Memórias de vidro

4 Negociações e mais negociações.


Era tarde, o sol batia seis horas. Eu estava admirando a paisagem da cidade enquanto escorava-me na janela do carro. Pensava apenas em como seria a reunião os com senhores das construtoras.

— Negociações e mais negociações. – Pensava eu.

Já presenciei muitas. Branca era uma mulher com um dom para barganha, como de um velho e experiente turco meio judeu, negociações afiadas e um bom tato para notar os pontos. Tive uma ótima professora, não tendo meu pai para ajudar, ela tentou suprir a lacuna e desfalques do que Edward não pode fazer para contribuir a fim de me tornar um homem.

— Hoje haverá uma reunião fácil, Edmund. — Disse ela.

— Fácil? E tem níveis de dificuldade.

— Obviamente! Hoje trataremos de assuntos com uma empresa de Collins, uma construtora. Quer uma concessão para construir o edifício do novo teatro. Esta é fácil por não envolver o exterior ou números maiores, concessões são mais simples por serem normalmente serviços de empresas internas para o governo. Se for uma empresa estrangeira, ela deve criar uma empresa nacional como filial nesse país. Assim como negociar envolvendo diretamente a bolsa de valores é muito mais difícil, por ter em mente que não é apenas a economia do país, mas de outros países. As estratégias mudam conforme as situações pedem.

— Entendi, não e atoa que meu pai não gostava de discutir contigo. — Rimos.

— Estamos quase chegando, madame. — Disse o motorista.

— Perfeito! Apenas observe, Edmund. Precisas aprender mais sobre isso para guiar o ducado.

Não demorou até chegarmos. Era um monumental hotel quatro estrelas situado na divisa das regiões no extremo norte. Tinha treze andares, janelas bem-acabadas, detalhes bem feitos, era tão luxuosa quanto a mansão do ducado. Entramos. Pude ver o reflexo de todos no mármore polido, o perto e o branco quadriculavam o chão. Empregados iam e vinham e pessoas elegantes desfilavam por cima de seus reflexos.

Fomos à recepção.

— Temos reservas para uma sala de reuniões no quinto andar.

— 5/118 correto? — Confirmou e recepcionista.

— Sim.

— Reserva para seis, entraram três. O sexto está convosco?

— Não, somos só nós dois.

— Aqui estão as chaves. — Deu-nos. — O hotel Lume Lótus agradece vossa presença.

Subimos. Eram belos corredores, tapetes bem colocados, retos como papel, paredes bem pintadas de bordo. Chegamos à sala. Lá haviam três homens de terno sentados atrás de uma mesa. Quando entramos, levantaram-se e vieram cumprimentar.

— Muito prazer, senhora. — Ficas bela em todas as terras. — Cortejou-a e beijou sua mão.

— Há quanto tempo, senhor Parker. Como está o Marquesado?

— Perfeitamente bem, graças a teus subordinados.

— Sou Isaac Horse, é um prazer conhecê-la. – Beijou-lhe a mão.

— Sou Gregório Servero.

— Senhor Servero, já ouvira falar. És presidente da The little castle, assistance in architecture and engineering?

— Isso mesmo, nunca conversamos antes, creio eu, mas fui a alguns encontros políticos de Collins.

— Entendo. Fico feliz em negociar com alguém de casa.

Sentamos. — Esperaremos o último integrante da reunião? — Perguntei.

— Não se preocupem, podemos começar agora. — Disse Isaac.

— Falas bem o português, senhor Isaac. — Branca o elogiou.

— Obrigado, moro aqui há um ano.

— Então está estudando o terreno há um ano para aplicar investimento aqui. — Riram. — De qualquer forma, vamos ao ponto. — Tomou uma postura séria. — Senhor Gregório, quais sãos teus planos para a obra?

— Certo. — Tomou a mesma postura. — Primeiramente pelas leis reais, como sabes, a interação entre um Marquesado e outra posse de mesmo nível ou superior, devem ser consultadas pelo nobre responsável às empresas cujos locais sediam a matriz no mesmo, e pretendem expandir a outros territórios. Sendo indispensável a avaliação do responsável pela localidade escolhida, tendo em vista a tornar-se posse do nobre que guarda as terras da matriz.

