Memórias de vidro

37 Aos poucos a luz da lua iluminou esse corpo inerte.


Na manhã seguinte despertei ao lado da Carmelia, ela estava acordada e admirava meu rosto.

— Não podemos executar esse plano agora. — Proclamei. — Não permitirei que tu sejas uma vampira reprodutora, desejo que vivas como uma nobre.

— Ontem mesmo estavas decidido, o que houve?

— Vamos estudar anatomia, minha querida Carmelia, vamos estudar anatomia e desvendar alguns segredos.

— Por quê?

— Dificilmente um Werckinberrevich nobre dará a sua vida por alguém que não conhece. Faremos de modo que esse não tenha escolha.

— Não ligo de ser uma reprodutora se puder viver ao teu lado.

— Não posso apenas fazer-te imortal. Levante-se, hoje caçaremos. Pretendo adquirir dois espécimes.

— Capturarás dois Werckinberrevichs?

— Sim, poderás brincar com eles do mesmo modo que brincou com Walther. — Sorri.

— Não desejo que vejas esse lado meu.

— É desse lado que preciso, que saias dessa jaula e mostre a fera que és. É essa personalidade que desejo junto de mim, que me ame, mas torture quem eu ordenar. Não esconda o prazer que sentira ao retirar os projeteis do meu corpo. Não escondas a felicidade e a excitação que sentiu ao torturar aquele homem.

— Mas sinto-me suja, minhas mãos ficam negras.

— As minhas mãos sujam-se sempre e mesmo assim desejas tocá-las, assim como vejo tua casta e pura pele, desejo-a torná-la negra e suja com sangue. Pois assim estarás feliz, minha querida Carmelia. Faça-me te amar mais. Faças o que desejo. — Beijei-lhe a boca. — Faças o que ordeno, a tua vida é minha, minha cara Carmelia.

— Minha felicidade é estar contigo.

— Então fique comigo e faça-me feliz, serei feliz em usar-te como objeto quando necessário. E te amarei como mulher quando desejares.

— Sabes que não posso negar-te o sim. Maldito manipulador, eu te amo. Farei como desejas, mas faça-me mulher quando eu desejar.

— Farei como e quando desejares.

Levantei-me e vesti minhas roupas.

— Levante-se, irei à M&M comprar alguns projéteis com tranquilizantes.

— Irei contigo?

— Não te impedirei.

— Aprontar-me-ei rapidamente.

— Esperar-te-ei na sala de chá, desejas que preparem algo?

— Um suco de laranja, por gentileza.

Dei as costas e dirigi-me à sala de chá. Sentei-me e pedi café. Quando fora servido pedi que preparassem o suco. Pus-me a ler o jornal enquanto a esperava. Havia a notícia sobre o ato que propiciei no dia anterior, fora relatado à mídia como terrorismo.

Passara quase uma hora até que Carmelia descesse. Eu já havia bebido seu suco e pedido outro.

— Estás magnifica, mas não precisava vestir-se assim. Certamente atiraremos.

— Prefiro atirar elegantemente.

Ela bebeu seu suco e partimos com o carro. Ao chegar na fábrica, seguimos diretamente ao campo de disparos. Como de costume Morgana limpava e lubrificava as armas. Interrompeu o trabalho ao notar nossa presença.

— O que precisas dessa vez? — Perguntou ela.

— Alguns projéteis com tranquilizante. — Respondi-lhe sacando um dos meus carregadores e retirando os cartuchos.

— Queres sequestrar um Werckinberrevich?

— Sim. Carmelia adoraria estudar a anatomia deles. Afinal, sua carreira seria medicina.

— Entendo, a propósito, eu soube sobre o que aconteceu com Walther, soube o que fizeram com ele. Esse projeteis são para gerar mais tortura. Especialmente pelas mãos dessa mulher. Desculpe-me Edmund, mas sou contra a tortura, pois já sofri quando fui presa durante, como já falamos, um mês.

— O homem que eu caço é mais desumano que qualquer outro torturador vivo, eu vi uma de suas vítimas. Para acabar com esse mal, devemos sacrificar a ética.

— Descordo. Não darei. Esses projeteis são controlados. Não posso vendê-los a alguém desequilibrado. Primeiramente peça permissão ao diretor. Se ele não permitir, não volte aqui com o intuito de obter esses cartuchos.

— Não fale desse modo com ele. — Interviu Carmelia. — Fui eu quem torturou aquele homem. Não podes ceder a mim os cartuchos, mas nada impede a venda ao Edmund.

— Então eu não venderei por saber o que acontecerá.

— Acalmem-se. — Proclamei. — Não poderemos negociar com essa mulher. — Dirigi-me à Morgana e disse. — Desculpe-me. Apesar de não admirar a tua recusa, poderia apenas ver esse projetil? Acredito que isso não possas negar.

— Infelizmente não posso. — Pegou uma amostra e depositou-a sobre a mesa.

— É exatamente como o meu, mas apresenta uma vedação emborrachada que liga a ponta ao corpo. Qual toxina usam?

— Não sei, não sou engenheira química.

— Realmente, não consigo obter uma resposta sequer. Indago-me o porquê não continuou no exército. Seria uma ótima guerreira.

— Conversamos sobre, mas digo-te que gosto de viver, e fazer a manutenção das armas ajuda-me a viver mais do que viveria batalhando, além disso, é relaxante e o tempo passa rápido.

— E não queres vender um projetil, mas preferes vende-los a pessoas que assassinam e torturam pessoas. Que ironia essa.

— Posso não as vendes a ti.

— Vejo que devo ceder. Bem... obrigado. — Sorri. — Vamos Carmelia.

— Eu não tenho medo do senhor, meu caro. Só por que fizera algo perturbador com alguém, não obedecerei a ti por isso.

