Memórias de vidro

25 Pude ver seu sorriso deformando-se devido as ondulações do lago.


Final de janeiro de 1921, as obras da construção da fábrica de medicamentos já iniciaram. Fora necessária a ajuda financeira do Black Night em prol da realização da proposta. Consegui o dinheiro após negociar os desvios de medicamentos ao grupo. O fornecimento de morfina aos caçadores era escasso e realmente caro, não fora difícil adquirir o dinheiro. Com isso eu administraria a principal Industria de Morckiaschen e controlaria o trafego de tais mercadorias. Branca estava correta, meu poder e influência aumentavam gradativamente, talvez ela estivesse sentindo-se deixada para atrás, a maior mente do país sendo enganada pelo próprio filho, irônico eu diria. Mas acredito também haver influência de seu novo posto como rainha, não deveria ser enganada, afinal, ela era a estrategista e chefe do serviço de inteligência.

Ao que parece eu pudera descansar alguns dias, livrei-me dos afazeres do grupo e da nobreza. Decidi ausentar-me alguns dias de Morryes.

Era um dia frio e plúmbeo, belo e apático. Levantei-me e dirigi-me ao banheiro, banhei-me e me aprontei. Organizei minha bagagem e desci à porta. Carmelia já esperava dentro do carro. Entrei e partimos.

Logo que chegamos na estação de Morryes, dirigimo-nos rapidamente à bilheteria, compramos passagens à Vila do lago verde. A nossa cabine era a última do vagão da primeira classe. Entramos nela e sentamos.

— Estou exausto. — Desabafei. — Estou acumulando muitos afazeres.

— De fato, mas estás melhor se comparado à época que viajava sem compromisso.

Sorri. — Estás certa, mas também há um motivo de estar vivo, a propósito, far-te-ei minha assistente na fábrica.

— Queres deixar-me sem tempo também? — Sorriu.

— Não confio em qualquer um, se não quiseres, não te foçarei. Lembrei-me agora, como vai os estudos? Há tempo não pergunto sobre.

— Bem, a faculdade não ensina o que desejo aprender.

— Não mesmo, aprenda o que ela ensina e crie seus próprios meios, assim serás reconhecida.

Ajeitei-me confortavelmente no banco e pus-me a olhar a paisagem. Conforme o tempo passava a paisagem mudava. Havia grandes planícies verdes e granulados havia os pequenos lagos, reconheci a mudança do terreno, era a divisa com Guten Erde, o terceiro distrito de Burtchendill. Era um terreno bom para transportes terrestres, em destaque linhas ferroviárias. Os pastos eram vividos e verdes, também havia ilhas de flores de distintas cores. Como era esperado, adormeci durante a viagem, entretanto, não sonhara com nada, ao menos eu não lembro de haver sonhado. Quando acordei ainda estávamos no meio da viagem, avistei Carmelia adormecida. Escorava-se na janela e suspirava de hora em hora grassas aos seus sonhos. Seu semblante delineava-se relaxado e sereno, certamente era um bom sonho.

Levantei-me e dirigi-me à porta, abri-a, sai da cabine e pus-me a caminhar em direção ao vagão que sediava o restaurante. Caminhei calmamente pelo corredor enquanto admirava a paisagem montanhosas espalhada no horizonte distante ao leste de Burtchendill. Era audível o som o do motor e dos eixos trabalhando, um bom som, relaxante. Continuei meu caminho até chegar à porta que separa os vagões. Era de aço liso revestido em determinados locais por veludo vermelho, havia também uma pequena janela de monitoração. Abri a porta e deparei-me com a outra. Abri a outra e dirigi-me ao interior do vagão. Haviam várias mesas e cadeiras enfileiradas ao lado das janelas. O piso era de camurça vermelha, as paredes de madeira com detalhes dourados nas peças metalizadas, as mesas eram de madeira, possuíam uma forma retangular e eram fixadas ao chão. As cadeiras eram da mesma madeira, possuíam encostos autos e tento o assento, quanto o encosto, era acolchoado.

