Memórias de vidro
23 Fechei os olhos lembrei das boas memórias que ainda tinha.
— O que sabe sobre o Drácula? — Perguntei ao Thomas.
— Apenas um personagem.
— Então alguém usaria tal nome?
— Provavelmente, assim como tu usas mascaras ao sair à noite.
— Outra dose, por gentileza.
Thomas serviu-me mais uísque. Aposentei o copo sobre a bancada após beber. Descansei os braços sobre o balcão. Três noites após o ocorrido, a escuridão mostrava-se forte, logo a lua mudaria e a luz prateada e fulgente sumiria parcialmente.
— Então o mandante está tutelado sob um pseudônimo. De qualquer maneira, convivo com vampiros e eu fora atacado por um lobisomem, certamente não duvidarei de nada mais. — Sorri.
— De fato, mas isso é pouco provável, dizem que os vampiros nasceram dele com um pacto com um demônio.
— Entendo, investigarei sobre. Conte-me mais se possível.
— Soube que fora atacado pelo lobo e saiu ileso.
— As notícias correm rápido, mas não devo brincar com a sorte, devo proteger-me utilizando o casaco.
Logo quando terminara de falar o telefone tocou. Thomas atendeu e após trocar algumas palavras desligou.
— Chamam por ti, siga aos fundos da minha casa, peça à Sofia que te leve ao porão.
Deixei meu copo sobre o balcão e segui à porta e entrei na casa do Thomas. O breu da pouca luminosidade era intensificado pela própria noite escura.
— Estás em casa, Sofia?
— Estou sim, venha à cozinha.
Os moveis eram de madeira escura, a bancada de ferro. Os azulejos na parede eram azuis levemente claros, o piso era de madeira. Havia uma grande mesa com seis cadeiras rodeando-a. Sentada na cadeira da ponta mais próxima da pia estava Sofia, bebia café e comia alguns petiscos. Trajava um vestido azul com mesma tonalidade dos azulejos. Seu cabelo estava preso e levemente bagunçado.
— Parece bem, senhor.
— E estou, obrigado. E tu, estás bela como da última vez.
— Zombas de mim? — Sorriu.
— Não zombo, nem eu e nem os espelhos, a propósito, vamos?
— Siga-me, levar-te-ei ao acesso ao corredor que leva à cede do grupo.
— Obrigado. Diga-me, és uma integrante também?
— Não exatamente, eu e meu pai somos um caso à parte.
— Entendo, não querem admitir que participa de um grupo repleto de corrupção, tráfico e crimes. — Sorri.
— Queremos apenas uma vida honesta.
— Respeito tal ideal, gostaria de viver uma vida digna, porém, sei que não há possibilidade. O sangue que corre em minhas veias é tão impuro quanto a máfia.
— Realmente, teu sangue é sujo, e, isso obriga-te a fazer atrocidades, contudo, estás fadado a viver assim. Não digo que é indigno, afinal, é o único caminho.
— Obrigado por tua compreensão.
— Deveria preocupar-se mais consigo mesmo, és o único Werckinberrevich em meio a um grupo que os extermina.
— Se falas sobre preconceito, compreendo isso, mas felizmente possuo um bom título, sei que não devo agarrar-me a ele, e, dele fazer minha consolidação dentro do grupo, mas até provar meu valor devo usufruir de tal ferramenta.
— Bem, aqui estamos.
Havia uma porta de madeira. Entramos no local, era úmido e escuro, havia garrafas de inúmeras bebidas e datas, além de algumas máquinas de destilação e fermentação. Tal visão lubrificou meus olhos, fez-me sentir melhor. Todas as paredes eram de tijolos de pedra, o teto era o piso superior, talvez fosse uma sala. Ao final da sala havia outra porta, porém, esta era de ferro e era equipada com uma boa fechadura. Sofia abriu-a com a chave e afastou-se.
— Desejo-te sorte.
— Estou ficando com medo. — Disse antes de entrarnao corredor escondido pela pesada e maciça porta de ferro.
A porta fechou-se e eu pus-me a seguir as luzes das lâmpadas, o túnel seguia o mesmo padrão do que me levou à sala de interrogatório. Caminhei calmamente por alguns minutos até chegar em uma sala. Logo que entrei, pude notar movimento de pessoas, os passos eram rápidos e irregulares, isso mostrava mais de uma pessoa. Não esbocei reação, não adiantaria nada. Eu fora cercado por três homens, o breu das lâmpadas fracas impossibilitava a visibilidade, e assim, não pude ver os rostos. Um dos homens posicionou uma grande faca tangenciando meu pescoço.
