Memórias de vidro
14 Compreendo perfeitamente, mas ame alguém que possa amar-te em troca.
Estávamos eu e Daniela sentados no banco do parque onde a levei pela primeira vez. As flores apresentavam sua fugacidade, seus brotos e suas cores. O sibilar da brisa soava como uma lira, dançava com as folhas e o caule das flores.
Deitei-me no banco e apoiei minha cabeça sobre o colo de Daniela, desta vez não para chorar, apenas apreciar o céu azul repleto de nuvens e ouvir o vento.
— Algum dia quando ter filhos, trar-lhes-ei aqui. — Sorri.
— Eu adoraria fazer o mesmo, mas não posso das a luz a uma criança. – Disse cabisbaixa.
— Porquê?
— Sou infértil.
— Entendo. Desculpe chegar a esse assunto.
— Tudo bem.
— É engraçado como agora que descobri sobre os Werckinberrevich, após algumas semanas não me espanta. Sempre li histórias na literatura sobre vampiros. — Sorri. — Talvez ainda esteja em choque.
— Não te culpo, é, de fato, algo totalmente distinto de tua realidade.
— Posso perguntar algumas coisas sobre?
— Pode.
— Não tens os caninos alongados. Porquê? — Perguntei calmamente.
— Meu pai serrou-os para que pudesse viver em sociedade. O dom concedido a mim é único.
— Como assim? Acreditava que todos os mestiços pudessem andar sob a luz solar.
Riu delicadamente. — Não, os mestiços não podem. Entre os Werckinberrevich e outras famílias existem duas subespécies, os nobres e os reprodutores. Sou uma nobre e, todos os nobres possuem um dom.
— Como possibilidade de andar sob a luz solar?
— Exatamente. Sou a única que possui essa habilidade.
— Isso explica muitas coisas. — Sorri. — Teu colar, funciona como ferramenta para suprir a perda das presas?
— Sim. Isso é constrangedor.
— Perdoe-me por perguntar isso, mas de quantos humanos bebera o sangue?
— Um apenas.
— Eu?
— Sim. Sempre bebi o sangue de vampiros. Meu pai me criou assim. Até de ter atacado uma mulher uma vez, então fui expulsa da vila.
— Por isso começaste a trabalhar aqui?
— Sim. Quanto a ter experimentado o sangue humano. Não poderei parar de ingeri-lo.
— Porquê? – Perguntei preocupado.
— Agora que provei o teu sangue, tornei-me uma vampira de fato. Até então o sangue de outros vampiros servia para me nutrir, faziam com que não morresse. Agora que provei de sangue humano, não é o sangue vampírico que irá me alimentar. Ao menos, por ser mestiça não necessito de uma grande quantidade. — Disse com semblante triste. — Ao menos não envelhecerei. — Sorriu tentando animar-se.
— Entendo. Desculpe fazer-te dizer tudo isso.
Fechei os olhos e senti a brisa me acariciar. Daniela passou sua mão leve e macia sobre meu rosto e me afagou por alguns instantes.
Não poderia negar o receio de todas aquelas informações, sentia-me inseguro quanto a ela e eu. Despertei nela algo que retirara de dentro da esfera humana. Senti-me culpado.
— Qual é o gosto do meu sangue? — Perguntei extasiado.
Ela riu sutilmente. — O mesmo gosto de um Werckinberrevich, porém, mais suave.
— Entendo.
— Espantei-me por provar meu sangue.
— Gostei do sabor, é diferente no sangue humano. — Sorri. — Vou prová-lo novamente.
Levantei-me e sentei ao seu nado.
— Quero visitar teu pai.
— Por quê?
— Gostaria de conhecê-lo.
— Mas não poderei pisar na vila. — Estatelou os olhos e deprimiu-se.
— Apenas venha.
Daniela nunca negaria uma proposta como essa. Logo que voltamos para a minha casa, arrumei minha bagagem, desci à sala de chá e encontrei-me com Elizabeth.
— Vão viajar?
— Sim. Visitarei uma vila.