— Correto.

— Esclarecido a jurisdição direta. Partiremos à infraestrutura da obra. — Pegou um grande papel azul. — Esses são os projetos da equipe de engenheiros.

— Não entendo de engenharia, mas sei onde há os pontos positivos e negativos. — Olhou atentamente o projeto por alguns minutos, então pegou uma caneta tinteiro de tinta vermelha e marcou três xises. — Primeiramente, levaremos em conta o público principal do teatro. Pela região creio ser a burguesia e a nobreza.

— Certamente, madame. — Concordou Gregório.

— Segundo, está na região leste do Norte, apesar de ser região nobre, é no Oeste do Norte de fato que se encontra o público amante da arte, por isso, o museu fora construído lá. Terceiro, o tempo de interdição das proximidades. Além disso, a imagem que o teatro deve passar é luxo, apesar de todos sabermos do Sul e o porto, o teatro proporciona uma vista ampla e limpa da plebe, isto é, de certa forma, desconfortável.

— O que sugeres? – Perguntou Gregório.

— Simplesmente tapem as janelas que deem acesso a esta vista.

— Como assim?

— Desses corredores faça um museu para os convidados, onde não possam ver o sul e o porto, mas sim as janelas que mostrem o norte, uma visão limpa do palácio, enquanto a plebe pode ser esquecida.

— Entendo...

— Segundo. A localização afastada do público alvo. Deslocar-se grandes distancias pode ser fatigante para eles.

— Gregório interrompeu. — E por esse motivo que trouxe este homem.

— Justamente este fora nosso maior problema, essas foram as terras autorizadas pela corte. Para dar um acesso rápido ao público efetivo, construiremos uma estrada que ligue o teatro ao museu. Há um pequeno trecho de terras sem dono onde é possível uma linha quase reta.

— Realmente há. Então tiramos este problema e partimos ao terceiro. Quanto tempo previsto até o termino se começarem amanhã?

— Três anos. — Disse Gregório.

— Está um pouco longo. A região é próxima ao edifício da bolsa e do mercado.

— Isaac se pronunciou. — A partir do primeiro ano, estará pronto um desvio que levará às quadras do mercado e outro desvio a área residencial.

— Ainda é muito, vós sabeis como é a burguesia. Bem, para ganhos é preciso pagar os preços. Ver-nos-emos em uma próxima oportunidades, na qual apresentarão a correção das janelas. Dar-vos-ei a aprovação provisória, com isso poderão começar as obras, mas depois de terminarem a estrutura principal, agendaremos a nova avaliação.... Há! Outra coisa. A empreiteira estadunidense vai ganhar o que ajudando?

— Apenas expandindo a empresa que represento.

Senti uma atmosfera estranha, como se estivesse mais frio.

— Com licença. — Disse um homem que entrara. Cabelo prateado. Não era velho, pelo contrário, parecia ter pouca mais idade que eu na época, seus olhos eram azuis, olhos semicerrados e frios, penetrantes. Olhou-me e não disse nada, apenas sentou-se em um dos lugares vazios.

— Este é nosso patrocinador de publicidade. — Senhor Franco Hanzt.

— Muito prazer, senhor Hanzt. — Disse Branca.

— O prazer é meu.

— Acabamos aqui, senhor Hanzt. Conseguimos a provisória. — Disse Gregório.

Levantamos e fomos à porta, Franco passou por mim e sussurrou. — Você fede a eles. — Continuou andando.

Saímos, na porta do hotel Branca disse. — Preciso comprar algumas coisas, Edmund. Venha comigo. — Começamos a andar. — Demorou menos do que imaginei. Diga-me. O que aprendeu?

— Bem, analisaste muito minuciosamente o projeto. Eu não poderia ter um olhar tão afiado quanto o teu. Sempre acreditei que seu charme conquistara meu pai.

— Olhe que abusado! — Sorriu. — Não sou apenas uma mulher que conquista um homem apenas cruzando as pernas, como ele deve ter-te dito. Sempre foi assim, falando coisas a ti, nunca perguntaste a mim como eu e seu pai nos conhecemos.