— Não faça nada suspeito.
— Não farei. Querem me algemar? Fiquem à vontade.
Assim fizeram, suavizaram a recepção ao notar minha cooperação. Não apertaram firmemente as algemas e permitiram que eu seguisse o caminho sem ser arrastado ou segurado.
— Desculpe, é burocracia.
— Entendo perfeitamente. Aonde estou indo?
— Ao conselho.
— Entendo.
— Apenas se ser o primeiro caso, não apoio um inimigo ser um aliado, mas acredito que Logan e Thomas não acreditariam em ti por acaso.
— Entendo.
Seguimos pelo caminho por alguns minutos até chegarmos a outra sala, redonda e repleta de cadeiras. Realmente era um tribunal, ironicamente. Fui guiado a uma cadeira no centro da sala. Sentei-me e esperei as velas se acenderem e alguns homens encapuzados surgirem. Estava errado, não haviam velas, quão menos homens encapuzados. Acenderam-se luzes fortes e amarelas que iluminavam fugazmente o ambiente. Haviam homens trajados com ternos negros e colarinhos de mesma cor. Usavam acessórios variados, entretanto, notei haver um relógio dourado pendurado nos bolsos de todos os homens, certamente era um acessório uniforme da elite da organização. Logo à minha frente havia uma grande cadeira, maior e mais larga que as demais, provavelmente assentar-se-ia nela o juiz. Fui desalgemado quando sentei na cadeira e pus-me a analisar as feições e semblantes dos ali presentes.
— Venho humildemente solicitar minha inscrição na organização Black Night. Peço que considerem o pedido, se possível, sem quaisquer testes biológicos ou psicológicos. — Disse após levantar-me e curvar-me levemente. Voltei a sentar.
— Diz-se assim as palavras de um inimigo. Não poderia confiar à organização o desespero de haver espécies como a tua em meio a nós. — Disse um dos homens nos acentos menores.
— Compreendo a relutante decisão, aceito-a de bom grado. Entretanto, há motivos pelos quais desejo lutar ao lado dessa organização.
— Por qual motivo deveríamos acreditar em ti, besta?
— Pelo mesmo motivo que Thomas e Logan acreditam. Acredito também ser útil no campo de caça e extermínios, intenção de informações e pesquisa armamentista.
— Como espera que acreditemos em ti?
— Permitam-me apresentar a substância que exercerá uma descomunal vantagem em relação aos Werckinberrevichs.
— Onde apresentará tal espécime?
— Se trouxerem uma cobaia, demonstrarei aqui mesmo.
Houve alguns minutos de desordem em meio a sussurros e discussões até o momento que o poder do julgamento ordenou silêncio. Logo todos calaram-se.
— Se tens tal conhecimento, por que deseja oferecê-lo a nós? — Perguntou o líder.
— Pelo motivo de desejar eliminar um ser dessa espécie. Não será possível fazê-lo sem o auxílio dessa organização.
— Compreendemos, permitiremos que mostre seu projeto. Tragam dois espécimes. — Ordenou ele.
Não demorou até surgir dois Werckinberrevichs algemados e amarrados. Seus olhares perdiam-se em meio a tantas pessoas, mas buscavam manter uma postura superior. Não lembro ao certo de suas fisionomias, apenas recordo-me de serem brancos e possuírem cabelos castanhos. Os dois foram posicionados de joelho à minha frente. Retirei do coldre minhas duas pistolas. No mesmo momento outras foram apontadas a mim.
— Uma delas está carregada com projeteis tradicionais, outra está carregada com projeteis com a tal substância.
— Atirarás nos dois a fim de apresentar a diferença?
— Exato. Mas antes apreciaria agradecer ao Logan por ceder sua equipe a fim de realizar o projeto.
— Comece.
Apontei a arma da direita ao vampiro da direita e assim fiz ao da esquerda com a mão esquerda.
— Possuem últimas palavras? — Perguntei.
— Não sabem como nos eliminar, não morreremos sem sermos carbonizados ou decapitados.
— Sabeis o que sangue de certos animais podem fazer aos vampiros? Não sabem?
O semblante dos dois delinearam assombrosamente assustados.
