Memórias de Novembro
8 Nova Rotina
Notas iniciais
ROMANCES MENSAIS
LIVRO XI – MEMÓRIAS DE NOVEMBRO
CAPÍTULO VII – NOVA ROTINA
O dia havia se iniciado cedo em nossa nova casa com o choro alto de Liz com fome. As crianças rapidamente se levantaram para se arrumar para a escola. Estavam tão ansiosos pelo primeiro dia de aula, que mesmo avisando que as aulas começariam somente às oito horas da manhã, eles quiseram se arrumar às seis para garantir que não se atrasariam.
Enquanto isso, Steve preparou o café da manhã e o almoço como havia prometido na noite anterior. Era vergonhoso admitir isso, mas ele era uma dona de casa bem melhor do que eu. Jarvis apareceu cedo para levar Steve para a empresa. Enquanto tomava o café da manhã com a gente, ele contou um pouco sobre os colegas de trabalho de Steve e detalhes sobre o projeto que eles estão envolvidos agora, que se trata da casa nova casa do prefeito da cidade. Então seria algo muito mais luxuoso e trabalhoso que qualquer outro projeto que a construtora de Jarvis estava acostumada.
Depois que eles saíram para o trabalho, ainda precisei dar banho em Liz, que acabou se melando toda com o mingau que eu havia preparado para ela. Por ainda estar faltando mais de uma hora para o início das aulas das crianças e as escolas ficavam próximas de nossa casa, passamos a assistir algum desenho animado que havia chamado a atenção de Liz na televisão.
No entanto, nossa atenção é tomada quando a campainha da casa toca. Como Kayla estava com Liz e parecia tão concentrada no desenho que passava quanto seus irmãos, acabo me levantando para atender a porta. Surpreendo-me ao encontrar um adolescente baixo e franzino, olhos e cabelos castanhos. Ele usava roupas largas e apertava as alças da mochila com intensidade, como se estivesse muito nervoso.
— Oi. Bom dia. A senhora deve ser a sra. O’Brien. Eu me chamo Peter Parker. Sou sobrinho da tia May e do tio Jarvis. Eu não sei se eles informaram, mas eu vim acompanhar a Hailey a escola. – Fala Peter em uma velocidade absurda, tropeçando algumas vezes nas palavras. Preciso de alguns segundos para entender tudo o que ele havia dito. Ao notar que eu havia ficado assustada com o seu bombardeio, seu rosto fica extremamente vermelho e ele se encolhe, envergonhado. – Desculpa.
— Olá, Peter. E sim. A tia May e o tio Jarvis me avisaram ontem à noite que você viria. Por que você não entra? A Hailey está assistindo televisão com os irmãos. – Respondo sorrindo e abro mais espaço para que ele entrasse. Ele assente e entra, ainda encabulado com a situação. Rio e o acompanho logo atrás, após fechar a porta. – Hailey, Peter está aqui.
Kayla desvia o olhar da televisão para o tímido garoto ao meu lado. Alex e Liz também o observam com curiosidade, provavelmente tentando quem era aquele garoto.
— Peter? – Ela repete, pensativa. A garota parece se lembrar das palavras de May e arregala os olhos levemente. – Você irá comigo para a escola.
Peter parece deslumbrado com Kayla. Ele a encara encantado e a garota apenas ergue as sobrancelhas como se estivesse analisando o seu mais novo colega de classe. Isso o deixa ainda mais nervoso. Preciso prender o riso por quase ver Steve e eu naquela mesma situação quando nós ainda éramos crianças e ele não sabia conversar com as garotas.
— Sim. Eu vou te acompanhar até a escola. – Peter responde, ainda que a fala de Kayla fosse mais uma afirmação do que uma pergunta. – É um prazer te conhecer, Hailey.
— Eu vou buscar a minha mochila. — Avisa Kayla, levantando-se com Liz em seu colo.
Ela coloca a bebê no tapete felpudo da sala e sobe para o quarto. Enquanto isso, Peter se remexe desconfortável sobre o olhar curioso de Alex. Eu quase conseguia ver a mente de meu novo filho trabalhando em algo que com certeza poderia desconsertar ainda mais Peter. Por isso, permaneço em silêncio, ansiando para saber o que se passava em sua cabeça.
— Você é o namorado da Hailey? – Pergunta Alex e Peter acaba engasgando com a pergunta repentina.
— Eu? Não! – Exclama Peter, desesperado. Ao ver que sua reação havia sido exagerada, ele se retrai ainda mais e encara os próprios pés, extremamente vermelho. — Não. Nós... não somos namorados.
