– E hoje em dia eu leio bem melhor. – Judith disse tentando sorrir, ainda enxugando uma lágrima ou outra que escorria – Achamos um monte daqueles... as coisas com as palavras?

– Livros?

– Esses. O meu irmão tinha alguns – e ao citar Carl, seu rosto se contraiu novamente, Daryl achou que ela fosse recomeçar a chorar, mas ela apenas respirou fundo e forçou um sorriso – que eram bem legais. Ele tinha muitos com imagens do mundo em que vocês viviam.

Era engraçado pensar dessa forma, mas Judith nunca conheceu um mundo livre dos errantes, para ela aquelas coisas letais eram tão normais quanto lobos, leões ou qualquer outro animal selvagem. Daryl ainda não havia contado a ela que partiria em uma missão para recuperar o transmissor do navio, mas imaginava que ela já soubesse. A pequena chutadora de traseiros era uma garota esperta, do tipo que parecia ser impossível esconder algo.

Os dois caminharam pelo lugar até parar numa das alças de acesso para a ala demolida do prédio, onde ficava um caminho para o ancoradouro, um enorme galpão parcialmente intacto. Pessoas andavam de um lado a outro, carregando caixas e consertando peças de um pequeno navio pesqueiro, que parecia de alguma forma, ter sobrevivido aos anos no mar. O navio estava preso por dois braços mecânicos, que o suspendiam da água.

– Em breve vamos para um lugar seguro. Você poderá finalmente descansar Daryl... — e Judith encostou a cabeça em seu ombro, ele passou um dos braços ao redor de seu corpo, a deixando ainda mais perto dele.

– Ainda não aprendi a descansar, Judith. Mas parece algo bom para se fazer.

– Daryl... você nunca a esqueceu, não é?
Ele apenas continuou em silêncio, já imaginando para onde o assunto chegaria.

– A Carol me contava que você nunca mais foi o mesmo depois que a Beth se foi. Eu não me lembro dela, obviamente, mas sei que ela foi uma boa pessoa. Todos nós perdemos os que amamos não é? Acho que é isso o que nos torna tão próximos...

– Como foi com a Carol? – perguntou, e não tinha certeza se realmente queria saber a resposta. Carol tinha um lugar reservado em seu coração, jamais esperou encontrá-la com vida novamente, então foi menos doloroso do que imaginou que seria. A culpa o acertou novamente e por um momento apenas, suas mãos estremeceram.

– Ela foi sorrindo, é só o que sei. Eu não entendo muito das coisas. Faz pouco mais de dois anos, na época estávamos numa estação de tratamento de água. Foi um bom local por um tempo... ainda éramos muitos... haviam muitas crianças.

Carol. Ele não esteve ao seu lado quando ela partiu, ele não cumpriu sua promessa com ela, assim como não pôde proteger Beth. Apesar de fazer tanto tempo que ela partira, a dor ainda queimava dentro dele como se tivesse sido ontem. As vezes quando fechava os olhos, sentia o peso do corpo dela em seus braços.

– Quem é o homem do cachecol? – perguntou apontando para baixo, onde o homem do cachecol vermelho verificava uma caixa com armas e munições.

– Encontramos ele assim que fugimos da estação de tratamento. Ele deixou uma trilha de corpos de carniceiros por onde passou, o achamos quase morto no final dela. Foi ele quem nos mostrou esse lugar e nos contou sobre o lugar frio. Parece que ele espera encontrar alguém lá.

– Ele é bom com armas. Não é um amador.

– Eu também não sou uma amadora. — e puxou uma pistola Glock 9 mm preta da cintura, grande demais para o seu tamanho, mas ela parecia saber muito bem o que estava fazendo. Daryl pensou que as aulas que dera a ela foram bem-vindas, mas temeu o que viria a seguir.

– Eu sei que vocês vão pegar o navegador no depósito infestado. E eu vou com você.

– Isso está fora de cogitação Judith. Não quero que você se arrisque...

