Memórias de um Andarilho
4 A provação do Herói
Daryl carregava Judith nos braços enquanto tentava procurar abrigo das dezenas de disparos que vinham em sua direção. O homem do cachecol dava cobertura enquanto ajudava Anna a se proteger também. Correram até um contêiner lacrado, onde Ed estava caído, sangrando por um ferimento aparentemente letal na barriga.
– Judith... por favor, Judith... — ele sussurrava em desespero, segurando-a nos braços. O tiro havia acertado abaixo da omoplata, a bala ainda estava alojada e aparentemente o ferimento não era letal. Colocou-a delicadamente no chão e para a sua surpresa, ela ainda o olhava sorrindo, com os olhos marejados.
– Eu sinto muito... por me ferir logo agora... — disse com a voz chorosa – mas você tem que admitir que formamos uma bela equipe.
– Sim, formamos sim. Até mesmo o cara do cachecol. — ele afirmou e o homem do cachecol balançou a cabeça e sorriu pela primeira vez, desde que Daryl o vira – Vou tirar você daqui, não se preocupe...
Anna se abaixou e retirando um pedaço de pano da mochila, fez pressão no ferimento.
– Não acho que seja letal, mas precisamos tirá-la daqui e cuidar disso antes que ela tenha uma hemorragia! Tenho suprimentos no navio.
– Ed o que diabos está havendo? – perguntou finalmente, o homem de cachecol
– Os... carniceiros... nos atacaram. Mas esses são diferentes... são mais espertos.
– Onde estão todos Ed? – perguntou Anna, um desespero crescente em sua voz.
– A maioria... está no navio. Mas não sei quanto tempo poderão aguentar. O navio... vocês precisam soltar... precisa ir... — sua voz parecia sumir a cada instante, e por mais que pressionasse o ferimento na barriga, o sangue jorrava livremente.
Daryl estava preocupado com o estado de Judith, quanto mais tempo perdessem ali, pior ficaria a situação.
– Eu não tenho mais chances... me deixem aqui... cobertura... vão...
Sem nem mesmo pensar duas vezes, Daryl entregou Judith nos braços de Anna e o grupo avançou pela lateral, enquanto disparos riscavam o ar sobre suas cabeças. O homem de cachecol conseguiu acertar o atirador que os mantinha sob sua mira, que caiu de cima do telhado de um dos galpões. O caminho até o navio era tortuoso e as suas costas, ainda podiam ouvir os sons da arma de Ed, até que por fim, ela se calou.
A batalha para proteger a entrada do navio ardia na baía de embarque, onde mais de dez homens estavam envolvidos num tiroteio com os ocupantes e com um bando de errantes, que de alguma forma haviam conseguido encontrar um jeito de entrar. Daryl contou mais de seis corpos pelo caminho, dos quais mais da metade ele fora o responsável pelas mortes. Atravessaram uma passarela à direita do navio, se protegendo atrás de caixas de metal e madeira. Primeiro precisariam soltar o navio dos braços mecânicos que o erguiam sob a água e para isso, teriam que cruzar parte do galpão.
Atacaram sorrateiramente os carniceiros que dominavam parte da área que ligava ao piso superior do galpão, correndo escada acima na direção da sala de controle.
Somente quando já estavam lutando na metade do corredor de acesso, foi que perceberam o fogo que se alastrava pelo local.
Os tanques de combustível estavam em chamas.
Num segundo, tudo ficou claro como a luz do sol e um apito ensurdecedor preencheu os ouvidos de Daryl. Ele não pensou, apenas agiu. Seu instinto de sobrevivência havia sido substituído pelo de proteção quando ele se lançou sobre Judith e Anna.
Escuro.
Qaundo a visão voltou, Judith estava caída próxima ao homem de cachecol, e Anna, que havia machucado uma das pernas estava encostada em uma parede. Daryl se arrastou lentamente até Judith e a puxou para junto de si. Agora o rosto estava coberto de fuligem, ela tossia e era vísivel o corte acima do supercílio direito. Não, ele não podia perdê-la... ele nunca mais perderia ninguém que amava, isso era inaceitável.
– Judith... — ele disse e não sabia se ela ainda podia ouví-lo – Eu sinto muito não ter salvo seu irmão... e por não ter ficado com você e a Carol – e nesse momento as lágrimas começaram a rolar por seu rosto, limpando a pele suja da garota em seus braços. Os momentos em que passaram juntos preencheram cada espaço de sua mente, aquelas lembranças tão importantes, tão preciosas que ele nunca havia esquecido por nenhum momento – Eu não posso deixar você morrer...
– Daryl... — ela disse com a voz fraca, levantando uma das mãos para tocar no rosto dele, enxugando as lágrimas que escorriam pela barba grisalha – Você... nunca esteve sozinho e nunca vai estar. Somos uma família... eu... e você. Vamos sempre ficar juntos... não é mesmo?
Ele forçou um sorriso para ela, mas era visível que algo em sua expressão dizia o contrário. Anna se arrastou para perto dos dois e o homem de cahecol aos poucos recobrava a consciência e fazia o mesmo. As chamas consumiam tudo ao redor, escombros estavam por toda a parte e aos poucos, o local parecia afundar e ceder em seu próprio peso.
– Daryl... você... — Anna começou, mas tapou a boca com as mãos, deixando que as palavras morressem em algum lugar de sua mente.
Era dificl identificar onde exatamente os estilhaços haviam perfurado seu corpo, mas era visível que os maiores ainda estavam alojados na perna esquerda, no lado direito do abdomem e num dos braços. O sangue começava a jorrar do maior, cravado na perna acima do joelho.
