Memórias de vidro

3 Ela fechou os olhos sentindo a brisa que passava pelas folhas.


Apesar de não ser lua cheia, fui ao bar, estava fechado, bati e disse. — Insultar o rei na frente de dois policiais é um grave erro. — Logo a porta fora destrancada e pude entrar, verifiquei que ninguém havia me seguido, logo vi o garçom atrás do balcão.

— O que queres beber? Marquês.

— Entendo. Absinto, por favor.

Assim o fez, serviu-se igualmente. Bebeu um largo gole e disse.

— Meu jovem. É efêmera a virtude da curiosidade. Ela embaça a retina dos emocionados e sustenta o ego daqueles que agem.

— Entendo. Um lucido relâmpago de curiosidade nos faz a mesma espécie de insetos que os repórteres, contudo, em um intuído particular de sigilo nosso.

— Certamente, satisfazer-se de dúvidas e curiosidades não passa de um desejo torpe, assim como um garçom atrás do balcão conversa com um cliente.

Rimos. — Conseguiu o que encomendei?

— Estava demorando a perguntar, vamos direto ao assunto. — Colocou uma pasta com alguns detalhes dos crimes.

Dei-lhe quinhentas libras.

— Realmente foi um bom preço, mas dar-te-ei um conselho. No que estás se metendo é perigoso.

— Tudo bem, não me importo.

— A escolha é tua, antes disso, soube depois de documentar essas informações que testemunhas disseram ver parte do rosto de um dos assassinos, tem olhos azuis, mas segundo a testemunha, são olhos azuis manchados com vermelho, não se sabe ao certo se seria apenas a refração da luz de uma lanterna, esta informação foi um adicional.

— Obrigado. Contarei com teus serviços, espero.

— Com bons pagamentos. — Riu. — Está tarde, não é lua cheia, as noites estão mais escuras apenas com as luzes dos postes. Melhor ir para cada logo.

— Obrigado pela bebida, uma conversa de alguém que queria beber e um bar que acolheu o bêbado.

— Até logo, senhor bêbado.

Sai às pressas do bar e dirigi-me à rua de casa. A poucos metros de distância avistei um homem, vestido com um traje escuro como uma sombra viva, um tanto suspeito, parecia esperar-me. Olhei para o outro lado e quando voltei-me novamente a ele, havia desaparecido. Encarei como uma miragem de uma preocupação noturna. Quando voltei para casa, abri os documentos, os dez primeiros caso eram:

Primeiro: Joseph, Carpinteiro, negro, altura mediana, porte físico forte, olhos negros e cabelos brancos,

Forma de assassinato: Uma adaga fincada no pescoço, tinha sessenta e três anos. Local: Porto.

Segundo: Clarice Hologne, Escrivã do Ducado, branca, loira, olhos negros, altura mediana, corpo esbelto,

Forma de assassinato: Retalhamento, tinha Vinte e oito anos, Local: Portão do ministério.

Terceiro: Eduard Sigmund II, Repórter, franzino, olhos negros, e cabelos de mesma cor.

Forma de assassinato: Retalhamento, tinha vinte e dois anos, Local: Residência

Quarto: Edward Sigmund, Dono de uma empresa de notícias, Acima do peso, olhos negros, e cabelos de mesma cor.

Forma de assassinato: Retalhamento, tinha quarenta e nove anos, Local: Residência.

Quinto: Marcela Sigmund, Esposa de Edward Sigmund

Forma de assassinato: Retalhamento, tinha quarenta anos, Local: Residência.

Sexto: Josephine Multhirbergnicht.

Forma de assassinato: Retalhamento, tinha quarenta anos, Local: Palácio.

Sétimo: John, interprete, americano

Forma de assassinato: Adaga fincada no pescoço, tinha cinquenta e dois anos, Local: Portão da Embaixada estadunidense.

Oitavo: Madalena, Empregada, Espanhola de corpo esbelto.

Forma de assassinato: Uma adaga fincada no pescoço, tinha vinte e três anos, Local: Num beco próximo ao ducado

Nono: Phanye, Estagiaria na bolça de valores, loira de olhos azuis, corpo belo, Filha do chefe de polícia.

Forma de assassinato: Retalhamento, tinha dezenove anos, Local: em um beco próxima ao bar.

Decimo: Phillip, Integrante dos Black Night

Forma de assassinato: Uma adaga fincada no pescoço. Tinha vinte e sete anos, Local: Próximo a ponte Vlinckouger.

— Estranho. — Pensei. — Chamei uma das empregadas, pedi-lhe uma jarra de café e alguns torrões de açúcar em uma bandeja.

Daniela os trouce.

— Aqui está o teu café, meu senhor.