— E por que você vai com a Hailey para a escola? – Questiona o garoto mais uma vez, cruzando os braços. Liz observa o irmão e balbucia algumas coisas desconexas como se também quisesse respostas. Acabo deixando escapar uma risada anasalada.
— Porque eu não sei onde fica a escola. Deixa de ser enxerido, Tommy. – Resmunga Kayla, descendo as escadas com a mochila nas costas. Ela deixa um peteleco na testa do irmão, que resmunga irritado, e pega Liz no colo. – Eu volto mais tarde. Fique quietinha. Eu amo você. — Kayla deixa um beijo estralado na bochecha de Liz, que gargalha animada. A adolescente me entrega a irmã e se vira para Alex, ficando na altura dele. – E você se comporte na escola. Seja educado, preste atenção na aula e faça tudo o que a professora disser. Amo você.
— Amo você. – Responde Alex, abraçando a irmã. Sorrio e balanço Liz, que chamava pela irmã. Peter encara Kayla com curiosidade e parecia surpreso pela demonstração de afeto dela com os mais novos.
— Vamos? – Questiona Kayla, virando-se para Peter. Ele assente e volta a ajeitar as alças de sua mochila nas costas. A garota se aproxima de mim e me dá um pequeno sorriso. – Eu já estou indo.
— Você pegou o seu lanche? – Pergunto e ela nega, surpresa. – Está em cima da mesa. Eu preparei um sanduíche de manteiga de amendoim, suco de laranja e coloquei uma banana.
— Obrigada. – Ela agradece, indo para a cozinha. Kayla não demora a aparecer com o saco de papel pardo com o nome dela. Parecia feliz por ter um lanche para levar à escola. Seus olhos brilham com intensidade ao me encarar novamente. – Agora sim eu estou indo.
— Tchau, querida. Tenha um excelente primeiro dia de aula. Quero saber de tudo quando você voltar. – Digo e, para a surpresa dela, a puxo para deixar um beijo em sua testa e abraçar de maneira desengonçada, já que estava com Liz em meus braços. – Vá com cuidado e preste atenção nas aulas. Qualquer dificuldade que tiver, não hesite em falar com Peter.
— Está bem. – Concorda, dando um bonito sorriso. Ela acaricia o cabelo de Liz pela última vez antes de ir embora com Peter. Ando até a porta para vê-la partir ao lado do garoto.
Observo-a ir para a escola, sentindo uma espécie de orgulho em meu peito por ver o quão feliz ela estava por estar indo para a escola pela primeira vez na vida. Eu realmente esperava que ela se saísse bem com esse novo ambiente que pode ser bastante assustador para uma adolescente. Ainda mais por estar entrando no final do último semestre do ano, quando todos já possuem seus grupos de amigos e trabalho.
Não demoro muito tempo observando a garota e logo me apresso para levar Alex para a escola. O caminho inteiro a escola foi ao som de músicas infantis e conversas animadas de Alex, que parecia cada vez mais ansioso para saber como seria ir à escola pela primeira vez. Até mesmo Liz parecia contagiada com a empolgação do irmão.
Assim que chegamos a Sunshine Elementary School, faço questão de levar Alex até sua sala e conhecer a professora e as monitoras para explicar sobre as possíveis dificuldades do garoto na aprendizagem. Inventei algumas desculpas sobre ter tido problemas na escola anterior que o fizeram se atrasar. Felizmente, todas parecem bastante compreensivas e prometeram ficar de olho e dar uma atenção a ele nesses primeiros dias de aula dele.
Eu ainda estava apreensiva que ele acabasse falando mais do que deveria e acabasse estragando o nosso disfarce, mas decido que tudo o que eu podia fazer era confiar no garoto. Assim, sigo para casa, determinada a estudar um pouco mais sobre culinária e aprender a fazer pelo menos um café da manhã comestível para minha família. O que provavelmente será a minha nova rotina de agora em diante.
[...]
Eu dormia tranquilamente quando ouço o choro fraco de Liz no quarto ao lado. Suspiro e me levanto, vendo Steve dormir profundamente, roncando cansado. O dia havia sido puxado para ele. Logo no primeiro dia de trabalho, ele foi obrigado a carregar vários sacos de cimento. Assim que chegou em casa, ele apenas tomou um banho, comeu e desmaiou.
Sorrio ao imaginar como deve ter sido difícil para ele. No entanto, não permaneço muito tempo assim. O choro de Liz passa a ficar mais alto e eu não queria acordar a casa. Kayla e Alex também chegaram bastante cansados da escola e ainda precisaram fazer inúmeros deveres de casa para compensar seu atraso na matéria.
