Memórias de vidro

36 Amo-te. - Disse ela. - Beba, pois será a última vez.


— O que planejas? — Perguntou Carmelia debruçada sobre meu peito. — Pergunto-me o que pensas, pois certamente teus planos foram arruinados. — Acariciou meu corpo até pegar o cobertor e nos cobrir.

— Não sei, confesso-te que não sei. Pois qualquer disfarce que eu use, seria descoberto.

— Então por que não sais de Morryes e procura?

— Com quem deixaria o poder? A única pessoa que ficaria nesse lugar era Branca.

— Peças ao Grão-Duque.

— Estás louca? Não poderia dar trabalho a esse homem.

— Mas sabes que ele te deve muito.

— Sei disso. Verei o que posso fazer. Estás falando como eu. — Sorri.

— Aprendi como se faz.

— Far-te-ei uma proposta.

— Diga.

— Se pretende servir-me, sejas imortal.

— O que queres dizer?

— Que se transforme em uma vampira. Aceitas?

— Aceitarei tudo que pedires. Desejo passar a rápida eternidade que viverei ao teu lado.

— O que farás depois que eu me suicidar?

— Talvez te acompanhe.

— Se desejas viver apenas para mim, não te censurarei.

— Prometa-me que amará apenas a mim. — Beijou meu pescoço.

— Prometo retribuir teu amor.

— Isso já me basta. — Sorriu. — Mas hoje eu entendo quando dissestes que eu era teu bem mais precioso.

— E mesmo assim me amas? — Sussurrei.

— Sim.

— Realmente és uma masoquista. — Sorri e beijei-lhe a mão.

— Como faremos para eu ser transformada?

— Um casal de vampiros. Infelizmente terei que submeter-te a esse processo. Mas a partir desse momento, minha cara Carmelia. Prepare-se, a medicina te preparara o estomago, mas não o psicológico para veres que de farei. Além disso, saiba que terás que assassinar humanos quando em abstinência e que também não poderei mais beber o teu sangue. Aceitas minhas condições?

— Aceito-as desde que continue a me amar em noites como essas. Minha barganha pede um preço bastante baixo.

— Então beije-me e selemos esse contrato. A tua vida me pertence.

— E teu amor me pertence. — Beijou-me.

Despertei no seu lado na manhã seguinte. Ela ainda dormia. Levantei-me e dirigi-me ao meu quarto. Banhei-me e aprontei-me. Trajei um terno de flanela negra e segui à cozinha. Os criados já estavam preparando o almoço.

— Acordara cedo hoje, meu senhor. — Cumprimentou a governanta. — Camélia ainda está dormindo?

— Sim, está. Gostaria de anunciar que a partir de hoje, a comida da Carmelia também deve deter a mesma quantia de sal que a minha.

— Não me diga que o senhor a transformou?

— Não sou capaz disso, morrerei se o fizer. Mas essa noite ela retornará como eu. Abandonaremos por algum tempo o ducado.

— Não me digam. Para onde vão?

— A lugares que possam haver relação com meu malquisto. Ele não pode estar longe. Na verdade, ele deve estar e Morckiaschen. As informações de que eu era o homem com a máscara azul foram veiculadas rapidamente.

— Quem revelou teu segredo?

— Também gostaria de saber, conheço dois suspeitos. Hoje procurá-los-ei.

— Desejo-te sorte, meu senhor. Mudando o assunto. Como o Henrique tem se saído com a oficina?

— Bem. Chegou ontem e criou algumas peças de treino e para acostumar as maquinas ao trabalho.

— Entendo. Soube que farão algumas munições.

— Faremos, e ensinarei todos os criados a usarem as armas, quero que estejam seguros.

— Mas achas que tentarão algo contra nós?

— Acredito que sim.

— Quando nos ensinará?

— Veremos até eu me armar suficientemente. Carmelia aprendeu a dirigir. Comprarei um pequeno caminhão e carregarei as armas. Mas antes de partir iremos à fazenda e treinaremos.

— Isso me entristece.

— A mim também.

— Mas esperamos que tudo fique bem. – De repente correu em direção a uma panela. — Quase queimou, desculpe-me.

— Eu que peço desculpas por atrapalhar a cozinha. Irei ao gabinete agora, quando servirem a comida, chamem-me.

— Como desejares, meu senhor.

Sai da cozinha comendo um pão e bebendo café. Ao chegar no gabinete, sentei-me na poltrona, peguei o telefone e disquei o número do senhor Scoot.

— Alo? — Perguntou ao atender.

— Desejo um favor.

— Qual seria?

— Que assumas a administração do ducado e da fábrica em minha ausência.

— Poderia saber o motivo?

— Agora, mais do que nunca, desejo encontrar meu homem.

— Entendo, por conta da Branca?

— Exato.

— Devo-te tantos favores, não poderia deixar de ajudar. Escreva uma procuração e envie-me. Assinarei e devolver-te-ei, leve-a ao cartório e registre esse pedido.

— Farei isso.

— Desejo-te sorte, meu amigo. Meus pêsames pela tua mãe, sei que já os dei, mas fora uma tremenda infelicidade.

— Realmente. Ainda mais ela que te prestou o favor que mais desejava.

— O que queres dizer? Que ela era a pessoa?

— Que isso não saia dessa conversa.

— Então deverei muitos favores a ela, morrerei com essa dívida.

— Poderá pagá-la a mim. Pois necessitarei de muita ajuda tua.

— Ao que diz respeito?

— Futuros problemas. Os planos nunca ocorrem de maneira formidável.

— De fato. Despeço-me, farei o teu desejo. Um representante aguarda-me no meu gabinete. Adeus.

— Adeus, obrigado. — Encerrou a linha.

Prontamente pus-me a escrever a procuração. Mandei um criado levá-la ao correio.

— Conseguiu? — Perguntou Carmelia vestida com sua roupa caseira tradicional.

— Sim.

— Que bom. Com isso poderemos sair. Já tens em mente algum lugar?

— Iniciarei a pesquisa indo ao encontro do Walther, certamente encontrá-lo-ei no endereço que me fora dado.

— Talvez não estejam mais lá.

— Não creio, o detalhe da carta no bar fora rápido. Apenas relataram a morte do Francis e que eu escapei. Essa gente não tem olhos afiados como a do homem que assassinei queimado.

— Qual é o endereço?

— Avenida da arte.

— Fica ao lado do teatro.

— A rua ao lado do teatro? A Avenida da arte? Eu sempre acreditei que o teatro fosse o centro de tudo, mas era ao lado? Do outro lado da rua? Realmente, eu fora ignorante.

— Ao menos obteve essa informação, o que farás?

— Iremos agora mesmo encontrar o conselho do grupo e organizaremos uma assembleia extraordinária a fim de mobilizas as tropas.

Não deixei que ela disse nada, apenas caminhei em direção à porta e disse-lhe.