— Deixe-o aqui na beirada da mesa.

— Algo mais? Senhor. Gostaria que preparasse teu banho? Está tarde.

— Não, obrigado.

Quando estava saindo chamei-a. — Daniela, por favor, venha cá.

— Sim senhor. — Firmou-se em pé ao meu lado. — O que seria?

— Veja. Repare que as formas de assassinato são sempre as mesmas; tendo quatro ocorrido por uma adaga alojada do pescoço da vítima e seis por retalhamento.

Peguei uma cadeira para Daniela sentar ao meu lado.

— Veja só, usavam este mesmo punhal dos crimes. — As informações vieram acompanhadas por desenhos de alguns objetos.

— Adaga de Werckinberrevich. — Disse ela.

— Mas por que teriam um punhal como símbolo da família, ainda mais suspeitas surgiriam sobre eles.

— Eles participam de uma organização cujo objetivo é um mistério para muitos.

— Por que tens este emprego? Sabes tanto, deveria ter se aprofundado mais no campo investigativo. Deves pesquisar sobre. Conte-me mais.

— Obrigada, mas não houve outra alternativa depois que minha família se foi. Meu tutor era um professor que morava numa biblioteca da sociedade acadêmica universitária de Morckiaschen. Ensinou-me a ler e escrever, também a educação fundamental e colegial, mas veio a falecer.

— Entendo, perdão.

— Tudo bem senhor. — Sorriu.

— Olhe. O informante separou outros casos com outras mortes, mas estes não possuem nomes e alguns detalhes faltam, como o caso que li hoje, um proletário morto, retalhado por lâminas, diferente dos outros, este apresentava cortes mais precisos.

— Senhor, está tarde, amanhã acordarás cedo para a reunião.

— Está bem, logo deitarei.

— Desejas algo mais? Senhor.

— Não. Se estiveres cansada, podes ir dormir.

— Obrigada senhor, boa noite. — Saiu do quarto.

Continuei a analisar as informações. Os Black Night agiam como psicopatas, mas por que os padrões? Apunhaladas de adaga no pescoço e retalhamento, talvez fossem lutas entre gângsteres rivais. O Black Night contra quem? Afinal quem são os Black Night? Sabe-se que movem um mercado de armas secretamente, alguns cogitavam a hipótese do mesmo até fabrica-las. Caixas vindas da Rússia e Estados Unidos foram vistas entrando em um barracão do porto, mas com a lei seca os EUA não poderia exportar bebida e o que a Rússia teria de matéria cujo desembarque devesse ser na boca da noite? Vindo da Rússia, certamente seriam armas. O mercado bélico ainda trabalha de modo a suprir o estoque depois da grande guerra.

— Parece que a noite vai ser difícil. Uma procela aproxima-se em meio a escuridão. — Fechei os documentos e guardei-os no fundo da gaveta com chave e pendurei-a em meu pescoço por meio de um cordão, deitei-me e pus-me a refletir.

Não sabia no que estava me envolvendo. Algo mais profundo que um simples texto filosófico permutando incertezas. Não posso negar em afirmar que o momento comum de minha vida se transmutou em algo um pouco mais além do que minhas preciosas memórias podem me levar.

Alguns dias se passaram.

— Rápido, senhor. Precisas trocar-se logo, se não, chegará atrasado. — Disse Daniela por trás da porta.

— Eu sei, eu sei. Avisem-nas que logo estarei presente, falta alguns ajustes em meu colarinho.

— Está bem, senhor.

— Vejamos. — Terminei os últimos retoques. — Faz duas semanas que não ocorrem homicídios na cidade, talvez alguém haja prendido ou eliminado os culpados, mas acredito que não. Alguém dessa estirpe não se deixaria derrotar facilmente.

Branca entrou em meu quarto.

— Apresse-se, Edmund. — Falou preocupada. — Tens que ser mais pontual, cumpra com os deveres de um Marquês.

— Acalme-se Branca, o horário de visitas é estendido aos nobres.

— Mesmo assim, tua despreocupação afeta Cecília.

— Estou quase pronto, acalme-se e espere-me no lado de fora.

Não demorei mais que cinco minutos, estava me aprontando para ir ao hospital fazer uma visita ao Duque, para receber a benção. Encontrei Cecília e Elizabeth na sala de visitas.

— Bom dia, Edmund. — Disse Elizabeth.

— Bom dia, Elizabeth, Cecília.

— Bom dia.

— Bem. Vamos? — Sugeriu Branca.

