase em 50% a trezentos metros.

— Mas isso é esplendido.

— Peço que guarde segredo, fazei protótipos ainda. Se ocorrer como desejado, anunciarei a patente, se não, farei como se nada houvesse acontecido. Gostaria de obter a tua ajuda no quesito de produção, pois mesmo que Carmelia seja dedicada, não conseguira ajudar por ser mulher e não aguentar o peso de metais e ferramentas.

— Ajudarei, mas vejo que na tua casa tem dois ou três criados homens, por que não pede a eles?

— Falta de experiência.

— Compreendo, ajudarei e manterei em segredo.

— Obrigado.

— Tens os materiais?

— Comprarei e instalarei no porão.

— Há espaço?

— Sobrará espaço. — Sorri.

— Então meter-me-ei em um esquema de produção ilegal de armamento. Realmente sou um péssimo exemplo a minha filha.

Sofia sorriu. — Um bom exemplo.

Thomas olhou o relógio e desculpou-se. — Perdoe-me, devo retornar, abrirei o bar hoje.

— Mas não é lua cheia. — Indaguei.

— Hoje é uma data especial. O aniversário do bar. Fiquem à vontade e vão.

— Estarei lá.

— Eu também. — Disse Carmelia.

Levantaram-se e nos cumprimentaram. Levei-os até a saída, retornei ao gabinete e sentei-me na poltrona atrás da mesa. Carmelia escorou-se na mesa.

— Saiba que sou forte, e aguentaria trabalhar na oficina. — Proclamou ela.

— Não posso deixar-te trabalhar em tal gênero, tuas mãos podem calejar, são importantes em cirurgias e movimentos delicados.

— Morgana sozinha trabalha melhor que tu e o Thomas juntos.

— Mostre-me se é realmente forte.

Puxou-me pela gravata e me beijou. Segurou-me firmemente pela nuca e aproveitou esse beijo roubado.

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— Vejas como sou forte. — Sorriu.

— Realmente. Mas deixemos essa discussão para depois. Providenciarei o orçamento das maquinas. Enquanto isso, apronte-se, vamos sair. Pretendo anunciar-me ao público agora mesmo. Vista-se com um belo vestido.

— Aonde vamos?

— Em um parque, um que vou algumas vezes. Um lugar que gosto muito, um lugar secreto.

Seu rosto ruborizara singelamente. Saiu do gabinete às pressas para aprontar-se. Voltei aos meus afazeres e iniciei uma longa lista de materiais que deveria comprar e dos quais eu já possuía na oficina. Fora uma boa e generosa lista. Com isso poderia fabricar minhas próprias armas e munições. Ao menos em escala mínima. Lembrei-me da maioria das ferramentas que vira na forja do Prier.

— Talvez não possa fundir metais, as peças que desejarei serão modeladas por terceiros. Mas terei o que preciso para fabricar os itens que supram as minhas necessidades. — Pensei.

Após uma hora, Carmelia retornara. Seu cabelo castanho era como mel fresco. Trajava um vestido negro com rendas roxas. Usava um chapéu com duas rosas brancas e uma rede preta.

— Estás bela.

— Ilude-me. — Sorriu.

Chamei o motorista e entramos no carro.

— Gostaria que aprendesses a dirigir. — Proferi.

— Por quê?

— Para que quando cacemos juntos, eu possa escapar facilmente. Pode ajudar-me?

— Aprenderei o mais rápido possível. — Corroborou carinhosamente. — Sabes dirigir?

— Não, nunca busquei saber, mas aprenderei assim que possível.

— Poderemos sair sem motoristas, uma viagem particular. — Sorriu com o canto da boca.

Depois de alguns minutos chegamos. Desembarcamos, Carmelia enganchou no meu braço e pusemo-nos a caminhar. Felizmente não haviam muitas pessoas, estavam com medo de sair de suas casas. Não as culpo, isso facilitava as coisas. Dirigi-me diretamente ao jardim escondido. Passamos pelos arbustos e continuamos caminhando até o banco.

— Há quanto tempo não venho a esse lugar. Fora o mesmo local que eu dera o primeiro beijo na Cecília. — Disse sorrindo.

— O senhor ainda a ama, não é mesmo?

— Amarei-a até meu último suspiro.

— E quanto a Daniela?

— Apaixonei-me.

— Por que ela se sacrificou a fim de te salvar? Ela te amava, isso eu sei, mas fora algo extremo.

— Nunca te contei sobre. Não viste como quase faleci com alguns projeteis no corpo e alguns furos que o projetil varara. "Bem quando te amo, despeço-me" fora as últimas palavras que ouvira da minha boca. E ela proferira "Amar-me-á muito mais, Edmund." Foram suas últimas palavras.

— Quais foram as últimas palavras da Cecília?

— Não houveram últimas palavras. O veneno agiu rapidamente.

— Desculpe-me.

— Por que desculpaste?

— Por fazer-te lembrar delas.

— Não se preocupe, não há uma noite que não lembre.

Deitei minha cabeça sobre seu colo e pus-me a olhar o céu.

— Não achas que estamos vestidos muito bem para ir ao bar? — Perguntou ela.

— De fato, ansiei estar nesse local, nesse pedaço de paraíso, esqueci completamente do bar. Poderemos passar em uma loja antes.

— Como quiser. Poderemos aproveitar esse momento. — Disse carinhosamente enquanto afagava meu cabelo.

— Sim.

— Por que gosta tanto desse lugar?

— Dois motivos, Cecília apresentou-me a esse lugar e anunciou-o como seu preferido. E o segundo motivo, pela beleza estonteante desse ambiente florado. Um banco cercado pela flora mais variada, é belo. Por isso decidi mostrar-te.

Carmelia sorriu amavelmente. E seus olhos brilharam. Se eu dissesse que a amava, certamente lagrimas cairiam em meu rosto. Mas não o falei, eu deveria retribuir seu amor, mas não dizer que a amava. Carmelia sempre soube que eu não a amava, mas certamente gostaria de ouvir essas palavras.