— Se achas o que fiz perturbador, então sei que não desejas passar por isso. Com licença, se me permite, até breve.

— Espero que seja apenas a fim de negócios costumeiros. — Apertou minha mão.

Eu soube o efeito das minhas últimas palavras. O suor em suas mãos não escondia sua preocupação. Talvez haja se arrependido de negar o meu pedido, porém, manteve uma postura firme, tal como a que eu esperaria ver dela.

Retornamos ao carro e partimos de volta à minha casa.

— Sabes bem que eu poderia fazê-la vender os cartuchos. — Disse Carmelia segurando fortemente o volante.

— Essa mulher é forte, além disso, a tortura que fizestes aos Walther não surgiria efeito nela pelo simples fato de Walther ser imortal, ele sobreviveria a mais uma sessão daquela. Mas Morgana não viveria mais que a abertura do pulso. — Acariciei seu rosto. — Desejo esse lado, desejo isso que acabara de mostrar. Mas faça-o apenas quando necessário.

— Como desejar.

Retornei à minha casa e dirigi-me à oficina. Lá eu e Henrique forjamos alguns projeteis sem sangue.

— Com o que irás preenchê-los? — Perguntou ele.

— Não sei, testarei sangue de outros animais, talvez funcione, testarei também com tranquilizantes que se usam em humanos e animais.

— Conhece algum?

— Não. Mas Carmelia, certamente, conhece, seu pai era farmacêutico.

— Fabricamos cerca de duzentos projeteis. Carregá-lo-ás todos?

— Sim, nosso estoque de projeteis tradicionais está quase no fim.

— Acreditei que testaria as substâncias com eles.

— Adoraria, mas não sei os efeitos. Trarei algumas cobaias. A propósito, fora instalado o isolamento acústico no laboratório?

— Ouvi dizer que sim. Posso saber o motivo de haver instalado algo desse tipo lá?

— Não apreciaria que meus criados ouvissem meus experimentos com cobaias.

— Realmente, eu não dormiria à noite, ninguém dormiria. Confesso que em alguns momentos tenho medo do senhor.

— Não tenho motivos para fazer-te mal. Tu és um rapaz caprichoso e trabalhador. Por que abriria mão disso?

— Estou aliviado.

— Vamos carregar com sal alguns projeteis.

— Sal? O que acontece quando o usa?

— O sal queima a superfície em contado do corpo vampírico. Essa quantidade mão surge muito efeito, mas se penetrar na carde, pode fazer com que o vampiro sinta pequenas irritações. Como que houvesse uma pequena lâmina cortando seu interior. O sal será, aos poucos, diluído com os fluídos corporais, mas demora e enquanto ele não se dissolve, continua a fazer seu papel. O uso do sal tornou-se quase inexistente com o meu projetil com sangue, mas ainda assim é, certamente, perfeita para captura. Se acertar as duas pernas, provavelmente o vampiro não andará.

— Entendi. Acredito ser cruel, mas não tenho objeções.

— Cruel? Não me faça rir. Cruel é esses seres assassinarem pais de família e assim fazerem suas famílias definharem, as mulheres entrarem no mundo da prostituição e as crianças trabalharem nas fábricas, isso sim é cruel. A única vez que me arrependi de assassinas um Werckinberrevich for a quando eu poderia ter poupado a vida de uma mulher chamada Simone, ela era uma vampira virgem que não desejava beber sangue humano, com ela sim eu fui cruel.

— Não se torture, meu senhor. O senhor é tão bom conosco dessa casa, não gostamos de ver-te triste.

— Obrigado. Aprecio o carinho, mas a noite já está caindo, vamos carregar esses cartuchos.

— Quantos?

— Vinte e oito. Dois carregadores para cada pistola.

— Entendido. Passe aqui em uma hora. Derreterei o sal e aplicarei as pontas, assim exercerá uma melhor performance.

— Obrigado, realmente, não posso te perder. — Sorri.

Sai da oficina e dirigi-me ao meu quarto, trajei o uniforme e empunhei a máscara. Segui ao quarto da Carmelia. Ela estava se aprontando, vestindo o traje de caça.

— Vamos sair agora?

— Em uma hora.

— Está bem.

Retornei à oficina e auxiliei o carregamento dos projeteis. Por ser de extrema periculosidade não manuseei o sal e o sangue, apenas encaixei os projeteis prontos nos estojos com pólvora. Após terminado dos vinte e oito projeteis, apossei-me do rifle cerrado, algumas munições normais e carreguei a arma com os cartuchos de prata. Eu estava preparado para encontrar o lobo. Municiei-me e dirigi-me à saída.

— Continue carregando esses projeteis, amanhã trabalharemos em outro.

— Terminou o projeto? Senhor.

— Sim. Amanhã, logo que abrir a loja de molas, vá e compre molas como essas. — Dei-lhes uma pequena mola, cinco milímetros de comprimento e três milímetros de diâmetro.

— O novo protótipo?

— Sim. Compre-as. Assim poderemos criar uma arma mais eficiente.

— Temo que, pelo tamanho da mola, não seja um projetil pequeno, acredita que possa ser usado em pistolas?

— Não sei, o projeto é para um rifle. Infelizmente acredito não ser possível uma versão menor, isso reduziria a quantia de sangue, talvez não surja um bom efeito.

— Entendi. Comprarei logo pela manhã. Depois de terminar de carregar os projeteis, posso fabricar meus objetos?

— Claro. Fique à vontade, a oficina é tua. — Sorri. — O que pretende fazer hoje?

— Um anel de aço, entalharei um desenho qualquer. AH! Não contei ao senhor. Minha última peça foi uma faca.

— Uma faca?

— Sim. Fiz especialmente para o senhor, ou para a senhorita Carmelia.