— Está bem, porém, não esqueças do baile real.
— Perfeitamente, A propósito, triplicarei a segurança da casa enquanto estiver fora.
— Por qual motivo?
— Não posso contar. Apenas pense que tem de estar segura.
— Entendi. Boa viagem. — Abraçou-me.
— Obrigado. Levarei Daniela comigo.
— Sempre estão juntos. Espero que te faça bem e ajude-te a superar o luto.
— Jamais deixarei de amar Cecília.
— Compreendo perfeitamente, mas ame alguém que possa amar-te em troca. — Sorriu. — Não quero te ofender. Se estás se aproximando de Daniela e ela te consola, então eu permito que a ame futuramente.
— Obrigado. — Estava profundamente agradecido por tais palavras.
Fui à porta, Daniela carregara uma pequena bolça com suprimentos simples, sem vestimentas ou algo parecido.
— Pegou as armas?
— Sim. Estão no carro.
Entramos no carro. — Leve-nos à estação principal. – Ordenei ao motorista.
Era aproximadamente uma hora da tarde quando saímos. O trajeto até a estação era tortuosamente caótico, as obras atrapalhavam a passagem. Demoramos quase uma hora até chegarmos. Estava cheia de pessoas andando a todos os lados e em todas as direções. Como de praxe, logo que descemos do carro uma multidão cercou-nos. Fora preciso agilidade e força para andar. Não me dei ao luxo de dispor diplomaticamente ali, meus interesses eram outros. Logo que notaram a situação, os seguranças aproximaram-se e nos cercaram a fim de facilitar nossa jornada e desobstruir o local, assim interrompendo o contato com o público. Seguimos diretamente a bilheteria. Compramos duas passagens para o trem seguindo à estação central de Lognorth, situada no condado de Lucilene. O trem era movido à gasolina, podia-se ouvir seu motor há muitos metros de distância, realmente forte e potente.
Entramos no trem. Os vagões eram grandes e largos, madeira pintada de rubro, o ferro estrutural banhado em polidez prateada e o tapete carmesim. Estávamos na primeira classe, as cabines eram espaçosas, possuíam dois bancos preenchendo as laterais, eram acolchoadas com espuma e revestidos por couro negro, havia uma ampla janela que fornecia uma bela vista.
— Esta é nossa cabine. — Afirmei.
Entramos, depositamos a bagagem no chão e sentamos.
— Desejam algo, senhor, senhora? — Perguntou um mordomo.
— Gostaria de alguns chocolates. — Pedi. — Queres o que, Daniela?
— O mesmo.
— Dois chocolates, por gentileza.
— Como queiram. Um instante apenas.
Fechou a porta da cabine. A madeira grossa e a distância da locomotiva diminuíram drasticamente os ruídos. Relaxei-me no banco e suspirei.
— Não entro em um trem há alguns anos. — Acredito que a última vez fora com meu pai.
— Eu também.
— Quando viu teu pai pela última vez?
— Poucos dias antes de tua festa de noivado.
— Lembro que naquela tarde estavas deitada sobre os campos de margarida.
— Estava. — Sorriu. — Reparou em mim?
— Sim. Fiquei surpreso quando entraste em meu quarto e fora anunciada como minha criada.
Daniela fechou os olhos. Seu semblante era calmo e pacifico. O sol iluminara seu cabelo dourado. O trem começara a se locomover lentamente e aos poucos, fora acelerando.
— É bonito, não é? — Disse ela. Admirando a paisagem férrea.
— É sim.
Não demorou até os chocolates chegarem, trufas recheadas com cremes de uva, morango e menta.
— Os meus favoritos são os de menta. Ainda mais com esse calor. — Sorri.
— Gosto mais dos morangos, porém, como dissestes, nesse calor é melhor a menta.
Eram chocolates amargos de 90% cacau. Seu sabor contrastante destacava o amargo do morango e a doçura da uva, tais suculentas e maduras.
— Gostaria de vinho. — Pedi ao garçom. — Duas taças, por gentileza.
— Como queira, meu senhor.
