Memórias de vidro
22 Permita-me fazer parte do teu grupo.
— Esqueceu isso no teu quarto quando veio à Morryes. — Depositei o diário sobre a mesa do meu gabinete.
—Leste?
— Sim.
—Não negarei nada que há escrito. — Disse ela com o livro em suas mãos.
— Não se preocupe. Nada sairá da minha boca. Teu triangulo amoroso com o rei e meu pai. Ao menos é o que escreveu até essa parte. O que houve com os manuscritos das datas anteriores?
— Destruí. Não posso conformar-me em haver esquecido esse. Que seja. Chamou-me apenas para devolver o diário?
— Dois motivos. O primeiro é devolver-te o diário e saber se era verdade. O segundo é para vê-la. Há tempo não conversávamos reservadamente.
— Estou lisonjeada. Gostaria de ir a outro lugar? Onde possamos conversar sem haver provocações.
— Adoraria.
Levantamos e saímos. Caminhamos até um parque próximo ao centro. O céu estava claro e sem nuvens. O verde da grama era aconchegante e pálido, ainda não se recuperara do inverno. Havia muitas pessoas, casai apaixonados sobre toalhas e lanchando admirando a paisagem. Eu e branca seguimos a um banco e nele nos sentamos.
— Lembra de quando fazíamos isso? — Perguntou ela com um semblante delineado nostálgico.
— Lembro. Foram poucas vezes, mas lembro perfeitamente.
Ela sorriu e pôs-se a olhar o céu. Não a via sorrir havia meses.
— Depois que Edward morreu, foste feliz em algum momento?
— Teu pai era tudo que eu precisava. Apesar de ambos sermos insensíveis, ele com a personalidade medíocre de plebeu, para ele, era brincadeira. Mesmo quando cresceu isso não mudou. "Conquistei ele com um sorriso e um cruzar de pernas". Talvez haja sido. Ele com seu jeito desleixado, e, eu sempre fria e sádica. Realmente ele era masoquista. — Pausou a fala e sorriu novamente.
— Quanto ao rei, tu o amas?
— Não mais, todavia, devo lembrar que com minha idade não me apaixonarei. Então devo concentrar-me em nossa família.
— Outro fator é a promessa, não é mesmo?
— Exato.
— Mãe, quando entrar na família real, cuide-se há inimigos meu e teus que provavelmente infiltraram-se.
— Entendo, obrigado pelo aviso, mas já tenho um inimigo lá dentro.
— O que quer dizer?
— Nada. Por que queres que me cuide?
— Não pretendo deixar-te morrer. Compreendo nossos desentendimentos e brigas, mas já perdi tantas pessoas. Tu és a única viva. Peço que estejas a um passo à frente em tua segurança. — Segurei sua mão e fitei-a. — Prometa-me que fará o que digo.
— Faço apenas se desistires de tua vingança.
— Realmente não descansarei até vingar a morte da Cecília, Daniela e Elizabeth. Porém, não é algo apenas pessoal. Não posso contar a ti ainda. Apenas posso dizer-te que nem mesmo projéteis de aço podem eliminá-los.
— O que quer dizer? O que são?
— Em um momento oportuno revelar-te-ei.
— Não confias em tua mãe?
— Não é questão de confiança, é sobrevivência. Continuarei com meus planos e tu continuarás com teus planos de me impedir, mas lembre-se. Eu sou o novo alvo dos meus inimigos. Tentarão destruir-me de todas as maneiras. Sabe, mãe. Se eu estiver sozinho, não me conterei e revelarei a todos a face mais gélida que eu poderia herdar de ti.
— Não aprovo que prossigas com teus planos. Não aprovo que omitas informações sobre minha segurança.
— O que me conforta é o fato de tua inteligência ser genial. O rei e tu, um casal inteligente; use isso ao teu favor.
— Como sabe que virão atrás de mim? Pareces confiante quanto a isso.
Levantei-me e estendi a mão a fim de ajudá-la a levantar. — Provavelmente surgirá notícias de desaparecimento ou morte amanhã.
— Então estás caçando o mandante ainda? — Enganchamo-nos e continuamos a andar.
— Sim, entretanto, minha busca tentava flanquear o grupo inimigo. Mas aparentemente não obtive resultados.
— Então sujarás tuas mãos com sangue? Não aprovo isso.
— Já sujei há muito tempo.
— O que quer dizer? Matou alguém? Pois achei que quando matou o assassino de Cecília, fora ordenado.