— Busque o carro.

Assim fez, estacionou o carro e entrei, sentei-me ao seu lado e partimos. Estacionamos no bar lua cheia e bati na porta muitas vezes até alguém atender. Era Sofia. Logo que abriu avancei para dentro.

— Ligue para o conselho, peça que se reúnam imediatamente, descobri uma informação importante. Irei à sala imediatamente.

Eu e Carmelia seguimos à porta que dava acesso aos corredores subterrâneos que interligavam o grupo. Segui pelos tuneis até chegar na sala. Após alguns minutos os homens chegaram.

— Perdoem-me a audácia, mas nem se sentem. Precisamos agir enquanto é dia. Pois descobri o endereço do comandante que gerencia esse ducado. Seu nome é Walther. Solicito a expedição de combate.

— Como sabes se essa informação é verdadeira.

— Infiltrei-me em sua rede de informações.

Disse-lhes o nome da rua e detalhes da minha antiga investigação, que há muito fora descartada.

— Peço aproximadamente cinquenta caçadores e uma força de apoio, um regimento.

— Queres um regimento? Como poderemos disfarças esse tumulto?

— Sugiro um assalto. O banco localiza-se há três quadras do local. Roubem o banco enquanto operamos. Não temos tempo para discutir. Peço que enviem as tropas.

— Que seja. O senhor está no comando da expedição. Saiba que se isso for uma informação errada, o senhor será caçado.

— Desejo me encontrar com Walther, fazê-lo responder-me algumas perguntas. E depois integrá-lo-ei aos senhores.

— Reúna as tropas. — Proclamou o homem. — Edmund de Morryes está no comando.

— Obrigado.

— Estou dando-te ouvidos por saber que tens boas informações quase sempre. Mas se falhar, não se apresse em aparecer em minha frente tão logo.

— Como desejar. Logo nos encontraremos. Obrigado. — Curvei-me e sai da sala.

Encontrei-me com Carmelia.

— Aceitaram?

— Sim. Vamos voltar a minha casa, traje um bom uniforme de combate. Evite vestidos. Tu ainda podes morrer facilmente.

— Como desejar.

Voltamos ao bar e nos despedimos da Sofia. Seguimos a minha casa. Dirigi-me ao meu aposento e trajei o uniforme. Depois dirigi-me à oficina e municiei as armas. Todos os projeteis especiais. Vesti o casaco e peguei a máscara. Armei-me com o rifle cortado, municiei-o e apossei-me de alguns clipes, aproximadamente quinze clipes com seis cartuchos com projeteis especiais. Armei-me também com algumas facas envenenadas com sangue de lobo. Arrumei uma maleta com as pinças, sangue de lobo, ácido sulfúrico, isqueiro, seringas, bisturi e outros utensílios cirúrgicos.

Carmelia encontrou-me na oficina e se armou.

— Sabes que terás que matar hoje, não hesite em puxar o gatilho, teus inimigos não sentirão remorso em fazê-lo a ti.

— Não hesitarei, mas também não sairei do teu lado.

— Sejas meus olhos, Carmelia. Vamos, temos que discutir o plano.

Voltamos ao carro e retornei ao bar, lá estavam os chefes de inteligência, logística e serviço médico. Sem demora sentei-me junto deles e iniciamos o processo.

— Senhores. — Disse o chefe dos médicos. — O serviço médico pode atuar com 70% de eficiência. Os soldados estão em desfalque. Mas tentaremos suprir as necessidades.

— Conto com o senhor. — Respondi.

— O serviço médico sabe o que fazer sozinho, mobilize teus homens.

— Imediatamente. — Ordenei ao subordinado que logo correu em direção aos tuneis. — Quanto a possíveis fugas. — Continuei. — Provavelmente estão usando o esgoto. Mande homens cercarem o perímetro de todos os túneis que liguem à casa. cinquenta caçadores invadirão pela frente o local. Mas antes enviaremos um carro de reconhecimento. Averiguaremos se as janelas são fechadas. Eu entrarei na invasão e Carmelia acompanhar-me-á, não preciso de mais ninguém. Posicionem um grupo de apoio nos telhados vizinho e nas ruas. Mesmo que eles não possam sair à luz solar, não significa que esqueçam disso e saiam do prédio. Talvez o local seja ligado ao teatro, enviem homens aos esgotos que se liguem ao teatro e inflaram-nos pela frente. Não acredito que eles usem tuneis próprios, já que isso causaria abalos e demasiado tumulto. Iniciaremos essa expedição que será nomeada de "Moby Dick".

Os demais chefes ordenaram o comando aos subordinados e deram-lhes os planos. Os poderosos não se atrevem a sair da sala de comando.

— O senhor sabe que muitas vidas serão sacrificadas, não sabe? — Disse o chefe da logística.

— Perfeitamente, mas os ganhos são muito valorosos.

— De fato. — Serviu-se um copo de rum e bebeu. — Aceita?

— Não, obrigado, não posso beber em momentos como esse.

— Entendo. — Serviu-se novamente e bebeu. — O senhor conseguiu poder sobre tantas pessoas em duas horas, realmente estou impressionado.

— Isso dá-se graças aos senhores. comandarei bem seus membros. Desculpem-me não ficar mais, sabem o que devem fazer a fim de um bom resultado. Despeço-me dos senhores, bom trabalho. — Levantei-me.

Sai do bar e entramos no carro. — Vamos ver qual residência é. — Pedi à Carmelia.

A rua mantinha o fluxo normal. Passamos a procura do prédio ideal. Não fora difícil encontrá-lo. Era um edifício aparentemente novo e bem construído, três andares, as paredes eram vermelhas com detalhes em âmbar. Todas as janelas estavam fechadas. Havia um pequeno e discreto letreiro escrito "Inferno". Estacionamos no outro lado da rua e pusemo-nos a ver o movimento. Não sei dizer qual fora o carro de reconhecimento, pois estavam bem disfarçados. Um homem vestindo um terno e um chapéu coco caminhou em direção ao meu carro, parou ao meu lado e disse.

— Cinco minutos, todos estão nos seus postos no esgoto. As tropas surpreenderão o alvo com uma chegada coordenada.

— Obrigado. — Dei-lhe dinheiro a fim de disfarçar sua parada. Continuou seu caminho.

Como dito, em um momento alguns caminhões estacionaram em frente ao prédio e deles inúmeros homens armados saíram. E sem tempo a perder invadiram a casa. O som das armas já era audível; e os gritos de espanto, diria degustáveis.

Saímos do carro. Vesti a máscara e caminhei em direção ao edifício. Saquei as duas pistolas e entrei. Havia um grande corredor que conectava os cômodos. Ao lado erava uma sala. Nela alguns corpos dos Werckinberrevichs mortos e soldados averiguando a veracidade das mortes. Continuamos o caminho. Não haviam inimigos vivos. Carmelia seguia-me atenta. Subimos ao segundo piso. Nele havia conflitos. Protegi-me atrás de uma parede e avistei caçadores disparando e recebendo ataques. Os projeteis bordejavam no ar como uma nau veloz.