— A mim? Especial?

— Baseei-me no conceito das nossas atuais canetas. Contudo o sistema pode utilizar líquidos espessos, como sangue. Na lâmina tem sangue de lobo. Isso pode se tornar uma grande arma.

— O que armazenas o sangue? Ou não possui reservatório?

— No cabo, pode suportar uma boa quantia da substancia. O sangue pode pingar com alguns movimentos rápidos e fortes, acredito que apenas uma carga pode durar uma noite.

— Mostre-me a peça. — Pedi interessado. — Talvez a use hoje.

— Não testei, senhor. — Dirigiu-se ao armário e trouxe consigo a faca, depositou-a sobre a mesa.

Seu cabo era relativamente grosso, era de madeira preta. A lâmina fora esfumaçada e ficara negra. Averiguei de perto a lâmina e notei haver dois fios. Entre o sulco passava o sangue. Era uma bela arma. Aproximadamente trinta centímetros.

— Realmente bela. Possui bainha?

— Sim, improvisei uma com um retalho de couro. Posso fazer uma definitiva se aprovar essa faca.

— Por Deus! Como não gostar de um homem como o senhor? — Sorri e cumprimentei-o. — Faça amanhã. Por hoje, faça o que desejar. Trabalharemos juntos em possíveis melhorias nessa faca.

— Obrigado, senhor.

Dei as costas e retornei ao meu gabinete. Carmelia esperava-me lendo o jornal. Bebeu um gole de chá e levantou-se. Caminhou em minha direção e beijou-me a boca.

— Quantos queres capturar?

— Quantos queres estudar?

— Talvez dois.

— Então procuraremos dois. Tens preferência de idade e sexo?

— Apesar de tudo, tenho ética. Não estudarei crianças até os doze anos. Infelizmente essa idade fisicamente, mesmo que aparente 12 anos e tenha 120. Assassine alguém assim, evite também os velhos. Não desejo ver corpos rugosos com pele flácida.

— Entendo, farei como desejas.

— Os nobres manteremos aprisionados, se queres que eu não seja uma qualquer, escolha o melhor dom para mim, os menos vantajosos serão os primeiros testes.

— Concordo. Vamos.

Entramos no carro e partimos. As ruas não estavam movimentadas, acreditei que policiais estivesse patrulhando a região central de Morryes. O contrário se deu, talvez a influência de alguém na polícia impedira o ato. Estacionamos próximo à ponte Vlinckouger. Imediatamente lembrei-me do momento que despertei com Daniela estatelada nos meus braços. fora uma dolorosa lembrança. Recordei-me da multidão tirando fotos e receei pisar nesse local. Mas as mãos da Carmelia eram quentes e confortantes.

— Vamos? — Pediu.

— Vamos.

Desembarcamos do carro e passamos pela ponte. O vento sibilava e fazia-me esvaziar a mente. Aos poucos meus sentimentos retornaram, não sentimentos de alegria ou nostalgia, mas sim de tristeza e solidão. Sentia-me sozinho, vazio. Mas Carmelia reconheceu minha fisionomia e abraçou-me. Ela sabia que eu estava prestes a libertar minha colega novamente. Nosso objetivo não era o assassinato, era a captura, embora eu desejava sangue, desejava o genocídio, porém, eu já causara uma grande destruição. Um grande e espesso rio de sangue corria nos esgotos de Morryes. Talvez minha vingança houvesse chegado ao ponto de eu haver me tornado o vilão. Não melhor do que o homem que buscava. Mas eu não me importava em ser um assassino ou demônio, desejava apenas me vingar, ignorei todos os conselhos que recebi da Branca e fiz-me a morte. Fui conhecido como a morte azul, um fantasma que podia-se ver apenas uma máscara azul, um vulto demoníaco que se escondia nas sombras.

— Onde pretendes iniciar a busca? — Perguntou Carmelia fazendo-me retornar à realidade.

— Vamos ao inferno.

— O que?

— Vamos ao inferno.

— Não podemos ir lá, lembre-se da nossa missão.

— Poderemos poupar dois ou três.

— Nem mesmo eu aprovo tal ato, vamos procurar nos becos. — Abraçou-me novamente, mas dessa vez mais apertado. — Controle-se, por favor.

Respirei profundamente algumas vezes e abracei-a de volta.

— Acalme-se, achas mesmo que seria descuidado novamente? — Sorri.

— Tenho certeza.

Continuarmos a caminhar até uma viela que não era tão escura. Ouvimos gritos de mulher e decidimos entrar, vinte metros à frente havia um pequeno beco à direita. Nos aproximamos e pusemo-nos a averiguar o que se passava em meio ao breu no beco. Eram dois homens e uma mulher. Eu já havia passado pela mesma cena, não gostaria que se repetisse. Sem pensar duas vezes aproximei-me.

— Ajude-me, por favor. — Bradou a moça.

Logos os homens voltaram-se a mim, eram Werckinberrevichs. Seus semblantes delineados desespero claramente mostravam que me reconheciam.

— O que faz aqui, maldito? — Exclamou um deles.

A mulher que me pediu ajuda também delineara o mesmo semblante dos demais.

— Essa mulher. — Proclamei. — Por que a julgam?

— Ela assassinou meu amigo. — Exclamou o outro sujeito. — Essa mulher nefasta.

— Os senhores já assassinaram tantos outros mais, acredito eu.

— Não retiro minha culpa, mas ela é um caso à parte.

— Poderia saber por que?

— Cale-se e deixe-nos vingar. — Bradou o primeiro.

Saquei a pistola carregada com sal e apontei-lhe. — Cale-se, seja educado e não atrapalhe nossa conversa. Como se chama?

— Por que desejas saber nossos nomes?

— Tatuo todos os nomes de quem matei. — Sorri.

