Memórias de vidro
2 Os lobos são os cães dos anjos
Lembro-me vagamente de um sonho.
Era inverno, a neve com seu branco cristalino descansava sob as ruas e os telhados. O vento sibilava leve entre os resquícios das folhagens das árvores nas calçadas.
Um suave nevoeiro surgira quando pisei fora de casa, uma turva paisagem. Mas nela avistei um homem na esquina. Sua roupa era negra, talvez um traje para funerais. Estava parado voltado à rua, mas um instante a lucidez abandonou-me numa sovina pelo descanso; então avistei-o se esvair em meio a nevoa. Lembro também de ouvir uivos e ao me virar, uma matilha de vários lobos brancos fuzilavam-me com os olhos, azuis, castanhos, olhos lustrosos e cerrados por uma concentração colossal. Fiquei extasiado, não sabia se por medo ou frio minhas pernas tremulavam e meu peito esvaziava acompanhado de um calafrio. Não pude gritar ou correr. Apenas ouvia o som do meu coração como uma percussão. Por um relampejo pude movem-me e encurralei-me no portão, onde agarrei-o, mas não pude fechar os olhos, eram irresistivelmente hipnotizantes aqueles olhos. Um passo curto do líder lobo acelerou o palpitar do meu coração e meu peito ardeu em arfar.
Por relance pude ver que já não estava mais encostado em nada, mas a nevoa escondia um despenhadeiro.
Neste momento despertei de meu devaneio, assustado, não me recordava de cair, acordara acreditando que não, mas por que lobos?
Mitos corriam por Burtchendill, diziam que eram os cães dos anjos.
“Os lobos são os cães dos anjos”.
Há muito fui surpreendido por um, qual olhou-me face a face, não sei se naquele instante o que me ocorreu fora uma miragem ou uma relapsa pausa racional. Vi o lobo, com seus olhos azuis e sua pelagem plúmbea, fitou-me e repentinamente deu-me as costas e saiu caminhando à floresta.
No instante que acordei recordei-me deste episódio. Logo que levantei fui à poltrona em frente à lareira, lá servi-me de absinto.
A lua cheia encandecia sua luz branca num turvo tecido de nuvens estendidas na escuridão. Após alguns minutos levantei e troquei-me. Trajei um pesado casaco negro por cima de minha roupa e sai à rua. Era uma noite fria, os postes eram as únicas luzes acesas, exceto pelas de algumas janelas dos prédios. Um efêmero calafrio tomou-me a espinha, afinal, não costumava sair pela boca da noite, quão mais sozinho.
Comecei a caminhar devagar, talvez fosse sorte ter vestido um casaco surrado por cima de minha roupa de alta costura. Andei algumas quadras, e de longe avistei três homens. Parei perto deles com a cabeça abaixada para não me reconhecer. Fitaram-me olhando atentamente, com os três homens, pude ver num rápido relance algumas garrafas de cerveja, provavelmente eram trabalhadores que tiraram a noite de folga. Não demorou muito para ver um bar aberto. Era difícil alguém andar pelas ruas à noite, mas a lua iluminava levemente as áreas abertas. O nome do bar era bar lua cheia. Entrei. Lá estavam marinheiros e trabalhadores dos portos e de industrias, fitaram-me com olhos semicerrados. De instante surpreendeu-me, mas mantive a pose ereta e olhos firmes, assim desviando-me da atenção dos curiosos. Sentei no banco em frente ao balcão, o garçom que secava copos com um pano voltou-se a mim. Pedi-lhe uma dose de uísque, logo o fez, escorou-se perto e puxou o assunto.
— Nunca vi teu rosto por aqui, senhor. Quem és?
— Sou novo nesta cidade, vim da França, instalei-me aqui.
— Engraçado, não tens sotaque de francês, mas não importa. Teve sorte, hoje o bar abre, só abrimos em lua cheia. — Sorriu. — É daí que vem o nome.
— Entendo.
