Memórias De Uma Alma Condenada

5 Contos da Vila da lua parte 5


As pessoas passam por toda a vida se questionando a respeito de para onde vão após a morte. Nada que se passa em vida carnal nos prepara para o inevitável fim da vida, muitas vezes a morte é a melhor professora para os erros cometidos. O que fica é a dúvida, o que vai é um profundo mistério, e é possível que jamais saibamos da razão do inevitável.

Rose Bloodcotton morreu, já sabia desse fato, ainda assim sua alma ficou presa e condenada a vagar entre os vivos. O motivo disso?, ela não sabia e talvez nunca descobrisse sendo forçada a assombrar eternamente as terras onde vivera. Foi difícil acostumar-se com sua nova ''vida'', ninguém a via ou ouvia, a única coisa que os vivos podiam sentir era o frio diante de sua presença. Os animais da mansão ficavam agitados e fugiam com sua proximidade, os cavalos ficavam possuídos por algo indescritível diante da morta. Rose nunca gostou de cavalgar, a mãe forçara sempre que podia, Amy era perfeita aos olhos da mãe em todas as atividades proporcionadas. Rose nunca se importou, mas a irmã sempre gostava de impor superioridade e intimidação em tudo que fazia, não tinha boas lembranças de Amy.

Ruby Bloodcotton era uma mulher consideravelmente ocupada e parecia mal se importar com suas filhas, Rose recebeu uma devida atenção após o óbito. Apesar de tudo ao seu redor estar passando tão rápido, não sabia como tinha partido, a única coisa que sabia era que Amy havia sido mandada a um sanatório na ilha dos lobos, provavelmente havia enlouquecido. Ouvia sempre a mãe impaciente e nervosa ao telefone conversando á respeito da sanidade de Amy, que mudara drasticamente após sua morte. Era provável que Amy tivesse presenciado a morte da irmã, devido ao trauma perdeu suas memórias recentes. Aos olhos de Rose a irmã nunca fora normal, era fria demais, egocêntrica e em alguns momentos parecia sentir prazer ao sofrimento alheio.

A noite veio rapidamente, o clima tenebroso estava perfeito para lamentar sobre suas condições como alma condenada, no entanto Rose resolveu caminhar além do que jamais a tivera sido permitido durante a vida. Passou pelos estábulos e ouviu os cavalos se contorcerem de raiva, olhou para os campos de algodão antigos e lendários de sua família. Amy teria herdado todos eles junto com a mansão, o pai partiu deixando apenas duas herdeiras, os bens e suas lembranças. A irmã era a mais velha, portanto seria a única herdeira, se Rose se casa-se com algum outro nobre da vila viveria bem; caso contrário, seria mandada a um convento.

Desceu a estrada que terminava na vila, a vista era impressionante. Era possível ver a praça, as casas, o porto e o grande mar que cercava tudo a sua volta. Sentiu-se atraída pela imensidão azul escura, tinha que chegar ao porto para aproximar-se do mar. A medida que vinha descendo as colinas do algodão, as moradias da vila iam empobrecendo e perdendo o silêncio sepulcral. Os casebres finais eram cortiços fétidos e pobres onde era possível contar dezenas de famílias, alvos da precariedade e injustiças na vila.

Tavernas e prostíbulos silenciosos e igrejas vazias, a calmaria chegava a ser insuportável, o porto era grande e possuía um extenso cais que cortava o começo do mar escuro. Rose seguiu pelo cais, barcos ancorados e amarrados se encontravam aos montes, desde navios até pequenos veleiros. O fim do barranco tinha chegado, Rose estava hipnotizada com a beleza infinita e profunda atribuída ao mar, parecia esconder segredos e aventuras por suas águas. A garota equilibrou-se na ponta dos pés e imaginou como seria viajar mundo afora, desbravar águas desconhecidas e nunca mais voltar a sua vida sem graça e peculiar; se ao menos estivesse viva, fugiria.

-Vai acabar se afogando desse jeito!- Um garoto farrapento, com cabelos bagunçados e olhos profundos puxou Rose rapidamente antes que ela se jogasse ao fundo de seus sonhos utópicos.

O que aconteceu não possuiu uma explicação lógica para a garota morta, porém coisas devem ser lembradas: vivos não podem ver ou ouvir os mortos, qualquer coisa a mais do que isso só tinha uma explicação para Rose- o garoto devia estar morto como ela.