— Precisam de reforços? — Perguntei.

— Não, senhor, temos vantagens, mas a batalha ainda é longa.

— Então subirei.

Continuei meu caminho até o terceiro andar. Nele não havia nenhum aliado. Os Werckinberrevichs montaram uma defesa à espera de interceptar o avanço inimigo. Logo que subi as escadas projeteis começaram a surgir. Carmelia ainda estava na escada e eu precipitei-me ao quarto ao lado. Dentro haviam dois homens. Disparei acertando-lhes a cabeça. No fundo do corredor estavam os atiradores. Certamente, se tentasse sair desse quarto, seria facilmente alvejado.

— O que farei? — Pensei.

Avistei no canto da sala uma caixa com várias velas de dinamite. Cortei o pavio para que propelisse em dois ou três segundos. Ateei fogo e arremessei-a ao fundo do corredor. O som da explosão fora devastador. Analisei a segurança e sai do quarto.

— Venha. — Chamei Carmelia.

Continuamos a caminhar e averiguar as salas. Ao final do corredor apenas uma parede mantinha-se em pé. Uma parede blindada. A porta apresentava o aço que era forrado por tecidos. Parei em frente à porta e tentei abri-la. Estava trancada.

— Comandante — Disse um soldado. — O senhor está bem?

— Estou, busque os explosivos. Temos que passar por essa porta.

— Isso pode destruir o prédio, senhor, e os prédios ao lado.

— Então busquem as ferramentas.

— Entendido. — Correu em direção aos companheiros.

Outro soldado surgiu. — Senhor. Descobrimos uma passagem que leva a outro lugar, podem ter escapado por esse túnel. Apesar de as tropas estarem em conflito nos esgotos, como o senhor pensou, havia conexão com o teatro, mas essa fora desativada. Na verdade, há conexões com outros lugares.

— Eles trabalharam em silêncio, realmente eu estava errado. Se as forças não forem suficientes, peça reforços. Acredito que o assalto deva ser interrompido. Essa invasão está além de ser disfarçável. Se vamos invadir a base inimiga. Que seja com força total. Vá e solicite reforços. Acione os chefes do conselho peça-lhes que façam a polícia não chegar perto desse local. Solicite o envio de uma força de resgate e salvamento. Possivelmente já há civis feridos.

— Sim, senhor. — Partiu correndo.

Eu e Carmelia voltamos a ficar sozinhos. Peguei uma barra de aço dos escombros e tentei arrombar a porta. Mas nada consegui.

— Fique atrás de mim. — Ordenei. Saquei o rifle e disparei contra. Foram necessários quatro disparos a fim de abrir a porta.

Saquei as pistolas e chutei a porta. Nessa sala havia algumas gavetas de arquivo na parede esquerda, à direita localizava-se um pequeno bar que albergava algumas bebidas. Era uma sala administrativa, à frente havia uma mesa próximo a ela dois sofás. As janelas estavam fechadas, a sala era iluminada por lâmpadas amarelas.

— Devo confessar que não esperava esse acontecimento. Estou realmente impressionado com o teu trabalho. Como conseguiu meu endereço?

— Como consegui não vem ao caso, meu caro Walther.

— O que desejas? Matar-me?

— Não, tu não mataste ninguém importante. Apenas desejo informações.

— Então veio ao homem errado, não datei informações. Nem mesmo sob tortura.

Sentei-me no sofá e Carmelia sentou-se ao meu lado.

— Walther, meu homem. — Falei. — Infelizmente não negociaremos. Lembra-se de quando nos encontramos pela última vez? Quando me forçou a beber sangue humano?

— Como esqueceria? Aonde queres chegar?

Levantei-me e segui ao bar. Peguei uma garrafa de vinho e três taças.

— Disse-me que eu era apenas um brinquedo do teu senhor.

Depositei duas sobre o console à frente dos sofás. A terceira aposentei sobre a mesa do Walther. Servi-lhe a bebida e depois voltei-me as outras duas taças, enchi-as e sentei-me novamente.

— Disse-me uma vez que estou em um jogo. De fato, estou em um jogo, entretanto, também avisto as peças. Se eu já fora brinquedo algum dia, saibas que esse jogo se trata de xadrez, e não sou menos que o teu senhor.

— Não sejas convencido, meu jovem. Admiro-te pela façanha, mas não aches que pode tudo.

— Antes de qualquer coisa, brindemos. — Segurei a taça— — Brindemos à tua saúde, Walther.

— Brindaras à saúde do inimigo? — Gargalhou.

— Brindo pela tua saúde, pois logo estarás desejando que esse brinde se faça realizado. — Retirei a máscara e bebi o vinho. — É uma deliciosa bebida.

— Então far-me-á desejas morrer?

— Homem esperto. — Voltei-me à Carmelia. — Dê-me a maleta.

Depositou-a sobra o console e abriu-a.

— Mas não pense que não me precaverei antes. — Saquei a pistola, retirei o carregador com projéteis especiais e inseri normais, engatilhei a arma e disparei acertando-lhe o pescoço. — Isso é o aperitivo.

Saiu da poltrona e começou a se debater. Agarrei-o pelo pescoço, joguei-o sobre a mesa e amarrei seus braços e pernas com uma corda. Esperei seu ferimento se regenerar.

Outro soldado entrou, mas dessa vez estava acompanhado por outros dois.

— Senhor, as tropas contiveram as principais fugas, mas estamos seguindo o rastro dos demais. Esse homem é um prisioneiro? Queres que o leve?

— Não, farei ele falar, peço um dos teus homens.

— Para que vigie a porta?

— Exato.

Ordenou a outro soldado que montasse guarda ao lado de fora da sala.

— Obrigado. Continuem procurando. Confesso que não prossigo com o grupo por estar acompanhado de um importante prisioneiro. Se precisarem de comando enquanto eu estiver ausente, anuncie o meu subordinado mais próximo. Isso fará com que as decisões sejam tomadas mais rápido.

— Entendido, senhor. — Deu as costas e saiu com seu companheiro.

Voltei-me ao que ficou.

— Monte guarda e não permitas a entrada de ninguém. Se meus superiores me visitarem, diga-lhes que peço desculpas, mas esse processo não deve ser interrompido, além disso, não precisarão entrar no quarto para saber o que se passará. Se constatar qualquer movimento suspeito, faça-o inerte.

— Como desejar. — Saiu da sala e fechou a porta.

Voltei-me ao Walther.

— Mesmo que procures, a capsula está nas minhas mãos. — Mostrei-lhe a pílula do suicídio. — Meu caro, a mulher ao meu lado era estudante de medicina, ela conhece a anatomia humana e sabe onde as pessoas são sensíveis.

