Memórias de vidro

15 As partículas de poeira pairavam no ar para prestigiarem sua beleza.


— Como vai, meu senhor? — Perguntou o chefe de polícia.

— Passo bem, e tu?

— Bem. O que gostaria?

— Desejo encontrar a filha do farmacêutico.

— Entendo. Fora seu pai que te cuidou as feridas. Permitirei que fale com ela.

— Onde ela está?

— Em um orfanato próximo.

— Irei a seu encontro. — Afirmei.

— Irei contigo.

Saímos de seu gabinete e caminhamos pelos corredores agitados do departamento policial. Papeis voavam e pessoas corriam em todas as direções. Após saímos do edifício, seguimos a pé ao orfanato.

Era um prédio de três andares, seus tijolos não eram pintados ou escondidos. Era cercado por muros. Atrás jazia o espaço de diversão dos órfãos. Caminhamos à porta de ferro com um mosaico de vidro que formara uma cruz vermelha. Entramos e seguimos à recepção.

— Gostaria de encontrar a menina nova que fora filha do farmacêutico. — Pedi.

A recepcionista saiu de atrás do balcão e dirigiu-se aos fundos. Não demorou a retornar e pedir que a seguisse. Caminhamos pelo estreito corredor até uma porta de madeira. Era uma sala simples, paredes pintadas de branco, no centro havia uma mesa com quatro cadeiras, duas de um lado e duas do outro.

— Essa é a sala de entrevista. — Disse a recepcionista. — Por favor, sentem-se.

— Esperem um instante. — Saiu da sala.

Ajeitei-me confortavelmente sobre a cadeira.

— O que planeja fazer com a jovem? — Perguntou o delegado.

— Ainda estou decidindo.

Não demorou até a menina entrar. Não havia reparado em seu físico no último encontro. Sua pele branca entrava em um fraco contraste com o castanho de seu longo cabelo, olhos quase de mesma cor do mais fulgente mel, era magra e alta, aparentava ter pouco mais de 17 anos. Sua pele brilhava e as partículas de poeira pairavam no ar para prestigiarem sua beleza.

Sentou-se ao lado da diretora do orfanato.

— Desculpe a visita repentina. — Pedi.

— Não se preocupe, excelentíssimo. — Respondeu a diretora. — Ao que devo a visita?

— Há sete meses que não te vejo. – Voltei-me à garota.

— Parece bem recuperado dos ferimentos. — Indagou ela. — Lembro e entendo que não perguntaste o meu nome.

— Desculpe. Como se chama?

— Carmelia.

— Gostaria de fazer algumas perguntas, poderia?

— Já que estamos aqui, sim.

Eu sabia que o motivo de seu pai falecer fora a morte de Wladimir. Sabia que era vingança envolta de provocação. Poderia dizer-lhes que fora um ato nobre ou algo do gênero, porém, apenas não conseguiria pensar em que eu fora a causa de uma menina perder seu futuro.

— Primeiramente, meus pêsames. Sou muito grato ao teu pai pelo favor que prestou.

— Obrigada. Devolvendo-lhe as condolências, meus pêsames por tua esposa que falecera em abril.

— Obrigado. Vamos ao assunto. — Posicionei-me com os braços sobre a mesa. — Teu pai pagava teu estudo?

— Sim.

Voltei-me à diretora. — O orfanato continuou a pagar seus estudos?

— Não realizamos tal serviço. — Respondeu.

— Entendo — Voltei-me novamente à Carmelia. — Tua linguagem é boa, apesar de necessitar de aperfeiçoamento.

— Obrigada. Sinto-me lisonjeada.

— Interrompeste teus estudos?

— Sim. Não posso pagá-los.

— Quanto ao relato de teu testemunho, trouxe o chefe de polícia. Gostaria de contar sobre o que vistes?

— Estava fora. Não vi nada. — Estatelou os olhos à mesa.

— Deixemos isso para depois. — Proclamei. — Qual era o teu curso?

— Medicina.

— Entendo. Uma boa carreira. Por que escolheste tal curso?

— Sempre adorei medicina, anatomia, coisas como essas.

— Entendo. Ofereço-te uma proposta. Queres ouvi-la?

— Diga.

— Tutelar-te-ei como assistente e trabalharás em minha casa. Ofereço-te uma morada na mesma e se aceitar possibilitar-te-ei teu curso.

O silencio indescritível quase ecoou o som do coração de Carmelia. Apesar se sua postura culta e sua linguagem buscando a erudição, tal qual eu mesmo não uso em ambientes menos formais. Seus olhos rígidos e fortes mostravam-se brilhosos e levemente lubrificados.

— Não poderia aceitar. — Abaixou a cabeça para esconder o pranto.

— Diga sim ou não, por favor.

— Sim.

— Gostaria de saber quando desejas partir. — Indaguei.

— O mais rápido possível.

— Entendo. Então pegue tuas coisas e traga tua bagagem a essa sala. Esperarei aqui.

Saiu da sala. Não conseguiu esconder as lágrimas e o sorriso.

— Qual o motivo? — Perguntou a diretora.

— Nenhum em especial. — Respondi.

— Sabe o que anunciarão na mídia, não é?

— O que queres dizer?

