Memórias de vidro

24 Primeiramente, não carrego mais o teu sangue, nem o do meu pai.


— Parece que não estás sozinho, meu senhor. — Indaguei-me diante da lápide do antigo Duque.

Passara um ano desde a sua morte. O dia era calmo e plúmbeo, as nuvens carregadas e o verde das árvores acinzentavam-se e dançavam com a brisa forte. Junto de mim estavam Carmelia e alguns criados que o serviram. Rezamos e prestamos um minuto de silêncio. Não apenas a ele, mas também à Elizabeth, a qual adormecia ao seu lado. Não o fizemos por muito tempo, logo choveria. Retornamos aos carros e voltamos à minha casa. Não demorou a chover logo que entramos.

— Meu senhor, se não me engano tens compromisso agora. Deseja que cancele? — Lembrou-me uma criada.

— Não será necessário, obrigado.

Eu deveria ir a uma reunião das empresas do grupo médico de Morryes. Os planos da reforma farmacológica de Morryes foram deixados sobre minhas mãos. Logo depois que entrei no Black Night. Com isso não tinha tempo livre, não até o plano ser assinado.

Entrei ao carro, abri a janela e falei à Carmelia.

— Continue com nosso trabalho.

— Como quiser. — Respondeu.

Fechei a janela e parti. As ruas não estavam movimentadas devido à chuva, porém, não fora muito mais rápido que cheguei, as ruas estavam molhadas, por isso o carro percorreu o caminho em pouca velocidade.

Era no mesmo hotel que fora a negociação sobre o teatro. Segui à sala de reuniões alugada e entrei. Lá estavam todos os membros, aparentemente eu fora o último. Todos fitaram-me, mas não perderam a postura, levantaram-se.

— Bom dia, senhores. Sentem-se. — Pedi.

Sentei-me na cadeira em um dos polos da mesa, no lado oposto estava Patrício Dias, cadeira 6 do conselho, ministro dos médicos. Tomei a palavra. — Esta é a primeira reunião do conselho do sistema de saúde de Morryes, SSM. Sejam bem-vindos.

Organizei a papelada sobre a mesa e esperei terminarem de organizarem-se.

— Cá estamos, senhores. Bem como já planejado no próprio discurso do rei, primeiramente pensemos sobre a indústria de base. — Proclamou Dias.

— Certamente. — Corroborei.

Os outros assentos eram ocupados pelos, ministro da farmácia, chefe do sistema de logística. Chefe da administração do departamento de construção, ADC. Como o palácio real é sediado sobre os domínios de Morryes, o tesoureiro real e a procuradora também estavam presentes. Não me surpreendi ao encontrar Branca ocupando tal função.

O tesoureiro tomou a palavra. — Todos estamos de acordo com o credito real, acredito.

— Estamos de acordo. — Respondeu Dias.

— Vamos ao ponto. — Pediu Branca.

Levantei e distribui alguns papéis à cada membro do conselho.

— Esse é o plano rascunhado por mim e minha equipe. Consiste em um método simples, o orçamento possibilita apenas a fabricação de três medicamentos e produtos desse fim. Sugiro a morfina, penicilina e analgésicos. São, de fato, os mais usados, contudo, não seriam os mais importantes, sessaremos o abastecimento externo desses materiais assim que a indústria seja consolidada.

— Quanto a estrutura? — Perguntou o tesoureiro.

— Há, no distrito comercial, um lote pertencente a casa Morryes, não passa de um terreno abandonado. Proponho uma negociação quanto a utilização do mesmo. Construirei a fábrica e cobrirei o investimento que seria investido pelo rei, isso por uma condição.

— Qual seria? — Perguntou Branca.

— Que eu ocupe o cargo de diretor das fabricas por tempo indeterminado e que eu tenha poder para decidir quem me substituirá.

— Como é? Não aceito tua condição. — Refutou ela. — Não poderíamos dar-te tanto poder.

— Senhores, perdoem-me. O que acham de uma pausa? Infelizmente minha saúde não está boa. Meu médico recomentou descansar em momentos de tensão, descansem e pensem sobre a proposta. Voltaremos em alguns minutos.

Sai da sala e dirigi-me ao corredor. Branca sairá logo depois, caminhou em minha direção e parou a minha frente. Olhou-me seriamente.