— Maldito.

— Teu nome!

— Joaquim.

— Por que me disse com tanta leviandade? Não tens medo da morte?

— Meu melhor amigo fora assassinado por essa mulher, meu maior desejo é a vingança. O que farei depois sem meu amigo?

— Qual é o nome do teu amigo?

— Bruno.

— Entendo, essa mulher é a esposa dele?

— Sim.

Velei a arma e sentei-me em um caixote de madeira ao lado. Cruzei as pernas e relaxei meu corpo.

— O que estás fazendo, Edmund? — Perguntou Carmelia sentando ao meu lado.

— Conheci um bom rapaz com esse nome.

Todos fitavam-nos desorientados, compreendia que a vontade deles era sacar as armas e tentar matar-me. Mas sabiam que eu poderia assassiná-los antes, então contentaram-se em manter a calma.

— Diga-me, Joaquim. Esse rapaz seria o subordinado de um Werckinberrevich nobre? Não sei seu nome. Mas são poucos, então acredito ser o mesmo. Voltei-me à mulher. — Diga-me. Teu nome é Jéssica?

— Conhece-a? — Perguntou Joaquim.

— Não, mas sei sobre a história de amor que viveu com Bruno. Pobre rapaz, ele seria um dos que eu faria questão em não assassinar. Havia adorado ele, meus senhores, compartilho essa dor. Posso trocar algumas palavras com essa mulher?

Os dois entre olharam-se e abriram passagem. Caminhei calmamente em direção a ela ajoelhei-me à sua frente. Ela debatia-se, entretanto, não conseguia se mover, estava amarrada. Seu cabelo era negro como ébano e sua pele incrivelmente branca. Realmente era uma bela mulher, como Bruno descrevera.

— Eu adoraria saber o motivo de assassiná-lo. — Falei. Responda-me, minha cara Jéssica, mulher de um maravilhoso rapaz do qual havia criado afeto, diga-me o motivo de tê-lo assassinado. Ciúmes? Sadismo? Desconfiança? Abstinência? Traição? Diga-me.

Manteve-se quieta e não me respondeu.

— Diga-me insisti.

— Já tentamos fazê-la falar, mas ela não responde.

— Como o fizeram? Apenas pediram? Ameaçaram? Amadores. — Dirigi-me à Carmelia. — Venha cá.

— O que desejas que eu faça?

— Faça-a falar por que assassinou Bruno. Eu e esses senhores desejamos saber o motivo, faça-o, por mim. — Beijei suas mãos.

Ela apenas sorriu e se aproximou da Jéssica. Ajoelhou-se aonde eu estava e iniciou o diálogo. Perguntou os motivos, mas todas as vezes foram ignorados. Retirou uma faca e passou levemente sobre o rosto da Jéssica.

— Responda. — Pediu novamente.

O silêncio continuou.

— Ela não dirá. — Reclamou o outro homem.

— Dirá sim. — Respondeu Carmelia fitando a mulher. — Tu sabias que mesmo com o poder de regeneração de um vampiro há chances de adquirir cicatrizes? Veja só que rosto belo. Certamente, se eu possuísse um rosto como esse, meu amado Edmund me amaria, já que parece muito com sua falecida esposa. Belo rosto, talvez eu devesse fazer-te obrigada a usar uma máscara.

O desespero intensificou-se no rosto da Jéssica. Os olhos da Carmelia não mentiam, Jéssica lembrava-me muito Cecília.

Aos poucos a faca começara a perfurar a pele da bochecha da mulher. O branco logo apresentou uma linha feita pelo sangue que escorria aos poucos.

— Diga-me. — Pediu Carmelia. — Diga-me o motivo, meu amado deseja saber.

— Pare. — Implorou. — Por favor, pare.

— Pararei apenas quando responderes. Antes disso, farei teu rosto apresentar algumas cicatrizes. — Proclamou Carmelia. — O que preferes? Uma cruz ou alguns riscos aleatórios?

— Deixe-a respirar. — Ordenei.

— Como desejar.

Aproximei-me novamente e perguntei-lhe o motivo. Bruno fora um bom rapaz, simpatizei com ele. Apesar de ser um inimigo, sua morte causou-me uma leve dor. Além disso ele poupou minha vida. Fui muito grato por isso.

Agachei-me à frente dela e limpei o fino rastro de sangue que manchara seu rosto.

— Possuem uma história tão bela juntos, é uma pena haver acabado.

— Não me mate. — Suplicou.

— Não me mate? Perdoe-me? É isso que sabes dizer? — Perguntei.

— Não... — calou-se.

— Não o que?

— N... Não.

— Fale. — Ordenei.

Não houvera resposta. Fechei a mão direita e dei-lhe um tapa no rosto.

— Fale! — Bradei.

Novamente não houvera resposta. Levantei-me e me afastei. Sentei-me no caixote e pus-me a observar seu rosto que era belíssimo, mas estava manchado de sangue. Avistei ela cuspir um dente, uma de suas presas.

— Desculpe-me, não queria retirar um dente teu. — Proclamei satirizando-a. — O que esse projétil de sal poderia fazer contigo? Já que não saberemos a resposta das nossas indagações, que nos divirtamos apropriadamente. Será como o julgamento da Milady orquestrados por Athos. Minha cara Milady, se não me responderes o motivo de tê-lo assassinado, ao menos responda se estás arrependida.

Seus olhos secaram-se, da sua boca apenas escorria sangue. Escorria pelo pescoço e manchava seus seios. Era uma triste visão. Os dois homens ainda estavam afastados, talvez receavam um último ataque de fúria por parte da mulher. Chamei a atenção deles.

— Vos sabeis que ela não dirá. Não preferem acabar logo com isso?

— Não temos armas ou fogo para matá-la. — Respondeu Joaquim.