— O que um forasteiro faz na noite em ruas desconhecidas?
— Apenas conhecendo o local, estou comprometido com uma dama daqui.
Percebi que fazia pergunta de mais, peguei o copo e virei de uma vez a bebida.
O garçom olhou-me sorrateiro e atento.
— Mais uma, por favor.
— Ok.
Depois da primeira dose pareceu não investigar mais, e depois de três sai. Logo à frente do bar havia um homem com casaco marrom escorado no poste, fumava um cigarro estrangeiro, olhou-me, passou por mim enquanto caminhava ao bar. Fui até duas quadras, foi quando ouvi o grito de uma mulher. Instintivamente corri para o local, entrei em um beco em meio ao breu da sombra. A luz no final do beco que chegava em outra rua iluminou levemente a autora do grito. Chamei ajuda, não demorou para um policial aparecer. A mulher agonizando e gemendo, mas instantes depois morrera pelo ferimento, cortes e rasgos como se um animal houvesse atacado.
— É o nono assassinato esta semana, faz três meses que começou.
— Entendo, vamos levá-la até o hospital, talvez lá possam localizar algum parente para enterrá-la.
— Desculpe senhor, mas o que fazia aqui? Tu pode ser um suspeito.
— Encontrei-a estatelada aqui. Escutei um grito de mulher e corri averiguar, quando me deparei com tal. Mesmo eu, como poderia causar-lhe tal ferimento?
O policial fitou-me, surpreendeu-se.
— Desculpe, tu é um nobre?
— Sou, mas sai escondido. Não quero envolvimento neste caso, por gentileza.
— Posso esquecer. — Sorriu.
Peguei a carteira e dei-lhe cem libras.
— Saia logo daqui.
Assim o fiz, em determinados momentos é cômodo encontrar um policial corrupto. Quando passei por uma ponte retornando à minha casa, joguei meu casaco ensanguentado no rio com pedras em todos os bolsos. Quando cheguei, fui deitar.
Branca acordou-me pela manhã, entrou e abriu as cortinas.
— Estás atrasado, Edmund. Esqueceste que hoje fora marcado o passeio à cavalo?
— Perdoe-me, esqueci, a noite fora difícil.
— Soube que saíste no início da madrugada. Posso saber o que fizeste?
— Apenas dei-me ao luxo que andar pela rua e sentir o oloroso cheiro do frio desta cidade. Não vejo qualquer problema nisso.
— Está bem... — Voltou-se a mim. — Apresse-se, estamos te esperando na sala. E pare de procurar bares em todos os lugares onde vais.
— Não demoro, dê-me apenas um instante.
Sai do quarto, logo minha criada entrou para organizar o local.
Saímos juntos numa carruagem, Elizabeth sentara ao lado de sua irmã enquanto eu e Cecília sentamos um ao lado do outro. Depois de duas horas entramos na fazenda do Ducado. A paisagem era um verde limpo, a grama tinha um fulgor diferenciado em cada inclinação especifica, hora claro, hora escuro. A flora do bosque era escura, as folhagens não permitiam que a luz passasse, tudo misteriosamente intrigante. O caminho de pedra parecia desnivelado a cada metro.
A carruagem parou, a porta abriu-se e por trás dela o cocheiro desculpava-se. – Senhoras, senhor. O caminho a partir deste ponto é inviável ao transporte, acompanhar-vos-ei aos estábulos e solicitarei que a bagagem seja levada logo em seguida. — Curvou-se.
— Há tempo que não venho a esse lugar. — Disse Branca. — Isso traz-me boas lembranças. — Sorriu.
Elizabeth interrompeu. — Não me lembre desta época.
— O que houve mãe? — Perguntou Cecília um tanto curiosa.
Branca pôs-se a falar. — Nessa mesma fazenda, antes mesmo de montar numa sela. Quando prestes a montar, a égua pareceu não gostar muito e saltou, todos os criados e cuidadores de cavalos desesperaram-se. Lembro-me de apenas estas partes. Éramos novas, não tínhamos nem mesmo dez anos, mas são ótimas lembranças.