— Ensinei-te a negociar, não a barganhar, ainda mais com tal proposta.

— Preciso contar-te um segredo, vamos nos encontrar após a reunião.

— Como quiser. — Fuzilou-me com seus frios e fortes olhos.

Entramos novamente na sala. Sentamo-nos em nossos respectivos assentos e continuamos a reunião.

— Como propunha há pouco, se aceitarem as condições estabelecidas, iniciarei em uma semana o preparo do terreno, e, logo a construção.

— Queres apenas o cargo? — Perguntou o tesoureiro.

— Exato, não desejo porcentagens sobre o lucro da fábrica.

— Isso pouparia cerca de 40% do tesouro real. — Corroborou Dias. — Eu sou a favor.

— Não há motivos de recusa. — Levantou a mão o chefe da ADC.

— Antes de qualquer decisão, vejamos a logística. — Pediu o chefe do setor logístico.

— Perfeitamente. — Corroborei. — Poderemos usar um sistema simples de comunicação com a central cá sediada. Tratando-se de uma nova forma de Industria, seria apropriado aplicar sistemas básicos. Distribuição por postos. A fábrica em Morryes distribui aos postos menores e eles repassam aos postos das vilas.

— Certamente, pensei exatamente igual. — O chefe de logística sorriu e relaxou os braços sobre a mesa. Seu semblante delineou-se despreocupado. — Eu aprovo esse sistema, sugiro o sistema de transporte ser férreo. Como sabemos, as estradas do país, são primitivas e não sustentariam tal sistema. Poderemos usar os trens a fim de distribuir aos postos menores, e transporte rodoviário a fim de distribuição às vilas, por ser mais acessível em viagens curtas.

— Perfeitamente, senhor. — Concordei com seu plano.

— Aceito suas condições. — Concluiu ele.

— Não aceito isso. — Bradou Branca desferindo um soco sobre a mesa. — A minha palavra é a palavra do rei.

— O conselho votou e aprovou. Querendo ou não o rei não seria contra isso, nada traria desvantagens a ele. — Refutei. — Achas que posso fazer o que bem entender como diretor da fábrica?

— Não creio que estas voltando-se desse modo contra tua mãe.

— Não estou voltando-me contra ti, mãe. Apenas pretendo proteger esse país e aqueles que amo.

Antes que Branca respondesse levantei-me e recolhi os documentos assinados.

— Agradeço a cooperação dos senhores, espero trabalharmos assiduamente em pareceria a partir do momento presente. — Curvei-me e sai da sala.

Sentei-me em um banco no corredor e pus-me a refletir enquanto esperava Branca sair. Quando saiu, fitou-me e caminhou em minha direção.

— Aonde queres levar-me? — Perguntou ela.

— Andemos sem destino.

— Há. Algo que me incomoda desde que entraste na sala pela primeira vez. Por qual motivo usas apenas a luva na mão direita?

Era uma luva de seda negra. Adotei o acessório a fim de esconder a tatuagem.

— É sobre isso que desejo dizer a ti, e, outras coisas mais.

— Entendo.

— Mas tenha em mente que não saberás tudo.

— Ao menos destrua uma parcela da minha curiosidade.

— Ao teu ver o que propus fora barganha, mas estás enganada, minha mãe. Há outras razões inclusas. Preciso de um telefone, venha comigo.

Caminhamos até a recepção. Pedi o telefone emprestado e disquei o número da sala do Logan.

— M&M, Logan.

— Sou eu, desejo fazer um pedido de extrema urgência. Prepare uma das tuas peças leves e uma caixa dos novos modelos do protótipo.

— Como queira, companheiro. Poderia saber o destino da arma?

— Apenas precaução com a segurança de um ente querido.

— Entendo, os estoques estão fartos, escolherei a melhor.

— Obrigado. — Desliguei o telefone.

Saímos do hotel e paramos em frente. As ruas estavam movimentadas. Arqueei o braço direito a fim de Branca encaixar, assim seguimos nossa caminhada.

Entramos em uma rua familiar, logo reconheci um edifício interditado. Realmente o incêndio afetara a estrutura do local, mas logo lembrei o momento que eu fora acolhido e ajudado ali, pelo farmacêutico, pai da Carmelia.