Demorou alguns minutos até retornar.
— Não beberei muito. — Disse Daniela.
— Não sejas tímida. — Sorri.
Bebemos, mas bebi a maior parte.
— Teu fígado deve te detesta.
— Estou testando-o para constatar se é digno de estar dentro de meu corpo. — Brinquei.
— Convencido.
Encostei-me na parede e deleitei-me em meio ao tedio. Após algumas horas, chegamos na estação de Lucilene. Estava tão diferente de quando fora pela última vez. Até alguns anos sua estrutura era de madeira e ferro e estavam um tanto quanto enferrujadas. Era pequena também, suportava quatro trens apenas. Surpreendi-me ao vê-la reformada, as madeiras velhas deram lugar a novas, o ferro fora trocado por aço polido, suportava até seis trens. Ao reparar quando chegara, notei a sublime mudança, apesar de nada comparada ao lado de dentro. Quando desembarquei abismei-me. O piso de mármore branco brilhava sua polidez e refletia as pessoas. Um salão redondo fora construído, circunscrevendo-o jaziam as bilheterias. No centro havia um grande relógio de ponteiros grandes e torneados apresentando as horas em algarismos romanos.
— Belo lugar.
— Sim, é lindo. – Corroborou.
Partimos à bilheteria e compramos outra passagem à estação de Panz. O trem que seguia para lá era menor. Apresentava apenas primeira, terceira e quinta classe.
Entramos no trem e partimos à cabine.
A viagem foi curta, apenas quarenta minutos até chegarmos. A estação era pequena e suportava apenas dois trens, desembarcamos e seguimos aos taxis. Pegamos o primeiro que avistamos.
As ruas eram piores que as de Morryes, os carros tinham que ser fortes para suportar a estrada tortuosa de Panz. Uma vila pequena e pacata, isso explica Daniela ter sido banida por quase assassinar alguém. Não demorou até chegarmos na casa do Barão.
Bela casa, não tão rica, porém, bem-acabada e suas dimensões eram grandes. Uma boa casa, digna do padrão da vila. Quando chegamos ao portão fui interrogado por um guarda.
— Quem é. — Perguntou ele.
— Edmund de Morryes.
— Comunicarei o Barão. Peço um instante. — Discou um número no telefone, anunciou-me ao Barão que permitiu a entrada. — Obrigado pela visita, desculpe, não fui informado que viria.
— Não informei ninguém. — Respondi.
Entramos na propriedade. O carro estacionou em frente à porta principal. Alguns segundos depois surgiu o Barão de Panz, um homem alto, não era velho, parecia ser saudável e forte, exatamente como me lembro na festa do meu noivado, contudo, não conversamos muito naquele dia. Sai do carro e logo atrás saiu Daniela. Caminhamos calmamente até ele.
— É uma honra recebê-lo em minha humilde vila. — Disse ele ao estender a mão.
Cumprimentei-o. — É um prazer vir.
Não conseguiu esconder o sorriso ao ver sua filha.
— Daniela, por que estás aqui? — Abraçou-a.
— Sou assistente e segurança particular do Duque-Marquês de Morryes. — Respondeu sorrindo.
— Viram-se a última vez em meu noivado, correto?
— Sim. — Respondeu ele. — A propósito, meus pêsames pela tua perda.
— Obrigado. É bom receber condolências de alguém que já sentiu exatamente a mesma dor.
Daniela encaixou-se ao braço do pai.
— Entrem. — Pediu Josef.
Entramos na sua casa. O assoalho era de madeira escura, moveis antigos, era uma casa antiga. Soube que havia ganhado por herança do último Barão que não tinha herdeiros.
Seguimos à sala de visitas, sentei-me no sofá e ele com Daniela em outro.
— Ao que devo a honra? — Perguntou.
— Apenas gostaria de conhecer-te pessoalmente. — Sorri.
— Sinto-me lisonjeado. Deseja beber algo?
— Não, obrigado. Eu e tua filha bebemos uma garrafa de vinho enquanto vínhamos. O que mais apreciaria é não precisar me levantar desse confortável sofá.
