Memórias de vidro
21 “Minha querida Banca. Anote tuas memórias para que não as esqueça.”
A noite de lua nova não iluminara as ruas. O breu abraçava as vielas. Era início de janeiro de 1921. Eu precisava consumir sangue periodicamente, contudo, sempre evitei. Realmente apreciava o gosto do sangue da Daniela, mas não necessitava de tal a fim de manter minha existência. Não sentia mais o mesmo prazer que outrora sentira.
Sai a caminhar pelas ruas. Trajava um casaco de couro negro, usava também a máscara do meu noivado. Caminhava calmamente enquanto apreciava a negra e monótona paisagem. Estava novamente sentindo os efeitos da abstinência, meu corpo parecia pesado, minhas mãos tremiam, minha respiração perdia-se em um arfar pesado e fundo. Estava frio, aos poucos perdi a força. Ajoelhei-me encostado em uma parede de um pequeno prédio. Minha visão estava tornando-se turva, meus olhos começaram a coçar e arder levemente. Comecei a inclinar meu corpo à frente e logo não suportei. Tive que me apoiar com as duas mãos sobre o chão para sustentar meu corpo. Não demorou e desmaiei.
Acordei em um quarto. Havia uma lâmpada de óleo de baleia sobre uma bancada de madeira, o piso e os moveis eram fabricados em madeira, as paredes de tijolos. Jazia preso à parede, dobre a bancada, um espelho, e sobre a bancada, alguns pentes e maquiagens.
— É uma penteadeira? — Pensei.
Meu reflexo quase assustou-me. Estava pálido, olhos fundos e abraçados por olheiras negras. Meu semblante delineava cansaço.
A porta abriu-se, e, por ela entrou uma mulher. Olhos azuis, pele branca repleta de sardas, lábios grossos e rosados, sobrancelhas finas e desenhadas. Rosto oval com o maxilar levemente largo. Cabelo vermelho-alaranjado cacheado. Seu corpo era belo, uma mulher robusta e bem formada. Trajava um vestido branco de tecido fino, provavelmente usava-o para dormir.
— Vejo que acordaste. Como estás?
— Bem, obrigado. Poderia saber quem és?
— Sou Sofia, filha do Thomas.
— Entendo. Então estou em sua casa?
— Sim, estás. Chamar-lhe-ei, espere, por gentileza.
— Como quiser.
Quando saiu, sentei-me sobre a cama e tentei recordar algo sobre a noite anterior. Em vão, logo após desmaiar não havia lembranças.
— Como estás, senhor? — Perguntou Thomas logo ao entrar ao quarto.
— Estou bem. Obrigado por me acolher.
— Sem problemas.
— Estavam me seguindo?
— Sim.
— Entendo. Para averiguar se não assassino humanos?
— Exato.
Levantei-me com a ajuda de uma bengala.
— Como pude acordar já que não me supri de sangue?
— Um pouco de soro fisiológico. Mas não passará de hoje se não ingerir uma quantia mínima que seja.
— Entendo. Obrigado.
— Quer beber?
— Sim, quero.
Caminhamos até o bar, sua casa era no segundo andar. Era manhã, não havia ninguém além de nós três. Sentei-me em um banco em frente ao balcão. Pedi três doses de uísque.
— Descobriu algo mais sobre o assassino? — Perguntou ele.
— Não.
— Não pretende entrar para o grupo?
— Por hora, não.
— Não insistirei.
— Aprecio tua hospitalidade, tua e de tua filha. Vou-me embora. Obrigado.
Logo que sai do bar dirigi-me à minha casa.
— Onde estavas, meu senhor? — Perguntou um criado que recolhia as correspondências.
— Outro dia de ressaca.
— Entendo. Pedirei que preparem o café.
— Obrigado.
O dia estava quieto. A brisa sibilava atonitamente pela rua. Entrei em casa e segui ao meu quarto. Sentei-me e pus-me a olhar a rosa azul que ganhara na viagem à vila das rosas. Descansava em seu esquife preenchido com formol sobre a escrivaninha. Suas pétalas azuis traziam-me a lembrança da Cecília. Olhos que incansavelmente me hipnotizaram, que me fizeram amá-la mais e mais. Era janeiro, havia nove meses falecera. Seu retrato azul fulgente e sua pele branca como mármore ainda assombram aconchegantemente minhas lembranças. No lado da rosa havia uma caneca, a que eu comprei quando fora à Collins com Daniela. Foram poucos os momentos que vivi junto dela, havia quatro meses ela falecera. É recente em minha memória o primeiro momento que a vi deitada sobre o campo de margarida.