— Gostaria de saber. — Arqueei o braço para que ela encaixasse, assim o fez. — Por que aprovaste provisoriamente o projeto? Poderia tê-lo feito efetivo.

— Entendas, Edmund. Como já disse outras vezes, os humanos são gananciosos, isso faz com que sejam corruptíveis. A fonte da ganancia de um homem é dinheiro, bebidas e luxuria, a ganancia de uma mulher é o dinheiro, vaidade e amor. Apesar de homens e mulheres terem ideais diferente, ambos têm o dinheiro em comum. Qualquer oportunidade de adquirir mais, torna-os gananciosos por natureza. As pessoas que pretendem construir o teatro e a avenida, querem lucrar com isso. Se eu assinasse o contrato efetivo, poderiam não cumprir algo do acordo para economizar. Deves olhar atentamente não o que está sobre a mesa, mas o que a coloca ali, preste atenção. O que aquele americano queria aqui?

— Expandir o negócio?

— Querem entrar em um país neutro logo depois de uma guerra como essa apenas para expandir o negócio? És ingênuo meu pequeno Edmund...

— O que há em relação à guerra?

— Por Deus! Por que nascestes com o cérebro do teu pai? Explicar-te-ei. Após grandes guerras, há grandes crises. Achas mesmo que não haveria algo assim? Quantos homens chão-de-fábrica, foram à guerra? Milhões de homens de todos os lados do globo, homens que deveriam estar trabalhando para manter o ritmo das fabrica. Mas quantos voltaram? Muito menos. As crianças podem assumir, mas não são fortes como os homens formados. Primeiramente, as fabricas entraram em um declínio produtivo, não suprirão a demanda, com isso, o governo receberá menos impostos, assim a bolsa de valores cairá. O governo já não terá tanto dinheiro sobrando devido aos gastos na guerra. Com o aumento dos impostos, as empresas aumentarão os preços, refletindo em um poder de compra menor para os pobres. Gerará manifestos civis. Mas enfim, menos dinheiro circulará pelo país, com isso a bolsa despencará e as ações diminuirão, muitos empresários falirão e vários deles matar-se-ão. No mínimo o senhor Isaac quer implantar a empresa aqui para reconstruir em um país quase autossustentável, apesar da deficiência farmacológica. Felizmente não seremos muito afetados, mas os países que dependem dos que lutaram, esses sofrerão. Seus economistas previram isso, então quer vir para cá e depois voltar para américa. Nosso país é um prato cheio. Como já disse, Burtchendill é quase autossustentável, Isaac não precisará importar muitos materiais, além disso, o mais importante; se olhares as estradas, verás que são velhas, quebradas ou de terra. A monarquia não vê necessidade de mudar isso. A primeira empresa que reconstrua as estradas do nosso país lucrará mais que qualquer empresa aqui existente. Nosso rei abriu possibilidade de concessão internacional agora, visando isso.

— Se somos quase autossustentáveis, por que vir alguém de fora?

— Oportunismo. Nosso rei é inteligente. Não penses que ele passa o dia todo comendo. Tive oportunidade de conhecê-lo e falar pessoalmente. Ele passa horas lendo, tem visão. Digamos que ele é um pouco mais esperto que eu. Voltando ao assunto. Por hora não cobrará impostos altos, mas depois que a empresa assinar alguns contratos, os impostos subiram gradativamente.

— Mas como as empresas ganharão dinheiro apenas construindo?

— Não será a construção, e sim pedágios. Com a construção quem ganha será Gregório, então é provável que firmaram uma parceria. Uma construtora e uma concessionária, é uma aliança formidável para esse papel. Agora, voltando ao começo. Achas que fariam um teatro monumental e luxuoso como aquele apenas por prazer?

— Entendo. Começarei a analisar fatos como esses, A propósito. O que o rei queria contigo para falar pessoalmente?

— Isto é assunto para outra ocasião, Edmund. Aliás, parece que aquele sujeito não gostou de ti.

— Parece que sim. Não achei sua presença muito agradável também. O que queres comprar?

— O que achas? Pensei muito, preciso de açúcar.