— Não poderia chamá-los de alguém. Seriam algo como coisa ou besta. Diria que são demônios.
— Então não podes contar-me mesmo. Entendo.
— Contarei quando concluir uma pesquisa e aplicá-la. Só depois poderei contar-te.
— Espero ansiosa.
— A propósito, como se passa o relacionamento entre ti e tua adotada? A filha do farmacêutico.
— Não interfiro em seu trabalho e ela no meu. Digamos que somos distantes, ao menos até ela descobrir as mesmas coisas que não posso contar-te.
—Tu a usas como ferramenta de pesquisa sem ao menos dizer-lhe nada?
— Sim. Aprendi com a melhor. — Abri um lago e confiante sorriso.
— Abusado! — Devolveu o sorriso. — Espero que tuas pesquisas deem resultados satisfatórios.
— Esqueci completamente, tenho compromissos, estou atrasado. Vou-me embora, madame. — Beijei sua mão e despedi-me.
— Então seremos inimigos novamente?
— Se queres pensar assim por hora, fique à vontade.
Já era noite e a lua iluminava as vielas e ruas, um brilho tão intenso que seria possível iluminar até mesmo um bulevar. Não havia estrelas, mas se houvera, foram sequestradas pela grande e densa cortina de nuvens pinceladas no céu. Admirava a noite escorado sobre a mureta da ponte Vlinckouger. De repente ouvi um grande ruído próximo da minha localização. Decidi dirigir-me ao local. Era um pequeno beco. Sob o breu havia um homem, parecia exausto e entorpecido, talvez embriagado. Jogava-se de um lado ao outro chocando-se contra as paredes. Não parecia importar-se com a dor dos impactos. Agonizava com dores aparentemente em seu abdômen. Estava arqueado e abraçava o abdômen enquanto ia de um lado ao outro. Logo abriu os braços e seus músculos começaram a se deformar. Ele gemia quieto e abafadamente. Ajoelhou-se enquanto seus ombros ficavam mais largos e suas roupas bradavam o som dos rasgos. Pude ver que em sua mão direita havia uma tatuagem, um círculo negro sobrepondo a rosa dos ventos. O homem levantou, e, de sua pele surgiu pelos prateados. Seu corpo era forte, porém, desforme em relação a anatomia. Estava de costas, havia uma grande cauda que seguia ao fim da coluna. Estarreceu-me tal visão. O breu do beco não pudera esconder o brilho da pelagem. Quando se voltou a mim, abismei-me ao ver que seu rosto era alongado, os dentes afiados e os olhos azuis. O rosto de um lobo guardando a fisionomia humana. Após a cena houve um grande silêncio, a criatura fitou-me e fuzilou-me com os olhos. Não conseguia mover nenhum musculo, nunca havia presenciado algo parecido. Suas garras pareciam afiadas.
Ele caminhava lentamente em minha direção.
— O que és? — Perguntei enquanto dava alguns passos para trás.
Não houve resposta. Era audível apenas a pesada respiração da criatura que se aproximava mais e mais. Era incrivelmente rápida. Quando dei um passo largo a fim de dar as costas e fugir, eu fora surpreendido. Estatelado ao chão sob a criatura. Olhava-me e rosnava tão perto, quase um palmo entre nossos rostos. Seu hálito transpirava sangue. Fitou-me assim por alguns momentos, estava crente que talvez fosse meu fim, entretanto, ele apenas saciou-se em me imobilizar. Meu coração acelerou, meu peito quase rompia em arfar, estava aterrorizado, eu sabia o que ocorria a um Werckinberrevich em contato com sangue de lobo. Bastaria um movimento qualquer e seria ele meu assassino.
A verdadeira surpresa se deu ao momento que a criatura uivou por longos segundos, um som fino e reconhecível, realmente era algo como um lobo. Logo após pôs-se a correr entre o breu das vielas e dos becos. Eu estava tenso e minha musculatura rígida, mas respirei fundo e soltei os músculos, relaxei-me e deitei a cabeça, fechei os olhos e suportei a dor em meu peito.
— Como pode ele não te ferir? — A voz era familiar.
— Provavelmente tenho gosto ruim. — Sorri.
— Parece que sim.
Abri os olhos e deparei-me com Logan. Estendeu a mão e ajudou-me a levantar. Ele trajava uma roupa pesada, calça e camisa de tecidos grosso, botas militares, e sobre o uniforme havia um grande e grosso casaco de couro que se estendia até os pés. Usava também um quepe preto.
— É surpreendente não ser atacado por ele, ao menos enquanto não estiver trajado com esse casaco.