Depois de rirmos um pouco devido a esta crônica, fomos a os estábulos escolher os cavalos para cavalgar.
— Espero que não tenha problema desta vez, parece que não me dou muito bem com cavalos, mostram um certo receio à minha pessoa. — Sorri.
O criador se pronunciou. — Não se preocupe, nós cuidamos bem deles, já acostumaram com a presença humana. De qualquer forma todo cuidado é pouco, uma queda pode ser fatal, mesmo a mais simples e cômica queda.
Ao ver os cavalos, escolhi um corcel e Cecília um Mustang negro.
— Vamos conversar com o cuidador da fazenda, podem ir conhecer as redondezas. — Disse Elizabeth.
— Está bem. — Corroborei.
Demos as costas e saímos a trotar. Lentamente Cecília se acostumara e aprendera em uma boa velocidade. Quando dei-me conta já andava quase perfeitamente, como se isto fosse um dom. Entramos em uma trilha cercada por flores e atrás das flores as árvores da floresta, um lindo caminho de terra batida enfeitada pela opala da flora coberta por um verde aconchegante. Lentamente passamos por ele e chegamos a um rio estreito, um córrego de águas cristalinas que seguiam uma corrente atônita e pacata.
— Que lindo. – Disse Cecília. — Vamos parar aqui um pouco.
Concordei, sentamos na grama e olhamos o céu do meio dia. O sol estava forte, sem nuvens, o azul pincelava-se sob o escuro do universo.
Levei as mãos por trás da cabeça ao deitar-me na grama e disse. — Lembro-me de quando jovem imaginava como seriam os contos se fossem reais. Sempre adorei histórias sobre vampiros. Sei, sei, um garoto sonhador que não sabia nada. — Sorri. — O mundo que estamos é desconfortável. Abandoná-lo, nem que por alguns minutos, é, de fato, algo incrível. Os livros são os melhores portais para transportar a mente em um lindo rio, como este em nossa frente.
— Adoro histórias, ceio na magia que elas tem. Faz-nos sorrir e chorar, roer as unhas e deleitar em suspense. — Sorriu.
— Sou escritor, um tanto sem talento, dedico uma parte de meu tempo a escrever poemas e contos. Fascina-me os homens que se aventuram em seus devaneios a surrar o real. Um pequeno sonho vivido e descrito por tais, quem sabe um dia escreva uma linda história, um romance simples e limpo.
— Desejarei lê-lo, adoraria entrar em seu mundo, se for tão gentil quanto tuas palavras.
— Quando retornarmos, prometo mostrar-lhes. Hoje não tenho tantos amigos, pelo menos os que leriam por eu não ser um fidalgo do Marquês. E fatalmente não há um público voltado a literatura quanto ao que já foi.
— Verdade. — Deitou sobre grama. — Poderia até fazer um pedido de aprender; para ensinar-me a ler e escrever poemas, mas. — Pausou por alguns segundos. — Bem, digamos que Deus não me concedeu o dom, leio infinidades de livros, mas são livres de um sentimento complexo como de um poema ou uma prosa clássica.
— Entendo, mas não há nada que não possas fazer. Adoraria ficar aqui, porém, logo entardecerá, seria melhor caminharmos um pouco mais. — Levantei e estendi a mão para ergue-la. Por pouco, mas o bastante para sentir, meu coração palpitava, os olhos da Cecilia hipnotizaram-me mais uma vez, não sei dizer ao certo se eram as minhas mãos ou as dela que soavam.
Após meia hora de uma aconchegante e calma conversa montamos nos cavalos e continuamos a cavalgada. Logo avistamos fumaça, não era chamativa, mas acreditávamos ser melhor averiguar.