– Você carrega peso demais nas costas, esse é o seu problema. Eu não quero ser mais um deles, você entende? Eles nunca acreditaram em mim, por isso que todos enviados até lá morreram. Conheço um caminho que será bem mais rápido e que tenho certeza que está seguro... o único problema é que se não tiver a gente vai morrer... — e sorriu de maneira infantil e meiga. Era admirável a forma como ela lidava com a morte, como ela conseguia se recuperar tão rapidamente. Uma criança crescida naquele mundo, poderia ser mais forte do que ele foi ou será um dia.

Daryl pareceu pensar por um segundo e quando olhou para ela, viu os olhos de um grande amigo, alguém que era importante demais para que ele dissesse não, um amigo que lhe diria que era hora de seguir em frente. Precisava cumprir mais uma promessa e cuidar de sua família.

– Então me mostre esse tal caminho, e talvez eu te deixe chutar alguns traseiros.

Teriam aproximadamente duas horas para entrar, pegar o equipamento e sair. Os preparativos com o navio estavam quase prontos, as pessoas juntavam tudo o que podiam, tudo o que poderia ser útil nas condições gélidas do Ártico. Daryl esperava que ao menos aquilo funcionasse bem melhor do que a suposta cura, nunca ouvira falar nada a respeito de errantes em locais congelados, na verdade nunca estivera em nenhum então não era uma fonte confiável.

Ele, o homem de cachecol, Judith, a mulher da mesa do café da manhã, que se chamava Anna e um homem chamado Almeida, estavam parados no corredor de acesso que dava ao depósito subterrâneo. A primeira equipe que foi mandada até lá havia encontrado o equipamento em perfeito estado de funcionamento, porém eles nunca conseguiram sair. O local havia sido uma espécie de laboratório de testes militares, assim como toda a baía e o cais, por isso haviam armas e suprimentos espalhados por toda a parte. A última transmissão da equipe que havia pego o transmissor, dizia que estavam no subsolo 2, na ala leste. O que eles já sabiam era que parte do local estava inundada, muitos setores haviam ruído então as chances de pegar um caminho sem saída eram grandes e provavelmente foi esse motivo que matou a primeira equipe. Mas Judith conhecia bem o local devido as suas aventuras de exploração, de acordo com ela, poderiam passar pelos errantes utilizando a tubulação de ar-condicionado, sendo o único real problema, se ela estivesse inundada ou pior, se os errantes tivessem aprendido como usá-la também.

Ultrapassaram a porta lacrada com ferragens e uma grande caixa de metal. Ed prometera estar ali para abri-la novamente quando voltassem. O grupo acendeu as lanternas e seguiu um enorme corredor, manchas de sangue agora enegrecidas se espalhavam por toda a parte, havia um odor apodrecido no ar, uma mistura de mofo com decomposição. Era possível avistar restos de corpos mais adiante, porém nenhum sinal de errantes.

Seguiram por outros dois corredores igualmente vazios e Judith lhes apresentou ao local o qual havia falado, um alçapão desgastado e enferrujado. Abrindo-o, o odor de decomposição foi nauseante, Anna tossiu e quase vomitou, mas Daryl se manteve firme, afinal aquele era o odor do mundo, era o odor da decomposição não só do corpo, mas também de tudo o que conhecera. Desceram por alguns minutos até uma tubulação apertada e estreita, na qual Judith mais uma vez conduziu o grupo. Em suas mãos havia um mapa repleto de anotações aparentemente desconexas, das quais apenas ela mesma conseguiria decifrar. Ali era possível ouvi-los, ora gemendo, ora se arrastando, o som da carne dilacerada ainda parecia fresca, como o som de uma comida com muito molho sendo remexida na panela. O que quer que tenha dado errado na cura, apenas retardou – se é que não havia parado – o processo de decomposição daqueles corpos. O que antes era uma questão de tempo, agora havia se tornado uma incerteza.