-Como é possível?.... você está morto?-Rose levantou-se rapidamente, o garoto a encarou com olhos sarcásticos.

-Pareço morto para você?-Teria respondido positivamente, mas caso ele estivesse vivo, era sua única esperança de manifestar-se no mundo dos que ainda vivem.-Você definitivamente não é daqui, o que uma garota como você faz no porto tão tarde?

-Eu moro nas colinas do algodão, queria ver o mar... acho que acabei me empolgando um pouco.-Tinha se esquecido de como era conversar com alguém, morto ou vivo o garoto havia trazido uma passageira alegria a pequena Bloodcotton. O garoto subiu a bordo de um pequeno veleiro de pesca que estava amarrado ao cais, parecia estar com pressa.

-Santo bacalhau!, está congelando aqui...-Assim se foram as dúvidas de Rose à respeito do jovem barqueiro, os mortos não sentem frio ou calor. Não sabia como, mas o garoto podia vê-la, certamente ele seria o meio para encontrar respostas de seu falecimento.-Não devia ir para sua casa?, ou de onde quer que seja o lugar que você veio.

-Eu não sinto o frio, não sinto nada.-O pequeno barqueiro riu e ofereceu a mão para a garota morta.

-Já que é assim... aceita me acompanhar em minha pescaria noturna, costumo ficar bem solitário quando vou pescar essas horas.-Rose nunca tinha saído de casa, ido a vila, conversado com um estranho e muito menos entrado em um barco para pescar, ainda assim aceitou. O fato de seu interesse pelo garoto era a sua companhia, Rose sempre foi tímida e fechada, mas a solidão pós-óbito a deixou com uma nostalgia de diálogos diretos com a sociedade.

-Quer minha companhia?- Rose sorriu, nunca tinha sido solicitada esse tipo de coisa, todos a evitavam pelo fato de seu gênero sólido e imutável a qualquer emoção. Quando o pai veio a falecer Rose chorou até não haver mais lágrimas, seus olhos secaram e sua vida acabara diante da cova do patriarca. A garota fora muito ligada ao pai, conversavam sobre tudo, um entendia o outro. Desde o dia do sepultamento nas criptas dos Bloodcotton, ela pareceu perder um pedaço de si, estava desmoronando aos poucos e sendo corroída pela saudade.

-Acho que não tenho muita opção, você é a unica pessoa que vem no porto essas horas.-O garoto desamarrou o veleiro.-Dizem que maus presságios se apegam aos que vem incomodar as serias de noite...então, você vem?

-Sereias?... Achei que fossem um mito.-Rose subiu à bordo do pequeno veleiro, o garoto soltou a vela maior e seguiram para o mar.

-os homens da vila são cegos por lendas e mentiras.-O vento parecia forte, à julgar pela vela, em pouco tempo não era mais possível ver o porto, apenas as luzes das casas que ficavam acesas.-São um bando de idiotas!.

Rose já tinha lido histórias à respeito desses híbridos enigmáticos. Sereias são metade mulher metade peixe, que aparecem constantemente em histórias infantis como bons personagens. A garota não levava histórias infantis à sério, era madura para isso apesar dos 9 anos, mas sempre gostava de ouvir as histórias contadas por Amy. A irmã contou-lhe uma vez sobre sereias, o que foi distante das expectativas da inocente Rose, típico de todas as histórias contadas por Amy, sempre eram sádicas e málignas de modo que eram proferidas para amedrontar Rose. Sereias eram híbridas com uma cauda de peixe, totalmente nuas na parte humana, que era proposital para atrair homens cegos de desejos ao mais profundo das fossas abissais. Seres extremamente bipolares, podiam ser belas e monstruosas, doces e sádicas, o bem e o mal. Amy costumava chamá-las de paradoxos incompreendidos, eram carnívoras e famosas por atrair homens para seus banquetes sádicos em cavernas submersas.

-Você pesca todas as noites?- o garoto escondeu o rosto olhando para o mar, parecia triste com algo. Se todos os homens que frequentavam o porto não vinham durante horas noturnas, Rose queria saber o que levava um mero garoto à contradizer os chamados ''homens tolos'' da vila.