Peguei Carmelia pelas mãos e levei-a ao lado do Walther. — Estás preparada para participar disso?

— Estou. — Mas seus olhos estatelados fitando o chão mostravam uma resposta antagônica.

— Compreendo que estejas assustada e relutante, mas, minha querida Carmelia, preste atenção.

Dirigi-me ao Walther. — Walther, meu amigo, fora o senhor que ateou fogo em um pequeno prédio? Um prédio onde havia uma farmácia. Não digo que fora pessoalmente, mas ordenou o ato. Sei que estás no exercício das tuas atividades há muito tempo. Isso prova que fora tu.

— E se for?

— Carmelia, minha querida. — Disse olhando-a nos olhos. — Fora por minha culpa que teu pai fora assassinado de uma forma tão cruel e desumana, mas fora esse homem que o queimou até virar cinzas. Se desejas vingança, concedo-te as honras. Não o mate, se o fizeres, seremos severamente castigados pelo conselho.

Seus olhos fuzilaram Walther. Sua expressão relutante desaparecera e dera lugar ao semblante delineado frio, olhos apagados e levemente fechados.

— Eu não estava procurando vingança. — Disse ela. — Mas se ela me seduziu, seria arrogância e hipocrisia atuar como uma aristocrata que não faria nada e perdoaria o homem que assassinou alguém precioso. Mas isso não é uma história romântica.

— Permita-me dizer algo antes, minha querida. — Pedi. — Faça-o pedir desculpas depois de confessar as informações. Auxiliarei no procedimento, serei seu instrumentador cirúrgico. — Sorri. — Será a tua primeira cirurgia.

— Desculpe. — Pediu Carmelia a mim. — Perdoe-me por te apresentar esse lado.

— Esse lado é do que preciso. O teu carinho desejo em uma cama quente e aconchegante. Em momentos como esses, desfrute dos mais bestiais e demoníacos prazeres, os quais nem mesmo tu não desejas saber. Vá em frente, faça-se vingada por teu pai. Sei que por muitas noites chorara e lamentava-se por não saber quem fora o assassino. Eu sei que teu desejo era vingança e sei que me odiou por muito tempo, mas o amor que sentia por mim fez-te esquecer. Eu sei de tudo isso, minha querida Carmelia. Vá em frente e seja livre, perca a humanidade e assim poderemos ir ao mesmo lugar após nossas mortes. Assim ame-me por toda a eternidade e sejas amada ao meu lado.

— Não acredito que conseguiste fazer isso. — Disse Walther. — Ela parece uma ferramenta.

— Ela é. — respondi-lhe desabotoando sua camisa branca. — Tua camisa é bonita, feita de um bom tecido.

— És um monstro? És pior que eu.

— Talvez, mas dou-te uma chance.

— Dir-me-á que se confessar, não me torturará?

— Sim, se dar-me informações, apenas recebera alguns projéteis de chumbo no teu corpo, isso apenas pelo debito de vingança da Carmelia.

— Então sentirei dores de qualquer maneira.

— De fato, mas sabes bem que se confessares, as dores serão ínfimas às demais.

— Tente. — Bradou.

— Comece, Carmelia.

Ela empurrou o console ao seu lado e retirou um bisturi da maleta. Peguei uma tira de pano e tampei a boca dele.

— Retire essa mordaça. — Pediu Carmelia. — Desejo ouvir claramente esse som, meu pai deve ter gritado muito também.

Assim fiz, retirei o pano e pus-me a observar do outro lado da mesa. Posicionou o bisturi sobre o peito dele e passou lentamente sobre sua pele. Logo uma linha negra surgiu, era o sangue do Walther que começou a escorrer do ferimento enquanto ele gemia abafadamente e rangia os dentes.

— Conte-me onde o teu senhor vive. – Cochichei fitando de perto seu rosto.

Não respondeu. Carmelia fez-lhe novamente outro corte. Dessa vez ele bradou com a boca fechada.

— Diga-me onde o Drácula se esconde. – Sussurrei em seu ouvido.

— Morra! — Respondeu-me.

Os olhos da Carmelia fitavam os cortes com zelo e cuidado. Com o mesmo cuidado que tinha ao dissecar um cadáver quando estudava medicina. Os cortes eram precisos e extremamente lineares. A cada novo corte ele gritava e nos amaldiçoava mais e mais. Porém, não dizia nada, nem mesmo uma palavra importante. Os cortes foram feitos em quase todo o seu corpo.

— Não dirás nada? – Perguntei acariciando seu rosto.

— Morra, desgraçado.

Segurei as mãos ensanguentadas da Carmelia e disse-lhe. — Minha querida. O que achas de iniciarmos o procedimento cirúrgico?

Ela não proferiu nenhuma palavra durante a sessão toda.

A lamina do bisturi já perdera o fio, pegou uma lamina sobressalente e trocou-a com a antiga. Retirou da mala alguns ganchos com elásticos, uma pequena serra cirúrgica e apontou com o dedo à tomada. Encaixei a tomada e depositei sobre o console.

Novamente fez um corte no peito do Walther, mas dessa vez penetrara quase toda a lâmina. Abriu um grande corte vertical até o final do tórax e engatou os ganchos. Walther grivava incessantemente e espumava pela boca conforme ela amarrava os elásticos na mesa e o ferimento abria-se e apresentava o próprio externo. Ele debatia-se terrivelmente e bradava. Amarrei seu tronco a fim de que ele fosse totalmente imobilizado. Após essa precaução Carmelia empunhou a serra e iniciou o corte do osso. A cerra girava rapidamente e quando contatou o osso, fora possível ouvir o corte. Walther tentava mexer-se, mas conseguia apenas gritas e espumar pela boca. Aos poucos o externo era cortado e sangue era espirrado pela força centrifuga da serra, formando assim, um arco negro no ar.

Após alguns minutos ela desligou o objeto e pegou quatro ganchos. Engatou-os no osso e afastaram-nos rapidamente. Walther perdeu a respiração por alguns segundos. Lá estava seu coração, batia aceleradamente. Quando vi pensei que explodiria, literalmente.

— Meu caro Walther. — Chamei-o. — diga-me onde está o teu mestre.

Ele não disse nenhuma palavra.

O rosto da Carmelia delineava interesse. Ela nunca havia estudado o corpo de um vampiro vivo. Seus olhos brilharam ao ver aquele negro coração bater. Depois de admirá-lo por algum tempo, decidiu fazer outro experimento. Pegou novamente o bisturi e cortou verticalmente o pulso do Walther. Abriu o corte e avistou os nervos. Cutucou um com o dedo, isso fez com que um dos dedos dele se movessem. Então isso gerou interesse em Carmelia e desespero de Walther. Aleatoriamente ela puxava os nervos e deliciava-se em ver os dedos dele mexendo conforme os nervos eram puxados.