Sentei-me em uma cadeira e abri o cardápio, fiz o pedido e esperei. Infelizmente havia uma quantia elevada de sal, provei a primeira garfada e desisti de comer, sabia bem as consequências de tal ato. Pedi um jornal ao garçom e pus-me a ler as notícias. Após alguns minutos levantei-me e dirigi-me à porta, entrei no vagão comum e segui à cabine. Carmelia ainda dormia tranquilamente. Confesso que era irresistível vê-la dormir com o cabelo jogado todo a um lado, assim descobrindo o pescoço, sentia curiosidade em saber qual o gosto do seu sangue, porém, sabia que se provasse uma vez o sangue humano, não poderia deixar de bebê-lo. Seu pescoço era branco e fino, seduzia-me terrivelmente, entretanto eu sabia limitar-me a admirar.

Não demorou a Carmelia despertar. Abriu os olhos ainda cansados, refletiam preguiçosamente a luz que passava pela janela. Bocejou, e só após seu preguiçoso despertar notara estar acompanhada. Seu rosto enrubesceu e ela encolheu-se. Sorri gentilmente ao lembrar de como Cecília e Carmelia despertavam de maneiras quase semelhantes.

— Dormiu tão bem quanto uma pedra.

— Não diga bobagens. — Devolveu o sorriso. — Aposto que és mais indelicado quando acordas.

— Certamente, um dos meus momentos mais tristes é quando alguém me acorda, especialmente depois de visitar algum bar.

— Tens que parar de beber, tua fama é de alcoólatra.

— Entendo, mas sabes bem que possuo compromissos mais importantes. Vamos beber?

— Não bebo logo depois de acordar.

Ajeitei-me confortavelmente no banco e pus-me a relaxar. Não demorou até ser possível avistar a estação de BrotStadt. A cidade era repleta de edifícios, certamente o Grão-Duque de Guten Erde investiu na infraestrutura de sua capital, as ruas eram melhores, os edifícios mais robustos, o trânsito mais organizado. Certamente era uma boa apresentação. Após desembarcarmos na estação, seguimos diretamente ao ponto de taxi, por sorte meu rosto não era reconhecido, isso facilitava a caminhada. Após entrarmos em um taxi, seguimos à casa do Grão-Duque. A capital era ao lado oposto do meu destino, enquanto Guten Erde localizava-se no litoral oeste, a vila que eu gostaria de visitar localizava-se quase no extremo leste. A diplomacia obrigava-me a fazer trabalhosos movimentos, era a primeira vez que entrara em tal distrito. Eu deveria visitar o senhor Salomão Medeiros.

Seguimos à sua casa. O taxi estacionou em frente ao portão, logo alguns guardas surgiram. Identifiquei-me e entrei na propriedade. Era um belo jardim que circunscrevia a grande e majestosa casa. O taxi estacionou à frente da porta, desembarquei e segui em direção a um criado que nos esperava.

— Por aqui, meu senhor. — Disse o criado.

Entramos. Era realmente bela. Digna de um Grão-Duque. A entrara era grande. Alinhada com a porta havia uma larga escada, que, ao fundo dividia-se em duas e seguiam ao piso superior. Caminhamos até o gabinete no terceiro andar. O piso era de madeira escura e polida com cera. Os moveis buscavam a mesma tonalidade de madeira. O tapete entre os sofás era vermelho, não havia bordados ou enfeites, era liso e sutil.

— Por gentileza, senhor, senhora, esperem aqui, o Grão-Duque chegará logo.

— Não há problemas, não esperavam minha visita.

O criado saiu da sala e o silencio pode ecoar nas paredes. Mesmo sendo uma bela casa, era vazia, não de moveis ou riquezas, mas sim de atmosfera, era leve, solitária, quieta e um tanto sombria. A mesa de trabalho localizava-se no meio padrão, a janela localizava-se atrás da mesa e os sofás à frente.