Atirei ao mesmo tempo e alvejei o coração de cada um. O espécime da direita apenas continuou tentando manter-se firme, enquanto o da esquerda debatia-se incessantemente, foram longos minutos até seus movimentos sessarem e a espuma de sua boca mesclar-se com o sangue.
O silencio ecoou pela sala, eles sabiam que o espécime esquerdo não esboçara reação normal de desmaio, entretanto, fora a mesma reação de suicídio dos Werckinberrevichs. Descobri juntamente com Carmelia e Dr.Potter, mesmo o sangue coagulado fornece efeitos satisfatórios. Dependendo do local alvejado o vampiro poderia sobreviver, contudo haveria ferimentos quase irreparáveis. Isso é devido à pouca carga de sangue que o projetil suporta. Entretanto, se atingisse uma artéria ou algum órgão vital, mesmo uma gota coagulada destruiria a criatura em alguns segundos.
— Como fizeste isso?
— Diga-me, minha convicção e descoberta não são motivos suficientes a fim de permitirem a minha entrada?
— Mediante ao meu julgamento, declaro que tu, Edmund de Morryes, é oficialmente um membro dos Black Night. Iniciará o serviço com a sétima patente, tutelado sobre o título de Major.
— Estou profundamente satisfeito.
Levantei-me e dirigi-me à saída.
Quando retornei ao bar já estava fechado, havia dentro apenas Carmelia, Dr.Potter e Logan sentados em frente ao balcão. Sentei ao lado deles e cumprimentei-os.
— Parece que estás dentro, companheiro. — Indagou Logan.
— Companheiro? Agora ignoras as formalidades? — Sorri. — Parece que sim, grassas ao protótipo. Agradeço a vossas senhorias, Carmelia e Potter, pelo empenho e dedicação.
— Apenas mantive o combinado. — Disse Potter.
— Tu me adotaste e deu a mim um lar e estudo. — Estamos quites.
— De fato. — Corroborei. — Apresentar-vos-ei os projetos que encomendei do Logan.
Depositei sobre a mesa o desenho da munição e do projetil. Consistia-se de um projetil de carga oca, era montado com duas partes fabricadas separadamente. A ponta era um com base a partir de um trapézio, qual encaixava-se em uma outra peça. A segunda parte consistia-se de um cilindro oco e sem um dos planos havia um orifício no qual a ponta encaixava e logo havia a câmara que armazenava o sangue de lobo. O projetil fora desenhado a fim de penetrar no alvo e fazer com que a força do impacto exerça uma força na ponta do projetil e faça-o deformar a segunda peça, deformando-a e assim a ponta entra no cilindro, liberando o líquido contido no projetil. Primeiramente fora construído o protótipo em calibre 9mm. 9 X 19mm NATO, como é conhecida hoje. O projetil era pouco mais alongado em comparação ao tradicional, 12 mm. O estojo era forjado com liga de latão e aço. Primeiramente a produção seria iniciada apenas com esse calibre a fim de testes, se eficaz seria remodelado e adequado a outros calibres.
— É um belo projeto. — Disse Potter.
— Obrigado.
— Sinceramente ainda não acredito completamente em tudo que acontece nas noites desse país. — Indagou-se enquanto descansava o copo vazio sobre o balcão.
— Naturalmente. — Corroborei. — Bem, vou-me embora, estou cansado.
Levantei e dirigi-me à porta. Saudei todos por meio de uma reverência e sai do bar. Caminhei pela rua, logo amanheceria, deveria retornar rapidamente. Após chegar em minha casa, dirigi-me diretamente ao quarto e deitei. Fechei os olhos e adormeci.
Era quase meio-dia quando despertei. A luz dourada do sol iluminava meu quarto. Levantei e pus-me a trocar-me de roupa. Trajei um terno. Desci à sala de chá, lá estava Carmelia sentada na poltrona enquanto bebia café e lia o jornal. Lembrei-me logo da Elizabeth bebendo chá quase em todos os momentos que a via.
— Bom dia, dormiste bem? — Perguntei.
— Bom dia, dormi sim, e tu? — Respondeu ela aposentando a xicara sobre a bancada.
— Vamos?
— Vamos.
Saímos da sala de chá e dirigimo-nos à porta. Entramos no carro que nos esperava e seguimos ao centro de Morryes. Logo após descer do carro fomos cercados por muitas pessoas. Não me dispus a ceder-lhes palavras como fizera algumas vezes. Apenas cumprimentava-os com o chapéu e seguia em frente.
— Estou cansado disso. — Sussurrei no ouvido da Carmelia.