— Vamos à minha casa. — Pedi.

— Vamos.

Acenamos ao primeiro taxi que passara e entramos. Seguimos o caminho calados, eu admirava a paisagem movimentada e em industrialização de Morryes. Não demorou a chegarmos. Entramos em casa e seguimos ao meu gabinete. Sentei-me em um sofá e Branca sentou-se no outro à frente.

— Antes de qualquer explicação, desejo que leias esse relatório.

Dei-lhe os documentos que o chefe de polícia me dera quando Daniela ainda era viva. Ela abriu os documentos e analisou-os cautelosamente.

— Estive esse tempo, quase que integralmente, pesquisando sobre as gangues e os criminosos que pudessem saber algo sobre o mandante do assassinado da Cecília.

— Então não descansou ainda?

— Não, mas progredi bastante. Sabes o significado da antiga frase "Os lobos são os cães dos anjos"?

— Qual é o motivo de fazer perguntar como essas? Cá vim crendo que seria produtivo.

— Eu acreditava que era devido a beleza de tais animais, sua inteligência e atraente beleza, mas não, não era nada disso. De qualquer forma, os cães dos anjos cassam os seres que assombram a noite.

— O que queres dizer?

— E eu sou um desses fantasmas, chamemos assim por hora. Mas também caço os fantasmas que me assombram tanto ao dia quanto à noite.

Levantei-me e dirigi-me à porta. — Espere um momento. Pedirei que façam um chá. — Segui ao meu quarto e peguei a caixa que guardava o punhal que assassinara Cecília, também havia uma caixa de madeira lacrada, nela havia escrito a logo da M&M. Peguei os dois objetos e retornei ao gabinete. Quando entre, Branca estava massageando seu ombro esquerdo, mas preferi não perguntar-lhe sobre.

— Lembro-me bem do dia que roubaste os documentos dos casos que eu pesquisava na época. Eu descobri quem são os assassinos.

— O que disseste? — Seu semblante delineou-se pálido e assustado.

— Também encontrei as respostas aos retalhamentos. Felizmente não necessito de tais documentos agora. Entretanto, certamente não pudera roubar tal objeto que guardo com zelo. Objeto esse que desejo usar a fim de assassinar alguém.

Abri a caixa e retirei o punhal da caixa. Depositei-o sobre a mesa e pedi que Branca analisasse-o.

— O que é isso?

— A arma que assassinara Cecília.

— Por que tens ela?

— Leia o bilhete.

Assim o fez, leu-o e compreendei a situação. — Entendi. Fora um presente bastante sádico. Na verdade, um aviso.

— Exato, por esse motivo quero que saiba que és a única que falta assassinarem, desejo que possas se proteger, mas com armas convencionais não é possível.

— Como é? Não entendo.

Abri a caixa e retirei as partes pré-montadas da pistola, terminei-a de montar e peguei a caixa de munições, havia um carregador sobressalente e alguns alvos de papel.

— O que é isso? — Perguntou assustada.

— Uma arma. É calibre 9mm. Não mandaram munições simples. Devo usar as minhas.

Retirei as duas pistolas do coldre e depositei sobre a mesa. Branca levantou-se sem saber o que fazer. — Diga-me o que é isso. Em que criatura se transformou?

— Vejamos... Retirarei os cartuchos normais e inseri-los-ei em teu carregador, assim poderemos testar a arma. Mas a munição que deve carregar na arma é essa, especial. Ela é a única que pode eliminas os que desejam te eliminar.

— Quem deseja e eliminar?

— Está pronta, vamos aos testes. — Empunhei a arma e puxei o ferrolho, assim engatilhando-a. Apontei a arma à parede e disparei.

— O que estás fazendo, Edmund? — Desesperou-se.

— Apenas testando.

Logo a porta se abriu e um criado surgiu assustado. — O que foi isso, meu senhor?

— Apenas teste.

— Por gentileza, não atire às cegas, não sabes o que há. Alguém pode estar atrás das paredes.

— Desculpe-me, avise que estou fazendo testes.

— Como quiser.