— Perdoe-me a demora, senhor Morryes. Ao que devo a honra?

— Apenas cumprimentar-te.

— Obrigado por tua consideração. Aonde pretende ir?

— À vila verde. Dizem ser um belo lugar.

— De fato é, fui algumas vezes, a paisagem é linda e as cores relaxantes.

— Sinto-me mais confiante com teus elogios à vila, sei que não me arrependerei.

— Não mesmo. — Sorriu. — A sim, soube que bancou a construção da fábrica em Morckiaschen e com isso adquiriu o cargo de diretor. Bela manobra.

— Obrigado, entretanto empobreci drasticamente. — Sorri.

— Acredito, ouvi boatos que será uma obra monumental. Até mesmo cedeu o terreno. Realmente fora um feito audacioso.

— Estou aliviado que tudo vai bem.

— Lembrei-me de alguns problemas na negociação sobre a instalação da fábrica em meu distrito.

— Poderia saber sobre?

— Problemas na concessão, algumas desavenças em relação ao preenchimento do cargo de diretor. Basicamente as negociações não foram concluídas. Talvez demorem ainda.

— Dependendo da produtividade sob meus domínios, poderemos negociar alguma ajuda até o início da tua produção.

— Agradeço, certamente o senhor está diferente dos boatos que ouvi há quase dois anos. Estás mais astuto que antes.

— Obrigado, aconteceram alguns eventos.

— Parece que teu desejo é poder, não é mesmo?

— Talvez estejas certo.

— É incrível, verdadeiramente incrível como o senhor não esconde esse desejo.

— Tenho segredos demais a esconder, talvez o desejo de poder não precise entrar em tal categoria. Digamos que eu não escondo por não gostar de passar-me por covarde

— Entendo. Parece atrevido aos olhos dos espectadores.

— Atrevimento ou não, ninguém pode dizer-me que estou errado.

— Certamente, não o julgo por isso. A propósito, há algo que estou perguntando-me há algum tempo desde que chegaste a minha casa. Perdoe-me a invasão da tua privacidade, mas por qual motivo o senhor usa luvas, mesmo em dias tão frescos, como hoje?

— Infelizmente há algumas queimaduras.

— Poderia vê-las?

— Não apreciaria tal visão.

— A sim, desculpe-me o atrevimento.

— Poderia perguntar uma coisa?

— Pois não?

— Crês que a corte se sustentará no poder por muito tempo?

— Não, seria algo quase impossível, infelizmente a revolução russa incentiva, mesmo hoje, greves de trabalhadores em busca de reivindicações. Sinceramente acredito que tanto o rei, quanto o sistema comunista não são funcionais nessa era. Mas não retiro o mérito do rei ao tentar manter o poder em suas mãos, e, ao mesmo tempo abrir o mercado.

— Aprecio esse comportamento. É como segurar a corrente presa a um cão raivoso.

Salomão riu e relaxou seu corpo. — Gostei da comparação. Mudando o assunto. Queres passar a noite aqui?

— Aprecio o convite, mas não consegui relaxar no trem, aproveitarei o escuro da noite a fim de dormir durante a viagem, pretendo chegar amanhã cedo. Dizem que as manhãs ao redor do lago são lindas. Sinceramente estou curioso.

— Sejamos sinceros, maldita diplomacia. — Sorriu. — Atrasou tua viajem por um motivo trivial.

— De modo algum. De qualquer forma, se dá-me licença, vou-me embora. Certamente nos encontraremos novamente. — Levantei-me e estendi a mão para cumprimenta-lo.

Apertamos as mãos, saímos de seu gabinete e dirigimo-nos à porta, chamei Carmelia e saímos.

