Memórias de vidro

5 Ali um azul não poderia ocultar-se.


— Recordo-me vagamente de um sonho, tal deslumbrante e magnifico. Mesmo após anos, guardo-o em minhas memórias mais significativas. — Eu disse. — Acordei à noite em meio a um campo de trigo. A lua cheia iluminava o plantio com seu fulgor prateado. Estrelas granulavam-se ao seu redor.

Levantei. Escutava apenas o som do vento batendo entre o trigo. Não sei ao certo descrever a paz que senti. Caminhei até a extremidade do plantio. Lá me deparei com um pequeno riacho que tinha uma fraca correnteza. Decidi segui-la. Andei por algum tempo, minutos, horas, não posso afirmar, mas algo que posso, é dizer sobre o brilho vermelho vivo que vi nos cabelos de uma mulher. Suas vestes eram brancas, um vestido de verão. A mulher estava de costas, voltada a um precipício, apenas um passo em falso e tudo acabaria. Virou-se a mim, olhou-me nos olhos, um azul celeste refletindo a luz prata da lua, fora isso que vi. Seu cabelo ruivo era como a chama que queima em uma fogueira. Logo seus olhos se fecharam lentamente, a última brisa passou e, com isso a dama se jogou. Poderia dizer-te que corri em prol de pará-la, seria heroico mesmo em um sonho, mas assim não o fiz. Fiquei estarrecido com aquela imagem, minhas pernas não se mexiam, por pouco não parei de respirar. Apenas segundos depois, quando havia notado o que ocorrera, caminhei até a beirada, mas quando olhei para baixo, não havia ninguém. E vi outra pessoa atrás de mim.... Nunca lembrei quem estava lá, não... talvez não quisesse me lembrar. — Conclui.

— Estranho, teu sonho. — Concordou Cecília.

Nessa tarde estávamos no jardim dos fundos da mansão, Cecília queria que contássemos os sonhos mais marcantes um ao outro. Estávamos sentados no único banco em meio ao apertado e florido jardim.

— Apesar de não lembrar da maioria, na verdade, quase todos esqueço, mas quando lembro, são incógnitas desferidas pelo sono. Bem... Conte-me um seu. – Pedi.

— Não tenho algum como esse, mas contarei um que sonhei há não muito tempo. — Pôs-se a contar. — Minha visão estava turva, audição fraca. Um som de apito bradava em meus ouvidos. Logo tudo ficou mudo e escuro. Por alguns segundos senti que estava submersa. Debati-me muito, mas quando finalmente sai da água, estava em um lago numa floresta. Flores lindas, coloridas com um tom vivido, grama como a clareira do Tom. Levantei assustada, afinal, estava me afogando, entrei na floresta e comecei a caminhar. Por horas andei, até avistar um campo gramado. No meio dele havia uma clareira. Do outro lado um homem nu com uma rosa vermelha em uma mão e a outra uma espada. Avistou uma mulher deitada no centro do campo, parecia estar com um vestido branco. Caminhou com dificuldade até ela. Parecia cansado, então se ajoelhou ao seu lado. Leu uma carta que havia sobre a mulher e logo colocou a rosa em seu cabelo. Seu vestido tingido de sangue no peito, parecia estar morta, com uma adaga prateada cravada no peito. Então ele abraçou-a por trás, segurou o pedaço de papel junto com a coronha da adaga e as mãos da mulher de cabelo prateado. Fincou até a guarda da adaga colar no peito da mulher, assim perfurando seu próprio coração. De repente o senário começou a tornar-se pó de prata, então caí novamente no escuro. E acordei.

— Belo sonho, triste, porém, belo. — Afirmei.

— Estranho. Um sonho para nos marcar tem de ser dramático. Dificilmente lembramos um bom sonho, algo pacifico. — Disse ela olhando as flores que cresciam enrolando-se nas grades de um pequeno arco de ferro.