— Pare um instante Carmelia. — Pedi. — Ele está tentando dizer algo.

Ele tentou dizer, mas não conseguia, as palavras não saíam de sua boca e seus ferimentos não se curavam por estarem abertos. Carmelia começou novamente o processo. Retirou um pequeno frasco de vidro da mala e olhou-o atentamente. Retirou a tampa e pingou algumas gotas no ferimento do braço do vampiro. Ele debatia-se incansavelmente. Seus nervos começaram a deformarem-se. Era ácido sulfúrico que havia nesse frasco. Ela sorriu ao ver o resultado e fitou seu coração novamente. Levou o frasco sobre ele e despejou quase todo o conteúdo do fraco. O músculo cardíaco fora ressecando e queimando até contrair-se e bater lentamente.

Walter tossia e babava, vertia sangue de sua boca.

— Prog... Pro... — Disse ele antes de não conseguir mais falar.

— Progmas? — Perguntei.

— Ele acenou com a cabeça levemente.

— Saiba que, se não for verdade, de outra sessão dessa tu serás atração principal.

Desmaiou. Dirigi-me à porta e abri-a. Do outro lado estavam esperando os superiores. Entraram na sala.

— Deixo-o com os senhores. Vamos, Carmelia.

Passamos por eles. Quando saímos do quarto um Coronel disse.

— És um monstro.

— Parece que sim. — Respondeu-lhe Carmelia.

— Sabei-vos bem que não precisamos disso, temos bebidas que os fazem dizer a verdade.

— Eu sei...

Saímos do local e caminhamos pelos corredores.

— Estás satisfeita? – Perguntei.

— Desculpe. — Disse ela ajoelhando-se no chão, escorando-se na parede e chorando.

— Fez bem, minha querida. — Segurei seu rosto manchado de negro. Acariciei sua face e sequei as lagrimas que escorreram. — Ame-me e sejas feliz, pois logo não chorará por isso. — Beijei-lhe a boca.

Levantamos, ela enganchou em meu braço.

— Vamos? — Perguntei. — Temos que continuar a expedição, agora que conseguimos a resposta, vamos nos divertir e encontrar alguém que te transforme.

— Vamos.

Começamos a caminhar. Quando estávamos quase na escada voltei-me aos superiores na sala ainda fitando Walther.

— Meus senhores, irei à linha de frente. Se me dão licença. — Curvei-me. Virei-me e descemos as escadas.

Ao sair do prédio trajei a máscara novamente.

Senti-me realizado, finalmente uma pista que me levaria ao meu homem, ao meu alvo. O céu plúmbeo era maravilhosamente belo. O sibilar do vento era como uma canção e os sons dos disparos faziam-me sorrir e meus olhos lubrificarem-se. As mãos da Carmelia estavam quentes. Ela sorria, talvez depois de chorar pudera sorrir ao ver que adorara o que fizera. Como disse, não sabia desse lado dela, mas sabia que ela sentia prazer em coisas assim, como retirar os projéteis do meu corpo. Ela era realmente uma valiosa ferramenta.

— Eu não te direi para parrar de buscar vingança. — Disse ela.

— Por que diz isso?

— O gosto da vingança é realmente doce e prazeroso. Senti-me tão feliz quanto sinto-me feliz em nossas noites. Mas será a última vez que verás eu fazer o que fiz.

— Talvez.

— Onde devemos ir após terminar essa expedição?

— Progmas.

— A vila?

— Sim.

— Acreditei que ela fosse abandonada.

— Realmente é clichê. — Gargalhei. — Mas seria obvio demais, talvez lá eu encontre alguém que possa dar-me a localização exata.

Estávamos quase chegando ao local que nos levava ao túnel de acesso ao esconderijo. Lá haviam inúmeros soldados. Aproximei-me e pedi o relatório.

— A expedição da infantaria avança bem. As tropas do exército real estão em conflito com as nossas. Felizmente são poucas as nossas baixas. Quanto as baixar dos expedicionários, essas são altas. O regimento médico está quase todo acionado. Os prisioneiros estão sendo levados em caixotes de madeira para que possam ser interrogados.

— Entendo. Quanto a evacuação dos civis?

— Algumas baixas de inocentes. Mas um bom número salvo.

— Aos feridos, preparam a quarentena?

— O corpo logístico já está destinando veículos aos postos de coleta. Levá-los-á ao campo e concentração após alguns testes com sal e água benta.

— Diga-me a respeito da proporção do esconderijo.

— Os tuneis tem aproximadamente três quilômetros, levam a conexão do esgoto. Sabemos até aí, os soldados estão em conflito.

— Quantos?

— Mandamos 70 homens.

— Todos estão vivos?

— Perdemos contado, mas são bem treinados. Seremos atualizados novamente sobre a situação.

— Quanto tempo?

— Meia hora.

— Averiguarei até onde chegaram. Enviarei soldados mais frequentemente a fim de atualizar a equipe.

— Obrigado, senhor.

— Onde pensas que vai? — Perguntou um superior vindo ao meu encontro.

— Sou encarregado de comandar essa expedição. — Respondi-lhe.

— Acreditas que deixaremos alguém como o senhor e tua companheira saírem cometendo atrocidades como fizeram com o último prisioneiro?

— Aposto que ele revelará informações valiosas se saber que está suscetível a novas sessões de tortura se não falar.

— Não tente justificar-se.

Ignorei-o voltei-me novamente ao meu objetivo e continuei meu caminho.

— Como ousas desobedecer-me? Proíbo-te de prosseguir.

— Proíba-me e saberá que na manhã seguinte haverá inúmeros mortos na tua casa, tais como tua esposa e filhos.

— Estas me ameaçando?

— Se entendes assim, não te culpo, mas ameaçar é um termo tendencioso; diria alertar. Um bom companheiro alerta o outro, notifica-o de possíveis infortúnios que podem haver.

— Eu deveria matar-te agora.

— Faça-o. Mas faça-o direito. — Saquei minha pistola e apontei-lhe.

— O que estás fazendo? Sabes que isso te matará.

— Legalmente o senhor é um criminoso, o que te dá direito de exercer poder sobre mim? Pois se eu disparar agora, certamente não morrerei, a fábrica está no meu nome. E com isso perderiam os medicamentos que desviarei. Sejas razoável. Se torturamos um inimigo, que mal há? Se tu não tens coragem para tal, então está no lugar errado. Além disso, conseguiram boas respostar, como já disse. Bem.... Confesso-te que fiquei chocado no momento que eu vi seu coração ser lentamente sendo corroído pelo ácido.... Não sairemos repetindo esses macabros atos com qualquer um. Apenas não fique no meu caminho. — Velei a arma, dei as costas e continuei a andar. — Façam o que desejarem com Walther, ele não me é útil. Mas aos senhores, ele será um bom tesouro. Se me dá licença. — Continuei caminhando.

Ao chegar na entrada fomos abordados por um soldado.