Entramos em um carro e seguimos à estação. Compramos os bilhetes e entramos no trem. Logo que sentamos nos bancos da cabine uma intensa procela se deu. As nuvens acinzentaram tão repentinamente que não reparei. As gotas formavam uma densa cortina branca. Percorriam, na janela, as gotas apostando corridas incansáveis a fim de constatar quem cai primeiro. O som da chuva ecoava sobre o teto do vagão. As rodas do trem lubrificaram-se e de segundo em segundo transformavam a água sobre os trilhos em vapor, a qual pairava despreocupado no ar para logo desaparer e ceder a visibilidade da paisagem novamente. Os campos verdes, meu destino era ao fundo daquela bela paisagem, as montanhas ao leste. São visíveis às pessoas do Norte. Passou-se algum tempo e a noite surgiu, as estrelas granuladas no céu cediam à lua seus fulgores. A luz era prateada e iluminava singelamente os lagos e os campos molhados. O trem continuava o percurso sem lembrar-se de apreciar essa noite. Quando a lua não pudera mais ser vista de dentro do vagão, adormeci.

Abri os olhos, era dia, olhei ao redor e avistei apenas flores, das mais variadas espécies e cores. Fechei os olhos a fim de contemplar esse momento, sentir a macies no solo e respirar o ar puro e fresco. A brisa sibilava e dançava com as pétalas. Uma melodia atônita e pacata, com ritmo simples e perfeitamente orquestrado. Respirei profundamente e sonhei brevemente.

Quando acordei o sol iluminava a cabine e impedia-me de dormir novamente.

— Acordaste? — Perguntou Carmelia.

— Sim, infelizmente.

— Estamos quase chegando. — Seu olhar apresentava-se distraído e perdido. Admirava a paisagem de modo pacato e sem expressões.

— Tédio? — Perguntei.

— Também, mas ainda assim não seria suficiente a fim de abater-me.

— Então por que estás abatida?

— Ainda me pergunto se sigo o caminho certo. Se não tomei a decisão errada, em seguir-te em seus objetivos. Talvez eu haja esquecido a minha vingança.

— Quando desejares, permitirei que deixe essa vida.

Fitou-me apresentando o semblante atônito, mesmo esboçando um fraco sorriso e as sobrancelhas levemente arqueadas. Certamente algo a incomodava, entretanto, preferiu sorrir e disfarçar seus pensamentos. Seus olhos sempre mostravam um trêmulo brilho de inquietude. Olhos que sofrem ao voltarem-se a mim. Também se mostravam vazios. Infelizmente não pude notar quando havia tempo, hoje sei que há, pois amadureci e lembro perfeitamente daquele rosto, hoje entendo o que dizia.

— Senhores, gostariam de beber algo? — Perguntou um mordomo do lado de fora da cabine.

— Por gentileza, gostaria de uísque. — Pedi.

— E a senhorita?

— Por agora nada, obrigado.

— Como quiser, madame.

Não demorou até a bebida vir, saboreei-a e levantei-me. — Irei ao vagão restaurante, vamos?

— Vamos. — Segurou a minha mão e seguimos ao vagão.

A viagem durou aproximadamente meia hora após saímos da cabine.