Quando já haviam rastejado por mais de 30 minutos dentro das tubulações, Judith fez sinal para que parassem e indicou para baixo com o polegar. Almeida remexeu em sua mochila e pegou um rádio, apertando o botão de ligação. Uma campainha tocou sonoramente abaixo, no local onde provavelmente estaria o corpo do soldado que carregava o transmissor. Daryl se adiantou e retirou a tampa metálica da tubulação, espiando abaixo, não havia nada. Desceu silenciosamente, carregando a besta e foi acompanhado em seguida pelo homem do cachecol, Anna, Almeida e por último Judith. Almeida apertou novamente o botão de ligação e a campainha soou na direção de um escuro corredor ladeado de salas, das quais as paredes eram totalmente de vidro. Algumas das salas estavam tão sujas que era impossível ver o seu interior, em outras, apenas restos de errantes se remexiam como uma poça de retalhos ensanguentados. A campainha tocou novamente e um movimento acompanhado de um grunhido surgiu a direita. O corpo parcialmente devorado de um soldado se remexia convulsivamente encostado a uma parede, os olhos esbranquiçados ainda abriam e fechavam, assim como a boca, parecendo a de um animal agonizando.

O grupo se aproximou de forma cautelosa e o homem de cachecol vermelho, desembainhou uma faca, cravando-a no crânio do soldado revivido, silenciando-o. Anna pegou a mochila de suas costas e conferiu o conteúdo, estava tudo lá. Sorriram. Se tivessem escutado Judith desde o começo, nada daquilo teria acontecido, nenhum daqueles homens precisariam ter morrido daquela forma. Voltaram rapidamente pelo mesmo caminho e um som do qual eles temiam foi ouvido.

Daryl rapidamente se adiantou a frente do grupo, disparando uma flecha certeira na cabeça do errante. O corpo, que era um emaranhado de tecidos e carne podre e escura, caiu feito um saco de batatas. Silêncio. Avançaram cautelosamente quando um ruído seco estremeceu o piso ao redor. Almeida não fora rápido o bastante para se virar e descobrir que um errante havia caído da tubulação aberta no teto. A coisa abocanhou seu rosto com tamanha violência, que um esguicho de sangue irrompeu da carne rasgada e Almeida prontamente disparou a arma na criatura, que se esfacelou com o impacto das balas do rifle de assalto que ele carregava. Os tiros ecoaram mais altos do que o ruído de um alto-falante, anunciando que a refeição estava servida. No instante seguinte, gritos de dezenas de errantes puderam ser ouvidos por todo o local, as tubulações rangeram e o segundo temor de Judith se concretizou. O homem de cachecol atirou na cabeça do moribundo Almeida, que tateava o chão a esmo, tendo perdido parte do rosto. Era hora de seguir o desesperado plano B, onde deveriam seguir até a saída em linha reta, pegando as escadas de acesso que levavam diretamente ao térreo e ao portão de saída. Os errantes surgiam de todos os cantos, Daryl sacou a metralhadora que carregava nas costas e junto com Anna e Judith, abriram caminho à força em meio as hordas de errantes que surgiam. O silencioso homem de cachecol, utilizando sua ambidestria com as pistolas duplas, cuidava da retaguarda do grupo acertando todos os que se aproximavam. Um errante se aproximou de Judith pela direita e Daryl o acertou com o cabo da arma, para em seguida matá-lo enquanto ainda estava caído. De guarda baixa, foi o homem do cachecol que salvou-o, acertando outros dois errantes que corriam em sua direção. Os dois retribuíram o feito com um aceno de cabeça e continuaram a batalha escadas acima. A munição se esgotava a cada passo, as capsulas douradas tilintavam no chão à medida que o sangue dos errantes era usado para tingir as paredes. Seus corpos já estavam tão apodrecidos que os disparos os desmembravam em dezenas de pedaços.

Quando finalmente alcançaram o corredor de saída a munição basicamente já havia acabado, Daryl ainda possuía algumas flechas, Anna e Judith, menos de 10 balas cada, e o homem do cachecol ainda possuía um pente cheio para cada pistola. Travaram a porta pela qual passaram com um pedaço de metal retorcido e avançaram até a porta de saída, que estava aberta, eliminando os últimos errantes que restavam pelo caminho.

Saíram aliviados, cobertos de sangue e sujeira, porém a salvos. Daryl olhou para Judith e sorriu. Ela havia de fato se tornado a pessoa forte e determinada que o pai gostaria que ela tivesse se tornado “Mais forte do que todos nós”. Seus olhos expressaram mais uma vez a felicidade em vê-la e justamente enquanto a olhava, sentiu uma disparo raspar seu pescoço e atingir em cheio Judith.