Vinha de uma pequena cabana de madeira de pino. A simplicidade resplandecia seu charme e de seu charme vinha uma sucinta curiosidade. As janelas já embaçadas devido a um pouco de poeira, o pino ainda em bom estado, o telhado de tábuas de pinheiro chamava a atenção. Nele repousavam rosas púrpuras que destacavam seu fulgor através das aveludadas pétalas, que com seus espinhos agarravam as trepadeiras e as folhas que se jogaram das árvores. Ouvi levemente o canto dos pássaros e o sibilar da brisa morna. A grama verde da floresta era plúmbea comparada ao verde nesta minúscula clareira. Parecia abandonada. Então entramos. Os moveis eram velhos, mas não empoeirados, os metais da louça lustravam seu mais antigo brilho fosco e velho. Na lareira jaziam cinzas de modo calmo e quieto. A sala ostentava dois sofás vermelhos envelhecidos e almofadados com estruturas metálicas. Sob o console descansava uma garrafa de rum e um uísque quarenta anos acompanhados de um copo de cristal.
— Não parece abandonada, Edmund.
— Realmente, está longe disto.
Poucos segundos depois um homem entrara, olhos escuros, cabelo negro até os ombros. Deveria estar no auge de sua vitalidade, por volta de quarenta anos, corpo robusto e repleto de músculos, não muito grandes, mas sim como de um deus grego, sua barba de marinheiro era esplendida, feita com cautela, como se fosse feita em um barbeiro servente da família monarca.
— De fato, esta cabana não está abandonada. – Disse o homem.
— Ela é linda, simplesmente bela e, seu jardim molda-se sobre ela. Realmente de uma simples e natural beleza, apesar de surpreender-me alguém como o senhor morar aqui. — Disse Cecilia encantada.
— Aceitarei teus elogios, mas não posso simplesmente ignorar o fato de que entraram e violentaram a solidão desta cabana.
— Perdoe-nos, não resistimos, como cansou de ouvir que era linda, avistei uma possibilidade de estar abandonada, devido as terras pertencerem ao Ducado. Novamente perdoe-nos, mas. — Animou-se. — O senhor não parece receber muitos convidados, se permitires, posso preparar um chá, conversarmos e buscar redimirmos pela indesejada e mal-educada intrusão.
— Mostras cordialidade, tal qual familiar, pela tua linguagem vejo que não és uma nobre qualquer.
— Sou a herdeira do Ducado.
— Sim. Lembras teu pai, mesmo modo dócil de eloquência.
— Conheces meu pai? És o que dele?
— Um velho amigo de muitos anos.
— Infelizmente meu pai está falecendo aos poucos, dia à dia, nunca mencionou sequer um segundo de sua infância e adolescência. Sempre quieto e frio. — Disse Cecília cabisbaixa.
— Sempre fora assim, tal como o pai e o pai antes dele. Apesar de doce, sua frieza era famosa, principalmente para os repórteres e curiosos vagabundos. Portador de um incrível sadismo controverso a esta simpatia, dosava sabiamente suas palavras.
Não demorou até o chá ser servido.
— E conheceram-se aonde? — Perguntei.
Colocou a xícara na mesa e podia-se ver seu rosto serio mergulhando em devaneios por um breve momento. Colocou a mão direita no queixo e a outra segurou um charuto. — Há décadas, quando se precisava de cavalos em guerras, vinha muitas vezes à esta fazenda treinar montaria. Não posso dizer que foi em outro lugar senão aqui, pelo que me recordo. Quando era criança galopávamos pelas trilhas e margens de rios, sempre o esperava para brincarmos quando novo. E após a juventude, conversamos sobre mulheres. Quando oficialmente acendeu ao condado e depois tornou-se duque. Uma pena ter esquecido este pequeno lugar do qual as memórias foram esculpidas.
— Mas ele nunca apareceu devido a quê? Apenas pelos títulos mudarem? — Cecília surpreendeu-se.
— Melhor irem embora, veja só, passou tanto tempo, devem estar a procura de vocês, mande lembranças, diga a ele que encontraram o Tom.