Desembarcamos na estação General Hetzer. Era em homenagem a um General que comandara um exército e protegeu essa terra quando ainda pertencia à Alemanha. Apesar de ser uma vila não muito grande, sua estação era bela. O piso de desembarque era de pedra polida com detalhes em alguma substancia que simulava âmbar entre as pedras. O rodapé contornava o salão e as bilheterias eram de madeira com vidros desenhados. Estranhamente o uniforme dos funcionários era diferente e não seguiam o a convenção, qual se dava por trajar uma camisa branca, calça de flanela preta e sapatos. Seus uniformes consistiam em calça azul escuro, também era de flanela, entretanto, a camisa era preta e sobre ela trajavam um blazer azul. No centro do salão havia grande lustre de cristal, albergava inúmeras lâmpadas. Certamente era uma estação turística. Seguimos aos taxis e entramos logo que avistamos um. Ordenei que nos levasse ao hotel Luzente, o maior e mais belo hotel da proximidade ao lago. Durante o caminho era possível vislumbras as montanhas quase tocando as nuvens, apesar de não haver muitas, ali bordejavam sem rumo como algodão pairando no ar. A estrada cortava um vale cercado por grandes montanhas. Logo ao lado da estrada havia um pequeno lago de águas atônitas. O vento sibilava e acariciava a superfície do lago, fazendo-a assim refletir o céu e os picos das montanhas como uma miragem. Nesse pequeno lago as margens estendiam-se limpas e repletas de grama e raízes dos pinheiros que se firmaram ali. O verde da grama contrastava-se com a neve dos picos mais altos. Lembro-me do céu sem muitas nuvens, mas as que ousavam entrar em tal paisagem encontravam-se com os picos. Ainda era inverno, porém, sem neve. Os pastos ao longo da estrada não estavam férteis, mas eram capazes de apresentar pequenas folhas. Seguimos mais adiante, ao centro da vila, não era grande e movimentada como acreditei ser quando desembarcamos do trem. Entretanto, mesmo pequena e pouco movimentada, era rica. O movimento turístico distribuía-se próximo aos pontos mais belos, aos arredores do grande lago. Após passarmos pelo centro, seguimos ao hotel. Havia uma grande avenida de edifícios era a regiam tutora dos cassinos, hotéis e bares. Desembarcamos do taxi em frente a porta do hotel. Era um belo edifício, as portas de madeira com detalhes em cobre. Paredes vermelhas com pintura branca em seus detalhes. As janelas eram grandes e vastas a fim de proporcionas uma ampla visão da paisagem. O edifício possuía seis andares. A faixada consistia-se em um arco branco sobre dois pilares. Lembro-me que havia algo escrito, entretanto, não me recordo o que era. Entramos no hotel e dirigimo-nos à recepção.

— Posso ajudá-los, senhor, senhora?

— Gostaria de ver as reservas quanto as suítes presidenciais.

— Há disponibilidade de suítes com uma cama grande, todavia, acredito não haver problemas, pois estás com uma bela companheira. – Cortejou a Carmelia enquanto buscava a chave.

— Aqui está, senhor. O hotel Luzentes aprecia vossa visita. A bagagem pode ser depositada naquele carro.

Depositei uma das minhas maletas, a de roupas, a outra carreguei-a comigo, nela havia uma pistola e cartuchos dos dois tipos. As outras duas estavam em seus devidos lugares em meus coldres velados sob o casaco.

— Obrigado. — Respondi-lhe enquanto deixava as malas sobre o carro.

Eu e Carmelia seguimos à suíte, localizava-se no último andar, o número era 622. O quarto era espaçoso e aberto, sem muitas paredes. Era claro, paredes beges aonde era visível. Em algumas partes haviam papeis de parede desenhados. A cama era realmente grande. As janelas possibilitavam o vento circular livremente entre o quarto, havia algumas bebidas e uma geladeira grande ao fundo de um quarto. Não me recordo mais que isso desse quarto. O que lembro é a paisagem.

— Pegue essa pistola. — Dei-lhe a Carmelia. — Não pretendo usá-la, mas não devemos abaixar a guarda.

— Como quiser.

— Vamos caminhar? — Sugeri.

— Vamos.

Descemos ao térreo e saímos do hotel. Não pegamos taxi ou outro veículo. Andamos pela estrada de tijolos por trinta minutos até chegarmos.