— O que foi, meu amor? – Pergunto, ligando a luz do quarto de Liz. Sorrio ao ver a garotinha de pé, apoiada na cabeceira do berço. Ela chora ainda mais manhosa, erguendo os braços para que eu a pegasse. – Minha menininha está com fome, é?
Ela resmunga e se aconchega em meu colo, com a cabeça apoiada em meu ombro. Deixo um beijo em sua testa e sigo para a cozinha da casa para esquentar a mamadeira que eu já havia deixado preparada. Na noite anterior, ela também havia acordado uma vez para mamar e eu imaginei que não seria diferente hoje.
Encaro o relógio da cozinha e vejo que era um pouco mais das três horas da manhã. A casa estava em completo silêncio e eu sentia o sono pesar as minhas pálpebras. Liz mordia os próprios dedos, resmungando algumas vezes, ainda com a cabeça encaixada na curvatura de meu pescoço. Felizmente, não demora muito para que a mamadeira ficasse quente.
Volto a subir para o quarto de Liz e me sento na confortável poltrona do cômodo, acomodando-me para dar a mamadeira a ela. Confiro a temperatura e quando tenho certeza de que ela não vai queimar a boca, deito-a em meu colo e a alimento, murmurando a música de ninar que minha avó sempre cantava para mim quando criança.
Liz me observa com atenção e apertava a mamadeira, tomando o leite sem parar em momento algum. Ela estava realmente com fome. Do meio para o final, ela começa a fechar os olhos e não demora muito a pegar no sono. Sigo velando seu sono por mais algum tempo, apreciando aquele momento com a adorável bebê, antes de colocá-la de volta no berço. Estava cedo ainda e eu queria aproveitar o restante do tempo que eu tinha para dormir, antes de ter que lidar com a agitada rotina matinal.
Saio do quarto de Liz e decido conferir como estava Alex e Kayla. A noite estava fria e eu tinha quase certeza de que o garoto estaria descoberto, assim como na noite anterior. Sigo para o quarto de Alex primeiro e como eu imaginava, ele já havia chutado as cobertas para longe e dormia encolhido. Cubro-o novamente e deixo um beijo em sua testa. Sorrio ao ouvir comemorar alguma jogada de baseball que ele realizou em seu sonho. Ele realmente é apaixonado pelo esporte.
Assim que fecho a porta do quarto de Alex e me encaminho para o de Kayla, noto que havia algo de errado. Ao abrir a porta do quarto da garota, posso ver que ela estava tendo um terrível pesadelo. Ela chorava e se remexia assustada, implorando para que alguém parasse de fazer alguma coisa. Aproximo-me de Kayla, sem saber o que eu deveria fazer, e me sento ao seu lado na cama.
— Não! Joe, por favor! Não vai! Não! Não! – O grito prolongado de Kayla veio acompanhado de um levantamento súbito da garota. Ela tremia com intensidade e chorava compulsivamente.
— Ei, calma! Está tudo bem. Passou. Passou. Foi apenas um pesadelo. Está tudo bem. Você está bem e segura. – Garanto, abraçando a garota para tentar acalmá-la. Acaricio seus cabelos e percebo que ela suava em demasia. Continuo a chiar e acariciar sua cabeça abraçada a ela até que ela consegue controlar o choro e para de tremer. – Ei. Você está melhor?
— Sim. – Sussurra com a voz baixa e rouca. Abraço-a com mais força e ela aperta meus braços, como se quisesse ter a certeza de que eu era real, no entanto, não demora muito para que Kayla me soltasse. – Eu já estou bem. Obrigada.
— Você não me parece bem. – Respondo, afastando-me para encarar o rosto pálido de Kayla. Limpo as lágrimas que manchavam seu rosto e a vejo desviar o olhar. – Quer me contar o que foi que você sonhou?
— Eu... – Ela suspira e finalmente permite que eu veja seus bonitos olhos, que naquele momento estavam bastante vermelhos. Dou um fraco sorrio e balanço a cabeça, incentivando-a a continuar. – Eu sonhei com a morte do Joe, assim como sonho todas as vezes que tento dormir desde que ele se sacrificou para salvar a mim e aos meus irmãos.
— Então é por isso que você está sempre evitando dormir. – Comento e ela assente com um semblante desolado. Suspiro e a puxo para um novo abraço. – Eu sinto muito, querida. De verdade, eu sinto muito que esteja revivendo essa cena terrível todas as vezes que tenta dormir.
— Obrigada. – Ela sussurra, correspondendo ao abraço com intensidade. Deixo um beijo em sua testa e a acaricio seus bonitos cabelos. Ouço-a soluçar e não demoro a sentir as lágrimas molharem meus ombros. – A culpa foi minha. É por minha causa que ele está morto. Se eu...