– Eu preciso soltar o navio. — ele disse com a voz firme – a explosão deve ter os deixado confusos... eu vou ganhar tempo para que vocês escapem.
– Não vou deixar você aqui! — exclamou o homem de cachecol, se aproximando.
– Elas precisam de você agora. Esse lugar vai ruir a qualquer instante, não teremos tempo de soltar o navio e correr para embarcar.
– Daryl... — Judith sussurrou, com os olhos cheios de lágrimas
– Você não vai conseguir sozinho... — Anne falou, tentando se colocar de pé.
– Eu... nunca estive sozinho. Nunca estarei. — e olhou para Judith, que agora chorava incessantemente, o agarrando com todas as forças que ainda lhe restavam.
– Eu não quero deixar você ir... eu não quero perder você... por favor... por favor...
– Não... você não vai... ainda nos veremos de novo. Eu prometo.
– Por favor Daryl... eu amo você, você... é tudo o que tenho... você é minha única família. Não me deixa, por favor...
– Eu... não vou deixar. — ele disse abraçando-a o mais forte que coseguiu, afastando-se logo em seguida. — Eu sempre amarei você pequena chutadora de traseiros.
O homem de cachecol agarrou a inconsolável Judith nos braços e se voltou para Daryl.
– Assim que chegarmos, eu volto para buscar você, Dixon. Se você já viveu até agora, acho que ainda vai conseguir durar mais um pouco.
– Sim... ficarei esperando... — e estendeu a mão, que foi prontamente apertada pelo homem de cachecol.
Anna lançou um olhar triste a ele e agradeceu, em seguida se virou rapidamente e era visível que ela também chorava.
– Daryl... — Judtih sussurrou o olhando enquanto se afastavam de Daryl e aquela seria a última vez que seus olhares se encontrariam naquele lugar e Daryl lutou para guardar a imagem daquele rosto em suas lembranças, para manter cada detalhe vivo na memória, enquanto ainda houvesse vida naquele corpo castigado pelo tempo.
Dolorosamente pegou a besta no chão e a mochila que sempre carregava. Ainda haviam 10 flechas. Bastariam, sem dúvida alguma.
Qaundo avançou por entre a fumaça, um homem correu em sua direção golpeando-o no ombro. Ele atravessou uma de suas flechas na garganta do carniceiro em seguida carregou-a e disparou em outro que estava ao longe, prestes a atirar.
9
Sentiu o gosto amargo de sangue na boca e as pernas amolecerem, mas ele continuou, lembrando-se da sensação de ter segurado Judith nos braços quando ela ainda era um bebê. Outro homem surgiu atirando, a dor dos ferimentos era tanta, que ele não sabia se algum dos disparos o havia acertado ou não. Uma flecha espiralou no ar, atingindo o homem no olho esquerdo.
8
A visão se apagou por um instante e ele se apoiou na parede, respirou fundo.
– Daryl – ela o chamou novamente – Não desista agora. Você não pode morrer.
– Beth... eu... sinto muito. Sinto tanto sua falta... eu não pude salvar você.
– Você fez o que você pode, o que tinha que ser feito. Nada mais, nada menos. Você precisa ser forte agora.
Atirou novamente, e um errante em chamas foi derrubado, algo que ele com precisão incomparável.
7
A cabine estava próxima. Faltava pouco, muito pouco.
Uma nova explosão nos tanques o lançou no chão. A perna ferida havia parado de responder e uma das flechas se perdera de sua mão.
6
Ele se arrastou pelo chão, puxando a perna machucada. Agora ele quase podia vê-los ali, sorrindo para ele, o incentivando a continuar. Cada pedacinho de lembrança que ele guardara de seus amigos voltava, completando um quebra cabeças que ele próprio havia desconstruído para não mais sofrer coma perda. Mas agora era inevitável, não havia como bloquear aquelas imagens de surgirem. Atirou mais uma vez, matando o último dos carniceiros que o separvam da cabine de controle.
5
Encostou-se no painel de controle com as últimas forças que lhe restavam e por um momento, pensou ter sentido o cheiro doce e agradável de Beth. Olhou pela Janela e viu o homem de cachecol, lutando para impedir que os errantes adentrassem no navio. Estavam a salvo, finalmente. Girou a única trava no painel que dizia “soltar” e em instantes, o navio foi liberado nas aguas frias do oceano. Ele acenou, ou talvez tenha pensado em tê-lo feito. Deixou-se cair pesadamente, o copro começando a reclamar do excesso de esforço.
– Está feito Rick. Nossa pequena chutadora de traseiros está a salva... — e por um momento, seu grande amigo estava ali, sorrindo para ele e confirmando com um aceno de cabeça, por um momento todos estavam e ele percebeu que nunca esteve sozinho. Beth e Carol sorriram para ele e ele retribuiu.
– Ainda não Daryl, ainda não. -disse Carol.
Três errantes se aproximaram correndo em sua direção, ele disparou e aquelas flechas, eram flechas que contavam mais do que corpos derrubados, elas contavam uma história de luta e coragem, de tristeza e saudade, elas contavam sua história e mediam o tempo que ainda lhe restava para vivê-la.
1
Encontrou uma arma no chão, esticou-se para pegá-la e atirou em mais um errante que surgia pela porta da sala de controle. Respirou fundo e fechou os olhos. Beth novamente estava lá, sorrindo para ele.
– Eles precisam de você... levante-se Daryl.
Outro errante havia entrado na sala. Ele abriu os olhos e apertou a arma na mão com o máximo de firmeza que pode.
– Ainda nos veremos de novo Judith...
E disparou.
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