— Isso não é problema. — Proclamei retirando uma das pistolas.

Eles recuaram alguns passos e entre olharam-se novamente. Retirei o carregador com sal e inseri o carregador com os projeteis com sangue. — Vejamos... O que farei com esse cartucho que está na câmara? O seu projetil é de sal, pois a arma já estava engatilhada.

Apontei a arma à Jéssica e disparei acertando-lhe a coxa direita. Debateu-se o máximo que podia por alguns segundos. O efeito do sal amenizou-se, mas ela não desfizera o semblante desesperado. Sinal que ainda sentia dor por conta do sal.

— O próximo disparo é a misericórdia. — Falei entendendo a mão com a arma sobre ela. — Decidam quem o fará.

Joaquim aproximou-se com cautela e pegou a arma. Apontou-a à mulher — Nunca te perdoarei. — Proclamou gritando. Apertou o gatilho e logo o sangue jorrara de seu peito. Suas vestes foram logo consumidas pelo sangue negro.

Aos poucos a luz da lua iluminou esse corpo inerte e sua pele branca ainda brilhava. A fulgente beleza da morte cedeu-nos essa visão. A luz prateada era como uma suplica àquele corpo. O vento sibilava e assoviava entre as vielas, fazia-se como um réquiem que a velava.

Joaquim se aproximou e apontou-me a arma.

— Atirarás? — Perguntei.

— Eticamente eu deveria, achas que tenho algum remorso em fazê-lo?

— Não, na verdade acredito no contrário, que poderias bem disparar e ser homenageado pelos teus companheiros. Minha cabeça vale muito.

— Certamente. — Estendeu a mão e devolveu-me a arma. — Obrigado.

— Se me dão licença, senhores, espero que não os veja tão cedo, pois, meus planos exigem a captura de alguns aliados teus. Mas creio que não acreditem em lealdade em um grupo como esse. Onde a esposa assassina o marido.

— Ainda temos amigos no grupo. Mas faça como desejar. — Respondeu o outro homem. — Só não pense que te devemos algo. — Deu as costas. — Vamos, Joaquim.

— Obrigado. — Agradeceu o rapaz. — Preocupava-me como iria matá-la. Doí-me não saber a causa, mas fico feliz em vingar-me

Desapareceram ao sair do beco. Fitei pela última vez aquele corpo casto e belo que refletia a luz prateada da lua.

Dei as costas e continuamos a caminhar. Entramos no caminhão e partimos. Estacionamos cinco quadras depois em frente a uma viela. Não havia ninguém, mas algo chamou a minha atenção. Desembarquei e dirigi-me à viela.

— Onde vais? — Perguntou Carmelia. — Não há nada aí.

— Espere, creio haver visto algo.

Saquei a pistola e continuei caminhando. Os prédios tinham algumas luzes acesas, mas ainda havia breu. Parecia algo metálico sobre os paralelepípedos.

— O que é isso? — Pensei enquanto caminhava em direção.

Quando parei em frente ao objeto, percebi ser um belo e macio pelo prateado. Meu coração quase explodia meu peito, senti o frio consumir minha espinha, pensava apenas em procurar com os olhos a criatura, se estivesse com sorte de não a encontrar, e tudo não ser apenas um vestígio de passagem. Sentia minhas mãos suarem, rapidamente saquei o rifle cortado e pus-me a averiguar o local. Foi quando pude ouvir o grunhido da besta, um rosnar estridente que fazia-me tremer, bastaria um toque e tudo estaria acabado. Suas garras eram afiadas. Quando me virei, percebi que estava a dez metros de mim, o casaco não afastaria de tal proximidade. Começou a caminhar lentamente na minha direção enquanto aqueles grandes e frios olhos fitavam-me, ele apresentava suas presas pontiagudas e brancas. Engatilhei o rifle e disparei. Enquanto ele agonizava pus-me a correr em direção ao caminhão. Carmelia estava pronta para partir o mais rápido possível. Eu não havia acertado definitivamente o animal, acertei-lhe de raspão, com isso poderia continuar movendo-se livremente. Sem demora começou a correr atrás de mim. Tentei disparar novamente, mas errei. Joguei-me dentro da traseira do caminhão e logo Carmelia acelerou, porém, o lobo era mais veloz e logo começou a nos alcançar.

— Acelere. — Ordenei à Carmelia.

— Estamos na velocidade máxima.

Engatinhei novamente e disparei, acertei-lhe o ombro, mas ele não parou, parecia nem sentir o projetil de prata.

— O que está havendo? — Pensei. — É prata, isso deveria matá-lo.

Descarreguei o restante dos projeteis, disparei com sangue e depois com sal, isso apenas fizera ele correr mais lentamente, eu estava sem munição, o caminhão fora esvaziado pouco antes de sairmos. Não haviam recursos para prosseguir com a defesa. Carmelia entrava em ruas aleatórias e tentava manter o controle pleno do veículo. Após se regenerar o lobo continuou avançando cada vez mais rápido e voltou a se aproximar. O caminhão já começara a falhar e quando dei por mim, estávamos a menos de vinte metros de distância do lobo. Eu estava desesperado, Carmelia praguejava pelo caminhão não acelerar mais. Os paralelepípedos faziam o caminhão tremular. Se nem mesmo haver percebido, passamos por um buraco e com isso fui jogado para fora do veículo. Rolei alguns metros e estatelei-me contra a parede de um prédio. Carmelia, ao tentar voltar, capotou o caminhão. Vi-a tentar sair do veículo e o lobo caminhando em sua direção. Ela seria morta nesse momento, eu precisava chamar a atenção do lobo. Retirei a faca de Henrique forjara e arremessei nele, acertando-lhe as costas. Seu aspecto demoníaco voltou-se a mim, rosnava e mostrava seus dentes. Ele estava completamente curado.