— Novo relatório, senhor. 50% das tropas sofreram baixar. Os vampiros possuem três DWM MG08.

— Então chame reforços.

— Não estávamos preparados para uma defesa desse porte.

— Tragam as metralhadoras da M&M. Peça as metralhadoras M&M MP20. Mande trazerem cinco delas.

— Entendido. — Deu as cortas e caminhou até um caminhão. Retornou e voltou a montar guarda. — Não sabíamos que a fábrica possuía metralhadoras. Acreditamos que estavam em testes ainda.

— E estão, mas são perfeitamente usuais. Continue com o bom trabalho.

Entramos, um corredor fétido e sujo, era a divisão do esgoto e o túnel. Continuamos a andar.

— Não queres esperar até a noite? — Perguntou Carmelia.

— Desejo sair desse ducado o quanto antes. Isso se tornará um inferno. Realmente eu fiz algo impensado. Não imaginei que se tornaria tal proporção. Os Werckinberrevichs não se aquietarão diante de tamanha audácia dos Black Night.

— Entendo, então será melhor sairmos.

— Contar com a ajuda do senhor Scoot fora algo de muita sorte. Pois o primeiro superior interrogado logo depois de capturado pelos Werckinberrevichs confessaria minha iniciativa quanto ao plano de expedição. Eu seria perseguido. Com minha fuga, poderemos sobreviver. Logo depois de voltarmos darei férias coletivas aos criados e os proibirei de retornar a Morryes antes de eu retornar.

— Talvez não precise retirá-los da nossa casa, poderemos continuar com os planos de defesa. Treiná-los-emos, assim poderão cuidas da casa e continuar com a produção de munição, poderemos visitá-los de tempos em tempos a fim de abastecer o arsenal.

— É uma hipótese viável, faremos isso.

— Onde nos abrigaremos quando partirmos?

— Poderei comprar uma casa nos arredores de Morryes. Uma casa de campo.

— Não poderemos usar a fazenda do ducado?

Infelizmente não, procurarão lá também. Mas amanhã veremos isso. — Conclui.

— Como desejar.

Prosseguimos até encontrar o campo de batalha. Um soldado estava correndo em nossa direção. Mas quando nos viu parou.

— Vou atualizar os superiores. Sugiro que não se aproximem. Eles parecem que tem munição ilimitada. Não cessam os disparos.

— Entendo. Sobre o que atualizá-los-á?

— O grupo sofreu mais baixas, devido ao armamento.

— Solicitei cinco metralhadoras. Aguentem até chegar. Diga aos superiores que cá estarei. Lutarei ao lado dos outros soldados, vá depressa.

Deu as costas e continuou a correr.

— Vamos. — Arqueei o braço a fim de que ela encaixasse.

— Vamos. — Encaixou-se.

Após uma curva acontecia a batalha e as luzes quase faziam-se dia nesse húmido e escuro lugar com paredes de pedras. Aproximamos e encontramos um soldado recarregando seu rifle escondido atrás da parede de outra conexão.

— Comandante? — Indagou-se o homem. — Sou Luiz, o capitão que comanda essa companhia.

— Relate a situação. — Ordenei.

— Estamos em desvantagem, nossas armas apenas atrasam o fogo inimigo, estamos perdendo cerca de cinco metros por minuto. Logo chegaremos à entrada.

— Resta cerca de uma hora. Não conseguiram flanqueá-los?

— Impossível. O túnel não o permite.

— E as granadas?

— Foram todas gastas na primeira investida de invasão.

— Talvez possamos passar por essas metralhadoras. Ao menos atrasá-los mais. Se eles estão protegendo com tanto poder esse túnel, estamos no caminho certo.

— Eles não param para recarregar as armas.

— Talvez estejam revezando.

— Também não entendemos como eles resfriam-nas. Pois usam as três juntas.

— Podem estar escondendo outras, relataram-me o uso de três, mas talvez possam usar seis armas e fazer fogo quase inacabado.

— Vamos jogar as granadas, espero que não danifiquem o túnel.

— Não jogaremos as granadas. Certamente destruirão o túnel. O melhor que podemos fazer é continuar mantendo o poder defensivo. Que ingenuidade a minha, ignorei completamente o ambiente do qual estamos inseridos.

— Tenente Richard, recue com teus homens.

— Logo quatro homens e uma mulher aproximaram-se.

— Richard, o comandante informou o apoio bélico, logo poderemos passar por essa defesa, mas pergunto-me se estamos nós preparados para enfrentar a próxima defesa inimiga. Richard, anuncie a notícia do reforço, faça-nos manter um ritmo de dois metros por minuto, com isso conseguiremos mais tempo.

— Sinto muito, senhor. — Disse Richard. — Estamos quase sem munição, poderemos suportar um ritmo assim por 20 minutos. Com nosso ritmo atual, poderemos suportar quase uma hora.

— Isso é péssimo. — Proclamei. — Talvez devêssemos usar as granadas. Se o túnel for demolido, ao menos poderemos saber sua localização, poderemos explorá-lo assim que as tropas chegarem.

— Não podemos. — Respondeu Richard. — Não sabemos o que há sobre nossas cabeças, pode haver um vasto campo ou um grande edifício. Não podemos realizar tal ato. Perdoe-me a resposta ao superior, mas acredito ser suicídio e um grande crime.

— Realmente. — Corroborou Luiz acendendo um cigarro. — Se soubermos o que há acima poderíamos explodir tudo, afinal, descobrimos algo grandioso. De fato, o grupo deve ajoelhar-se aos teus pés, Edmund. Descobriu algo que há muito procurávamos. Como o fez?

— Infiltrei-me em seu meio e obtive valiosas informações.

— Isso era algo que apenas tu poderias fazer. — Sorriu. — Não estávamos preparados para executar uma expedição de tamanha influência em polco tempo. É vergonhoso.

— O grupo acomodou-se às atividades costumeiras de caça e controle inimigos.

— Realmente. — Corroborou Luiz.

— Voltem aos seus postos. — Ordenei. — Tentem acertar-lhes a munição, se parece inacabada, certamente há um grande volume nos arredores. Isso pode ser bem acessível.

— Entendido. — Responderam juntos. Retornaram aos postos com os respectivos subordinados e prosseguiram com a batalha.

— Adoraria que Branca e a Daniela estivesse aqui. Elas acertariam o arsenal facilmente.

— Infelizmente não sou a melhor atiradora. — Disse Carmelia.

— Mas sabes bem obter respostas. — Sorri.

— Isso faz de mim uma mulher má.

— Isso te faz uma mulher muito poderosa. De qualquer forma, essa noite a lua estará cheia. Provavelmente trarão Hantz a esse túnel e esperarão que faça seu trabalho. Isso nos faz ter que agir mais rápido. Talvez não devêssemos invadir esse local. Eu desejo encontrar alguém que te transforme, talvez eu possa fazê-lo nas ruas.