Saímos em um Ford, os roncos do motor ainda trazem nostalgia a meus tímpanos. Era uma manhã morna e um tanto agradável, proletários em fabricas, namorados em parques, mariposas e repórteres nojentos. Tudo ao menos parecia normal quando me deparei com um momento que até então foi atormentador. Lá estava um sujeito em um beco, trajava um belo paletó negro, olhou fixamente meu carro passar por ele, senti um leve calafrio. — "O que foi isso?" — Fora a primeira coisa que passou em minha cabeça.

— Aconteceu algo? Edmund. — Perguntou Branca. — Parece estar pálido, viu alguma assombração? — Sorriu.

— Estou bem, obrigado. — Voltei-me a olhar da janela.

— Não fiques distraído, Edmund. Conhecerás o Duque, não podes estar nervoso.

— Eu sei, apenas vi algo estranho.

Cecília vestia um casaco preto de lã fina por cima de seu vestido de mesma cor. Branca segurou suas mãos.

— Acalme-se, Cecília. Acredito que teu pai tenha melhorado ao menos um pouco.

— De fato, mas não o suficiente, sinto, pois logo cairá.

— Não te preocupes, minha querida. – Disse Branca tentando confortá-la.

— Obrigada. — Sorriu.

Demorou mais alguns minutos, nesse tempo pude apreciar a paisagem da arquitetura local. Um toque germânico, passamos pelo centro da cidade. Depois de descermos notei o quão monumental era o hospital.

— Senhor, senhoras, esse é o hospital, o melhor do estado de Morckiaschen.

Passamos pelo caminho até a portaria, lá jazia uma porta de madeira negra, detalhes em metal, grandes maçanetas de ferro lustroso. Dentro podia-se ver o piso de mármore quadriculado de preto e branco, como num tabuleiro, via meu reflexo tão nitidamente nesse piso. Seguimos à recepção, a enfermeira chefe nos guiou ao quarto onde estava o Duque. Abrimos a porta e entramos. O piso no quarto era de madeira clara e as paredes num tom âmbar. O leito estava cercado por uma fina cortina que dançava conforme a brisa fraca a acariciava e transmitia paz àquele quarto, enquanto a tristeza deitava-se em seu infortúnio. Cecília andou na frente, passou a mão suavemente na cortina.

— Pai... Sou eu, tua filha.

— Cecília? És tu Cecília? — Perguntou olhando em sua direção, mas os olhos já não viam nada, a não ser uma paisagem branca dada pela cortina.

Entrou cortina à dentro, passou a mão em sua cabeça e beijou sua mão, infelizmente o Duque não mexia seu corpo.

— Trouxe a Marquesa e seu filho.

Entramos, ficamos ao lado do leito.

— Sou Edmund, é um prazer conhecê-lo. — Cumprimentei-o.

— Belo rapaz a quem deu a luz, Branca, lembra muito o falecido Marquês. — Sorriu.

— Certamente. — Concordou Branca.

— Não há necessidade de serem tão formais. — Indagou. — Sabe, um velho homem cuja sua vida logo acabará, nota que a formalidade não passa de uma mera perca de tempo.

Voltou seus olhos à a mim. — Então estás aqui meu novo filho, tive Cecília muito velho, tive medo de não ver esse momento. Eu sei que é pelo bem da família, mas me agrada saber que vi minha filha casar-se. De qualquer maneira, não vos amai um ao outro, mas logo não terão certeza sobre, e depois não viveram sem o outro.

— Não diga coisas tão intensas, pai.

— Um dia entenderás, Cecília. — Retrucou.

Branca sentou-se na poltrona ao lado do leito, olhou as flores brancas que jaziam num vaso de cobre talhado, flores belas e alegres como as flores de margarida e as rosas brancas numa primavera verde. Depois de perceber essas lindas flores, puder notar a luz que passava pela janela e batia na cortina. Lembro-me vividamente das pequenas partículas de poeira levitando, dançando uma valsa em lamentações ao Duque no leito. Lembro também de quando vi atentamente ele deitado, seu rosto que antes arrancava sorrisos de luxuria das mulheres, apagara completamente, permanecendo o esboço de um rosto magro, fino e olhos fundos, já seu corpo não mais escondia os ossos. Haviam dito que ele melhorara até agora, mas era claramente mentira. Apesar da medicina buscar a cura, que em muitas horas, devem ser cobertas em mentiras e ilusões. Não posso descordar desse método, já que se exercesse a profissão, certamente o faria. Meu devaneio fora interrompido por uma enfermeira.

— Com licença, senhores, mas o horário de visitas entendido acabou.

— Entendo, só um momento. — Pediu Branca.

— Pai. Lembrei agora. Na viajem à fazenda onde praticamos hipismo. Perdi-me com Edmund e encontramos um lugar, uma clareira. Nela havia uma cabana velha. Entramos e conhecemos um homem, parecia conhecer-te. Conversamos por pouco tempo, mas pediu para que mandar-lhe lembranças, seu nome era Tom.