Levantei-me e dirigi-me à prateleira que guarda a parede oculta. Estava repleta de marcas dos projeteis, os papeis que havia pendurado a fim de mapear o movimento inimigo já não era intacto, as folhas estavam caídas ao chão e espalhadas, ainda restara alguns retalhos delas penduradas pelas tachinhas. Havia também alguns fios de barbante pendurados e outros caídos sob o gesso que caíra grassas aos projeteis. Voltei-me à Branca e pedi que se levantasse.

— Pegue. — Entreguei-lhe a arma.

— Por quê?

— Segure-a assim. — Mostrei-lhe a empunhadura correta e o modo se fazer a visada. — Aperte o gatilho.

— É duro. — Disse apertando-o. Continuou o ato lenta e cautelosamente até ocorrer o disparo.

— É relaxante, não. É mesmo?

— Minhas mãos doem.

— De fato não estar acostumara é desconfortável no início, mas logo acostumar-se-á.

— Por que fazes isso? No que estás metido?

— Lembras da descrição das tatuagens nos documentos policiais?

— Sim.

Ergui a mão direita e retirei a luva. Tornando assim amostra a minha tatuagem. Branca paralisou seus olhos e sua pele empalideceu mais do que naturalmente era.

— O que estás fazendo com essa tatuagem?

— Eu sou um Black Night.

Apontou a arma a mim. — Não posso te perdoar, meu filho associado a um grupo de criminosos. — Suas mãos tremiam e seus olhos lubrificaram-se, seu semblante delineou-se triste e seus lábios arqueavam-se indecisamente. Logo lagrimas surgiram e escorreram pelo seu rosto.

— Atire! Veja o que realmente sou, se atirar deverei contar toda a verdade.

— O que queres dizer com verdade? Por que estás armado e pretende dar-me uma arma?

— Há motivos para tal. — Dei um passo à frente

— Não chegue perto! — Bradou desesperada, seu dedo já posicionado no gatilho. — Crês que não atirarei? Prefiro um filho morto a um criminoso.

— Então atire, com esse projetil não ocorrerá nada.

— Não desonre o nome do Edward.

Eu sinceramente não esperava que Branca realmente atirasse e alvejara meu peito. Talvez haja doido mais o fato da minha própria mãe atirar em seu filho. Mas logo que atirou, eu ajoelhei-me, ela largou a arma e correu em minha direção, abraçou-me apertadamente. Caiu definitivamente aos prantos.

— Perdoe-me, perdoe-me. — Dizia ela em lagrimas.

— Grassas a Deus não haver os outros projeteis na arma. — Sorri e levantei-me, estendi a mão para ajudá-la a levantar-se.

— Não é possível. — Disse ela extasiada.

— Eu também crera que não fosse possível há algum tempo. Levante-se, segurei-a pela mão e carreguei-a em direção ao sofá, ajudei-a a sentar-se e parei a sua frente.

Retirei o casaco e logo a camisa. Meu sangue escorria assiduamente de um peito. Eu deveria retirar o projetil, apesar de não me fazer mal ele alojado, era desconfortável, extremamente desconfortável.

— Chamem a Carmelia com a pinça. — Ordenei ao criado que esperava ao lado de fora.

Após alguns minutos ela entrou no gabinete com uma maleta de ferro.

— O que houve? — Perguntou ela.

— Levei um tiro agora, por gentileza, retire o projetil. — Sorri.

— Como ocorreu isso? — Perguntou ela.

— Apenas retire logo.

Retirou a pinça de sua maleta e limpou o ferimento com um tecido e aplicou o objeto a fim de retirar o projetil. Realmente era doloroso tal processo. Mas ela era habilidosa, com isso terminara rapidamente. O ferimento fechou-se logo em seguida. Limpei o resto do sangue que escorrera pelo meu corpo e sentei-me no outro sofá.

— Fique, Carmelia. Contarei tudo à Branca.

— Tens certeza? Se ela contar ao rei estará tudo acabado.

— Acredito que ela não contará. Não é mesmo, Branca?

— Não contarei, juro por teu pai.

— Primeiramente, não carrego mais o teu sangue, nem o do meu pai. — Mostrei-lhe a cor do meu sangue e meu ferimento curado. — É contra isso que terás que lutar, minha mãe. Tu mesmo viste como era impossível, mas esses projeteis que te dei poderiam eliminar-me, assim como os que busco eliminar.

— O que é tu?

— Sou um Werckinberrevich.