Era manhã, um pouco fria. Um leve nevoeiro distribuía mistério e charme a esse pequeno jardim. O verde era acinzentado e o orvalho nas folhas brilhava como cristais. Flocos de luz opaca pelo breu claro da neblina. Mas ali um azul não poderia ocultar-se, sim, um azul celeste qual já deslumbrara minha retina. Onde o frio e o branco predominam sobre o verde triste, surge o azul fulgente dos olhos da Cecília. Nesta manhã não consegui olhar atentamente a mais nada, como já disse tantas outras vezes e direi tantas outras; aqueles olhos eram hipnotizastes.

— Está frio. — Disse ela. Abraçando-me.

— Queres entrar? — Tirei meu cachecol, enrolei em seu pescoço e abracei de volta.

— Não, assim está bom.

Era incrível como nossos momentos eram poéticos. Não os enfeito, quão menos conto piegas para deixá-los mais frágeis e singelos. Eram apenas o que eram e lembro apenas do modo de experimentei.

Ficamos abraçados por alguns minutos, e então ela segurou meu rosto e me beijou.

— Não sei se é cedo demais para isso, Edmund, talvez eu esteja me apaixonando.

— Talvez esteja, talvez não, mas a paixão é recíproca.

Ela sorriu. — Conte-me um de seus poemas. Edmundo. Quando fomos à fazenda, disse que contaria.

— Bem, não sei se está bom, mas vou recitar um dos meus favoritos.

— Acredito que será lindo.

— Mas não é romântico. Pus-me a recitá-lo.

"A luz abraçava uma brisa fria;

Que outrora;

Na campina o dourar do trigo era refletido por um tom pastel do sol.

Este fulgor prata encandecia escarlate entre os dentes dos lordes da escuridão;

Que se serviam de lebres em meio à neve;

E em meio à neve morreram.

A hora de vossa magnificência lua ascender ao topo do céu;

Eis a hora da arte;

Como o vinho banhando o cinzel.

Pelas veredas nas margens do rio carmesim;

A noite caía;

Estrelas granuladas eram refletidas nos projeteis que atingiam os corações dos lobos.

As lanças mecânicas;

Depravadas;

Devassas.

O holocausto dos fantasmas das montanhas,

Essa fora a última noite de caça da matilha,

Os últimos sussurros,

Os últimos uivos."

— É lindo, apesar de não o ter entendido bem, fala sobre os lobos, não é?

— Sim, estava triste quando o escrevi.

— Por quê?

— Bem, escrevi depois do que vi.

— Conte-me, conte-me. – Pediu animada.

— Está bem. – Sorri. — Foi em uma manhã trágica. Estava andando pelo bosque na boca da floresta. Um nevoeiro como esse pairava no ar. Comecei a ouvir alguns gemidos. Por instinto corri para averiguar. Lá estava uma mãe loba em luto por seus dois filhotes mortos. Parei há alguns metros e observei-a tentar animá-los novamente. Golpeava-os com foucinhadas esperando reação, qualquer uma serviria, um gemido ou um membro esboçar impulso, mas nada aconteceu. Então a mãe loba virou-se. Pude ver que escorria sangue de seu ombro, fora alvejada por um projétil. Não pude fazer nada, ela tentava reanimar seus filhotes para que pudesse vê-los viver pouco antes de fechar seus olhos pela última vez, mas, mas... — Hesitei em continuar, meus olhos começaram a lacrimejar. — Mas ela caiu no chão ao lado deles. Andei mais e parei ao seu lado, não se mexia, talvez não pudesse ou não quisesse mais lutar. Seus olhos eram olhos de neve, mas eram quentes. Aproximei a mão lentamente e acariciei sua cabeça e orelhas até seus olhos começarem a fechar lentamente. Então se fecharam. Peguei um galho grosso e cavei uma cova. Coloquei a mãe loba primeiro e depois seus filhotes que morreram com tiros de raspão nas costelas. Enterrei-os e rezei por eles até parar de chorar. É para eles esse poema.

— Que triste. — Pareceu preocupada. — Mas dizem que quando um lobo te aceita como amigo, seu espirito te segue até tua morte. Os lobos fogem para morrerem sozinhos, afastam-se da matilha. Se a mãe loba te viu pouco antes de morrer e te aceitou, acredito que esteja zelando por ti, ela e seus filhotes.