— Por que prata não funcionou? — Bradei. — Aquilo deveria tê-lo matado.

Continuou caminhando em minha direção senti-me preso, apenas havia uma parede atrás de mim. Arremessei todas as minhas armas em seu rosto, mas ele abocanhava e destruía com sua mordida. Meu coração batia rapidamente, eu não sabia o motivo de tamanho medo. Pois nem mesmo uma arma apontada a minha cabeça fazia-me tremer. Seria esse o poder do lobo? Causar o pânico e destruir a arrogância vampírica? Fazer-nos desejar piedade?

Continuou caminhando calmamente, ele sabia que não poderia fugir, que não precisaria correr para me matar, e, acima de tudo, ele sabia como fazer um vampiro temê-lo. A cada passo que dava, sentia mais falta de ar. Dei-me conta de quão miserável era, não consegui enfrentar tal criatura, eu deveria estar mais preparado.

Em um último esforço de vida, retirei o casaco e arremessei-o em sua cabeça. Enquanto estava distraído, corri o máximo de pude, mas logo o ouvi uivar. Entrei em um beco e logo ele surgiu, encurralou-me. Eu sabia que dessa vez não seria poupado, fora coincidência não ser atacado naquela noite. Talvez a loba e seus filhotes que me protegiam não me aceitava mais como amigo, afinam, tornei-me mau e perverso. E esse monstruoso animal houvesse percebido tal fato. Os lobos são os cães dos anjos, então deveriam eliminar os demônios, e eu havia me tornado tal, o sangue que corria em minhas veias era negro, mas isso não fazia de mim algo a ser perseguido. Fora minha sede de vingança, meu desejo de morte, fora isso que o lobo caçava em mim, mas reflito hoje, vejo que me arrependi de meus atos, pois nessa noite, tomado pelo medo, vi-me morto enquanto o Drácula gargalhava ao ler os jornais. Mas nada poderia fazer contra àquela fera que aos poucos se aproximava.

— Há um grupo que também deseja a morte do teu malfeitor. – Disse um homem que surgira atrás do lobo, um Werckinberrevich. — Estamos observando teus movimentos há algum tempo, senhor do rosto indigno.

Apontou uma arma ao lobo e disparou. Sem reação o animal caiu ao chão. O homem caminhou em minha direção e estendeu a mão. Ajudou-me a levantar.

— Estou desapontado, meu caro Edmund, poderia tê-la matado sem torturá-la.

— A quem se refere?

— À Jessica. Mesmo que seu caminho houvesse sido a morte, deveriam tê-la assassinado dignamente.

— O que queres dizer?

— Ela era inocente. Mas não contarei a ti sobre, todavia, estou profundamente desapontado.

— Por que deveria confiar em ti? És um Werckinberrevich. O superior do Bruno.

— Estou lisonjeado que lembras de mim, em um beco como esse há um mês. Mas vejo que perdeu tuas armas e teu casaco com prata.

— Diga-me, o que está acontecendo. – Sentei-me no chão e encostei-me na parede. — Dissestes que desejas a cabeça do Drácula. O que queres dizer?

— Exatamente o que disse, sabe, meu caro Edmund, não tens o conhecimento sobre a história não contada do país. Achas que sempre houveram Werckinberrevichs nesse país? Vamos encontrar a tua companheira, explicarei no caminho, mas saiba que terás duas escolhas, a primeira, ouvir nossa história e entrar no grupo, ou morrer aqui mesmo.

— Queres usar-me?

— Por que não? Seria uma boa ferramenta. Mas já és usado pelos Black Night.... Antes que respondas, lembrarei das escolhas. Se queres se vingar do teu homem, certamente pode fazê-lo vivo, então não se trata apenas se duas escolhas, pois, sei qual deves tomar.

— De que serventia seria eu ao teu grupo? Como sei se falas a verdade?

— Decidas se é verdade. Quanto a serventia, bem. Nosso grupo é pequeno, então qualquer novo membro é bem-vindo, mesmo sendo um inimigo.

— Vejo-me tão encurralado agora quanto estava há pouco com o lobo. Vamos buscar Carmelia.

Caminhamos em direção aonde ela havia capotado o caminhão, ao me ver veio ao meu encontro. Estava repleta de ferimentos, felizmente eram leves. Abraçou-me fortemente e beijou-me todo o rosto.

— Como livrou-se daquele monstro? Quem é esse ao teu lado?

— Sou Adrian, e sou quem salvou o teu amante. – Curvou-se e beijou a mão da Carmelia. — Perdoem-me, mas devemos regressar, o lobo não morrera. Logo acordará e nos perseguirá.

Caminhamos por algumas quadras até entrar no cassino As de espada, percorremos os corredores repletos de mesas de jogo. As cartas voavam sobre o veludo verde e as fixas faziam a polca dos jogos. Os dados dançavam sobre a mesa e as bebidas pairavam sobre bandejas de prata guiadas por habilidosos garçons. Mas não íamos jogar, seguimos Adrian até um corredor. Nas laterais haviam as portas que davam aceso aos banheiros, seguindo mais à frente havia outra porta, de madeira negra com desenhos em metal. Paramos em frente a ela.

— Nosso grupo precisa do senhor, com uma boa influência e o teu dom. Esses fatores são muito importantes, mas alerto-te que podem não te aceitar por já seres um vagante da noite.