— Entendo. Fora uma longa e cansativa viagem, podem descansar o quanto desejarem.
— Aprecio a gentileza, não é preciso ser formal. — Pedi. — Não é uma visita política ou diplomática.
— Estou satisfeito em ver minha filha como tua acompanhante, até então era uma criada.
— Ocorreram muitas coisas. Tua filha é uma das poucas pessoas em quem confio. Apesar de pouco tempo, conheço-a bem. — Sorri.
— Isso é bom. — Devolveu-me o sorri.
— Soube que herdou o título de Barão, gostaria de ouvir a história.
— é uma história não muito atrativa.
— Conte, estou exausto, assim podemos relaxar sem ter que deixa-lo só aqui. – Sorri.
— Então contarei.
Ajeitou-se confortavelmente e pôs-se a falar.
— Em 1902 fugimos, eu e Margareh, do império russo. Após sair do país com uma caravana de mercadores migrando à Noruega vimos que Margareh estava gravida, então tive de encontrar um emprego rapidamente, tal que não exigisse o idioma local. Trabalhei como marceneiro. Economizei dinheiro e viemos à Burtchendill. Desembarcamos no pontal de Logmor e migramos de vila em vila e cidade em cidade. A primeira fora a própria Logmor, onde consegui um emprego de carregador no porto, sem saber falar português, encarreguei-me de carregar e descarregar embarcações. Até conhecer um homem que falava meu idioma, um marinheiro aposentado, seu nome era David, um homem forte e sério, mas divertido e inteligente. Aos poucos fora aprendendo o básico do português e pude me comunicar com as pessoas ao redor. Após dois anos, em 1904, viajamos para um vilarejo sem nome. Vivemos por cinco anos lá. Em 1909 fomos à Collins, Daniela já tinha seis anos. Minha esposa, mãe de Daniela falecera, por esse motivo decidi sair da vila. Ficamos pouco tempo em Collins e fomos à vila de Panz. Tornei-me um criado da família Panz, mas era apenas um Barão sem herdeiros. O Barão, após alguns anos, faleceu e me deixou o título. Recebi-o com esse sobrenome por não ter um de nascença.— Pausou a história. — Algum outro dia conto-te os detalhes.
— Intrigante a tua história.
— Obrigado, fora uma longa jornada.
Levantamos e seguimos à mesa de jantar já escurecia, o céu apresentava mais estrelas, assim como em Collins. Era maravilhoso deitar sobre a grama macia e admirar os pontos de luz granulados no céu.
Após o jantar levantei-me e fui à sacada do quarto onde estava hospedado. Escorei-me na beirada e cai em devaneios.
— Estás sonhando? — Perguntou Daniela caminhando em minha direção.
— Estava. — Respondi. — Queres sonhar também? Esta sacada é espaçosa. — Sorri.
Escorou-se no meu lado.
— Por que estás fazendo isso? — Perguntou ela.
— Não sei. Sinceramente não sei.
Seu cabelo dissolvia o dourado em prata, sua pele branca realçava os lábios levemente vermelhos, o pescoço fino e desenhado. Fora uma das imagens mais belas que guardei de Daniela. O sorriso que entorpeceu meus sentidos, mas nesse torpor senti-me bem.
— Estás linda.
— Obrigada. — Sorriu corada.
Olhei o horizonte, havia um trem veloz percorrendo seu caminho na estrada de ferro que refletia a luz da lua e fazia desse ferro uma linha branca em meio a paisagem campestre. Fechei os olhos e suspirei tão fundo quanto meus pulmões suportavam.
Não sei descrever o que me fez agir assim. Simplesmente abracei Daniela apertadamente e senti seu cheiro. Ela correspondeu me abraçando. Firmei-a junto a mim. Senti seu coração bater rapidamente e seu corpo tornar-se mais quente. Abracei-a forte, porém, não sabia o que me levara a isso. Dei-lhe uma mordida leve no pescoço e beijei-o logo em seguida. Seu coração batia mais rápido, sentia o meu acelerar também. Beijei seus lábios macios, apertou seu abraço e beijou-me de volta. Demos passos calmos pelo quarto. Quando de repente caí na cama. Desamarrei o nó de seu vestido e ela desabotoou minha camisa.