— Assim espero. — Sorri. — Algum dia levar-te-ei lá.

— Estou ancilosa. — Respondeu com suavidade.

O vento que nos fazia fumegar ao expirar o ar, as flores de pétalas cinzas, um verde plúmbeo e a opacidade da neblina nos relaxava. O orvalho brilhava e pequenas gotas pingavam em um extasiante gotejar. Então Cecília enfraqueceu, fechou os olhos dormiu em meu ombro. Infelizmente não pude ficar observando-a dormir, pois logo adormeci também.

Acordamos uma hora depois, saímos do jardim, ela foi a seus aposentos e eu aos meus.

— Senhor, estão chamando por ti. — Disse Daniela.

— Quem?

— Dois senhores, parecem empresários.

— Estou indo. — Fui até a entrada.

— Senhores. — Cumprimentei-os

Eram dois homens de negócio, vestidos com ternos, aparentavam ter idade aproximada, por volta de quarenta anos.

— Sou Logan, George Logan, muito prazer, senhor Collins. Quero dizer, meu senhor. — Tirou o chapéu e estendeu a mão.

— O prazer é meu, senhor Logan. — Apertei-lhe a mão.

— Sou Walther Frederico, muito prazer.

— O prazer é meu, senhor Walther. O que desejam?

Logan tomou a frente. — Estamos a negócios senhor.

— Sinto muito, não possuo autoridade para tratar destes assuntos. Serei Duque após o casamento.

— Sabemos desse empecilho, mas não há nada a acertar agora, apenas propostas.

— Me acompanhem. — Levei-os à sala de reuniões.

— Perdoem trazê-los a este cômodo, mas não possuo autorização do Duque a usar seu gabinete.

— Sem objeções, apenas nos receber já nos satisfaz.

— Então. O que desejam, cavalheiros?

— O mundo está em conflito. A guerra desestabilizou a segurança do que chamávamos de fronteiras neutras. O poder de defesa de um país, é hoje, seu orgulho, mas para isso, tem de haver uma forma que possibilite a defesa. Infelizmente não há uma empresa sequer cujo oficio é produzir armamento bélico, todas as armas são importadas. Soube que em suas posses há um lote de terras sem nome. Gostaria de perguntar. Não há interesse de sua parte em fazer dessa terra a fábrica que monopolizará um novo orgulho do país?

— Entendo. Certamente é um belo argumento. Estou interessado. Continue.

— A corte aprovou a concessão da terra à fábrica de armamento bélico Machine & Machine; contudo, os nomes das patentes terão de ter o nome do Ducado onde instalado a primeira filial. Os superiores preferiram Morryes a sediar a fábrica.

— Não poderia ir contra a corte, mas fale em números.

— Certo. Os gastos do país diminuirão 30% com armamento, e para seu estado, os impostos serão inferiores, ou seja, seu gasto diminuirá 35%.

— Ótimos números, gostaria de saber como os gastos abaixariam em tal escala.

— Mão de obra nacional. Milhares de desempregados terão a chance de trabalhar, a economia local aumentará, os materiais também são nacionais. Sabemos que no norte do país há minas de minério de ferro, a importação desse material tem ficado cara com a utilização demasiada pela guerra e custos de transporte. Por já estarem dentro do país, as armas não sofrerão tributação na alfandega, apesar de 40% do preço de fábrica ser imposto, é quase a metade do preço de armas vindas de fora. A fábrica tem a autorização do rei, basta a sua para darmos início às obras.

— Poderiam dar algum tempo para decidir? Esperem até voltar depois da viagem nupcial. Todavia, interessei-me. Nosso país não conta com empresas focadas em tecnologia.

— Esperarei, senhor. Fico grato pelo tempo que nos deu.

— Não tenho nada para fazer agora, gostaria de saber sobre outras coisas da indústria.

— Claro, se estiver em meu conhecimento.

— Quanto ao tráfico nacional de armas, há gangues que usufruem de tráfico internacional; ingressando uma fabricante de armazenamento dentro não aumentará o número de armas a girar pelo tráfico?