— Se precisarem de mim, aceitar-me-ão. Não me importo de participar desse grupo, com algumas condições. Compreendo que tenho que as dizer ao chefe da família, mas adiantarei agora. Condiciono minha entrada com duas clausulas. A primeira, não me controlem, tenho meus planos de vingança com um ser em comum, então não desejo que me atrapalhem, ou que me impeçam. A segunda, que é um alerta, assassinarei qualquer vampiro que eu não gostar, independente da casa, se é Schattenkrieger ou Werckinberrevich. Além disso, desejo estudar como faz-se alguns procedimentos com vampiros, então, todos estão sujeitos a serem capturados. Mas antes que me questione, diga-me, se eu reconhecer aliados, poderei livrá-los do meu julgamento. Como reconheço-os?

— Faças como desejar, já fora de grande ajuda quando capturou Walther e descobriu os tuneis que levam à base dos Werckinberrevichs. Se queres nos reconhecer, veja nossas mãos.

— Um anel? – Perguntei.

— Exato, e esse anel apresenta a casa e também a hierarquia do membro.

— Entendo, assim como as tatuagens do Black Night e do Clube da luta. Nunca houvera notado isso, então já assassinara vários dos seus companheiros, talvez. Descobri há pouco tempo sobre as diferentes casas.

— A partir dessa porta, está o corredor que leva à sala de julgamento.

— Parece-me que será como quando entrei no Black Night. – Sorri.

Abriu a porta e entramos. Era um corredor simples, de concreto cinza, algumas lâmpadas iluminavam o lugar.

— Edmund. – Chamou Carmelia. — Talvez eles saibam o que desejamos saber. Parece uma casa muito antiga.

— E é. – Intrometeu-se Adrian. — Transformei-me em vampiro na guerra da França contra Inglaterra. Mesmo assim essa casa já existia. Também havia outras menores, mas elas foram anexadas a essa.

— Quando perderam o poder? – Perguntou ela.

— No final do século XIX. Estávamos enfraquecidos por conta dos grupos de caçadores, nesse momento os Werckinberrevichs assumiram o poder das casas vampíricas.

— Fora nesse século. – Intrometi-me. — Que o Black Night fora formado.

— Esse grupo é oriundo da unificação de dois grandes grupos de caça. Não me recordo seus nomes.

— Entendo. – Disse Carmelia. — Desde então lutam para recuperar o poder. É uma guerra de três forças. Infelizmente sem possibilidade de haver aliados.

— Estamos quase chegando. – Proclamou Adrian.

Passamos por alguns corredores e cruzamos outros até nos encontrarmos com outra porta, essa vez de aço fundido, havia um grande escudo da casa. A porta se abriu e entramos.

Era uma grande sala circular. No centro havia uma cadeira e ao redor alguns acentos para testemunhas, aproximadamente cem lugares, à frente havia dois acentos, um elevado e outro menor. Os moveis eram de madeira vermelha, à frente da grande cadeira havia uma mesa com o mesmo escudo da casa. A sala estava vazia.

— Sente-se na cadeira do centro. – Pediu ele. — Carmelia ficará ao meu lado.

Sentei-me e pus-me a esperar a movimentação. Após alguns minutos, ouvi pessoas caminharem e logo todos os lugares estavam ocupados. Muitas pessoas, era muito diferente dos julgamentos dos Black Night, feitos com um número mínimo. Apesar de inúmeras vezes ser alvo da imprensa, ter incontáveis olhos voltados a mim, senti-me desconfortável com tal situação. Dirigi o olhar à grande cadeira onde estava uma mulher, uma bela mulher. Cabelo vermelho-alaranjado, pele banca como mármore. Mas o que me chamou mais a atenção fora seus olhos. Olhos finos e frios, mas a íris era intensamente rubra como rubi. Senti-me fascinado por aqueles olhos. Ela fitava-me em silêncio com semblante delineado sério, como uma senhora que olha seu escravo antes de ordenar-lhe algo. Realmente, senti-me acuado diante de tal provocação. Por alguns minutos esse silencio durou até essa bela mulher falar.

— O que um Romanova faz aqui? – Perguntou. — Acreditava que toda a linhagem houvesse sido obliterada. Diga-me, por que vives?

— Por vingança. – Respondi-lhe. — Sinto em te desapontar, mas não sou um Romanova.

— Todos que andavam sob a luz solar eram Romanova, nenhuma outra casa possuía tal dom. – Apoiou seu belo rosto sobre as mãos. — Então vives por vingança? Eu fora notificada que tu desejavas entrar nessa casa por esse motivo, mas isso parece-me vago.

— Perdoe-me, mas eu não solicitei a incorporação, eu fora convidado a entrar.

— Ah sim. – Sorriu. — Foi enganado. Contudo, não façamos desse momento um desperdício. Vejo também que estás acompanhado de uma humana, quem seria?

— Carmelia, minha assistente. Pretendo transformá-la em uma vampira nobre.

A mulher gargalhou. — E como o fará? Nenhum nobre dará sua vida a alguém que não tem afeto. Não perca teu tempo.

— Não o farei por meio de vontade, forçarei o procedimento. Coincidência, quiçá, cá estou na primeira noite de captura.

— Desejas estudar o comportamento das transformações e fazê-la artificialmente? Maravilhoso, adoraria ver o resultado. – Sorriu. — Arriscará a vida dessa mulher por uma simples vingança?

— Sim. Enquanto retribuo seu amor, ela me dá a sua vida.

— Interessante, muito interessante. Estou realmente emocionada com tal desejo. Vejo que carregas uma máscara nas mãos, seria tu mesmo o homem da máscara azul que assassina todos os vampiros que vê?

— Não só, já também poupei vários.

— Eu deveria te matar agora, mas gostei de ti, gostei muito. Vingança, uma bela e doce arte que se degusta aos poucos. Diga-me, apenas por vingança assassinas os vampiros?

— Informações, preciso delas

— Realmente és um homem fantástico.

— Parece que já provara desse prato.

— Quem sabe, talvez haja provado desse delicioso caminho. O que desejas fazer depois?