Continuamos caminhando até o mercado do centro. Era minha primeira vez ali, apesar de ser no centro, não parecia organizado como deveria. O mercado era na verdade como uma fera, várias lojas em uma rua. Lá havia comércios de todos os tipos e vertentes, pescados, padaria, bebidas, pequenos cassinos e outros. Após procurar por alguns minutos, avistamos uma loja de doces, parecia antiga, vitrines pequenas e paredes vermelhas com detalhes amarelos. Logo acima da porta havia uma placa escrito "Loja de doces do tio Zé". Não sabia por que Branca queria justamente essa loja, haviam outras com aparência melhor, algo com o mínimo de classe, mas na verdade Branca parecia estranha aquele dia, normalmente não era suave, era sempre rígida e dificilmente via-a sorrir.

Entramos. Era como do lado de fora, sem classe, moveis em madeira velha, não era muito grande também. Branca olhara atentamente o lugar, mas sua expressão era diferente ao repudio, algo como uma inquietude. Fomos ao balcão ao fundo, nele havia uma campainha e embaixo uma placa escrita, "Toque três vezes", mas ela desobedeceu. Tocou três vezes com notas colcheia, depois de um uma pausa semimínima tocou mais três vezes com notas colcheia. Não demorou até um velho senhor aparecer, tremulo de bengala. Parecia ter oitenta anos, barba bem-feita. Vestia uma camisa branca e calça preta com suspensório vermelho, talvez nessa idade não precisasse se preocupar com a elegância das roupas, mas parecia um bom homem. Olhou Branca por alguns segundos e espantou-se.

— É você? Biały.

— Sou eu sim. — Estava sorrindo tão alegremente, até acreditei ser outra pessoa. — Há tanto tempo que não venho aqui.

O velho senhor começou a sorrir sem dentes. — Quer entrar e beber algo?

Demorou alguns segundos até me notar, Branca me apresentou. — Zé, este é meu filho, Marquês do Marquesado de Collins, Edmund.

— Muito prazer. Pode me chamar de Zé.

— O prazer é meu, Zé.

— Quem diria, que aquela garotinha de ontem estaria agora uma mulher formada e com filhos. — Parecia feliz. — Não vejo você e Elizabeth há tantas décadas, quantos anos faz? Trinta?

— Por volta disso. — Respondeu. Voltou-se a mim. — Eu e minha irmã costumávamos comprar doces aqui quando éramos crianças.

— Reconheci o toque da campainha, mas antigamente era três tocadas tuas e três tocadas de Elizabeth. — Disse ele rindo. — Ainda vendemos aqueles doces.

— Vim por eles mesmo. Quero um pouco para mim e outro pouco para Elizabeth.

Passou pelo balcão e foi em direção ao doce, pegou dois saquinhos de papel e despejou uma canecada em cada, eram doces de caramelo. Voltou e deu-os à Branca.

— Quanto fica? — Perguntou ela.

— Por conta da casa, minha pequena Biały. Estou muito feliz que tenha lembrado dessa pequena e velha loja.

— Obrigado Zé.

— Por que chamas ela de Biały? — Perguntei curioso.

— Sou polonês, filho. Vim a essa terra quando era jovem, Biały me perguntou uma vez como era seu nome em polonês, então comecei a chama ela assim.

— Entendo. Minha mãe não fala muito sobre seu passado. Não sabia disso.

— Adoraria conversar mais, no entanto tenho médico marcado. Vocês me pegaram no pulo. — Sorriu. – Ofereci para bebermos algo, mas esqueci-me completamente do compromisso.

— Quer que levemos o senhor? — Sugeriu ela. — Podemos pegar um taxi.

— Não, obrigado, preciso andar um pouco, não é muito longe também.

— Então estamos voltando, infelizmente não sei quanto tempo demorara para voltar a esta loja.

— Provavelmente quando voltar, já estarei do outro lado. — Gargalhou. — Tenho oitenta e três anos, estou fazendo hora extra na terra.

— Adeus tio Zé, foi bom vir aqui novamente.

— Adeus Biały, nos vemos por aí. Adeus, Edmund.

— Adeus. — Cumprimentei-o.

Saímos da loja e caminhamos até a saída do mercado, logo pegamos um taxi e voltamos à casa. Lá fui ao meu aposento me banhar e logo depois dormir.