— Você está enganada. Nada disso é culpa sua. A culpa dessa situação é do líder da HYDRA, que o matou e ainda colocou um assassino a sua procura. Eles são os errados, não você. – Afirmo, empurrando Kayla o bastante para encarar seus olhos e mostrar que eu estava dizendo a verdade. – Você não tem culpa alguma do que aconteceu.
— Não. É minha sim. Ele disse que não deveríamos sair à noite não importava o que acontecesse, mas eu fui teimosa e saí. E... – Ela soluça, enquanto seu choro se torna ainda mais doloroso. – Eu disse coisas horríveis a ele no mesmo dia. Eu... eu nem mesmo pude... pude me desculpar. E agora, por minha culpa, ele está morte. Joe estava certo. Eu realmente me tornei a causa de sua morte.
A dor presente em sua voz e no choro partem meu coração. Kayla é só uma menina de quinze anos que estava no lugar errado na hora errada. Ela não deveria estar se culpando pela morte de uma pessoa. O que eu deveria dizer para tirar essa aflição que machucava seu delicado e amoroso coração? O que as mães geralmente fazem em situação como essa?
— Kayla, eu tenho certeza de que onde quer que Joe esteja, ele jamais pensaria que a culpa da morte dele é sua culpa. Você não poderia fazer nada além de correr para longe com os seus irmãos. Era a sua única chance de salvá-los de um dos homens mais perigosos do mundo. – Acaricio o rosto de Kayla e ela soluça, negando. – Confie em mim. Eu tenho certeza de que ele sabe que você não teve culpa e de que sente a falta dele. Como um bom amigo que ele deveria ser...
— Ele era o meu pai. – Revela Kayla, surpreendendo-me. Não que eu não esperava por essa resposta. Pela forma como ele falava dele, deu para imaginar que ele tinha algum grau de parentesco com Kayla. No entanto, o que realmente me pegou de surpresa foi o fato dela ter revelado isso tão rapidamente. – Ele morreu antes que eu tivesse a chance de dizer que o perdoava pelo que fez.
— O que ele fez? – Pergunto, preocupada. – Ele fez alguma coisa com você, Kayla? Ele por acaso tocou ou...?
— Não! Foi por causa dele que nós fomos morar na rua. – Conta a garota, limpando o rosto. – Ele era viciado em jogos e perdeu nossa casa, carro e tudo o que tínhamos em suas apostas. Não demorou muito para que ele passasse a usar drogas e a beber em excesso. Minha mãe nos deixou para trás e nós passamos a morar na rua quando eu tinha apenas um ano. Por estar viciado nas drogas, ele vivia se envolvendo em brigas e roubos. Esquecia completamente da minha existência e por causa disso, não foram poucas as vezes em que fui atropelada ou acabei me machucando. Ele não cuidava de mim e se não fosse pelos outros moradores de rua, eu morreria antes mesmo de completar meus cinco anos.
— Eu sinto muito, Kayla. Eu... por Deus! – Suspiro, imaginando o quanto esse homem havia sido irresponsável. – Agora entendo o motivo de você nunca o chamar de pai.
— Ele me ensinou a roubar e a conseguir alimentos para nós. Era a nossa única forma de sobrevivência. Na mesma época, a mãe de Alex teve ele na rua e ela acabou falecendo no parto. Como não sabíamos quem era o pai, acabei o adotando como um irmão. Felizmente, em meu último atropelamento, onde eu quase morri, ele percebeu que precisava mudar e acabou abandonando as drogas. Aos poucos, ele passou a cuidar de nós. – Kayla encara a janela do quarto e suspira, apertando o colar que ela ganhou de Hillary que estava em seu pescoço. – Mas isso só durou até o mês passado, quando ele voltou a beber e a se drogar. Por causa disso, passamos a brigar com frequência ainda maior. Eu...
O choro de Kayla se acentua ainda mais juntos aos soluços de sofrimento ao se lembrar dos últimos dias com o pai. Eu a abraço apertado, permitindo que ela colocasse para fora toda a dor que sentia. Não havia nada que eu pudesse dizer para diminuir a dor da perda.
Eu sabia disso, porque passei o mesmo com Steve quando seus pais morreram. Sarah e Joseph Rogers eram como os pais presentes que eu nunca tive. Suas mortes precoces me fizeram perder o chão. Mesmo hoje, depois de mais de vinte anos desde que eles partiram, eu ainda me sinto muito ligada ao casal e sentia pela perda.
E assim, em meio ao choro e a abraços apertados, termino meu restante de noite consolando Kayla, questionando se algum dia ela será capaz de abandonar essa culpa sem sentido pela morte do pai que carrega dentro de seu frágil e amoroso coração.
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