Apesar do esforço, na medida do possível, tentei obter fragmentos a fim de identificar o mandante dos crimes, porém, não saíra todas as noites a fim de procurar. Talvez estivesse na hora de agir mais assiduamente, menos cuidadosamente.
— Procurá-lo-ei aonde estiver. — Pensei enquanto fitava os objetos.
Levantei e pus-me a arrumar uma mala. Decidi retornar à Collins, ao menos por alguns dias. Desci as escadas e encontrei-me com o mesmo criado que me acolhera na rua há pouco.
— Sairei agora.
— Desculpe-me a pergunta. Mas onde vais?
— Collins.
— Precisa de algo mais?
— Não, obrigado, peguei tudo que preciso.
Voltei ao meu quarto e peguei as pistolas. Velei-as e retornei à saída. Não demorou até meu carro chegar. Entrei e ordenei que seguisse à estação. Logo que cheguei na minha cabine, avistei Logan ao lado de fora do trem, esperava outro. O próximo que estacionaria ali era rumo à estação de Lognorth. Provavelmente estariam buscando chances de alocar uma fábrica em tais territórios. Restava alguns meses até o final da obra, mas estava incrivelmente adiantada. Aparentemente Logan não me avistou, continuou a admirar o nada sem haver me notado. Aos poucos o trem fora acelerando e permitindo a brisa entrar pela larga janela. Não chovia, porém, não fazia sol. Morryes lentamente fora ficando atrás. Aos poucos senti-me relaxado, sem preocupações. A imagem do campo era ampla e bela. Não demorei a adormecer. Sempre que adormecia em uma viagem lembrava de algo ou sonhava. Dessa vez não fora diferente.
— Parece que choverá.
— Sim, parece. Vamos nos abrigar sob as árvores.
Cecília abraçava-me preguiçosamente e sorria atonitamente. Não por desgosto, mas sim por estarmos extasiados contemplando relaxados aquele momento. O vento sibilava e orquestrava um assovio calmo e leve. Estávamos sentados no banco do parque. Apreciávamos sozinhos naquele jardim secreto que apenas nos conhecíamos. Ela me abraçava fortemente enquanto admirava meu rosto. Segurei seu queixo e beijei-lhe a boca. Seus lábios aveludados e úmidos, eu amava seu beijo. Acariciava gentilmente sua pele branca e suave como seda.
— Amo-te. — Disse ela logo depois do beijo. — Amo-te como nunca imaginei que amaria.
— Nunca acreditei que seria assim. Ao menos não antes da primeira vez que me trouxeste aqui. — Sorri.
— Acreditei que seria um casamento de mentira. Fico feliz de haver errado.
Mesmo sabendo que choveria, não levantamos ou nos abrigamos sob uma árvore. Não fizemos nada disso. Quando começou a chover, apenas olhei o céu plúmbeo destacando a beleza feérica da Cecília com seu rosto sendo aos poucos sendo agraciado pela chuva. As gotas escorriam em sua pele até os seios. Olhou-me fixamente. Fitei seus olhos, eu estava extasiado. Ela abriu um sorriso elegantemente simples e belo. Acariciei seu pescoço e segurei sua nuca, beijei-a novamente, e novamente, e outras muitas vezes. Logo depois deitei minha cabeça sobre seu colo e adormeci.
Quando abri os olhos estava em frente a um caixão negro de madeira, era grande e largo, detalhado com prata e aço. As presilhas eram entalhadas, as alças eram torneadas e as dobradiças escondiam-se sob o tecido branco que forrava o objeto. Havia flores, rosas vermelhas rodeavam as bordas do forro, contrastavam seu fulgor com a pele branca da Cecília, que ali encontrava-se inerte e pálida, sem suspirar ou esboçar o mais simples movimento. Presenciar tal visão novamente fez-me cair aos prantos. Beijei sua testa fria e sem expressão.
Despertei de meu devaneio e voltei à realidade. A paisagem era familiar, estava quase chegando. Já era possível ver os edifícios.
Ao chegar na estação, dirigi-me diretamente aos taxis. Entrei em um estacionado e ordenei que me levasse ao edifício administrativo. Não demoramos a chegar. Por não haver avisado a ninguém que viria, não havia multidão e jornalistas. Entrei no prédio e segui à sala onde estava o regente.