— Não seria melhor recuarmos?

— Impossível, isso baixaria a moral dos soldados.

— Então como vamos nos armar a fim de caçar à noite?

— Esperaremos os reforços chegarem.

— Quanto tempo?

— Não sei, por esse motivo devemos ficar. Na verdade, eu devo ficar, se quiseres, pode retornar à superfície.

— Não te abandonarei aqui.

— Então vamos lutar. — Saquei uma pistola com a mão esquerda, a direita segurava uma granada de mão.

Precipitei-me juntamente ao corpo de infantaria ativa e anunciei o arremesso.

— Apenas uma não terá força suficiente para destruir o túnel. — Proclamei.

Arremessei o objeto e esperei o maravilhoso som da explosão somado ao som de mais explosões, era a munição dos Werckinberrevichs. Logo os disparos cessaram-se. Ordenei uma rápida investida com o grupo e corremos ao local. Lá haviam os corpos mutilados dos vampiros. Executamo-los, mesmo sem demonstrar vida disparamos, tínhamos que ter certeza. Quase não haviam mais armas usáveis, contentamo-nos em sentar e esperar os reforços.

Sentei-me em um caixote de madeira, Carmelia sentou-se ao meu lado. Restavam apenas alguns soldados. Todos os subordinados do Richard e ele próprio, Luiz estava ferido no braço. Haviam as tropas de outro Tenente. Começamos a conversar.

— Devo dizer que fora uma estupida ideia gastas todas as granadas no início. — Proclamou Luiz. — Se soubéssemos não teríamos tantas baixas.

— Certamente. — Concordou Richard. — Meu senhor, Edmund, gostaria de apresentar meu esquadrão. Essa é cabo Michelle, minha guarda-costas. Ela cuida de todos os assuntos quando estou ausente.

— Muito prazer. — Cumprimentou-me. — Seu aperto de mãos era tão forte quanto o da Morgana.

— O prazer é meu. Tu fazes-me lembrar da minha falecida esposa.

— Infelizmente não posso dizer com quem se parece, estas usando máscara, não posso ver teu rosto. — Sorriu.

— Então imagine-o como de um homem que adoraria ver. Sou um homem com o rosto estampado na mídia, mas para ti, veja-me como um fantasma do passado.

— Muito poético da tua parte. — Sorriu de volta

— Esse é Tiago. Meu franco atirador. — Um homem franzino, segurava um rifle com mira telescópica. Não pude ver muitos detalhes de seu rosto, estava escuro e ela era negro.

— Muito prazer. — Cumprimentei.

— O prazer é meu. — Respondeu.

— Sou Alexandre. — Apertou minha mão. — O fuzileiro e mecânico.

— Sou Glauco. O médico.

— Prazem em conhece-los.

Conversamos sobre as experiências vividas de cada um. Carmelia identificou-se mais com Glauco, os dois compartilhavam do mesmo interesse. Aproximadamente uma hora e dez minutos depois o reforço chegou. Cumprimentei pela última vez os soldados que conheci nesse túnel e caminhei à saída.

— Eram boas pessoas. — Disse Carmelia. — O médico disse que nunca derramaria ácido sulfúrico sobre as entranhas de um vampiro. Realmente, é uma boa pessoa.

— Concordo, talvez os encontremos novamente. Mas até lá, vamos seguir nossos planos. Primeiramente iremos preparar as malas e nos trajar de acordo.

— Nosso itinerário iniciará aonde?

— Eu gostaria de aproveitar o caminho e visitar a vila de Panz.

— Entendo. Poderemos criar um itinerário que passe por lá.

— Levarei o máximo de armas que puder. Darei algumas ao senhor Panz. O Drácula assassinará, por vingança pelo que fizemos, todos com quem temos alguma relação. Darei chances de sobrevivência aos meus queridos entes. Direi ao Panz sobre o sangue de lobo e como funciona os projeteis. Depois dele, acredito não haver mais ninguém que eu precise proteger. Além disso, ele conhece sobre a espécie.

— Não se recorda de mais ninguém?

— Não. Quase todas as pessoas que gosto foram mortas.

Logo que chegamos dirigi-me ao meu aposento e troquei-me de roupa. Trajei um terno de noite e guardei meu uniforme, mascara, coldres e armas em uma grande mala. Dirigi-me ao telefone e disquei o número da M&M.

— Estou ouvindo. — Disse Logan.

— Tens um pequeno caminhão para vender?

— Não, queres comprar um?

— Sim.

— Infelizmente não posso vender, mas posso agenciar a compra com nosso fornecedor.

— Cobre a taxa que desejar, mas traga-o em três horas. Devo fugir de Morryes por algum tempo.

— Soube que mobilizou uma intensa investida, pode não ter visto, mas a polícia está trocando tiros com os soldados do grupo, o exército foi acionado, logo o combate será quase como uma guerra civil. Os moradores do centro estão desesperados, foram evacuados aos abrigos de guerra. Como político. O que achas que eles estão fazendo?

— Uma reunião, esqueci-me completamente, que infelicidade, provavelmente terei que participar. Obrigado por lembrar. Isso dará mais tempo para conseguir o veículo, A propósito, carregue-o com munições compatíveis com as minhas armas.

— Quem ficará no poder?

— O Grão-Duque. Ele sabe sobre o grupo, sobre os Werckinberrevichs. Se desejar algo, fale diretamente com ele, principalmente sobre o fornecimento de morfina, já que a fábrica está quase pronta.

— Descobriu o paradeiro do teu homem?

— Não, mas descobri fontes de novas informações.

— Entendi, boa sorte.

— Obrigado. — Desliguei o telefone.

Dirigi-me à sala de chá. Esperei Carmelia se aprontar com um vestido de viagem.

— Lembrei-me que a nossa saída terá que atrasar, devo reunir-me no conselho. Um criado notificou-me da ligação que recebera, mas não estávamos em casa.

— Irei contigo?

— Sim. Providenciei o caminhão e o armamento, com isso teremos mais tempo.

Levantamos e nos dirigimos à garagem. Entramos no carro e Carmelia deu partida. Saímos em direção ao palácio. Seguimos diretamente à sala do serviço de inteligência. Lá estavam os líderes do conselho de Morryes. Entramos, Carmelia pôs-se em pé ao lado da minha cadeira. Os outros acentos eram ocupados pelo chefe de polícia, o Marechal do exército, o atual chefe do serviço de inteligência.

— Atrasou-se. — Indagou-se o chefe de inteligência. — Acredito que todos adoraríamos saber onde esteves. Principalmente em momento como esse.

— Minha vida particular não te diz respeito, meu amigo. Não desejo expor ao público minhas noites ou onde elas se passam. Aposto que tens desejos carnais que queiras suprir eventualmente.

— Não desejo saber. — Interrompeu o chefe de polícia. — Temos que decidir quem gerenciará o poder durante o caos.