— Suicídio, talvez.

— Desperdício. Não queres viver comigo depois?

— Adoraria acompanhar-te por uma longa vida ao teu lado, mas meu coração ama uma mulher, uma mulher que não perde em beleza a ti e que possuíra meu amor.

— Diz que não amas ninguém? Que não amou outra depois dela?

— Apaixonei-me pela mulher que me transformou em um vampiro.

— A que te acompanha, não a ama?

— Retribuo seu amor por mim, não quer dizer que eu a ame.

— Muito rude da tua parte, brincar com o coração das mulheres ao teu bel prazer. – Cruzou as pernas e empinou o nariz.

— Poderia aprender como fazer melhor com a vossa senhoria, madame.

— Que ultrajante, não tens medo?

— Todos têm medo de enfrentar a morte, mas alguns não desejam chorar pela vida.

— São palavras de um velho senhor ou algum monge.

— Chamam-me me morte azul, talvez essas sejam apenas as palavras de um assassino.

— Um belo assassino, mas não posso ignorar o fato de teres matado meus subordinados.

— Então estou condenado? Ou a minha companheira?

— Ela é fundamental à tua vingança?

— Indispensável.

— Então não te punirei.

Os cochichos começaram até um homem se levantar e dizer.

— Não permitiremos que esse homem saia impune, ainda mais enquanto tenta entrar na nossa casa, talvez seja um espião. – Refutou um membro.

— Como provo que não sou? – Perguntei ao homem.

— Assassine essa mulher, tua companheira.

— Ela é necessária a fim de cumprir minha vingança. Achas que a matarei? Estás louco?

— Uma mulher não pode ser de extrema importância para esse plano.

— Então faça-se correta a tua presença e desapareça, pois não deves ser importante.

— O que disse?

— Acalmem-se. – Ordenou a chefe. — Devo dizer que estou desapontada com teu argumento, Arnold

— Defenderás esse homem? Esse inimigo? – Afirmou ele.

— Se me tens como inimigo, pense o que quiser, mas minha vingança não dá lugar a lados ou times, se for viável, assumirei qualquer posição. Assumindo dois lados ou nenhum deles.

— Maravilhoso, maravilhoso. – Exclamou a mulher. — Senhor Edmund. Ofereço-te a oportunidade de realizar a tua vingança, temos um inimigo em comum, mesmo nós sendo inimigos, creio que reconhecerá os membros desse grupo e poupar-lhes-á a vida.

— Infelizmente não prometo poupar-lhes a vida. Se eu julgar que sejam melhores mortos, assim farei.

Ela suspiros e perguntou. — Então não poupará nossos membros?

— Se merecerem viver, sim. Eu assassinei pessoas inocentes e deixei impune os vilões apenas por serem humanos. Não importa quem sejam, humanos ou vampiros, Werckinberrevichs ou Schattenkrieger. Eu participo de um grupo de caça, mas não quer dizer que eu siga seus ideais, meu ideal é a vingança, mas não posso permitir atrocidades das quais vejo diariamente.

— Diz-me que julgará o inimigo, és um juiz?

— Talvez seja. Inicialmente não pretendia assassinar humanos, mas ignorei essa ideia ao executar um mal julgamento fundamentado em tal regra, vejo então que humanos também são maus como os vampiros e alguns vampiros são bons, mas quem sou eu para julgar o que é certo e o que é errado? Por isso, esses assassinados sempre estão no lugar errado e na hora errada, pois então sob minha jurisdição, além disso, sou o Duque-Marquês desse ducado, não posso permitir crimes nesse local, então tenho o direito de executar meus julgamentos livremente sob essa terra. Creio assim, que não tenho lado perante as gangues e os monstros que abitam meus domínios. Apenas faço o que acredito ser certo. Já que não favorito mais por um lado.

— Audacioso, arrogante. – Gargalhou. — Achas que pode ter o mesmo poder que o meu? Sou uma Eva. Tenho mais de 1000 anos, achas que um mero recém-transformado pode passar por cima da minha casa?

— Jamais tentaria tal ato. Reconheço minha insignificância, porém, não vejo motivos de discordares dos meus atos. Como disse um homem que conheci pouco antes de poupar-me a vida. "Essa é a única guerra da qual vale a pena lutar".

— Então não desejas unir-se a nós?

— Por que recusaria? Como disseste, procuramos um inimigo em comum, aliados são de extrema importância. Apreciaria apenas poder fazer o que desejar.

— E queres que ignore os assassinatos de membros desse grupo?

— Os fins justificam os meios. Creio que se eu cumprir minha vingança, não se importarão pelos homicídios que farei.

— Mas, se falhares? Morrerá?

— Exato, madame. Pois, se não sou apto a cumprir minha promessa à minha esposa, do que mais serei capaz de fazer? Viver como um demônio?

— É uma vida muito boa, bem... Reconheço esse moralismo, não entremos em tais detalhes. Diga-me, és o único que ousara falar desse modo comigo, não tens medo de morrer?

— Como disse anteriormente. Não chorarei pela minha vida, minha amada mulher não gostaria de ter amado um covarde.

— Amas muito essa mulher, não é mesmo? invejo-a. – Levantou-se e escorou-se sobre a mesa a sua frente. — Se prometeres ser meu, poderei fazer com que consigas tua vingança.

— O que estás dizendo? – Perguntou outra testemunha.

— Estou dizendo que desejo este homem.

O que eram cochichos tornaram-se uma intensa discussão. Realmente senti-me encurralado, não poderia negar o desejo dessa mulher.

— O que achas dessa ideia? – Perguntou ela.

— Visto que não possuo outra alternativa, aceitarei teu desejo.

— Então tens o direito de fazeres o que desejas, assassine quem desejar, ou sequestre, faças como bem entender.