Não fizemos cerimonias, levantamos e nos cumprimentamos.
— É um prazer te conhecer senhor. — Cortejei-o.
— Diremos que vimos o senhor. — Disse Cecília.
— La veredere. Disse quando saímos.
Era metade da tarde, conseguimos achar o caminho de volta sem dificuldade.
— Por Deus, onde estavam? — Elizabeth parecia desesperada. — Espera. — Olhou maliciosamente.
— Não é o que imaginas. — Comentei. — Por descuido meu nos perdemos e acabamos numa cabana onde encontramos um homem e conversamos com o mesmo. Ofende-nos tu assentar em ideias depravadas. Oras! Se quiséssemos mesmo, Cecília poderia simplesmente ordenar um quarto.
Elizabeth aceitou o desafio e disse. — Mas lá poderiam ser aplaudidos por elfos e fadas, até mesmo ninfas e sátiros.
— Acalmem-se. — Disse Branca. — São apenas crianças. Vamos comer algumas frutas.
A tarde fadigou-me aos montes. Praticamos hipismo esportivo e saltos sobre obstáculos. Ao final da tarde voltamos à cidade. Comprei um jornal no caminho. Na capa descansava uma manchete mais ou menos assim: “Décima vítima do assassino”. E a matéria estendia-se.
"A vítima, um proletário de meia idade, negro, segunda geração da descendência haitiana. Seu corpo foi encontrado numa viela próxima ao teatro. Apresentava ferimentos causados por laminas, resultando em retalhamento. Pudera ser reconhecido pelos familiares devido ao rosto do sujeito estar em bom estado. O mesmo já passara pela polícia devido pequenos furtos. Segundo fontes especificas; participava de um grupo Chamado Black Night, o qual é responsável por um movimento desequilibrado de meliantes. Não se sabe ao certo qual a ligação correta do mesmo ao grupo.
A polícia está investigando um possível elo entre os homicídios ocorridos frequentemente na cidade. O rei está oferecendo cinquenta mil libras pela cabeça do líder.
Fontes divulgaram registros das movimentações de armas bélicas. Há possibilidade de um montante crescente sobre as verbas confiscadas sob tutela de policiais responsáveis pelo controle do tráfico de armas. Um dos chefes do Black Night foi sentenciado a prisão perpétua devido ao desvio significativo das rotas de armas do mercado portuário com destino ao porto de serviço militar, mas o meliante suicidou-se logo após o fim do julgamento.
Os moradores estão assustados com esta onda de violência crescente".
— Chamou-me a atenção, a mulher que morrera, o nono caso, seu corpo também estava próximo ao teatro. — Pensei.
De qualquer maneira, passei as páginas até os esportes. Devido a leitura não vi o tempo passar nem a paisagem de volta. Quando notei, já havia chegado ao ducado. Luzes para todos os lados, a noite estava tão fulgente quanto o dia. Uma festa fora organizada pela plebe, como um carnaval comemorando algo. Não me interessei, mas aceitei o fato dessa gente ter feito um bom trabalho com a organização. Pouco a pouco os dias foram correndo, o tedio e falta do que fazer devoravam-me numa ferocidade incalculável.
Na primeira lua cheia fui ao bar, estava pacato como sempre. Quando abri a porta senti o aroma da monotonia acompanhada pelo jazz. Marinheiros e advogados frequentavam juntos esse local. Era impagável a harmonia que os mesmos apresentavam ao despirem-se do orgulho de burguês e do preconceito proletário. Fui ao balcão e pedi três dozes de uísque.
O garçom escorou-se no outro lado do balcão. — Sou o dono deste bar e escuto muito sobre esses assassinatos. Parecem ser gangues disputando o tráfego de bebidas.
— Talvez, mas acredito que discrição seria prioridade.
— Não se Al Capone estivesse aqui. — Falei.
— O tio San jamais viria aqui. — Olhou-me nos olhos fitando-me. — Você é esperto garoto, gosto de tipos assim.