-Todas as noites desde que....meu irmão se foi.-o pescador abaixou a vela e o pequeno veleiro de pesca parou flutuando na calmaria do mar, o barulho das águas era calmante e podia levar ao delírio de mentes fracas.-Jon me ensinou tudo que sei, algum dia terei um grande navio e descobrirei águas jamais vistas...esse era o maior sonho dele.

-Ele morreu?- Rose sentiu um peso ao perguntar, mas tais assuntos devem tornar-se comuns para que nos tornemos cada vez mais fortes.

-Não!... meu pai diz que sim, embora o corpo nunca tenha sido encontrado, eu comecei vir durante a noite para pescar com ele.-Rose estava um tanto confusa se Jon teria morrido ou não, quando pessoas são dadas como mortas não é possível saber, embora não visse motivo para alguém se esconder da própria família e isolar-se de tudo que conhece.-Ele não aparece por aqui faz um bom tempo... achei que você fosse ele, quando a vi de longe.

A pescaria parecia decorrer conforme o normal, peixes médios e pequenos saltavam no compartimento onde eram jogados. O garoto era ágil e parecia nunca deixar escapar nenhum dos peixes, Rose tinha sentado ao seu lado para averiguar mais de perto a pesca noturna. A penumbra da noite parecia cegar os dois, o reflexo da lua era a única fonte luminosa. O pescador levantou-se rapidamente eufórico e puxando a linha da vara de pesca com força.

-Acho que esse é dos grandes!-quando a linha chegou ao fim, ele ainda continuou puxando, o pequeno veleiro começou a mover-se lentamente e foi adquirindo força.-Meu Deus!...vou comer peixe a semana toda!

-Solte isso, você vai acabar nos afundando!-Então Rose lembrou que já tinha morrido e não tinha mais nada para se temer, mas não podia arriscar perder a única pessoa que podia de algum modo reconhecer sua presença. Rose correu e agarrou o garoto, fazendo os dois caírem, a vara de pesca foi levada junto com o ''misterioso'' peixe que sumiu.

-Eu te dei algum motivo para me fazer perder o maior peixe da minha vida!?-o garoto parecia furioso, bufava enquanto guardava a vela e pegava um remo, aparentemente queria voltar ao porto, já que os ventos não se mostravam nada favoráveis. No momento que ele iria começar a remar, algo bateu no casco do veleiro e subiu a superfície, era a vara de pesca, ou o que restou dela. Estava mordida e em pedaços, pareciam mordidas de um animal grotesco e faminto.

-Acho que um ''obrigado'' seria bom depois de ter salvo sua vida.

-Desde quando se importa comigo?, eu nem te conheço, não tinha esse direito....seja lá qual for o seu nome!-Percebeu que não tinha se apresentado ou sequer sabia o nome do garoto, eram perfeitos estranhos um para o outro.

-Quem me levaria até o porto?, preciso de você para isso...eu sou Rose.-Preferiu omitir seu sobrenome por um tempo, pelo menos até confiar um pouco no garoto, não queria assustá-lo já que seu nome era muito conhecido e provavelmente ele devia saber de sua morte horrenda. Notícias ruins se espalham rapidamente, ainda mais se envolvem os grandes aristocratas da Vila da lua.

-Sou Arthur, desculpe gritar com você...eu realmente poderia ter morrido agora.-ele começou a remar, em poucos minutos chegaram no cais, onde Arthur amarrou seu veleiro e carregou um cesto cheio de peixes para o fora.-Não posso deixar meu pai agora, ele é minha única família...não sei se você entende.

Rose desceu do veleiro e parou no cais, o sol estava quase nascendo de um lado do céu, formando nuvens azuis púrpuras. Se deu conta de que tinha passado sua noite fora de casa, tinha que voltar para ver sua mãe, era uma pena que isso nunca mais seria recíproco.

-Tenho que ir Arthur, minha mãe vai me matar se souber que saí de noite.-a frase foi dita com uma certa ironia por parte da morta.-Foi bom conversar com alguém...estava bem solitária esses últimos dias.

-Quando se sentir só, pode vir ao porto à noite...seremos dois.- Os dois riram, Rose foi embora e obviamente que chegou em casa com mais perguntas do que tinha saído.

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Notas finais
Comentem se curtirem :)