— Posso comandar. — Proclamou o Marechal. — Sou o mais apto ao cargo.

— Não se trata de aptidão, trata-se de hierarquia. — Respondeu o chefe de polícia.

— Não podemos deixar a ordem pública nas mãos desse jovem. — Argumentou o chefe da inteligência.

— Por esse motivo não conseguiram mobilizar mais defesas além de uma pequena divisão de infantaria? — Perguntei. — Não o fizeram apenas por eu não estar aqui? Realmente, talvez eu devesse comandar essa missão.

— O que disse? — Bradou o Marechal socando a mesa. — Achas que somos incompetentes? É isso que queres dizer?

— Exato. Se não foram capazes de defender o rei, a rainha e prever uma guerra civil, do que serão capazes? Por favor, deveriam tomar atitudes menos burocráticas. Na reunião onde o rei fora assassinado, por exemplo, apenas para ele ordenar estado de defesa, deveria criar uma emenda para isso, burocracia apenas atrasa o desenvolvimento. Se desejam abrir estado de defesa, façam-no.

— Ignorante, achas que é simples assim? Sou Marechal há mais tempo do que tu vives. Ignorar os possessos geram outros piores.

— Por esse motivo elegem um ditador. Ele toma as decide rapidamente e burla o sistema burocrático a fim de uma rápida movimentação, contudo a família real fora exterminada. Quem assumira o trono? Eu? Um Grão-Duque? O senhor?

— Essa não é a questão.

— Discutiremos esse problema agora. Mas antes redigirei uma carta aos comandantes dos Black Night, se não cessarem fogo, emitirei a ordem de obliterá-los.

— Uma carta? — Refutou-me o Marechal. — Uma carta apenas far-lhes-ão gargalhar.

— O que achas, meu amigo, chefe de polícia? — Perguntei.

— Acredito na influência do Edmund, outras situações foram resolvidas apenas com suas ordens.

— Tragam-me caneta e papel. — Ordenei.

O próprio chefe de polícia cedeu-me as dele. Escrevi algumas linhas.

"Em resposta aos violentos atos decorridos pelo grupo marginal autodenominado Black Night. Recorro ao estado de defesa nacional.

Se ignorar essa carta, considerarei crime de estado, assim passível de extermínio rebelde.

Caso decidam obedecer, ordeno a retirada de suas tropas que lutam nas ruas. Essa é a última negociação.

Como regente atual do reino, ordeno a morte de todos os marginais da gangue se não executarem a ordem.

Espero uma resposta adequada.

Edmund de Morryes."

— Isso bastará. — Proclamei. — Entreguem a carta a um mensageiro do grupo.

Após uma hora depois de um mensageiro sair com a carta, retornou com outra. Entregou-me.

"Aprecio a cordialidade, senhor Edmund. Como desejas, entendi o recado. Com isso, retirarei as minhas tropas das ruas.

Já conseguimos defender nossos membros do ataque conjuntos das outras gangues. Com isso, não precisamos mais lutar.

Deixaremos as ruas imediatamente, espero que teus homens nos permitam fazê-lo."

Li a carta de modo que todos ouvissem.

— Acredito que cumprirão a ordem. — Proclamei.

— Como tens tanta certeza? Conspiras com eles? — Intrigou o Marechal.

— O que sugerem para reestabelecer a ordem? — Perguntou o chefe de inteligência.

— Pura e simplesmente deixando que tudo se acalme. — Respondeu o Marechal. — Mesmo que eles obedeçam a ordem, não será em um minuto que tudo acabará, eles terão que ceder o território aos poucos até conseguirem se retirar seguramente. Eu poderia ordenar retirada, mas farei esses nauseabundos se acovardarem e retirarem-se. Causarei mais baixar em sua retirada do que em toda a batalha.

— Faça como desejar. — Proclamei. — Apenas faça-o direito. — Voltei-me ao chefe de polícia. — Mande tuas unidades logo após a retirada, faça parecer uma ação conjunta da polícia e exército. Isso manterá a credibilidade do corpo policial, além de acalmar os civis. Mobilize o corpo inteiramente ao conforto e controle do caos. — Levantei-me. — Anunciarei agora minha ausência. Durante algum tempo manter-me-ei fora. Assuntos pessoais. Encontrei um homem que administrará meus poderes. O senhor Sherlock Scoot assumirá meu lugar.

— Aonde vais? — Perguntou o chefe de inteligência.

— Estou procurando alguém, talvez o fantasma da Branca. — Sorri.

— Não me intrometerei nos teus assuntos.

— Sugiro que ninguém o faça. — Completei. — Se me dão licença, partirei hoje mesmo. Adeus senhores.

Dei as costas e sai da sala sem dar ouvidos às reclamações.

— Tua ordem ao grupo não te faz um traidor?

— Estou desapontado. Acreditei que entenderias.

— Perdoe-me, distrai-me por um momento.

— Eu ordenei ao grupo que retirasse as tropas das ruas. Mas não me referi ao subsolo. Por conta disso ele respondeu haver entendido o recado.

— Entendi. Desculpe-me, realmente me distrai.

— Com o que?

— Não sei dizer, apenas cai em leves devaneios.

Peguei sua mão e encaixei em meu braço. — Vamos.

Entramos ao carro e voltamos à nossa casa. Quando cheguei dirigi-me diretamente ao gabinete e depositei sobre a mesa alguns jornais da semana.

— O que farás agora? — Perguntou Carmelia sentava no sofá.

— Procurarei anúncios das agencias imobiliárias locais. Certamente encontraremos uma boa casa.

— Posso escolhê-la? — Perguntou animada.

— Se adequar-se aos requisitos, pode.

— Quais são os requisitos?

— Um amplo campo aberto onde possamos treinar, uma casa que tenha grossas paredes.

— O que mais?

— Acredito que nada, o resto é por tua conta.

Carmelia não escondeu sua felicidade, seus olhos brilhavam como meu e seu cabelo refletia a luz como bronze polido. Sua pele branca como mármore seduzia-me e tingia-se com o delicioso rubor. Levantei-me e caminhei em sua direção, beijei-lhe a boca e mordi levemente seu lábio.

— Será a última vez que desfrutarei do teu sangue. Mordi carinhosamente seu pescoço. Seu coração batia rapidamente e eu sentia sua macia carne sendo perfurada pelas minhas presas. Degustei lentamente desse sangue. Quanto mais rápido seu coração batia, mais lentamente eu bebia. Era afrodisíaco.

— Amo-te. — Disse ela. — Beba, pois será a última vez. Beba meu amor,minha angustia, minha dor e meu ódio, sinta o que sinto, veja o que vejo. Ame oque amo. Pois assim serei feliz, ame-me mais e mais. Tão mais que as intensasnoites de amor ou os passeios de mãos dadas no parque. Amo-te. Amo-te.