Deixei-me levar pelo momento.
Acordei pela manhã, Daniela dormia com a cabeça sobre meu peito.
Levantei e vesti-me formalmente. Logo que terminei ela acordou.
— Bom dia.
— Bom dia. — Disse enrolando-se no cobertor de pelo.
— Já é tarde. Não sei como olhar teu pai agora.
— É constrangedor. — Disse ela. — Mas aconteceu.
Sorri. — Arrume-se, vamos descer.
Não sabia como encarar seu pai. Quando o encontrei, olhou-me como se nada houvesse acontecido, porém, sabia o que ocorrera.
— Bom dia, senhor Panz.
— Bom dia. Não sabia que tinham esse tipo de relacionamento. — Disse ele.
— Não tínhamos. — Respondi.
Após comermos levantei-me.
— O senhor possui algum campo aberto atrás da casa?
— Possuo. Por quê?
— Treinaremos um pouco.
— Treinaremos? — Perguntou Daniela.
Olhei-a nos olhos. Não poderia simplesmente entrar em um assunto delicado como os Werckinberrevich. Deveria desviá-lo o mais longe possível, no entanto, cruzar alguns pontos que nos favoreça a possibilidade de fazê-lo. Daniela entendeu o que eu procurava saber.
— Iremos sim. — Concordou.
— Ótimo.
Fui ao quarto, e com ajuda de um criado de Panz, levamos a mala aos fundos. Era um campo aberto simples, apenas grama e algumas árvores. Posicionamos uma mesa perto da casa e uma silhueta de ferro há cem metros. Abrimos a mala ao lado da mesa, haviam o rifle de Daniela e o meu, uma metralhadora, munição para elas e mais munição para pistolas, havia também dois carregadores sobressalentes de cada exemplar.
— O que é isso? — Perguntou Josef.
— Daniela é minha segurança também. — Proclamei.
— Entendo. Mas por que armas desse porte?
Apossei-me de meu rifle e carreguei-o. — Pegue. Acredito que saiba usar.
Pegou e averiguou-o. — Nunca vira tal rifle. Qual país forneceu?
— É um presente da fábrica de armas que está se instalando em Morryes.
— Não sabia que havia uma empresa de armamento bélico em Burtchendill.
— Ainda não está ativa em seu potencial, então apenas fabricando armas artesanais, como essa em sua mão.
— Realmente, uma bela arma. Se fora fabricada artesanalmente, a equipe que a forjou era experiente, alguém com anos de experiência no ramo.
— Entendo...
— És um perito. Em qual divisão serviu no império?
— Infantaria.
— Gostaria de ver-te atirar. — Disse cordialmente.
— Estou enferrujado. — Sorriu.
— Vejas tua filha então.
Daniela carregou seu rifle e municiou o cano com uma ferrolhada rápida, alinhou a alça e massa, prendeu a respiração e apertou o gatilho. Acertou pouco acima da base do alvo metálico.
— Ela é boa nisso. – Afirmei.
— É mesmo. — Concordou Josef.
Ele segurou a arma contra o ombro, engatilhou-a. Seu movimento não tão rápido por não estar acostumado com o rifle, ao menos no início. Alinhou as miras de ferro e atirou. Errou o primeiro disparo.
— Bela arma. — Disse. — É diferente das que eu usava no império. O gatilho é mais macio, com isso aumenta a precisão. — Admirou-a.
— Realmente, experimente essa então. — Dei-lhe a metralhadora automática.
Mirou e disparou como uma semiautomática.
— Só segurar o gatilho. — Afirmei rindo.
— Entendi. — Assim o fez, projetou uma rajada de três projéteis. — É incrível.
— É sim. Apresentarei as pistolas. — Retirei-a de meu coldre.
— Bela. — Cortejou-a.