— Casaco? O que há nele?
— Prata, lâminas de prata. isso faz com que ele fique longe.
— Entendo. Por que está solto?
— É uma boa arma. Com as garras ele rasga os vampiros. Não sabemos o motivo dos mesmos não se regenerarem usamos ele, entretanto ele ataca qualquer um em sua frente.
— Entendo. Então o retalhamento dos corpos era causado por ele. Retiravam os dentes a fim das pessoas não reconhecerem os Werckinberrevichs dos humanos?
— Exato, mas não poderíamos retirar apenas dos vampiros, isso causaria transtornos.
— Entendo. Não aprovo esse método. A propósito. Não há mais notícias de assassinatos como antes.
— Apenas uma faixada.
— Então era a fim de encobrir a movimentação nas ruas? Justificá-las?
— Sim. Venha, precisas de alimento, não é mesmo? Capturamos uma mulher, pode retirar informações e usá-la para saciar tua sede.
— Obrigado.
Caminhamos em direção a saída do beco. Esperando por Logan havia uma mulher com as roupas semelhantes. Ao avistar-me sacou uma arma e apontou-a a mim.
— Quem é esse, Logan?
— Um companheiro.
Antes que pudesse ver meu rosto, cobri-o com a máscara. Andei em sua direção e parei em sua frente, estendi-lhe a mão direita e cumprimentei-a. Seus olhos eram claros, pele branca, cabelo loiro. Sua expressão delineava-se severa e rígida.
— É um prazer conhecê-la, madame.
— O prazer é meu.
— Lembra-me muito uma companheira tua, a Breda.
— Por qual motivo?
— Postura. — Sorri. — Vamos?
Andamos sob o breu até um outro beco fino e escondido. Entramos e logo deparei-me com uma porta. Seu rangido era forte, forte como uma campainha que anuncia a entrada. Logo à frente havia uma escadaria que levava ao subsolo. Descemos e seguimos por um grande corredor feito com tijolos de pedra. Era iluminado por lâmpadas penduradas em fios no teto.
— Que lugar é esse? — Perguntei.
— Uma das salas de interrogatório. — Respondeu Logan.
Continuamos a caminhada por alguns minutos, deparamo-nos com outra porta, de ferro fundido.
— Aqui está, senhor Edmund. Se ela resistir, mate-a.
— Obrigado, Logan.
Entrei na sala. As paredes eram de concreto e ferro, não havia nada além de uma mesa, duas cadeiras e uma grande lâmpada suspensa por um fio. A mulher era ruiva, olhos azuis, pele branca e corpo esbelto, trajava um vestido longo e preto, apesar de simples, caia-lhe muito bem.
— Oi, senhorita.
— Olá, torturar-me-á?
— Não, não pretendo destruir tua beleza, realmente é um desperdício.
— Obrigado, quem há por baixo da máscara?
— Desculpe, não me apresentei, que falta de cortesia. Sou Edmund de Morryes, Duque-masques de Morryes.
— Então estás no grupo deles?
— Não, ainda não, sou apenas um companheiro. A propósito, adoraria saber mais sobre ti.
— O que queres saber? — seu semblante delineou-se sério e o timbre de sua voz mudara e tornara frio.
— Nada demais, gostaria que contasse um pouco sobre ti. Como tornaste uma Werckinberrevich.
— Desculpe, não quero desenterrar tais memórias.
— Diga-me apenas, fora um romance?
— Não.
— Como chamava-o?
— Não sabia o nome verdadeiro.
— Então como chamava-o?
— Eu não quero lembrar, por favor. — Sua frieza tornara agora lagrimas e angustia.
— O que houve?
— Não posso lembrar dele, não quero lembrar.
— Entendo, desculpe-me. Qual é teu nome?
— Angélica.
— Não possuis sobrenome?
— Não.
— Qual é tua nacionalidade?
— Romena.
— Entendo. Por que vieste a Burtchendill? Fora a mando dele?
— Sim.
— Por que diz tudo o que sabe?
— Por que quero ele morto.
— O que houve entre vós?
A mulher começou a chorar desesperadamente, caiu ao chão e não sessou seu pranto.
— O que houve?
Abri a porta e sai do quarto.
— O que está acontecendo? — Perguntou Logan.
— Apreciaria saber. — Respondi-lhe. — Tragam água. Ela parece saber muito.
Logo que trouxeram entrei novamente à sala. Ela não possuía mais lagrimas, entretanto, ainda estatelada ao chão fitava o nada.