— Entendo, obrigado pelo elogio, a propósito. Tens informações sobre os assassinatos?
Sorriu maliciosamente ao se deparar com a chance de ganhar dinheiro. — Apenas o que ouço correr pelos becos e mesas de bares.
Dei-lhe cinquenta libras. — Sabes onde e quando cada assassinato ocorreu? E detalhes sobre os corpos?
— Se quer algo detalhado, precisarei de mais tempo e, como meu pai sempre dizia: "Tempo é dinheiro".
— Essas cinquenta libras são apenas a entrada. Tens uma semana para adquirir o que preciso, o pagamento será tão gordo quanto o rei. — Disse encarando-o.
— Fico feliz que visitou este humilde bar. A bebida foi por conta da casa, espero ver o senhor em breve. — Sorriu.
— Obrigado pela gentileza, de qualquer forma, já estava de saída, ver-nos-emos em breve senhor garçom.
Poucos passos antes de sair ouvi o garçom dizer para mim. — Espero que um fidalgo do Marquesado não abra sua boca em momentos indevidos, ele pode se dar muito mau. — Olhei para o canto do bar, dois policiais olhavam-me, um deles havia pegado uma cerveja, talvez na hora que ofereci ao garçom o pagamento e insultei o rei. Tal crime considerado desacato, insolência e blasfêmia, dependendo do humor da corte poderia jazer numa masmorra úmida e fétida por anos.
Era madrugada. Apoiei-me na mureta da ponte Vlinckouger. A luz da lua iluminava tudo naturalmente. Podia-se ver quase trinta metros tranquilamente. Nas margens do rio avistei algo estranho, dois homens, pareciam discutir, trocaram alguns socos e pontapés, mas um deles caiu. Não pude ver com certeza, mas o homem em pé fez a montada e deu-lhes mais socos no rosto. Falou algumas palavras em seu ouvido. Quase um minuto depois deixou-o desmaiado. Não prestei socorro, seria um erro colocar meu nome neste caso; precisamente desnecessário. O máximo que poderia fazer seria alertar aos policiais do bar o que ocorrera, assim o fiz.
Na manhã seguinte surgiu uma notícia do jornal, uma matéria dizendo que um homem fora assassinado próximo à ponte. A causa da morte fora uma adaga fincada no pescoço. O mesmo tinha envolvimento com o grupo de homens no último caso. — Qual seria a ligação destas pessoas do Black Night com os assassinatos? – Pensei. — Tráfico de ópio, Morfina ou bebida? Soube que se trata também de uma organização que movimenta armas, compra e até fabricação delas, mas não havia nenhum concorrente para tentar aniquilar este negócio
Enquanto pensava sobre, a governanta abriu a porta.
— Senhor, viemos apresentar-te a tua criada particular. — Disse ela. — Entre.
Olhos banhados em mel, cabelos dourados e a pele tão branca quanto as nuvens. Certamente não pude esconder o rubor de minha face. Reconheci-a com uma flor de margarida presa do cabelo, senti meu peito apertar por um segundo e minha garganta trancar, e por um relampejo abandonei minhas forçar, algo como o destino ou qualquer outra coisa, talvez fosse um anjo que Deus havia colocado em meu caminho. Depois de retornar à realidade pude notar que seus olhos brilhavam de modo a refletir intensamente a luz da manhã.
— É um prazer te conhecer, mestre, fico feliz em trabalhar para ti. — Curvou-se.
— O prazer é meu.
— Quais são as ordens, mestre?
— Não me chame de mestre, não gosto disso, pode ser mais casual.
— Senhor?
— Sim, está bom, e qual é teu nome?
— Daniela, senhor. — Curvou-se novamente
— Sou Edmund. Sinta-se à vontade.
— Obrigado pela gentileza, senhor.
Depois de me apresentarem Daniela, vesti-me com roupas executivas, e fui a mesa para o café da manhã.
O resto do dia sucedeu normalmente, assim como a semana.
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