Pegou e analisou-a, puxou o ferrolho e alavancou o retém do mesmo a fim de travá-lo. Olhou o cano e o mecanismo superficial. Carregou e engatilhou-a, assim a municiando. Posicionou-se e disparou duas vezes seguidas. Uma pistola jamais acertaria um alvo tão distante quando sendo manuseada por alguém que não pratica, no caso de Josef, esqueceu a técnica.
— Por que as comprou, senhor?
— Estamos sendo perseguidos. — Disse diretamente.
Sua reação fora mais profunda do que apenas espanto. Apenas extasiou-se como se acreditasse ser mentira.
— Por quem?
— Não sei ao certo. Tu sabes de alguém que possa ter algum passado com Daniela?
— Não, não pode ser isso.
— Isso o quê?
— O senhor também está sendo cobiçado. Por esse motivo treinam. Agora entendo, faz bem, meu senhor. – Disse ele.
— Permite-me perguntar algumas coisas?
— Claro! O que seria?
— Daniela não é tua filha de sangue não é mesmo? — Indaguei em tom sério.
— Como sabe?
— Apenas um palpite.
Um criado surgiu e anunciou. — Senhores, a mesa está servida.
Entramos para almoçar. Meu interrogatório já começara.
Fora servido carde bovina, suína e equina; dos mais distintos temperos e modalidade de preparo. Havia arroz, massas, molhos. Fora quase como um banquete real.
— Esplêndida a comida. Elogie os cozinheiros. — Afirmei sorrindo.
— É boa, são habilidosos. Acredito ter notado a quantia mínima de sal, desculpe, Daniela não pode ingeri-lo em grande quantidade, devido a isso disponibilizo o saleiro ao lado. — Sorriu.
— Compreendo. Soube disso há algum tempo.
A comida estava realmente saborosa.
— O senhor me permite uma pergunta pessoal?
— Com prazer.
— Não casaste novamente?
— Não. Um homem que cria a filha sozinho, dificilmente se relaciona novamente, ainda mais quando tem tantos afazeres. — Sorriu.
— Perdoe-me a intromissão.
— Não foi nada.
— O senhor é um homem forte, é o que parece. — Sorri.
— Sinto-me lisonjeado.
— Mudando o assunto. Fui à Collins com Daniela a fim de resolver algumas pendencias. Por pouco ela não fora atropelada.
— Não é possível, mas ela se machucou?
— Apenas um corte em sua mão, contudo, teve que costurar.
— Entendo. Espero que esteja melhor.
— Sim, melhorou em pouco tempo, diria um tempo sobre-humano.
Levantei-me e segui a seu gabinete. Sentei-me na cadeira de visita e Josef se sentou em sua poltrona atrás da mesa.
— Parece sério. Deve ser algo importante. — Indagou ele.
— Sim, é, de fato, algo sério.
Retirei da minha cintura o punhal de Werckinberrevich e aposentei-o sobre a mesa. Josef fitou-o extasiado.
— Onde conseguiu isso?
— Andei investigando algumas coisas.
— Entendo, agora entendo o motivo da visita.
— Gostaria de conhecer o senhor e saber mais sobre Daniela e os Werckinberrevich. De quem Daniela é filha?
— Perdoe-me não posso dizer-lhe isso.
— Envolve esfera internacional. — Sorri. — Não se preocupe, Daniela está segura por hora, apenas eu sei quem ela é.
— Assim espero. E quanto as perseguições?
— Quanto ao grupo que a caçava por ser uma vampira, esses já retirei do caminho, não encostarão um dedo nela. O problema é sua própria raça. — Fitei-o. — Quem realmente quer alcançá-la?
— Realmente não sei sobre isso, fugi do império o mais depressa possível, a propósito, Daniela atacou alguém em Morryes?
— Não.
— Então ela não experimentou sangue humano?
— Experimentou o meu.
— Não é possível.
— Não se preocupe, ela não pediu ou atacou, eu cedi a ela.