Peguei-a pela mão e puxei-a a um beco, continuamos correndo pelas vielas até não escutarmos mais a agitação. Retirei um mapa do bolso e analisei-o.
— Vamos por esse caminho. — Sugeri.
Caminhamos calmamente entre os becos.
— Tens certeza que queres entrar no grupo também? — Perguntei.
— Sim, o que mais faria da minha vida senão vingar meu pai?
— Ser médica.
— E serei médica, entretanto, estudarei os Werckinberrevichs também.
— Entendo, que assim seja. Tentarei engajar-te próxima a mim, não gostaria da ideia de tu se envolveres com crimes. Teu pai não apreciaria sua filha em um caminho desses.
— Se és meu tutor, sejas meu superior, contudo, tente abrir uma área de pesquisa biológica e química.
— Perfeitamente. — Corroborei. — Mesmo porque eu apresentei tal ramo aos superiores, ao menos se não conseguires a área de pesquisa oficialmente, estás autorizada a usar o teu laboratório a esse fim.
O edifício era de tijolos tingidos de vermelho, os detalhes das janelas e portas eram brancos, possuía três andares. A porta principal era de madeira com algumas partes de vidro martelado. Logo acima da porta jazia um título, Contabilidade Contábil. Entramos no edifício. O assoalho era de madeira escura, as pareces de tijolo e gesso. Havia inúmeras pessoas correndo de um lado ao outro, incontáveis maquinas de escrever, telefones tocando e papeis espalhados. Certamente tratava-se de um gabinete de contabilidade. Ao menos acreditei assim até encontrar-me com um homem trajado com um terno negro, em sua mão direita havia um círculo negro. Dirigi-me a ele e cumprimentei-o.
— Por aqui. — Disse ele sem ao menos revelar seu nome.
Seguimos o indivíduo até os fundos do gabinete, havia uma porta branca, ao abrir, constatei haver uma escada que levava ao subsolo. Continuamos nosso caminho. Chegamos em uma sala, outro gabinete, tão movimentado quanto o acima.
— É uma honra tê-lo como companhia, meu senhor.
— E tu, quem és?
— Arnaldo Pessoa, o chefe do setor de apostar dos Black Night. É um prazer.
— O prazer é meu, sou Edmund de Morryes.
— E quem é a moça ao lado?
— Sou Carmelia, assistente do Duque-Marquês. É um prazer conhecê-lo.
— O prazer é meu.
Sua simpatia era disfarçada à primeira vista pela sua aparência máscula e rígida, negro e forte, trajava um terno bordo e usava um chapéu da mesma cor. Fumava charutos tão frequentemente quanto o reitor da universidade.
— Soube que farão as marcas, levá-los-ei ao tatuador.
Seguimos Pessoa até chegarmos em uma outra sala, pequena e pouco iluminada. Ao centro descansava uma cadeira de madeira, possuía dois braços e um grande apoio às costas. Ao lado havia uma mesa com tintas e algumas agulhas de bambu.
— Sente-se. — Pediu Pessoa. — O mestre logo estará de volta.
Sentei-me na poltrona desconfortavelmente rígida e pus-me a relaxar. Fechei os olhos lembrei das boas memórias que ainda tinha. Quando dei conta o tatuador já chegara e preparava os instrumentos. Era um oriental, aparentemente chinês, limpava os instrumentos e separava a tinta.
— Feche os olhos e relaxe. — Disse ele.
Assim fiz, fechei novamente os olhos e relaxei a musculatura. Logo pude sentir a primeira agulhada sobre minha mão direita. E após ela muitas outras se deram. Não resisti, e cedi à curiosidade. O sangue mesclava-se com a tinta, não era possível distingui a tinta ou sangue. Conforme o rapaz limpava o local eu pudera ver os traços se formando sobre minha pele. Após quatro horas a tatuagem estava pronta.
— Qual é o nome do primeiro vampiro que mataste? — Perguntou Pessoa. — Quando entra aos Black Night deves ao menos ter eliminado um. Esse nome deve ser tatuado abaixo do símbolo.
— Entendo.
A segunda tatuagem fora mais dolorosa, talvez pelo peso que exerce em minha vida, as agulhadas eram da mesma profundidade que as anteriores, porém, senti-as mais profundas. Não pude esconder as lagrimas e cai ao pranto em meio a arte. Pois o nome que carregaria pelo resto da vida abaixo ao símbolo era. Daniela.
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