— Entendo tua preocupação, mas o contrato de venda obriga o comprador a informar-nos sobre eles e também seus compradores, onde quase todos são o consumidor final. Teremos conhecimento das armas até a terceira geração de propriedade. Fabricante, comprador atacadista, varejista.

— Bem, melhor do que vender às cegas. Outro quesito, quanto ao armamento civil, será disponibilizado a chance de civis possuírem suas armas?

— Tópicos que envolvem a ordem pública diretamente são tratadas com a corte, no momento não entramos com a petição desta.

— Isso me preocupa, há uma onda de assassinatos em série ocorrendo na cidade.

— Ouvi boatos. Creio que a estrutura física da fábrica esteja pronta depois desse assassino ser preso ou morto. Ficará pronta em um ano, e começará a operar depois de dois meses pronta.

— Entendo.

Uma criada interrompeu a negociação abrindo a porta. — Senhor, senhores. — Dirigiu-se a mim. — Temo que as negociações acabem agora. Outro homem está chamando-o. Recusa dizer o nome, pedi aos guardas que o tirem daqui.

— Senhores, lamento pela brusca mudança que situação, tenho outro compromisso.

— Está bem, senhor. — Disse Logan estendendo a mão.

— Certamente ver-nos-emos após eu retornar

Não sabia porque o outro sujeito estava com ele, não falou nem uma palavra, se não estivesse respirando, teria pensado que era um cadáver. Após uma outra criada guiá-los à porta, caminhei até a janela, por ela avistei o tal homem.

— Podem deixá-lo entrar.

Soltaram-no, veio em minha direção.

— Perdoe-me agir de modo a violentar a tua propriedade.

Estendeu a mão, cumprimentamo-nos.

— Espero que tenha ótimas notícias.

— Parabéns pelo teu casamento. — Pausou por um momento. — Tenho notícias, de urgência.

Pedi à segurança que não nos seguissem. Fomos à mesma sala na qual acabara de negociar.

— Perdoe-me, não posso dar-te café ou chá, mas tenho uísque.

— Estamos no caso número vinte e um, conseguiram outra informação do assassino.

— Diga.

Pegou uma pasta e depositou-a sobre o console.

— Uma carta interceptada da nova Rússia. A caligrafia parece ser criptografada. Minha fonte descobriu apernas algumas palavras. — Pegou a carta.

— Isso é péssimo.

— Não para por aí. O último assassinato ocorreu próximo às fábricas. No cadáver fora deixado um bilhete em russo "Vocês tem uma pessoa que queremos." Nada mais, acredito que o assassino solto não cometeu esse crime, foi alguém de fora.

— Entendo. Estou preocupado, apesar de nosso país ser neutro, é monárquico. Desculpe, estou tentando digerir essa informação.

— Compreendo que estejas apreensivo, mas esse não é o principal motivo, havia um nome, acredito que seja um alvo...

A porta se abriu novamente, mas agora com força. — Edmund, não pareces interessado em teu casamento. — Era Branca a abrir a porta. — Desculpe, não vi que estava com visita.

— Está tudo bem. — Respondi.

— Sou Branca, mãe do Edmund. Muito prazer. — Estendeu-lhe a mão.

— Sou Thomas Hoffem.

— És estrangeiro? Teu sotaque é familiar, americano talvez?

— Correto, vim à Burtchendill quando criança.

— Desculpe, estamos sem tempo, imprevistos aconteceram. A criada levar-te-á à saída, e tu, Edmund, volte ao teu quarto.

Não pude dizer mais nada, apenas peguei o calhamaço de folhas e fui ao meu quarto, não pude sequer despedir-me adequadamente. Logo Branca entrou e sentou em minha cama.

— Edmund, teu casamento será esta semana, parece que o Duque não resistirá. Não há como deixar o ducado em posse da Elizabeth.

— Entendo, não tenho objeções.

— Que alivio, parece que estás se dando bem com Cecília.

— Estou, parece que começamos a nos gostar.

— Fico feliz. Era apenas isso.

— Achei que seria algo mais importante...