— Ao que devo a honra? — Perguntou Matos.
— Nada. Apenas vim averiguar tua administração.
— Não se preocupe, não fiz nada passível de ameaças. A propósito, estou sendo alvo de atiradores dessa vez?
— Não há nada com que se preocupar. Se não der motivo, não te matarei.
— Bem... De qualquer forma, soube sobre a morte da tua guarda-costas. Parecia boa.
— Era sim. Já recebeu a notícia sobre a reclamação?
— Sim. O processo de construção de postos de ponto atendimento estão em andamento.
— Ótimo.
— Algo mais?
— Não. Tenho outros compromissos, talvez venha novamente.
— Como quiser.
— Adeus.
— Adeus.
Sai da sala e retornei à rua. Havia um fluxo mediano de veículos. Entrei em outro taxi e ordenei que me levasse à floresta. Seguimos até o trecho que o carro poderia seguir. Desci em uma estrada de terra e pedra de trafego apenas por carroças.
As nuvens eram plúmbeas, o verde das plantações escuro e sem vivacidade. Uma tempestade aproximava-se. Caminhei pela estrada tranquilamente. Talvez eu esperasse a chuva ao lembrar de tais momentos com Cecília. O vento dançava com a gola do meu casaco. De repente meu chapéu voou, e, não consegui alcança-lo. Voou até dentro de uma propriedade. Apenas ignorei e continuei meu caminho. Pus-me a admirar a paisagem da entrada da floresta. Grandes ponteiros de coníferas que eram acariciadas pela brisa e balançavam hora a um lado e hora ao outro. A atmosfera fria acrescentava charme à paisagem da floresta. Entrei na trilha e continuei minha caminhada. As folhas sobre o chão estralavam conforme eu pisava. Ainda havia lama e posas devido a neve recém derretida. Apesar de eu saber que qualquer ferimento seja curado rapidamente, não gosto da dor que causa; então cuidei-me com escorregões e pancadas. Andei aproximadamente três quilômetros e sai da trilha, caminhei por mais alguns metros e encontrei o que procurava.
Sobre o chão havia uma cruz de gravetos fincada no solo. Ajoelhei-me e lembrei novamente da família de lobos que eu havia enterrado sob esta cruz. A mãe loba e os dois filhotes descansavam sob a floresta que amavam tanto. Fechei os olhos e pus-me a rezar para desculpar-me por suas mortes, por serem assassinados por simples interesse humano. Lagrimas escorreram de meus olhos, talvez por lembrar das duas pessoas que amei. Os lobos seriam os únicos a presenciarem minha fraqueza.
Após alguns minutos abri os olhos e deitei ao lado do pequeno túmulo. Respirei profundamente e fechei os olhos novamente. Ouvi o sibilar quase silencioso que a brisa produzia ao levantar as folhas. Pelo meu rosto escorria uma gota, mas dessa vez não era lagrima, era a garoa que vira cair.
Dirigi-me diretamente à minha casa. Os criados preocuparam-se ao presenciar tal imagem. Imagem essa que se assemelhava aos sobreviventes de um assalto, sujo e encharcado. Segui ao banheiro a fim de banhar-me e esquentar meu corpo. Fora um bom banho, deixei a água escorrer livremente sobre minha pele. Perdi a conta dos minutos que fiquei em meio ao banho. Logo após vesti-me com roupas de dormir, sai do banheiro. O corredor estava quieto e pacato. Logo que passei em frente a uma porta, onde dormia Branca, não pude deixar de ceder à curiosidade. Com cautela e zelo entrei no quarto. Havia uma grande e larga cama, a qual ela dividia com Edward antes da tragédia. Havia uma mesa em frente à cama, e, sobre a mesa um grande espelho. As paredes eram revestidas por tecidos verde-escuro. Ao lado da mesa havia uma penteadeira repleta de pentes e escovas, as quais ela não tinha interesse de levar à Morryes. Ao lado da cama havia uma estante com livros, bela e repleta deles. Caminhei cautelosamente em direção à prateleira. Haviam inúmeros livros, mas um chamou-me a atenção, fino e não muito grande. Retirei-o da estante e pus-me a analisá-lo. A capa era verde, não apresentava nome. Era um diário de anotações. Abri-o e identifiquei a letra, assemelhava-se com a da Branca. Na contracapa descansava uma dedicatória. “Minha querida Banca. Anote tuas memórias para que não as esqueça.”
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