O lago era quase infindável. Era como um grande espelho que que refletia o céu. Ao longo do leito oposto às montanhas contornavam o lago. Os picos eram quase brancos devido a distância e a pouca visibilidade longínqua. A margem logo ao lado direito albergava um vasto campo de flores. Inúmeras espécies e cores da flora apresentavam seu fulgor singelo e calmo, ao menos as flores que resistiram ao inverno. Ali predominavam rosas, as vermelhas e as branca. Ao lado esquerdo da estrada havia um pequeno tablado que se estendia por dez metros sob a superfície do lago. Era de madeira escura, uma rampa simples sobre os pilares. Havia um pequeno barco ancorado.

— O que achas de um passeio no barco? — Perguntei.

— Adoraria. — Deu-me um belo sorriso.

Caminhamos em direção a ele. Era mais antigo do que aparentava de longe, a madeira era vorazmente abraçada pelo musgo e pelo limo. Balançava sobre a água, movimentos leves e contínuos. Dei o primeiro passo, mesmo a madeira haver rangido, dei outro passo. Estendi a mão a fim de convidar Carmelia a seguir-me. Assim o fez, constatei estar nervosa, segurou minha mão com força e firmeza, perdeu o equilíbrio logo com o primeiro passo. Ajudei-a a caminhar até a beira do tablado. Pulei para dentro do barco e ajudei-a a embarcar. Logo que entrou sentou-se.

— Não entendo como possam andar normalmente nesses lugares. — Referia-se aos pescadores e alguns turistas.

Peguei dois remos e pus-me a remar com calma e sem pressa. Após alguns minutos estávamos distantes das margens. O inverno não apresentava todas as cores que a primavera ousava orgulhar-se, não me surpreendi ao notar que não estávamos acompanhados de outros barcos. Não era estação de demanda turística. Não demorou até as nuvens, quase extintas outrora, surgirem, e uma leve neblina pincelou a paisagem deixando-a turva. Relaxei o corpo e inclinei-me sobre a ponta do barco, assim deitando-me.

— Belo lugar. — Proclamei.

— Sim, é lindo, mas dizem que esse lago é o lago do suicídio.

— Devido as montanhas e despenhadeiros na margem, não é mesmo?

— Exato, jogam-se de grandes alturas à água.

— Mesmo assim não perde sua beleza. — O vento sibilava e batia no barco. O som da madeira e da água era calmo e pacifico. — Lembro-me que antes de tudo isso começar, queria ser escritor, mas desisti.

— Não te culpo, apenas continuo com a medicina por seguir o caminho que faço.

— De fato, também eu era novo, não casara ainda com a Cecília. — Sorri.

— Tu a amas ainda?

— Sim. Nunca deixarei de amá-la.

— Entendo, e quanto a Daniela?

— "Bem quando te amo, despeço-me." Foram as últimas palavras que eu disse a ela.

— Entendo....

Fechei os olhos e pus-me a apreciar o movimento. Acredito haver dormido profundamente. Quando despertei Carmelia estava próxima, seu rosto quase junto ao meu, era visível suas intenções, seus lábios iam ao encontro dos meus. Seu rosto ruborizou ao notar que eu houvera acordado. Sinceramente esperei que ela pulasse para atrás e pedisse desculpa, porém, enganei-me. Ela terminou o ato, seu beijo era carinhoso e doce, transmitia paixão, todavia não era reciproca. Não nego que fora um bom momento. Após o ato pulou para atrás e pediu desculpas.

— Desculpe-me. — Pôs-se a desviar o olhar e dirigi-lo o lago.

Quando dei conta estava afundando na água. Mas eu sabia que eu não caíra acidentalmente. Eu sei que me acovardei e não disse o que deveria dizer, porém, não poderia perdê-la. Por esse motivo joguei-me na água. Mesmo afundando pude ver seu sorriso deformando-se devido as ondulações do lago. Quando retornei ela tomara uma postura séria. Subi no barco e fitei-a. Não precisei dizer nenhuma palavra.

— Vamos voltar. — Pediu olhando o horizonte, seu sorriso que antes alcançava-me até mesmo debaixo da água, desaparecera.