Memórias de vidro
35 Deus não permitirá que uma alma tão demoníaca chegue perto de ti.
Abril de 1922. Fizera dois anos desde a morte da Cecília.
— Ao menos ela encontrar-se-á com meu pai. — Sussurrei em frente ao mausoléu. — Lembras do que dissera em minha última confidencia? Pois bem. Se há inferno, comprei meu bilhete e irei de primeira classe. Pois agora minha humanidade se fora com o último suspiro de Branca. Realmente não sou mais o rapaz que amavas, certamente, se me encontrasses hoje, não me amarias, tão menos alegrar-se-ia ao me ver, mas teu rosto feérico desapareceu pelas mesmas mãos do homem que desejo a morte. Não me pouparei em desabafar ou de esconder meus desejos mais profanos, os mais bestiais dos desejos... A vingança que antes era apenas assassinato, hoje almejo-o pela tortura. A tortura de alguém imortal. Assim farei até esquecer a dor que tenho, mas se eu viver por toda a eternidade, por toda a eternidade lembrarei de ti. Contudo esse monstro não viverá mais que o desejado. Prometo que, assim que me vingar, buscarei o suicídio. Essa será minha sentença. Assim como Aquiles viveu para morrer em busca da Kleos, mesmo com uma jovem vida, viverei para minha glória. Mas minha gloria causará minha morte. Vejas! Minha querida esposa, minha estimada mulher. Quando eu ser feliz, virei a esse lugar e despedir-me-ei de ti adequadamente. Pois deixei de acreditar no inferno temendo nos separar. Mas mesmo que não exista algo assim, Deus não permitirá que uma alma tão demoníaca chegue perto de ti. Minha amada Cecília. Minha adorada amante. Não se entristeças pelo que farei, pois dentre os gostos mais doces está a vingança, e, desse doce sabor degustarei.
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