O telefone tonou. — Um instante apenas. — Atendeu. — Quem deseja? — Passou-me o telefone. — É para o senhor.
— Quem é? — Perguntei. — Como sabem que estou aqui?
— Edmund, volte o mais rápido possível, preciso falar contigo. — Branca demonstrava aflição.
Levantei-me. — Preciso retornar. — Indaguei preocupado. — Desculpe-me não ficar mais.
— Não há problema. Nós veremos novamente. — Sorriu.
— Obrigado.
Sai do gabinete e avisei Daniela. Logo arrumamos a bagagem e chamamos um taxi.
— Obrigado por nos receber, pai. — Disse ela.
— Eu que agradeço. Apreciei a visita. — Abraçou-a. Voltou-se a mim. — Perdoe-me o ultraje, mas cuide de minha filha.
Ri e cumprimentei-o. — Cuidarei sim.
Entramos no carro e partimos.
Ao chegar em casa encontrei-me com Branca que me esperava no gabinete.
— O que houve? — Perguntei.
Jogou o jornal sobre a mesa. — Isso é o que houve.
Havia a manchete sádica na primeira capa "Morryes está em combustão" e seguia o texto jornalístico. Após lê-lo entrei em choque.
— O que é isso? Incêndios são comuns, mas não em pouco tempo. O que está fazendo no comando de Morryes? – Bradou branca.
— O que queres dizer?
— Estás sendo incompetente. — Bradou batendo na mesa.
— O que queres que eu faça? Sabes como estou sobrecarregado.
— Tão sobrecarregado que tem tempo de viajar de um lado ao outro.
— Tu sabes bem o motivo de minhas viagens.
— Quer vingar Cecília; e por isso ignorará tuas responsabilidades?
— Garanto-te que sei o que se passa em Morryes. – Bradei.
Joguei o jornal sobre a mesa e suspirei. — Vamos nos acalmar. Respire fundo e use a cabeça, não partamos à ignorância.
Aquietou-se. — Está bem.
— Eu sei quem incendiou as propriedades. — Confessei.
— Sabe? O que quer dizer com isso?
— Espanta-me que não saiba, tu que sabe tudo.
— Não me provoque.
— Infelizmente não posso contar sobre.
— Como é? Negará verdade a tua mãe?
— Tu não entendes o que se passa, vai muito além de simples gangues.
— Então diga-me.
— Não posso contar.
— Porquê?
— Espere um momento.
Fui ao meu quarto e peguei a caixa onde jazia o punhal que assassinara Cecília. Voltei ao gabinete e aposentei a caixa sobre a mesa.
Abri e com um tecido retirei o objeto.
— Sabes o que é isso? — Perguntei.
— Um punhal.
— Não é um simples punhal. — Retirei o bilhete da caixa e dei-lhe para ler.
— Quem o mandou? — Perguntou ela.
Levantei-me e fiquei em pé olhando a paisagem pela janela. — Sabe mãe, não estou mais atrás do assassino de Cecília. Estrou procurando o mandante do crime.
— O mandante?
— Isso mesmo.
— Mas ao menos localizou o assassino?
— Localizei.
— Quem era?
— Um imigrante russo. Pois bem, interroguei-o, no entanto, suicidou-se com cianeto de potássio.
— O que disse? Não creio que fizeste isso. Onde fora o ocorrido?
— Em uma casa de madeira perto do porto, uma casa que já fora consumida pelo fogo.
— Entendo, então o incêndio perto do porto foi tu que o fizeste?
— Sim, foi eu.
Sua respiração alternou, seu semblante era aterrorizado. — Então é vingança?
— Provavelmente.
Os incêndios queimaram uma casa e uma farmácia. A casa consumida pelas chamas fora a residência dei Tio Zé, o homem que vendia doces. Sua casa fora incinerada com o mesmo dentro, tal como ocorrera com a farmácia que tratou meu ferimento no braço quanto fui alvejado por um projetil, porém, apenas o farmacêutico morreu, aparentemente vivia ele e sua filha no local. A menina fora à casa de uma amiga quando tudo ocorrera.
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