— O senhor casou-se com uma garota de dezesseis anos, tua segurança tem dezessete e Carmelia tem a mesma idade. Isso prejudicará tua imagem.

— Tens razão, mas com eles me acerto depois.

— Infelizmente será prejudicial à tua imagem. — Disse o chefe de polícia.

— De qualquer maneira, prepare os documentos, diretora.

— Como queira. — Respondeu ao sair da sala.

Voltei-me ao chefe de polícia. — Não poderia te contar o real motivo.

— Perdoe-me a insolência, mas tua vida está passível à espionagem, escondes muitos mistérios.

— De fato. — Sorri. — Quando fora alvejado pelo projetil há alguns meses, o pai dessa jovem me acolheu em seu estabelecimento e tratou de meus ferimentos.

— Entendo. Nobre de sua parte.

Após alguns minutos as duas retornaram. Carmelia trazia uma pequena mochila, afinal, fora a única coisa que restou do incêndio, juntamente os pertences que havia levado junto ao sair. A diretora trouxe os documentos.

Li o contrato e assinei-o. Não pretendia demorar ali. Logo levantamos e saímos.

Assinei os documentos como tutor de Carmelia, não registrado pai, diria algo como, padrinho.

Saímos do orfanado. Em frente o chefe de polícia se despediu. Carmelia fitou-me um tanto preocupada.

— Não há necessidade de ser formal comigo. – Pedi.

— Está bem.

Caminhamos a um taxi e seguimos a minha casa. Entramos, logo um criado nos recebeu.

— Quem seria essa, meu senhor?

— Essa é Carmelia, minha nova assistente.

— É um prazer conhecê-la.

— O prazer é meu.

— Deixe sua bagagem no quarto ao lado da Daniela. — Ordenei ao criado.

— Como quiser, meu senhor.

Caminhamos ao meu gabinete. Pedi que chamassem Daniela. Não tardou em chagar.

— O que desejas? Edmund.

— Gostaria que conhecesse Carmelia, minha nova assistente.

— É um prazer. — Cumprimentou-a curvando-se segurando o vestido.

— O prazer é meu. — Respondeu Carmelia realizando o mesmo gesto.

Sentaram-se nas cadeiras em frente à mesa. Sentei-me na poltrona.

— Daniela, desejo falar contigo em segredo depois. Mas antes designaremos as funções das duas. Primeiramente, Carmelia residirá aqui e trabalhará para mim. Apresentem-se. — Pedi.

— Sou estudante de medicina. — Sorriu simpaticamente, até um tanto assustada.

— Sou a assistente e guarda-costas de Edmund.

Tomei a palavra. — Vejamos então a seguinte sugestão. Daniela, tu continuarás a me acompanhar a todos os lados, como fazemos há algum tempo, porém, quando tratar-se de um discurso ou seminário a titular será Carmelia, por sua agilidade nas palavras e formalidade.

— Como queira. — Corroborou Daniela.

— Providenciarei um laboratório para que Carmelia possa estudar.

Seus olhos se iluminaram. Percebi que lhe retirei uma pequena parcela de seu olhar atônito e mergulhado em pêsames.

— Obrigado. — Agradeceu.

— Teu meio de locomoção à universidade será um dos nossos carros com chofer. — Acrescentei.

Levantei-me e dirigi-me ao seu lado.

— Pode não parecer, ao menos a mídia anuncia tal informação, porém, sou ocupado, devo acertar alguns assuntos sigilosos com Daniela. Enquanto isso, vá com a governanta e conheça os outros criados. Depois poderás ir à loja de materiais hospitalares, faça o orçamento e traga, escolha os materiais e maquinário de melhor qualidade.

Levantou-se e saiu sem demora. Voltei-me ao meu lugar e me sentei.

— Por que adotaste ela?

— Dois motivos. Primeiramente eu fui a causa dos dois incêndios, seu pai fora tão gentil quando me acolheu sem ter visto meu rosto. Não poderia carregar a culpa de não ajudar sua filha.

— Qual é o segundo motivo?

— Sua carreira, medicina.

— Acredito entender o que queres dela. — Sorriu.

— Exatamente isso. — Devolvi o sorriso.

— O senhor está mudando.

— Venha cá.

Levantou-se e a deu a volta pela mesa, parou atrás de mim. Peguei um pequeno canivete e cortei meu trapézio, quase no mesmo lugar que o último corte. Uma região que sangra, mas não acarreta hemorragia.

— Beba. Prometi que lhe ofereceria. — Afirmei.

— Quer me comprar? — Riu.

— Não queres então? — Sorri. — Farei um curativo então.

Logo senti seus lábios quentes e húmidos acariciarem levemente meu pescoço.

— Posso perguntar algo? — Pedi.

— Pode.

— Tu podes transmutar um humano em vampiro?

— Posso, mas isso custaria minha vida.

— Porquê?

— Os vampiros nobres não podem reproduzir, essa função é dada pelos reprodutores. Um Werckinberrevich nobre, ao transformar alguém, morre logo em seguida.

— Entendo. Devido a isso és estéril?

— Sim, mas os vampiros nobres homens são férteis e podem reproduzir, no sentido de um filho.

— Entendo.