— Entendo.... Perdoem-me. — Uma lagrima surgiu e percorreu seu rosto. Fechou os olhos e relaxou.

A enfermeira entrou e passou pela cortina trazendo sedativos. Logo saímos do quarto.

— Aproveitando que cá estamos. Gostaria de conhecer esta região. — Falei.

— Boa ideia, Edmund. — Concordou Branca. — Deixá-los-ei andarem pela cidade, tenho negócios relacionados ao casamento para resolver.

Quando chegamos ao portão, Branca e Elizabeth entraram no carro que nos trouxera, eu e Cecília ficamos à deriva.

— O que queres conhecer, Edmund? — Perguntou ela, um tanto despreocupada e desinteressada.

— Os parques... Gostaria de saber se são como os de minha cidade.

Talvez eu esqueça deste, mas antes lembrarei aqui. Sua beleza jamais deveria ser esquecida, nem mesmo pela morte ou velhice. Não era muito longe do hospital. Havia um portal de pedra onde era possível entrar no parque, pedras amareladas pelo tempo, trajadas pelo musgo e trepadeiras. O portão de ferro estava aberto, detalhado e em suas lacunas, atravessavam-se cipós e flores. A beleza não parava em seu exterior, a grama era verte e tão clara quanto o tom azul-celeste, corte simétrico. Haviam pequenas calçadas de tijolos de pedra, casais andavam por eles. Em uma clareira estavam pessoas praticando diversas atividades em volta das margens do lago que ali acalmara as retinas cansadas. Caminhando pelas veredas de pedras decidi quebrar o silencio quase sepulcral.

— Vens a esse parque sempre?

— Não. Vim poucas vezes, mas dessas poucas vindas gostei. Parecia ser interessante apresentar-te-ei.

— Realmente é um belo parque, tão lindo quanto os do Marquesado, é pacifico e simples.

— Como são os parques em Collins?

— São simples, digamos que como esse, sem estorvos ou peculiaridade. Talvez isso acalme as fadigas assim como aqui, homens proletários que trabalham em fabricas dormem sob a tutela das árvores que os protege do sol forte do meio dia, casais apaixonados, pessoas cultas que trazem seus livros e desfrutam de horas lendo.

— Parece bom.

— Mas há um parque em Collins que possui árvores de cerejeira. Há trinta anos foram trazidas do Japão por imigrantes. Suas pétalas são tão rosadas como teus lábios.

Ela sorriu delicadamente. A brisa soprou e dançou com seu cabelo. Os brilhos dos fios negros destacavam seu sorriso e, sobretudo, seus olhos, os quais me hipnotizaram. Eu não havia amado ninguém, não sabia o que sentia naquele momento. Todas as vezes que via seus olhos, esquecia de tudo, nada mais importava.

— Deve ser lindo. Há um lugar que eu sempre ia ao vir aqui quando criança. — Pareceu um pouco mais feliz.

Segurou em meu braço e guiou-me até um muro de trepadeiras tão denso que não poderia ver através, mas pôs seu braço entre as folhas. Então Cecília abriu uma pequena passagem, onde enroscou o vestido. Por trás dessa parede havia um pequeno caminho, como o que estávamos, parecia um pequeno pedaço do parque a ser esquecido. Estava em meio ao bosque. Cores e mais cores pintavam abstratamente os beirais do caminho. Continuamos caminhando calmamente até chegarmos em um arco, parecia ter a mesma idade do portal de entrada. Atravessámos e logo à frente vimos um banco, sentei em um lado e Cecília no outro. Não podíamos ouvir nada além do vento. Olhei em volta, árvores e flores, essa clareira, mesmo pequena era confortável e relaxante. Por um momento fiquei extasiado ao deslumbrar tal beleza.

— Apenas nós sabemos desse lugar. — Disse olhando-me com carinho.

— Estou feliz em saber sobre algo assim, é lindo e misterioso. — Sorri.

Cecília apoiou sua cabeça em meu colo, fiquei surpreso, mas feliz. Então pegou uma de minhas mãos a apoiou sobre sua barriga. Usei a outra para acariciar seu rosto. Sentia-me estranho, eufórico e ao mesmo tempo acuado. Não trocamos nenhuma palavra por vários minutos. O silencio ecoou ali. Mesmo hoje não sei dizer o porquê, mas em meio ao silencio que fazíamos enquanto olhávamos um ao outro, ela fechou os olhos sentindo a brisa que passava pelas folhas. Então dei-lhe um beijo. Quando separamos nossos lábios, ela me olhara profundamente surpresa.

— Desculpe... — Pedi.

Mas ela sorriu.