— Levante-se.
— O seu grupo não conseguirá eliminá-lo.
— Por qual motivo há certeza?
— Ele consegue o que quer, eu quero ele morto, mas mesmo assim ele consegue me controlar.
— Entendo, tem em sua mão tua família?
— Não tenho família.
— Por que o segue?
— Por medo.
— Entendo, quer juntar-se a mim?
— Não posso.
— Por que tem medo de desobedecê-lo?
Não respondeu à pergunta, apenas aquietou-se e pôs-se a refletir.
— Se juntar-se a mim, poderá ficar na minha casa, porém, se negares, bem, já sabes. Deixarei que pense por alguns minutos.
Sai da sala e dirigi-me a um espaço, havia três sofás e uma mesa ao centro. La estavam Logan e sua acompanhante. Sentei-me em um sofá e relaxei meu corpo.
— Como vai o interrogatório?
— Ofereci-lhe abrigo, pedi que se juntasse a mim.
— O que disse? — Perguntou ele estarrecido e surpreso.
— Ela sabe muito, mas acredito haver bloqueios em sua memória, algo como traumas.
— Compreendo. Seria melhor que ela se acalmasse.
Passados alguns minutos retornei à sala, estava sentada na cadeira, postura ereta e firme, jamais imaginaria o comportamento que presenciei.
— Diga-me, ele é russo?
— Não, não é.
— Qual seria sua nacionalidade?
— Romeno.
— Desculpe insistir sobre.
— Sua alcunha era Drácula.
— Como é?
Antes que pudesse perguntar algo mais vi seu maxilar movimentar-se, mostrou suas presas e entre os dentes havia uma pequena ampola. Ela mordeu e logo transbordou espuma de sua boca enquanto debatia-se sobre o chão. Não tentei impedi-la, não possuía direitos sobre isso. Angélica agonizou longos e tortuosos segundos, o sangue negro mesclou-se à espuma e escorreu ao chão, tingindo assim seu cabelo com um tom mais escuto de vermelho. Seus olhos fitavam o nada enquanto suas mãos mostravam-se suaves e calmas.
— Venham. — Bradei para pudessem escutar ao lado de fora da sala.
— O que houve? – Perguntou a companheira de Logan.
— Suicidou-se. Creio haver algo que não quisesse falar, busquem um carro faremos autópsia no laboratório na minha casa.
— Autópsia? — Perguntou Logan. — Qual motivo?
— Apenas façam.
Enquanto eu e Logan carregávamos o corpo até saída, sua companheira fora buscar o carro. Assim que chegamos na superfície, o carro estacionara. Deitei a cadáver no banco de trás, apoiei sua cabeça sobre meu colo a fim que eu pudesse entrar ao carro. Logan fora na frente ao lado da companheira. Rapidamente chegamos em minha casa. Cobri o corpo com o meu casaco e pusemo-nos a seguir ao laboratório. Como esperado, Carmelia estava estudando no local. Depositei o corpo sobre a mesa de dissecação. Peguei uma tesoura e cortei o vestido da moça.
Era realmente um desperdício alguém com tal beleza sucumbir à morte. Porém, não pude deixar de abismar-me com as cicatrizes em seu corpo, incontáveis delas. Em seu abdômen, também quase preenchiam as coxas, até mesmo nos seios. Apesar de um vampiro regenerar-se, um corte demasiado profundo forma cicatriz. Aparentemente seu rosto era a única parte do corpo que não possuía danos. Virei-a de costas e vi outras cicatrizes.
— O que houve com ela? — Perguntou Carmelia.
— Isso é monstruoso. — Bradei desferindo um soco contra a mesa. — Enterrarei seu corpo junto aos criados que serviram e faleceram nessa casa.
Cobri o corpo nu do cadáver e pus-me a admirar seu rosto limpo. — Ao menos tua beleza não desaparecerá, nem mesmo a terra ousaria arrancar-te esse rosto.
— O que está havendo aqui? — Perguntou Carmelia aparentemente confusa e aflita. — Por qual motivo há um corpo de uma mulher na minha mesa? Quem a matou?
— Fora suicídio. — Respondi-lhe. — Contarei quando voltar de uma reunião. Por hora deixe-a aí, não se preocupe, ela não apodrecerá, por isso não haverá odores.
Deixei o laboratório e segui ao gabinete acompanhados dos dois. Sentaram-se nas cadeiras em frente à mesa e sentei-me na minha cadeira.
— Permita-me fazer parte do teu grupo.
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